Na hora da virada
Colofon
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 9 partes.
Que merda é essa?
Mas a letra? É a letra que me incomoda.
— “Meu trabuco é coisa de maluco e quem se mete leva o que merece” — eu murmuro, e não consigo acreditar que estou dizendo isso. — “No gueto me chamam de TPM, eu faço as garotas... sangrarem?”
Isso só pode ser piada.
— Foda, né? — diz Supreme.
Porra nenhuma. Por algum motivo, penso nas crianças em Maple Grove. Quando elas repetiram “Na hora da virada” pra mim, tive uma sensação estranha. Eu sabia o que quis dizer com a música, mas não sei se elas sabiam.
A ideia daquelas crianças de 6 anos repetindo que faço as garotas sangrarem... me deixa embrulhada.
— Não posso cantar isso.
Supreme dá outra risada sem graça, o que gera mais risadas.
— Já falei, James, a baixinha tem uma boca danada — diz ele.
— Ah, você me conhece, adoro essa porra de negrinha abusada — diz James.
Que porra é essa? A palavra abusada sempre me irritou por algum motivo, assim como articulada . “Negrinha abusada” é dez vezes pior.
— O que foi que você...
— Pessoal, nos deem uns minutos — diz Supreme.
Ele me segura pelo ombro e me leva até o corredor. Mas, assim que saímos, eu me solto dele.
— Olha, você pode dizer o que quiser — eu digo para ele diretamente. — Mas não vou cantar um rap que não escrevi e pode ter certeza de que não vou cantar um rap sobre uma coisa que não é a minha cara. Eu já fiz gente pensar que sou rata de gueto e marginal. Essa música não vai ajudar!
Lentamente, Supreme tira os óculos e, não posso mentir, não sei o que esperar. Eu nunca o vi sem eles. Sempre me perguntei se ele tinha alguma cicatriz ou se tinha perdido um olho. Mas são olhos castanhos fundos que me olham. Sem cicatrizes, sem nenhuma deformidade. Apenas olhos castanhos.
— Eu não mandei você me acompanhar? — rosna ele.
Dou um passo para trás.
— Mas...
Ele avança.
— Você está tentando estragar essa porra antes da gente conseguir?
Posso ter dado um passo para trás, mas não vou recuar.
— Posso escrever uma música. Não preciso que Dee escreva coisas pra mim. Hype já me fez de idiota ao dizer que eu tinha um ghostwriter. Não posso acabar tendo realmente um. É ridículo.
Supreme aperta os punhos nas laterais do corpo.
— Garotinha — ele fala devagar, como se para ter certeza de que estou ouvindo —, você está no mundo da música agora. A palavra-chave aqui é mundo . É onde se faz dinheiro. Aquele homem lá dentro — ele aponta para a porta do estúdio — tem mais dinheiro à disposição do que é capaz de usar. Estamos muito perto de levar todo o dinheiro possível desse cara. Você só tem que fazer essa música.
Eu o escuto e quase entendo, mas balanço a cabeça.
— Aquela música não tem a minha cara. Não é legal.
Ele bate com as costas de uma das mãos na palma da outra.
— Estar sem grana também não é! Ter que ir pegar comida de caridade! O quê? Está com medo de não parecer “real” cantando aquela merda? Posso arrumar uns capangas pra você, garotinha. Posso fazer essa merda parecer bem real. Fiz isso para o seu pai.
— O quê?
— Law não era de gangue quando o conheci — diz Supreme. — Mal tinha saído do coral da igreja. Tinha um monte de empregos ruins pra sustentar sua mãe e seu irmão. Fui eu que falei que ele tinha que começar a fazer rap sobre as ruas. Fui eu que falei que ele tinha que andar com os GDs pra parecer autêntico. Mas ele levou essa merda a sério.
Ele segura minhas bochechas com as mãos.
— Mas você, você pode ser mais inteligente. Só precisa se lembrar de interpretar o papel, não se transformar na personagem. Nós podemos fazer tudo que Law e eu não tivemos a chance de fazer.
Vovô chama os olhos de janelas da alma e de repente entendo isso. Agora que Supreme está sem óculos, consigo ver o que sou para ele: uma repetição do meu pai.
Eu me afasto dele.
— Estou tentando ajudar, Li’l Law — alega ele. — Sou seu Moisés, te levando para a terra prometida! Deixa seus malditos sentimentos pra trás e vamos pegar esse dinheiro.
Vamos. Nós. Sou eu que vou entrar no estúdio. Sou eu que as pessoas vão ver e sobre quem as pessoas vão falar. Não ele.
Mas o sigo de volta até o estúdio como a idiota desesperada que sou.
O cara da mesa de som toca a batida e Dee-Nice passa a música comigo, para eu acertar no fluxo. James assiste e escuta com ansiedade do sofá, cutucando Supreme em alguns versos que recito.
Entro na cabine de gravação e coloco os fones de ouvido.
Todo mundo me olha do outro lado do vidro. Há empolgação nos olhos das pessoas. Supreme está com um sorriso ávido. Estão prontos para eu cantar.
Tenho um vislumbre do meu reflexo no vidro.
Quando eu tinha uns 8 anos, vovó e vovô me levaram com Trey ao zoológico. Teve uma família que acabou indo junto com a gente. As duas crianças tentavam forçar os animais a fazer o que elas queriam. Diziam para fazerem sons ou chegarem perto do vidro, tudo na esperança de conseguir umas gargalhadas. Os animais não obedeciam, é claro, mas me lembro de me sentir muito mal por eles. Devia ser horrível ter gente olhando e pedindo que você as divertisse como elas querem.
De repente, estou exposta, e tem uma sala cheia de pessoas esperando que eu as entretenha. Tenho que dizer o que elas querem que eu diga. Ser o que elas querem que eu seja.
A pior parte é que eu faço exatamente isso.
TRINTA E UM
— Está tudo bem, Bookie?
Afasto o olhar da janela e encaro a minha mãe.
— Por que a pergunta?
É terça-feira e ela acabou de me pegar depois da aula preparatória para o ACT para irmos ver tia Pooh.
— Porque é a terceira vez que pergunto se está tudo bem, mas essa foi a primeira vez que você ouviu. Está tão calada.
— Ah. Desculpa.
— Não precisa pedir desculpas. Está pensando em alguma coisa?
Em mais coisas do que eu gostaria. Gravei aquela música para Supreme e o resto do pessoal. Todos adoraram. Eu odiei. Mas James não “comprou” a ideia completamente. Disse que queria me ver cantar em público e avaliar a reação das pessoas.
Eu sou mesmo só um entretenimento para eles.
Mas Supreme adora. Disse que vai organizar tudo, para eu poder lançar a música em uma apresentação ao vivo no Ringue. Ele está marcando para a próxima quinta. James alega que, se eu arrasar lá, já vou praticamente ganhar um grande contrato.
Mas não parece que vai ser meu. Não comigo dizendo a letra de outra pessoa e me encaixando na imagem de outra pessoa só para conseguir isso.
Não sei como contar para Jay. Pode ter dois resultados: ou ela vai ficar furiosa de eu ter escondido tudo dela ou vai estar pronta para enfrentar Supreme. Claro que, como ainda sou menor, não posso assinar nada sem a permissão dela. Mas me meti nisso e tenho que descobrir como resolver.
Eu me empertigo um pouco.
— Não é nada. Só coisas da escola.
— Bom, seja o que for, você pode me contar. Você sabe que estou sempre do seu lado.
— Eu sei — digo. — Eu também estou do seu.
Nós paramos no estacionamento de um prédio alto de tijolos que parece estar ali desde antes dos meus avós nascerem. Pareceria um prédio normal, para falar a verdade, mas tem uma cerca de arame farpado atrás.
Deixamos os celulares, relógios e tudo mais que possa ativar o detector de metais no carro. Jay só leva as chaves e a identidade. Essa é a rotina que sempre seguimos quando visitamos a tia Pooh na cadeia. Ajuda a conseguirmos vê-la mais rápido.
Tem um cara sentado no meio-fio perto da entrada. Está com a cabeça entre os joelhos, o que torna difícil ver seu rosto. Mas o cabelo dele é metade trançado e metade black power. Se eu não soubesse...
— Scrap? — eu digo.
Ele olha para cima. É Scrap mesmo.
— Garoto. — Jay estica os braços. Scrap entra no meio deles. — Achei que tinham pegado você também.
— Não. Eu não estava lá quando aconteceu. Mas todo mundo...
Está preso. Dizem que a maior parte dos Garden Disciples de Maple Grove foi presa.
Jay coloca as mãos no rosto dele como se fosse um garotinho. Acho que, quando você conhece uma pessoa a vida toda, ainda dá para vê-la assim. Pooh e Scrap brincavam juntos quando ainda estavam nas fraldas.
— Bom, estou feliz por você estar bem. Você veio ver a P, né?
— É. Ela me pediu pra vir quando vocês viessem. Espero que não tenha problema
— Claro que não tem. Você é da família. — Jay segura a mão dele. — Vem.
Scrap a segue para dentro. Tem alguma coisa errada nele. Não consigo identificar. Ele não anda, marcha. O maxilar treme, o rosto está tenso. É como se Scrap fosse uma bolha: um movimento errado e ele pode estourar.
Tem uma decoração rosa e vermelha e uma faixa de dia dos namorados na recepção, mas, para quem está indo visitar alguém na prisão, é difícil comemorar um dia especial.
Curtis me deu um buquê de barras de chocolate na escola hoje. Tenho que admitir, deixou meu dia um pouco melhor. O garoto é mais esperto do que eu imaginava.
Jay dá o nome real de tia Pooh para a moça na recepção: Katricia Bordeaux. É sempre estranho ouvi-lo. Ela sempre foi Pooh, minha vida toda. Nós preenchemos os papéis e passamos pela segurança para depois sermos levadas para uma salinha cinza pequena. Não tem janelas e nem luz do sol. Só luzes fortes que se continua vendo bem depois de fechar os olhos. Um guarda nos manda sentar em frente à mesa e esperar.
Scrap batuca na mesa o tempo todo. Depois de uns vinte minutos, um dos guardas traz tia Pooh.
Jay a abraça assim que consegue. Tia Pooh e Scrap fazem o aperto de mão deles. E tia Pooh me olha.
Eu não sabia que teria vontade de chorar quando a visse, mas juro que quase choro. Ela estica os braços, e deixo que me envolva com o abraço mais forte e mais apertado do qual eu não sabia que precisava.
Ela beija a lateral da minha cabeça.
— Senti saudades, Li’l Bit.
— Também senti — eu murmuro no ombro dela.
Nós quatro nos sentamos. Mas tia Pooh tem que se sentar do outro lado da mesa. Regras da cadeia. É para que não entreguemos nenhum contrabando para ela, mas sempre parece que estão dizendo que ela tem alguma doença. A cadeia já parece um tremendo isolamento, mesmo quando alguém vai visitar.
— Falei com seu advogado hoje de manhã — diz Jay. — É um daqueles indicados pelo tribunal. Ele acha que vai conseguir sua citação no começo da semana que vem.
— Que bom — diz tia Pooh. — Quanto antes eu sair daqui, mais cedo Bri e eu podemos ter nossa hora da virada. — Ela estica a palma da mão para mim sobre a mesa com um sorriso. Bato nela. — Eu soube da sua entrevista. Prometo que vou cuidar daquele idiota quando sair. Sem dúvida.
Jay olha de uma para outra.
— Que entrevista? Que idiota?
Não era assim que eu queria que ela descobrisse. Minha perna de repente não fica parada.
— A entrevista com o DJ Hype, sabe? — diz Pooh.
Jay se vira na minha direção.
— Não. Não sei.
Eu só olho para a frente. Quem encara uma mãe negra com raiva tem uma boa chance de virar uma estátua de sal ali mesmo, como aquela garota da Bíblia.
— É, a Bri participou do programa dele — dedura tia Pooh. — Ele a irritou, ao que parece. Acusou ela de não escrever as próprias músicas, um monte de absurdos. Eu soube que você surtou, Bri. — Tia Pooh ri na mão fechada. — Até o pessoal daqui ficou falando.
Consigo sentir o olhar de raiva de Jay. É ruim. Ah, como é ruim. Eu olho para a parede. Alguém entalhou “D tevi aqui” no cimento, e não sei o que é pior: o fato de a pessoa estar se gabando de ter estado ali ou o fato de não saber escrever “esteve”.
— Eu não mandei você ficar na sua, Bri? — diz Jay.
— Está tudo bem, Jayda — diz tia Pooh. — Não pega no pé dela. A culpa foi do Hype. — Ela olha para Scrap. — Como está indo aquela outra coisa?
— Eles estão amando essa merda toda — diz ele com desprezo. — A gente tem que dar um jeito neles.
— Dar um jeito em quem? — eu pergunto.
— É o que eu quero saber — acrescenta Jay.
— Nos filhos da puta dos Crowns — sussurra Scrap. — Eles acham engraçado a maioria dos GDs de Maple Grove terem sido presos. Agora, estão indo pro nosso território e tudo. Estão até se gabando que tiraram a corrente do Law da Bri. Mostrando pra todo mundo.
— Ahh, porra, não — diz tia Pooh.
As mesmas palavras ecoam na minha cabeça, mas por um motivo completamente diferente. Mais uma vez, não era assim que eu queria que a minha mãe descobrisse.
Ela se vira para mim.
— Como foi que eles conseguiram a corrente do seu pai?
É uma pergunta, não uma acusação, mas, sinceramente, deveria ser uma acusação. Eu deveria ter me esforçado mais para guardar aquela rede de segurança para nós. Eu engulo em seco.
— Roubaram de mim. Eu juro que não queria entregar, mas...
— Roubaram? — grita ela. — Ah, meu Deus, Brianna! Por que você não me contou?
— Ah, não se preocupe. Já mandei uma mensagem pro filho da puta que fez isso. Só não consegui a corrente de volta — diz tia Pooh. — Mas estamos trabalhando nisso. — Ela olha para Scrap e ele assente.
Jay olha dele para ela.
— O quê?
— Tem uns caras novos comigo agora — diz Scrap. — Eles topam tudo. Bri só precisa mandar.
— Fato — diz tia Pooh, batendo na mão dele.
Parece que caiu uma pedra no meu estômago.
— Eu tenho que dar a ordem?
— Eles tiraram de você — diz tia Pooh. — Porra, a gente topa tudo pra dar uma lição naqueles idiotas, mas no fim das contas esta é uma decisão sua.
Como é que, de repente, eu tenho uma gangue inteira à minha disposição?
Jay fecha os olhos e levanta as mãos.
— Esperem. Vocês estão dizendo o que eu acho que estão dizendo?
— É guerra — diz tia Pooh, como se não fosse nada. — Dizem que alguns deles que nos deduraram. Era por isso que a polícia estava de olho. Agora estão tentando tomar nosso espaço, estão nos fazendo de idiotas e ainda têm a coragem de se gabar por terem roubado minha sobrinha? Ah, não. Vale tudo agora.
Nós começamos uma guerra de gangues. Pessoas podem perder a vida por causa de nós. Merda, e se respingar em mim?
Não sei por quanto tempo ficamos em silêncio, mas não é pouco. Jay fica olhando para tia Pooh com a boca meio aberta.
— Uau — diz ela. — Uau, uau, uau.
— Jay, você tem que entender — diz tia Pooh. — É questão de respeito! Não podemos deixar os idiotas acharem que venceram.
Os olhos da minha mãe brilham.
— Eles não venceram. Mas você está tão perdida que acabou derrotada.
— O quê?
— Você está presa, Katricia — diz Jay. — Presa! Mas está sentada na cela planejando o mesmo tipo de merda de rua que fez você vir parar aqui. Você não liga se tudo isso tem sido um inferno pra sua família. Você não demonstra remorso. Está planejando uma retaliação!
— Jayda, eles pegaram a corrente do Law — diz tia Pooh. — Estão se gabando por terem apontado uma arma pra cara da sua filha! Estão rindo por eu estar aqui. Eu devia deixar isso pra lá?
— Devia! — diz Jay. — Não ligo pra aquela corrente! Bri está bem e é só isso que importa pra mim.
— Mas isso é maior — diz Scrap. — Não podemos deixar que se safem dessa merda.
— Na verdade, podem, sim. — Jay olha para tia Pooh de novo. — Quer saber? Estou começando a perceber que talvez você precise ficar aqui.
— O quê? Você não vai pagar minha fiança?
— Com o quê? — berra Jay. — Por acaso você tem dinheiro escondido? Hã? Me diga se tiver. Talvez eu possa usar pra pagar algumas das minhas malditas contas!
— Olha, já resolvi tudo, tá? Você pode pegar um empréstimo. Usar o dinheiro pra pagar minha fiança e pagar um advogado melhor, que vai me livrar das acusações. Vou pagar a você...
— Fazendo a mesma coisa que botou você aqui dentro! — grita Jay. Ela junta as mãos e as segura na frente da boca. — Já chorei por você — diz ela com voz rouca. — Mas acho que você não chorou por si mesma e esse é o problema.
— Jay, por favor. — A voz dela falha. — Se me pegarem por isso eu posso ser condenada! Isso não pode acontecer comigo!
— Eu não quero que você vá — diz Jay. — Não quero você nessa merda de lugar, Katricia. Porra, estou dizendo há anos que isso aqui foi feito pra que uma pessoa não saia. Mas você tem que tirar as ruas de você de alguma forma. Talvez seja assim. — Ela se levanta e estica a mão para mim. — Vamos embora, Brianna.
— Bri — suplica tia Pooh. — Bri, por favor. Diz pra ela que vou mudar.
Não posso dizer o que não sei.
— Brianna, vamos embora — repete Jay.
— Bri, diz pra ela!
— Para de usar a minha filha como cobertura! Não é responsabilidade dela dar um jeito em você, Katricia! É responsabilidade sua!
O maxilar da tia Pooh se contrai. Ela se empertiga, ergue o queixo e aperta os olhos.
— Então é assim? Você me deixou pra me cuidar sozinha quando se viciou naquela merda e agora vai me deixar pra me cuidar sozinha de novo, é?
É um soco na minha barriga e ela nem está falando comigo.
— Como você pode dizer isso? Não é...
Jay levanta a mão para me interromper. Ela olha só para Pooh.
— Quer saber? Lamento por ter abandonado você. Foi um dos maiores erros da minha vida. Mas você não pode passar a vida culpando seu passado pelas merdas que faz no presente. Em determinado ponto, você tem que assumir a culpa.
Ela segura minha mão e me leva junto. Olho para a tia Pooh. O rosto dela está contraído, mas os lábios estão tremendo. Tenho a sensação de que é a última vez que vou vê-la por muito tempo.
As nuvens parecem mais escuras do que quando chegamos. Mas talvez seja apenas minha imaginação. Não tem como o céu também estar de luto pela minha tia.
No banco do motorista, Jay seca os olhos. As lágrimas começaram a cair no momento em que saímos do prédio.
Eu mordo o lábio.
— Você não vai mesmo tentar pagar a fiança?
— Não vou pegar um empréstimo pra pagar a fiança enquanto temos contas da casa para pagar, Bri, e não vou fazer isso por alguém que vai se meter no mesmo problema assim que sair.
— Mas ela pode mudar — eu quase suplico. — Sei que pode.
— Eu também sei, Bri, mas ela tem que saber. Ela tem que decidir que basta. Nós não podemos fazer isso por ela.
— E se ela nunca decidir?
Jay estica a mão. Coloco a minha na dela.
— Você tem que se preparar pra essa possibilidade, florzinha.
Não gosto, não gosto, não gosto.
— Não quero perdê-la — eu digo, gemendo.
— Nem eu — responde ela, com voz rouca. — Deus sabe que não quero. Nós podemos amá-la com todo o coração, mas nada importa se ela não se amar. Ela está sentada lá dentro mais preocupada com uma corrente do que com o próprio bem-estar.
Eu olho para meu peito, onde a corrente ficava.
— Sinto muito por terem levado.
— Não precisa se desculpar por isso, flor — diz Jay. — Mas, garota, o que está acontecendo com você? Primeiro foi a música e descobri sobre ela numa reportagem da televisão . Agora, a corrente e a entrevista com o Hype? O que mais você está escondendo, Brianna? Hein?
As mães negras possuem um superpoder: elas conseguem passar da delicadeza à firmeza em questão de segundos. Porra, às vezes na mesma frase.
Minha boca fica seca de repente.
— Eu...
— O. Quê. Mais?
Olho para meus Timberlands.
— Supreme.
— O que tem Supreme? E esses sapatos não botaram você no mundo. Olha pra mim quando falo com você.
Forço meu olhar até o dela.
— Ele está trabalhando em um contrato de gravação pra mim.
— Opa, opa, opa. Por que ele teria um contrato de gravação pra você ? Ele não é seu agente.
— Mas é. Eu o contratei.
— Ah, você o contratou — diz ela com uma leveza falsa que me assusta. — Foi mal, devo ter perdido o memorando avisando que você tinha ficado adulta. Até onde eu sei, você tem 16 anos, Brianna. Dezesseis!
— Eu ia contar, eu juro! Só estava tentando resolver tudo primeiro. Era meu jeito de nos salvar.
— Não cabe a você nos salvar! — Ela fecha os olhos. — Deus, não estou fazendo meu trabalho.
Ah, merda. Eu não queria que ela se culpasse.
— Não é assim.
— Deve ser. Se você sai por aí fazendo essas coisas pra nos ajudar só pode ser porque não estou fazendo o suficiente.
— Mas está. — Minha voz falha. — Você e Trey se esforçam tanto. Eu só queria tornar as coisas mais fáceis. Mas estou piorando tudo pra mim. As pessoas estão dizendo coisas horríveis sobre mim depois daquela entrevista.
Jay respira fundo.
— Hype te pegou de jeito, é? — Ela fala com gentileza de novo.
— Infelizmente. Eu agi feito uma idiota. Mas Supreme está adorando. O executivo da gravadora também. Eles acham ótimo as pessoas pensarem que sou uma “marginal do gueto”. Supreme chama de “interpretar um papel”.
— Não estou surpresa. Supreme sempre foi faminto por dinheiro. Foi nisso que ele e seu pai entraram em conflito. Vou tentar adivinhar, ele usou uma isca, né? Te deu alguma coisa cara pra você querer contratá-lo.
Eu olho para os sapatos.
— Foi. Ele comprou esses Timberlands pra mim.
— Espera, não são os sapatos que comprei no bazar?
— Não, aqueles se desfizeram.
— O quê? Por que você não me contou?
Eu remexo nos dedos.
— Porque eu não queria que você se sentisse mal. Como deve estar se sentindo agora.
Ela suspira.
— Senhor. Você devia ter me contado, Bri. Devia ter me contado tudo. Eu poderia ter deixado você longe de tantos problemas. Mas você mentiu pra mim.
— Espera, eu não menti.
— Omitir a verdade é mentir, Bri — diz ela. — Além do mais, em um determinado momento você mentiu abertamente. Você andou saindo escondido pra se encontrar com Supreme. Isso exige uma mentira.
Droga, ela tem razão.
— Desculpa.
Jay suga os dentes.
— Ah, tenho certeza de que você está arrependida. Principalmente porque isso tudo vai acabar. Sabe essa sua história de rap? Acabou.
— O quê? Não! Essa pode ser a minha chance de sucesso.
— Você não acabou de falar que as pessoas estão fazendo suposições sobre você? — pergunta ela. — Você quer continuar mesmo sabendo disso?
— Eu só quero fazer sucesso!
Falo alto, falo com rispidez. Mas também falo com desespero.
Parece que horas se passam enquanto minha mãe me olha em silêncio.
— Brianna — diz ela —, você sabe qual é o maior problema da sua tia?
Eu olho para a cadeia. Está meio óbvio no momento.
— Ela está presa.
— Não. Esse não é o maior problema dela — diz Jay. — Pooh não sabe quem é e, ao não saber, ela não sabe seu valor. E então, quem é você?
— O quê?
— Quem é você? — repete ela. — Dentre as milhões e bilhões de pessoas no mundo, você é a única capaz de responder isso. Não as pessoas na internet e nem as da sua escola. Nem eu posso responder isso. Posso dizer quem eu acho que você é. — Ela aninha minha bochecha na mão. — E eu acho que você é brilhante, talentosa, corajosa, linda. Meu milagre. Mas você é a única que pode dizer quem é com autoridade. E então, quem você é?
— Eu...
Não consigo encontrar as palavras.
Minha mãe se inclina e beija a minha testa.
— Se esforce para descobrir. Acho que vai te dar mais respostas do que você imagina.
Ela liga o Jeep. Antes que saia de ré da vaga, o celular dela toca.
— Florzinha, pode atender pra mim?
— Tudo bem — eu digo, e remexo na bolsa.
Levo um segundo para encontrar, porque a minha mãe anda com a bolsa cheia de coisas que ela “pode precisar”, como lenço de papel, chiclete, uma arma de choque, um canivete. Ela está pronta para tudo.
Pego o celular, mas não reconheço o número.
— Não sei quem é.
— Atenda como se você tivesse bom senso, então.
Eu reviro os olhos. Sei o que ela quer dizer: é para eu falar “direito”, mas, caramba, “agir como se eu tivesse bom senso” faz parecer que não tenho nenhum.
— Alô.
— Alô. A sra. Jayda Jackson pode atender? — pergunta um homem.
A voz é familiar. Eu acho. Pode ser um cobrador, até onde eu sei, e ela sempre desliga na cara deles.
— Posso perguntar quem deseja falar com ela?
— Sim, é o superintendente Cook.
O celular cai da minha mão.
— Brianna! — diz Jay, me repreendendo por entre dentes. — Não é possível que você tenha deixado meu telefone cair! Me dá aqui!
Eu o pego no chão.
Ela o tira da minha mão.
— Alô. Quem é?
O dr. Cook responde e o carro desliza de leve. Ela também quase deixou o aparelho cair no chão.
— Me desculpe, dr. Cook — diz Jay, me olhando com cara feia. — Minha filha é meio descuidada.
Por que ela tem que me dedurar assim?
O dr. Cook começa a falar e minha mãe encosta na rua. Não consigo entender o que ele está dizendo. Jay só diz “Aham, sim, senhor” várias vezes.
— E aí? — eu sussurro, mas ela estende a mão na minha direção para me fazer parar.
Depois de uma eternidade, ela diz:
— Muito obrigada, senhor. Eu o vejo na semana que vem.
Eu arregalo os olhos. Assim que ela desliga, eu pergunto:
— Você conseguiu o emprego?
— Uma entrevista. Mas é entrevista com verificação de referências e digitais.
Não estou entendendo.
— Por que isso é bom?
— Porque significa que estão pensando seriamente em me contratar — diz ela.
— Então você... — A sensação é tão surreal que tenho dificuldade de falar. — Então você talvez consiga o emprego?
— Não há garantias, mas, com base no que o dr. Cook acabou de dizer — ela sorri —, eu talvez consiga o emprego.
TRINTA E DOIS
Na manhã de sábado, recebo uma mensagem esquisita de Sonny.
Me encontra no parque Oak AGORA.
O parque Oak fica a duas quadras da casa dos meus avós. Trey me levava lá quase todos os fins de semana quando eu era pequena. Foi onde vi Jay drogada quando era mais nova.
Também é onde Sonny fez o primeiro grafite de punho com arco-íris.
Fica na lateral dos banheiros, perto da piscina comunitária vazia. Vovô diz que a cidade abria a piscina para a comunidade todos os verões. Nunca fizeram isso na minha vida.
Olho em volta duas vezes quando estou atravessando o parque. Ainda tenho que pensar nos Crowns. Ando me abaixando e me escondendo todas as vezes que vejo um carro cinza no bairro.
As bicicletas do Sonny e do Malik estão encostadas na parede dos fundos do banheiro. Eu deveria saber que Malik também estaria lá. Sonny anda tanto na terra de um lado para o outro que uma pequena nuvem de poeira gira em volta dos pés dele. Malik diz alguma coisa, mas não faz com que Sonny pare com aquilo.
Eu desço da bicicleta e ando até eles.
— E aí, caras?
— Ele está vindo — diz Sonny.
— Quem?
— O Rapid! Por que outro motivo eu pediria pra vocês se encontrarem aqui comigo?
— Ah. Eu achei que você precisava da minha ajuda pra esconder um corpo, sei lá.
Sonny aperta os lábios.
— E você diz que eu sou esquisito?
Malik olha para o celular.
— Que horas ele disse que chegaria aqui?
Sonny também olha para o celular.
— Dez em ponto. Ele me disse pra procurar um Benz preto.
— Caramba, um Benz? — eu digo. — Aos 16 anos? Alguém é cheio da grana. — Eu esfrego os dedos.
— Ou ele é na verdade um homem de 50 anos — Malik precisa acrescentar.
O horror que aparece no rosto de Sonny...
— Não é engraçado!
Malik e eu damos risadinhas. Isso é o mais perto que chegamos de nos falar em um tempo.
— Foi mal, foi mal — diz Malik segurando o ombro do Sonny. — Olha, Son’, vai dar tudo certo, tá? Você tem que acreditar. Se o cara não for quem ele é, azar o dele. Não seu. Tá bom?
Sonny expira lentamente.
— Tá bom.
— Ótimo. — Malik ajeita a gola dele. Decidiu vestir uma das camisas polo bonitas hoje. Passo os dedos pelos cachos dele para ajeitá-los. — Não importa o que aconteça, nós estamos aqui — lembra Malik.
— Cem por cento — eu acrescento.
Sonny sorri.
— Estou feliz por vocês terem vindo...
Um Mercedes preto entra no estacionamento.
— Se escondam! Rápido! — Sonny se vira para nós de repente.
Eu o olho de cima a baixo.
— Como é?
— Se esconde! — Ele empurra nós dois na direção de uma árvore. — Não quero que ele saiba que não confiei nele a ponto de trazer reforços.
— Mas você não confiou nele — diz Malik.
— Essa não é a questão! Vão logo!
Nós vamos aos tropeços para trás de um carvalho largo o suficiente para esconder nós dois. Uma porta de carro se fecha. Eu espio por trás do tronco.
Um garoto de pele escura atravessa o parque. O cabelo curto tem zigue-zagues raspados e tem um pingente de cruz no pescoço dele.
É Miles. O filho do Supreme, o rapper da música irritante.
— Puta merda — eu murmuro.
— Puta merda — repete Malik.
Vejo o “puta merda” na cara do Sonny também. Miles está com a mão na nuca e olha para Sonny com timidez.
— Eu realmente não estava esperando por isso — diz Malik.
Acho que ele está falando comigo de novo.
— Pois é. Nem eu.
— O que você acha que eles estão dizendo?
Eu inclino a cabeça. Os olhos do Sonny estão muito arregalados. Tipo de desenho animado. Dou um sorrisinho. Não sei o que o Sonny está dizendo , mas ele com certeza está pensando “Que porra é essa?”
— Rá! Acho que é isso mesmo. — Malik faz sua melhor imitação da voz do Sonny: — “Eu estava mesmo conversando com um cara que acha que chocrível é uma palavra?”
Dou uma gargalhada.
— “Vou ter que dizer pra ele que odeio a música?” — Minha imitação do Sonny não é tão boa quanto a do Malik, mas o faz rir. — Não sei se isso vai acabar bem.
Mas talvez acabe. Eles estão sorrindo enquanto se encaram.
— Ah, uau — diz Malik.
— Mas ainda estou preparada caso o Miles faça mal a ele — eu digo.
— Isso aí. Senti sua falta, Brisa. — diz Malik. Eu me viro para ele. — Como amiga. Sinto saudades de conversar com você.
— E de quem é a culpa de nós não estarmos nos falando?
— Hum, sua — diz ele.
Meu queixo cai.
— Como é que é?
— Bri, para com isso, você deve saber por que fiquei puto com você. Na noite do assalto você estava mais preocupada com aquela corrente do que comigo, seu amigo que ficou de olho roxo. Eu devia não ter me importado com isso? Aí você basicamente me pediu pra mentir pra minha mãe pra você e Pooh poderem fazer merda.
Tudo bem. Ele tem razão.
— Eu só queria a corrente de volta, Malik. Era a rede de segurança da minha família. Eu achava que poderia penhorar se as coisas piorassem.
— Está vendo, esse é o problema. Ultimamente, você só se importa com dinheiro. Dinheiro não é tudo, Bri.
— Pra você é fácil falar. Sei que sua mãe rala muito e que vocês não são ricos, mas sua vida é melhor do que a minha. A gente ficou um tempo sem luz, Malik. Quase não tivemos comida por vários dias. Você não se preocupa com coisas assim. Eu preciso me preocupar. Meus sapatos se desfizeram, mano. Você está aqui usando Jordans.
Ele olha para os tênis e morde os lábios.
— É. Acho que entendo.
— Não entende, não — eu digo. — E tudo bem não entender. Fico feliz por você não ter que entender. Mas preciso que você tente.
— As coisas andam difíceis, né?
Eu engulo em seco.
— Muito.
Silêncio.
— Desculpe por não ter estado do seu lado — diz ele. — Também peço desculpas por ter dado em cima de você. Foi horrível por vários motivos.
Eu faço que sim.
— Foi.
— Uau, nada de “Não seja tão duro consigo mesmo, Malik”?
— Porra, não. Foi uma ideia de merda.
— Típico de Bri. — Malik enfia as mãos nos bolsos. — As coisas estão tão diferentes do que eram. Nós estamos diferentes. É difícil entender tudo isso às vezes, sabe? Mas você acha que conseguimos descobrir como ser diferentes e mesmo assim amigos?
Eu gostaria de dizer que em dez, vinte, trinta anos, eu, Sonny e Malik ainda seremos tão amigos quanto sempre fomos, mas talvez seja mentira. Nós estamos tomando caminhos diferentes, e isso não vai parar de acontecer.
Mas eu gostaria de pensar que nos importamos o suficiente para chegarmos a conhecer a pessoa que nos tornaremos. Ora, talvez um dia Malik e eu tenhamos alguma coisa que seja mais do que amizade. Agora, eu só quero meu amigo de volta.
— Acho — eu digo. — Acho que ainda podemos ser amigos.
Ele sorri.
— Que bom. Porque quando você ganhar um Grammy, espero um agradecimento e convites pra todas as festas.
Eu reviro os olhos.
— Interesseiro.
Ele passa o braço pelo meu pescoço.
— Que nada. Só um dos seus admiradores mais ferrenhos.
Sonny e Miles se aproximam de nós. Eles estão tão próximos que as mãos se tocam de leve.
— Pessoal, esse é o Miles, sem o z — diz Sonny. — Miles, estes são Malik e Bri, meus melhores amigos barra potenciais guarda-costas. Mas você já conheceu a Bri.
— É, quando você falou aquelas merdas sobre o pai dela no Ringue — observa Malik.
Ah, as coisas entre nós voltaram ao normal, porque aqui está Malik, sendo ríspido com alguém em minha defesa. Eu estava com saudade de tê-lo ao meu lado.
Miles se mexe com desconforto.
— Foi mal. Já pedi desculpas pra Bri se isso ajuda. Eu só estava dizendo o que meu pai queria que eu dissesse.
Sonny arqueia a sobrancelha.
— Seu pai queria que você fosse um babaca?
— Basicamente. Faz parte de quem o Milez com z é. Mas isso é criação dele. Não sou eu.
Não estou surpresa. Supreme parece adorar inventar pessoas.
— Ele sabe que você é...
— Gay? Sim. Sabe. Ele prefere ignorar.
Malik inclina a cabeça e, sendo Malik, parte para cima.
— Seu pai faz você fingir que é hétero?
— Malik! — eu sussurro. Senhor. — Você não pode perguntar coisas assim pras pessoas!
— Por que não? Ele nos deu espaço para isso!
— Ele me faz fingir que sou hétero — esclarece Miles. — O Milez com z tem que ser o garoto adolescente que todas as garotas amam e também uma das vacas leiteiras do meu pai.
Ele olha para mim enquanto fala. Eu sou a outra.
— Ninguém pode saber que o Miles com s odeia fazer rap, prefere fotografia e é cem por cento gay.
— Por que você veio aqui, então? — pergunta Sonny.
Miles dobra o pé para trás.
— Porque sim. Pela primeira vez, decidi o que eu queria fazer. Eu queria finalmente conhecer o cara que me deixa acordado à noite, conversando sobre tudo e nada, que me faz sorrir muito, apesar de eu só ter descoberto agora como ele era bonito.
Sonny fica muito vermelho.
— Ah.
— Não quero mais ser quem meu pai quer que eu seja — diz Miles. — Não vale a pena.
Ele quer dizer o que eu acho que quer?
— Você vai desistir da sua carreira no rap?
Miles assente lentamente.
— Sim. Vou. Além do mais, se eu não estou sendo eu de verdade, essa carreira é minha mesmo?
TRINTA E TRÊS
Ainda estou pensando no que Miles disse ontem quando chegamos ao Templo de Cristo.
Acho que a perspectiva de emprego deu à minha mãe a coragem de ir enfrentar as fofocas. É o primeiro domingo que vamos depois de um tempo e a única coisa de que o pessoal da igreja gosta mais do que falar sobre as pessoas é falar sobre as pessoas que não estão indo à igreja.
Vai entender.
Trey está de mãos dadas com Kayla quando atravessa o estacionamento de cascalho atrás de mim e de Jay, ao lado da igreja. Mais cedo, ele apresentou Kayla para Jay como namorada. Eles devem estar em um relacionamento sério já que ele a convidou para a igreja; a igreja onde todo mundo vai falar que ele levou uma garota para a igreja. É coisa grande.
Parece que metade da congregação ocupa o saguão. Jay está com um sorriso maior do que o habitual conforme andamos e cumprimentamos as pessoas. Há uma regra tácita que diz que, quando você passa um tempo longe, tem que falar com todo mundo. Bem, minha mãe e meu irmão fazem isso. Eu fico parada tentando controlar minhas expressões faciais.
A esposa do pastor Eldridge nos abraça e diz que ficamos tanto tempo longe que ela quase esqueceu de como era a nossa cara. Só olho um pouco de lado para ela. Mas irmã Barnes é um verdadeiro teste. Jay lhe dá bom-dia e a irmã Barnes responde com:
— Andaram ocupados demais para o Senhor?
Eu abro a boca, mas antes que possa mandá-la tomar no cu, Jay chega perto de mim. Tão perto que ninguém repara a força com que belisca meu braço.
— Brianna, por que você não vai se sentar — diz ela, que é a frase da “mãe na igreja” para “Garota, é melhor você sair daqui antes que eu te dê uma surra”.
Eu prefiro mesmo ficar sentada no canto. Sento-me em uma das cadeiras de encosto alto embaixo do retrato do pastor Eldridge. Por um lado, não entendo por que minha mãe está aguentando tanta merda das pessoas. Por outro, ela deve estar muito bem se está disposta a aguentar.
A irmã Daniels entra no saguão usando um vestido florido com um chapéu combinando que é grande o bastante para bloquear o sol. Curtis segura a porta para ela.
Eu me sento mais ereta. Minhas tranças? Estão todas arrumadinhas. Jay fez uma trança embutida no meu cabelo ontem, e dormi usando uma toca bem apertada à noite para tudo ficar no lugar. Esse vestido e esses saltos Anabela? Superfofos. Mas considerando a luz no olhar de Curtis quando ele me vê, acho que eu não precisava de nada disso.
Ele anda no meio das pessoas vindo em minha direção, dizendo ois rápidos e assentindo educadamente no caminho.
— Oi, Bri — diz ele, o sorriso na cara e na voz.
Eu fico toda sorridente.
— Oi.
Curtis se senta no braço da cadeira e me olha.
— Sei que não devo falar palavrão na igreja, mas, porra, garota, você está linda hoje.
— Você até que não está ruim — eu digo. Na maior parte dos domingos, ele vai de camisa polo e calça social. Hoje ele está de terno e gravata.
Curtis ajeita a gravata.
— Obrigado. Fiquei com medo de ficar com cara de quem deveria estar no púlpito pregando. Que bom que você gostou, porque foi pra você.
— Não precisava.
— Ah, quer dizer que fico sexy mesmo sem essa roupa? — Curtis balança as sobrancelhas.
Dou uma gargalhada.
— Tchau, Curtis.
— Você não consegue admitir. Não tenha medo — diz ele. — E então, aquele nosso encontro. Nós não combinamos os detalhes. Eu estava pensando que poderíamos sair do campus qualquer dia esta semana e ir almoçar em algum lugar em Midtown.
Tenho a sensação de que alguém está nos observando. Olho ao redor.
Eu estava certa. Minha mãe e meu irmão estão perto da porta do templo, prestando mais atenção em nós do que no pastor Eldridge. Os dois parecem estar achando graça.
Senhor. Já estou ouvindo os dois. Jay vai tentar se meter na minha vida e Trey vai pegar mais no meu pé do que o Sonny.
Mas, quer saber? Não ligo.
— Almoçar parece uma boa ideia — eu digo para o Curtis.
— Amanhã está bom pra você?
— Está.
— É a primeira vez que vou ficar ansioso por uma segunda. — Curtis se inclina e beija a minha bochecha, tão perto dos meus lábios que quase desejo que fosse lá que ele tivesse beijado. — Até mais, Princesa.
Vou até a minha mãe, Trey e Kayla, e parece que tem um sorriso grudado na minha cara.
— Aaahh, a Bri está namorando — provoca Trey. — Aaaah!
— Cala a boca — eu digo.
Mas namorando? Eu não diria que estou namorando. Mas não teria problema se ele tivesse o título de namorado.
Jesus, meu rosto está começando a doer de tanto sorrir.
— Hum — diz Jay, o que, na língua das mães negras, pode significar um monte de coisas. — Só quero saber há quanto tempo isso está rolando e se precisamos de um curso de revisão sobre a cegonha e tal.
— Sério? — eu digo com um gemido.
— Sim, senhora. Sou jovem demais pra ser avó. Ninguém tem tempo pra isso.
Tudo bem, Sweet Brown.
Pegamos nosso banco de sempre, perto dos fundos do templo. Vovó e vovô percorrem o corredor central juntos. A gravata prateada dele combina com o chapéu dela. Ele está carregando uma pilha de pratos dourados vazios. É a vez deles de cuidarem da mesa de comunhão, o que quer dizer que têm que ir buscar os biscoitos e o suco de uva.
— Bom dia, pessoal — diz o vovô. Ele dá um beijo em Jay e ganha um meu. — Quem é essa linda jovem com vocês hoje?
— Vovó e vovô, esta é Kayla, minha namorada — diz Trey. — Kayla, esses são meus avós.
Kayla aperta a mão deles. Ah, isso é sério mesmo já que ele a está apresentando para os nossos avós.
— É um prazer conhecê-los, sr. e sra. Jackson. Ouvi muitas coisas sobre vocês.
— Espero que boas — diz vovó.
— Claro, vovó — diz Trey com um pouco de entusiasmo demais. Ele está mentindo.
— Está tudo combinado para depois da igreja, Jayda?
— Sim, senhor, está.
— O que vai ter depois da igreja? — pergunta Trey.
— Vamos ter um jantar de família — diz a vovó. Ela olha para a minha mãe.
— Todos nós.
Espera aí. Ela não está olhando de cara feia para Jay. Na verdade, vovó está aqui há mais de um minuto e ainda não fez nenhum comentário ferino sobre ela. Além disso, a minha mãe está convidada para um jantar de família , no sentido de que a minha avó a considera parte da família?
Ah, Deus.
— Alguém está morrendo! Quem está morrendo? Vovô, é sua diabetes, não é?
— O quê? — diz o vovô. — Li’l Bit, eu juro, você tira conclusões tão rápido que vai acabar estirando um músculo. Ninguém vai morrer. Nós só vamos jantar. Kayla, você também está convidada. Confesso que faço a melhor torta de amora que você vai comer na vida. É melhor estar com o apetite em dia.
— Vemos vocês mais tarde — diz a vovó, e ela e o vovô saem andando. Ela nem perguntou se eu e o Trey queremos nos sentar com ela hoje.
Eu me viro para a minha mãe. Estou muito confusa.
— O que está acontecendo?
A banda começa um louvor animado e o coral entra pelos corredores, balançando os braços e batendo palmas no ritmo.
— Vamos conversar mais tarde, flor — diz Jay.
Ela se levanta e bate palmas com eles.
Ainda não tenho nenhuma resposta quando paramos na frente da casa dos meus avós.
Vovó e vovô moram “naquela casa” no Garden. A que parece quase bonita demais para estar no gueto. É de tijolos com cerca de ferro em volta. Tem um segundo andar e uma sala a mais que meus avós acrescentaram quando meu pai era criança. Vovó mantém o jardim da frente sempre bonito. Eles têm um pequeno chafariz para pássaros e flores suficientes para concorrer com o jardim botânico.
Não consigo segurar a sensação de déjà vu que me atinge. Jay uma vez parou no mesmo lugar e me deixou junto com Trey ali quando as coisas ficaram feias. A situação não está tão feia agora, mas não sei se estou gostando disso.
— O que está acontecendo? — eu pergunto mais uma vez.
Jay estaciona o Jeep. Estamos só eu e ela. Trey e Kayla foram até o mercado no carro dele. A vovó pediu para ele comprar coalhada e fubá para o pão de milho.
— Como seus avós disseram, nós vamos jantar e conversar sobre algumas coisas.
— Que tipos de coisas?
— Coisas boas, eu juro.
Eu faço que sim. Odeio saber que a garotinha de 5 anos ainda está dentro de mim e odeio o fato de ela estar surtando agora. Eu sei que a minha mãe não vai me abandonar aqui de novo. Mas o medo está enterrado em mim. Lá no fundo, mas ainda em mim, como se fosse parte do meu DNA.
Jay olha para a casa e bate de leve no volante.
— Todas as vezes que paro em frente a essa casa, não consigo deixar de pensar no dia em que deixei você e o Trey aqui. Acho que seus gritos nunca saíram dos meus ouvidos.
Eu não sabia disso.
— É mesmo?
— É — diz ela baixinho. — Foi o dia mais difícil da minha vida. Ainda mais difícil do que o dia em que perdemos seu pai. Eu não podia controlar a morte dele. Nenhuma decisão que eu tomasse poderia ter mudado aquilo. Mas eu decidi usar drogas, eu decidi trazer você e Trey para cá. Sabia que, assim que saísse daqui de carro, tudo mudaria. Eu sabia. Mas fiz mesmo assim.
Não consigo encontrar palavras.
Jay respira fundo.
— Sei que já falei um milhão de vezes, mas me desculpe, flor. Sempre me arrependo de ter feito você passar por aquilo. Sinto muito por você ainda ter pesadelos com o que aconteceu.
Eu olho para ela.
— O quê?
— Você fala dormindo, Bri. É por isso que vou tanto olhar você à noite.
Era um segredo com o qual eu tinha planejado morrer, eu juro. Eu nunca quis nem que ela soubesse que me lembro daquele dia. Eu pisco rápido.
— Eu não queria que você descobrisse...
— Ei. — Ela ergue meu queixo. — Tudo bem. Também sei que é difícil pra você acreditar que não vou voltar a usar drogas. Eu entendo. Mas espero que você saiba que, todos os dias, meu objetivo é estar aqui do seu lado.
Eu sabia que era uma luta diária para ela ficar limpa. Só não sabia que eu era o motivo para ela lutar.
Ficamos em silêncio por um tempo. Minha mãe me faz um carinho na bochecha.
— Eu te amo — diz ela.
Tem muita coisa que eu não sei e que talvez nunca saiba. Não sei por que ela escolheu as drogas em vez de mim e Trey. Não sei se a Bri de 5 anos vai deixar de ter medo um dia. Não sei se Jay vai ficar limpa pelo resto da vida. Mas sei que ela me ama.
— Eu também te amo... mãe.
Uma palavra, uma sílaba. Toda a minha vida, foi sinônimo de Jay, mas há anos não é fácil de dizer. Acho que tenho que trabalhar nisso, como tenho que trabalhar em confiar que não vou voltar a perdê-la.
Os olhos dela brilham. Ela deve ter reparado que raramente a chamo assim. Ela aninha meu rosto e beija minha testa.
— Vamos. Vamos entrar e rezar pra sua avó não ter decidido botar veneno no meu prato.
Vovô abre a porta para nós. Acho que meus avós não mudaram nada em casa desde que Trey e eu fomos embora. Tem um quadro do presidente Obama na parede da sala (o único presidente, de acordo com vovô), entre o do dr. King e um retrato dos meus avós no dia do casamento. Tem um retrato da vovó com um boá de penas e uma pulseira de diamantes. (Eu nunca perguntei e nem quero saber.) Ao lado tem um quadro de um vovô bem mais jovem de uniforme da marinha. Tem fotos minhas, do meu pai e do Trey por toda a casa. Fotos 3x4 das sobrinhas e sobrinhos dos meus avós ocupam a prateleira do corredor, junto com o menino Jesus e as estátuas de mãos orando que vovó coleciona.
Vovô vai para o quintal trabalhar na picape velha que está reformando desde que eu era pequena. A vovó está na cozinha. Dessa vez está usando um dos seus vestidos favoritos e já botou algumas panelas e frigideiras no fogão.
— Precisa de ajuda com alguma coisa, sra. Jackson? — J... minha mãe pergunta.
— Preciso. Pode pegar o sal no armário? E acha que pode começar a preparar as verduras pra mim?
Quem é esse alienígena e o que ele fez com a minha avó? A vovó nunca deixa ninguém cozinhar na cozinha dela. Nun-ca. Para ela deixar a minha mãe ajudar com o jantar...
Estamos em um maldito universo paralelo. Eu juro.
Enquanto isso, só tenho permissão de ficar sentada olhando. Vovó diz que eu “não tenho um pingo de paciência”, portando “não vou encostar um dedo numa panela sequer da cozinha dela”.
Trey e Kayla aparecem. Trey vai para o quintal ajudar o vovô. Sinceramente, acho que eles não fazem nada naquela picape. Eles só vão lá para falar de coisas que não querem que a gente ouça. Kayla pergunta se pode ajudar com o jantar. Vovó abre um sorriso meloso e diz:
— Está tudo bem, querida. Pode ficar toda lindinha sentada esperando.
Tradução: Garota, eu não te conheço o suficiente pra deixar que entre na minha cozinha assim.
Mas vovó conta para Kayla sobre as receitas dela. Basta Kayla dizer “O cheiro já está divino, sra. Jackson” que o ego da vovó praticamente dobra de tamanho. Eu saio na hora em que ela começa a ensinar a receita do pão de milho. Nada me deixa com mais fome do que falar sobre comida e meu estômago já está roncando como se estivesse dentro de uma jaula.
Eu subo a escada. Sempre que passo as férias com meus avós, vou para o meu antigo quarto.
Assim como a casa, meu quarto não mudou nada. Acho que a vovó esperava que eu voltasse um dia e que as coisas voltassem a ser como antes. Talvez até espere que eu seja a garota de 11 anos que amava o Piu-Piu e chorou quando teve que ir embora.