Na hora da virada

Angie Thomas · Capítulo 40 de 40 · parte 7/9

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Na hora da virada

Colofon

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 9 partes.

Curtis me entrega um copo grande de água. Senta ao meu lado, mexendo os dedos dos pés dentro das suas meias do Homem-Aranha. Tem muita coisa que não sei sobre ele e o que estou vendo não bate com o que eu imaginava.

— Lindas meias — eu digo.

Ele revira os olhos.

— Pode tirar sarro de mim. Não ligo. Peter Parker é o cara.

— É mesmo. — Eu bebo água. — É por isso que eu não tiraria sarro. Na verdade, acho que tenho a mesma meia.

Curtis ri.

— Sério?

— Sério.

— Que legal — diz ele.

Um estrondo alto soa lá fora, como uma porta grande se fechando em um veículo. Devem ter colocado todos os traficantes lá dentro para levar para o centro.

— Sinto muito pela sua tia — diz Curtis.

Ele fala como se ela estivesse morta. Mas, por aqui, as pessoas na cadeia ganham camisetas em homenagem a elas, como as pessoas nos túmulos.

— Obrigada.

Ficamos em silêncio por bastante tempo. Termino a água e coloco o copo na mesa de centro da avó dele, ao lado de um cinzeiro que já foi usado. A não ser que tenha sido por Curtis, o que duvido, a sagrada irmã Daniels fuma. Vai entender.

— Obrigada de novo por me ajudar.

— Não foi nada — diz ele. — Mas eu não sou contra você escrever uma música sobre mim como agradecimento.

— Garoto, esquece. Um agradecimento durante uma canção? Talvez. Uma música inteira? Não.

— Um agradecimento? Ah, não, você tem que me dar mais do que isso. Que tal um verso?

— Uau. Um verso inteiro, é?

— É. Algo do tipo: “Curtis é meu amigo, sempre anda comigo, quando eu estiver cheia da grana, vou comprar pra ele uma iguana”. E aí! — Ele cruza os braços no estilo B-Boy.

Eu caio na gargalhada.

— Você achou que poderia me vencer em uma batalha com rimas assim?

— Como é? Garota, isso é talento.

— Não, foi um horror.

— Espera aí, você não pode chamar ninguém de horror com essa cara que está agora. — Ele passa os polegares na umidade nas minhas bochechas. — Enchendo o sofá da minha avó de catarro e lágrimas.

A mão dele fica no mesmo lugar. Lentamente, aninha minha bochecha.

Sinto uma pontada no estômago, como um nó bem apertado, e penso, ou melhor, espero que ainda esteja respirando. Quando ele chega mais perto, eu não me afasto. Não consigo pensar, não consigo respirar. Só retribuo o beijo.

Cada centímetro de mim está ciente dele, da forma como as pontas dos dedos roçam na minha nuca, como a língua encosta perfeitamente na minha. Meu coração dispara e me diz de alguma forma que quero mais e que devo ao mesmo tempo ir devagar.

Passo os braços pelo pescoço dele e me encosto no sofá, puxando-o junto. Tocar nele é uma necessidade. Meus dedos encontram seu cabelo, encaracolado e macio, as costas dele. O garoto tem uma bundinha digna de aperto.

Curtis sorri, a testa encostada na minha.

— Está gostando disso, é?

— Aham.

— Que bom. Vamos ver se gosta disto.

Ele me beija de novo e, lentamente, a mão sobe debaixo do meu moletom até embaixo do meu sutiã. Ele encosta em um local que me faz parar de beijá-lo por tempo suficiente de emitir um som que nunca fiz na vida. Sinto em mais lugares do que no peito.

— Porra, garota — geme ele, e se afasta. Ele se apoia acima de mim, sem ar. — Você está me matando aqui.

Eu dou um sorrisinho.

— Eu estou matando você ?

— Está. — Ele beija meu nariz. — Mas estou gostando.

Ele aninha minha bochecha, se abaixa e me beija de novo, devagar e sem parar. Por um tempo, não existe nada entre nós e esse beijo...

VINTE E SETE

 

 

... até a avó do Curtis chegar em casa.

Quando ela chega, só estamos vendo televisão. Mesmo assim, ela me olha desconfiada. Curtis pede o carro dela emprestado para me levar em casa. Ela dá a chave para ele e diz:

— Vamos ter uma conversinha mais tarde, garoto.

Essa conversa vai chegar à minha avó.

O pátio está deserto quando saímos. O único sinal de que alguma coisa aconteceu são os amontoados de pegadas na terra. O carro do Scrap está no lugar de sempre. É estranho não ter ninguém sentado no capô.

Curtis dirige o Chevy da avó com uma das mãos. A outra segura a minha. Não dizemos muito, mas acho que não precisamos. Aquele beijo disse mais do que palavras poderiam dizer.

Ele para na frente da minha casa. Eu me inclino e o beijo de novo. É o melhor jeito de fazer o tempo ir mais devagar. Mas tenho que entrar, então me afasto.

— Preciso falar com a minha mãe sobre... a minha tia.

Mal consigo falar para o Curtis. Como vou poder contar para a Jay?

Ele dá um beijo leve nos meus lábios.

— Vai ficar tudo bem.

Mas são só palavras. A verdade é que tiro os sapatos do Curtis, calço os meus destruídos e entro. Tem uma música que fala sobre “a vontade de Jesus” tocando no celular da minha mãe na cozinha, e ela cantarola junto, sem saber que Jesus vai ter que fazer um milagre no que diz respeito à tia Pooh.

— Oi, Bookie — diz ela. Ela está parada na frente de uma panela. — Vamos comer espaguete hoje.

Minhas pernas estão tremendo tanto que mal consigo ficar de pé.

— Tia Pooh.

— O que tem ela?

— Ela... ela foi presa.

— Que droga! — Ela leva a mão à testa e fecha os olhos. — Aquela garota. O que ela fez desta vez? Se meteu em uma briga? Estava acima do limite de velocidade? Eu falei que todas aquelas multas iam...

— Teve uma batida atrás de drogas — eu murmuro.

Jay abre os olhos.

— O quê?

Minha voz está rouca.

— Chegou uma equipe da SWAT e encontraram cocaína com ela.

Minha mãe fica só me olhando. De repente, pega o celular.

— Deus, não. Por favor, não.

Ela liga para a delegacia. Ainda não podem oferecer nenhuma informação. Ela liga para Lena, que está chorando tanto que consigo ouvir do outro lado da sala. Liga para Trey, que está no trabalho, mas diz que vai passar na delegacia quando estiver voltando para casa. Liga para Scrap. O celular dele cai na caixa postal. Acho que o levaram também.

Jay vai para o quarto, fecha a porta e fica lá. Acho que não era para eu ouvir seu choro, mas é a única coisa que ouço a noite toda.

Fico deitada na cama olhando para o teto, ouvindo os soluços dela ecoando pela casa. Não posso impedi-la de chorar. Não posso salvar tia Pooh. E agora, sem ela e mais ninguém para os Crowns irem atrás, eu talvez nem consiga me salvar.

Estou impotente.

 

Jay não sai do quarto no dia seguinte, nem no seguinte ao seguinte. Na manhã de sábado, quando acordo, ela ainda está lá. Trey está dormindo depois de trabalhar até tarde quando acordo no sábado de manhã. Supreme me pega e me leva para o centro, para minha entrevista com o Hype.

Supreme fala o tempo todo do trajeto, mas nem escuto direito. Os soluços da minha mãe não saem dos meus ouvidos. Além do mais, ele está dizendo a mesma merda de sempre. Isso é importante. Eu estou no caminho. Essa entrevista vai me levar para outro nível.

Mas não vai salvar a tia Pooh.

Supreme deve perceber que não estou falando quase nada, pois afasta o olhar da rua por tempo suficiente para me espiar.

— Tudo bem, Li’l Law?

— Não me chama assim.

— Ah, você quer caminhar com as próprias pernas, é? — provoca ele.

Não é engraçado. Não tenho escolha além de caminhar com as minhas próprias pernas. Desculpe se não quero ouvir o nome da pessoa que não está aqui para carregar esse peso todo comigo.

Eu nem respondo a ele. Só olho pela janela.

A Hot 105 fica em um dos arranha-céus no centro. A estação é tão lendária quanto os artistas que eles fotografaram e penduraram nas paredes. Por toda a recepção há fotos dos vários DJs com a realeza do hip-hop que eles já entrevistaram ao longo dos anos.

A voz do Hype sai por um alto-falante na recepção. Ele está ao vivo no ar em um dos estúdios. Jay ouvia o programa dele no som do carro todos os sábados de manhã, quando ia buscar a mim e Trey. Sempre que Hype tocava uma das músicas do meu pai, ela abria as janelas e aumentava o volume. Ele parecia tão vivo que eu esquecia que não estava.

O assistente do Hype me leva junto com Supreme para o estúdio. A luz vermelha de “ao vivo” acima da porta significa que temos que esperar do lado de fora. Do outro lado de uma janela grande, Hype está sentado a uma mesa cheia de monitores de computador, microfones e fones de ouvido. Tem um cara no estúdio junto com ele, apontando uma câmera na direção do Hype. Um cartaz na parede diz: “ The Hot Hour .”

— Como sempre, temos que pagar as contas — diz Hype nos alto-falantes do corredor. — Mas fiquem conosco porque, depois dos comerciais, vou falar com uma das jovens rappers mais incríveis do país no momento, Bri! Vamos falar das controvérsias, dos planos dela, de tudo. É o Hot Hour , pessoal, na Hot 105!

Hype tira os fones e o assistente dele nos leva para o estúdio.

— A princesa do Garden! — diz Hype. Ele me dá um abraço de lado. — Ainda fico arrepiado quando penso na sua batalha. Sem querer ofender, ’Preme, mas ela arrasou com seu filho. De lavada.

— Não posso negar — diz Supreme. — Por que você acha que eu quis ser o agente dela?

— Não condeno você — diz Hype. — E a música é insana. Claro, a controvérsia toda não é, mas pelo menos estão falando, né? Você sabe que meus ouvintes querem ouvir seu lado, Bri. Vamos só pedir pra você tentar reduzir os palavrões. Não temos tempo pras multas.

— Entramos ao vivo em um minuto, Hype — diz o câmera.

Hype aponta uma cadeira na frente dele, onde um microfone e fones de ouvido esperam.

— Senta aí, Bri — diz ele, e eu me sento. — ’Preme, você vai ficar?

— Não, vou ficar ali fora — diz Supreme. Ele se ajoelha ao lado da minha cadeira. — Olha, ele pode tentar fazer pressão — diz, mantendo a voz baixa. — Mas o Hype é assim mesmo. Não deixe que ele te irrite. Seja você mesma e diga o que estiver sentindo. Está bem?

Dizer o que eu estiver sentindo? Ele não deve saber o que estou sentindo.

— Entramos ao vivo em cinco segundos, Bri — diz Hype. — Quatro...

Supreme dá um tapinha no meu ombro e sai. Eu coloco os fones.

Hype levanta três dedos.

Dois.

Um.

— Bem-vindos de volta ao Hot Hour — diz ele no microfone. — Pessoal, temos uma convidada muito especial hoje. Se vocês me conhecem, sabem que um dos meus rappers favoritos de todos os tempos é Lawless, descanse em paz, meu irmão. Hoje, tenho o prazer de receber a filhinha dele no estúdio. Uma das músicas mais quentes do momento é dela, “Na hora da virada”, e fez as pessoas falarem. Claro que tínhamos que trazê-la ao Hot Hour . Bri, bem-vinda ao estúdio.

Ele toca um som de aplausos.

— Obrigada — eu digo no microfone.

— Pessoal, tive a oportunidade de ouvir Bri um tempo atrás no Ringue. Foi sua estreia, não foi?

— Foi.

— Pessoal, ela arrasou — diz ele. — Quando o programa acabar, abram o YouTube e procurem a batalha. Vocês vão ficar perplexos. Bri ia voltar ao Ringue, mas houve um pequeno incidente algumas semanas atrás. Vamos falar sobre isso depois. Agora, vamos falar sobre essa música! — Ele bate na mesa para comprovar o que disse. — “Na hora da virada.” Vocês pedem no programa o tempo todo. As crianças adoram. Muitos de nós, que somos mais velhos, gostamos. Mas há um abaixo-assinado em andamento para que seja removida do Dat Cloud porque algumas pessoas dizem que levou a uma revolta em uma escola. Outras pessoas dizem que é contra a polícia, blá-blá-blá. Como a artista por trás da música, o que você tem a dizer?

Supreme me mandou falar o que estou sentindo. O problema é que estou puta da vida.

— Que se danem.

Hype ri.

— Sem hesitação, né?

— Por que eu deveria hesitar? Eles não hesitaram na hora de partir pra cima de mim.

— Certo, certo — diz Hype. — Muita gente tem falado da natureza violenta da letra. Você acha que os versos encorajaram aqueles alunos daquela escola a agirem com violência?

Ele está falando sério?

— Você acha que metade das músicas que você toca encorajam as pessoas a agirem com violência?

— Mas estamos falando da sua música e dessa situação.

— Faz diferença? — eu digo. — Os alunos estavam chateados com outras coisas. Uma música não os levou a fazer nada. Todas aquelas pessoas estão me usando como bode expiatório em vez de perguntar quais são os problemas reais.

— Todas aquelas pessoas quem? — ele pergunta.

— Mano, o noticiário! — eu respondo. — A mulher do abaixo-assinado. Ela escreveu um artigo inteiro sobre mim, me fez parecer uma vilã e nunca se questionou por que os alunos estavam protestando. A letra não forçou ninguém a fazer nada. O protesto todo foi por causa...

— Ah, mas olha só — interrompe Hype —, até você tem que admitir que uma parte daquela letra é muito forte, garotinha. Você fala de estar armada, insinua que vai matar policiais...

Opa, opa, opa.

— Eu nunca insinuei nada sobre matar policial nenhum.

— “Se a polícia me agredir, aqui não vai ter pranto”? — pergunta ele em vez de dizer. — O que isso quer dizer?

Como ele interpretou isso como eu dizendo que vou matar alguém?

— Mano, quer dizer que vou ser vista como errada, independente do que eu faça! — Caramba, eu tenho mesmo que explicar essas coisas para ele? — “Como meu pai, não tema nada”, do último disco dele, Não tema nada . “Meu consolo é meu bairro junto em minha honra” quer dizer que se alguma coisa acontecer comigo, o Garden vai estar do meu lado. É isso. Eu nunca falei nada sobre matar policiais.

— Tudo bem, mas você consegue entender que algumas pessoas interpretaram da maneira errada, né?

— Não mesmo, de jeito nenhum.

— Olha, não estou tentando atacar você — alega Hype. — Eu amo a música. Mas não posso mentir, saber que uma garota de 16 anos está falando sobre andar armada e coisas assim me pegou de surpresa.

Não uma pessoa de 16 anos ter cantado um rap sobre isso. Mas uma garota de 16 anos ter cantado um rap sobre isso.

— Pegou você de surpresa quando meu pai cantou um rap sobre isso aos 16 anos?

— Não.

— Por quê?

— Ah, para com isso, você sabe por quê — diz Hype. — É diferente.

— Diferente como? Eu conheço garotas que andavam armadas aos 16, 17, que tiveram que fazer coisas idiotas pra sobreviver.

E que foram levadas por uma equipe da SWAT que não estava nem um pouco preocupada com o gênero delas.

— Mas é diferente, gatinha. Não sou eu que faço as regras — diz Hype. — A questão é, a gente devia mesmo acreditar que você está por aí dando pipoco nas pessoas assim? Ora, para com isso. Quem escreveu esses versos pra você?

Que porcaria é essa?

— A música não é sobre “pipoco” nenhum e fui eu que escrevi.

— Você escreveu a música toda? — pergunta ele. — E os versos da batalha?

Falando sério, que porra é essa?

— Eu escrevi a música e criei os versos livres na hora, como se faz numa batalha. O que você está tentando dizer?

— Calma, garotinha — diz Hype. — Olha, não tem nada de errado em ter um ghostwriter, tá? A questão é que os ghostwriters precisam escrever de forma autêntica para as pessoas. Não tem como você andar por aí cheia de armas.

Quer saber? Que se dane. Não importa o que eu diga ou faça. Todo mundo vai ter opinião formada sobre mim e sobre a música. Eu tiro os fones de ouvido.

— Estou fora.

— Opa, a gente não acabou, Li’l Law!

— Meu nome é Bri! — Parece que todos os ossos do meu corpo gritam isso.

— Tudo bem, Bri . Olha, não fica assim — diz ele com um sorrisinho debochado. Quero arrancar esse sorriso da cara dele, eu juro. — Estamos tendo uma boa conversa. Não precisa ficar com raiva.

— Você me acusou de não escrever minhas próprias letras! Como isso pode ser bom?

— Você não deve escrever suas próprias músicas se está ficando tão na defensiva assim.

A porta se abre e Supreme entra correndo.

— Bri, calma.

— Está tudo bem, ’Preme — diz Hype. — Se ela anda armada como diz na música, ela vai lidar comigo.

Ele bota uma faixa de gargalhadas.

Eu quase pulo por cima da mesa, mas Supreme me segura.

— Vai se foder!

— Aaahh, está vendo? Foi por isso que te expulsaram do Ringue. A garotinha aqui está de TPM. — Hype toca uma bateria para encerrar a “piada”.

Supreme praticamente tem que me arrastar. Passamos por vários funcionários da estação no corredor e eles olham e sussurram enquanto Hype faz outra “piada” nos alto-falantes. Não é problema pra mim dar uma surra em todos eles.

Supreme me leva para o saguão. Eu me solto das mãos dele.

Ele ri.

— Caramba. O que deixou você tão nervosa?

Tudo. Eu respiro fundo e pisco com força, mas meus olhos ardem mesmo assim.

— Você ouviu o que ele disse?

— Eu avisei que ele ia fazer pressão. É o que o Hype faz. — Supreme dá um tapinha na minha bochecha. — Você é um gênio, sabia? Fez exatamente o que eu falei tantas semanas atrás. Estou surpreso de você ter lembrado.

Olho para ele enquanto minha respiração finalmente alcança meu coração disparado.

— O quê?

— Você bancou a marginal do gueto. Sabe quanta publicidade vai conseguir com isso?

Parece que jogaram um balde de água gelada na minha cara.

Marginal do gueto.

Milhares de pessoas me ouviram agir assim. Outros milhões podem acabar vendo o vídeo. Ninguém vai ligar se minha vida estava um caos e se eu tinha direito de estar com raiva. Só vão ver uma garota negra do gueto com raiva, agindo como esperavam que eu agisse.

Supreme ri sozinho.

— Você interpretou bem o papel — diz ele. — Caramba, você arrasou no papel.

O problema é que eu não estava interpretando. Foi isso que eu me tornei.

VINTE E OITO

 

Peço ao Supreme para me levar até o Sal’s. Preciso ver meu irmão.

O celular do Supreme toca o caminho todo. Ele não consegue ficar parado e fica se balançando no banco.

— Opa! — Ele bate no volante como se estivesse dando um high five nele. — A gente vai receber uma grana, garotinha! Juro que essa é a melhor coisa que você poderia ter feito! A gente vai chegar lá!

Marginal do gueto. Três palavras, seis sílabas.

 

Todo mundo só vai ver uma garota preta,

A marginal do gueto que se mete em treta.

 

A placa de “fechado” está na porta do Big Sal’s quando Supreme me deixa lá. Ainda é de manhã e a pizzaria só abre na hora do almoço. Sal me vê espiando pelo vidro e me deixa entrar. Ela me diz que Trey está na parte de trás da loja.

É difícil dizer qual é a posição do Trey no Sal’s. Às vezes ele serve as mesas, outras vezes supervisiona os pedidos na cozinha. Hoje, está limpando o chão da cozinha.

Ms. Tique... quer dizer, Kayla está olhando ali de perto. Está usando os brincos de argola que usou no Ringue e um avental verde. Mas ela é bem menor do que pareceu no Ringue; não chega nem no ombro do Trey. Acho que o microfone a faz crescer de verdade.

Eles são as duas únicas pessoas na cozinha. Normalmente, o lugar está lotado de funcionários jogando massa de pizza no ar, gritando pedidos e colocando pizzas no forno. Está quase silencioso e parado demais hoje. Acho que as pessoas não chegaram ainda. É a cara do Trey chegar cedo.

Trey torce o esfregão no balde e começa a empurrar o balde para o depósito, mas Kayla diz:

— Não, senhor. Eu sei que você não vai deixar o piso assim.

— Assim como? — pergunta ele.

— Assim. — Ela aponta para um ponto específico. — Tem sujeira no chão, Trey.

Ele aperta os olhos.

— Aquele pontinho ali?

Kayla pega o esfregão.

— Está vendo, é por isso que você não precisa limpar.

— Ah, não?

— Não!

Trey sorri quando rouba um beijo rápido nos lábios dela.

— Mas eu preciso fazer isso?

— Humm... — Ela bate com o dedo no queixo. — O júri ainda está decidindo.

Trey ri e a beija de novo.

Acho que não era para eu ver isso, mas não consigo afastar o olhar. Não por uma questão de ser xereta, mas porque não vejo meu irmão feliz assim há um tempo. Os olhos dele estão brilhando e seu sorriso é tão largo quando olha para ela que é contagiante. Não estou dizendo que ele estivesse deprimido nem nada nos últimos meses, mas em comparação a como está agora, é difícil dizer que estava feliz.

Kayla afasta o olhar dele por tempo suficiente de me ver na porta.

— Trey.

Ele segue o olhar dela. O brilho some dos olhos dele e o sorriso desaparece. Ele se concentra na limpeza de novo.

— O que você está fazendo aqui, Bri?

De repente, tenho a sensação de que não devia estar ali e nunca senti isso perto de Trey. Ele estava em casa quando eu não tinha certeza do que era “casa”.

— Podemos conversar? — eu pergunto.

Ele não afasta o olhar da limpeza. Kayla segura o braço dele para fazê-lo parar.

— Trey — diz ela. Com firmeza.

Ele olha para ela. Há uma conversa muda entre eles, só com olhares. Trey suspira pelo nariz.

Kayla fica na ponta dos pés e beija a bochecha dele.

— Vou ver se Sal precisa de ajuda lá na frente.

Ela abre um sorriso triste para mim quando passa, como alguém faz quando você está de luto.

Qual é a questão aqui? Tia Pooh?

Trey esfrega o chão e parece que sou invisível para ele. Mesmo quando chego mais perto, ele não olha.

— Aconteceu alguma coisa? — eu pergunto. Mas quase tenho medo de saber. A resposta dele pode virar minha vida mais de cabeça para baixo ainda. — Jay...?

— Mamãe — corrige ele, concentrado no chão.

Não sei por que essa palavra não vem com facilidade para mim.

— Ela está bem?

— Ela estava no quarto quando eu saí.

— Ah. — É bizarro eu ficar meio aliviada por isso. — Alguma notícia da tia Pooh?

— Eles ainda estão processando ela. O que você quer, Bri?

Qual é o problema? Eu nunca tive que explicar por que queria vê-lo.

— Eu só queria falar com você.

— Você já não falou o suficiente por hoje?

É um tapa verbal do pior tipo.

Ele ouviu a entrevista. Das milhares de pessoas que ouviram, eu nunca considerei que uma delas poderia ser meu irmão.

— Trey, eu posso explicar.

Ele coloca o esfregão no balde e olha para mim.

— Ah, então você tem explicação pra agir como uma idiota na rádio?

— Ele me pressionou!

— Eu não falei que você não precisa responder tudo? Hein, Bri?

— Eu não vou ficar aguentando toda merda que jogam em mim!

— Você pode se defender sem agir assim! — diz ele. — Primeiro aquele vídeo no Instagram, agora isso? Qual é o seu problema?

Fico olhando para essa pessoa que alega ser meu irmão. Parece ele, mas não fala como ele.

— Você devia ficar do meu lado — eu digo, pouco mais do que um sussurro. — Por que está com tanta raiva de mim?

Ele quase joga o esfregão longe.

— Porque estou me matando por sua causa! Eu me arrasto até esse emprego por você! Trabalho muito pra que você fique bem! E você vai lá e estraga suas chances de ser alguém ao se exibir toda vez que tem a oportunidade!

— Só estou tentando nos salvar!

De alguma forma, minha voz sai fraca e alta ao mesmo tempo.

A fúria some dos olhos dele e é meu irmão mais velho quem está me olhando de novo.

— Bri...

— Estou cansada, Trey. — Lágrimas surgem nos meus olhos. — Estou cansada de não saber o que vai acontecer. Estou cansada de sentir medo. Estou cansada!

Há um movimento de pés e dois braços me envolvem com força. Eu escondo o rosto na camisa do Trey.

Ele passa as mãos nas minhas costas.

— Bota pra fora.

Eu grito até a garganta ficar ardendo. Perdi a tia Pooh. Posso estar perdendo a minha mãe. Perdi tanto o controle que perdi mais do que percebi. Eu estou perdida. Estou tão perdida que me sinto exausta de tentar encontrar meu caminho.

Trey me leva até um cantinho no fundo da cozinha que ele considera dele. Às vezes, quando o visito, eu o encontro sentado no chão lá, entre a geladeira e a porta da despensa. Ele diz que é o único lugar onde ele consegue se afastar do caos.

Trey desce até o chão e me ajuda a me sentar com ele.

Eu coloco a cabeça no colo dele.

— Me desculpe por ser um peso.

— Um peso? — diz Trey. — De onde você tirou isso?

De toda a nossa vida. Quando Jay ficou doente, ela sumia dentro do quarto por dias seguidos. Trey não conseguia alcançar todos os armários da cozinha, mas sempre me fez comer. Penteava meu cabelo e me arrumava para a pré-escola. Ele tinha 10 anos. Não precisava fazer nada disso. Depois, quando fomos morar com a vovó e o vovô, ele continuou cuidando de mim, sempre insistia em ler histórias todas as noites e me levar e me buscar na escola. Se eu tivesse um pesadelo sobre os tiros que mataram papai, Trey corria até o meu quarto e me consolava até eu pegar o sono.

Ele abre mão de tanta coisa por mim. O mínimo que posso fazer é chegar ao sucesso, para que ele não precise abrir mão de mais nada.

— Você sempre cuidou de mim — eu digo.

— Li’l Bit, eu faço isso porque quero — diz Trey. — Peso? Nunca. Você é um presente pra mim.

Presente. Uma palavra, três sílabas. Não sei se rima com alguma coisa porque é uma palavra que nunca pensei que seria usada para falar sobre mim.

De repente, parece que uma jaula foi destrancada e todas as lágrimas que guardei dentro de mim caem pelas minhas bochechas.

Trey as seca.

— Eu queria que você chorasse mais.

Dou uma risada.

— Dr. Trey está de volta.

— Estou falando sério. Chorar não te torna mais fraca, Bri, e, mesmo que tornasse, não tem nada de errado com isso. Admitir fraqueza é uma das coisas mais fortes que alguém pode fazer.

Eu me viro e olho para ele.

— Isso parece o tipo de coisa que o Yoda diria.

— Que nada. Yoda diria: “Fraqueza demonstrar, força na verdade é.”

Ele beija minha bochecha com um ruído alto e úmido.

Limpo o local rapidamente. Sei que senti a baba dele.

— Eca! Passando seus germes pra mim!

— Só por isso... — Trey beija minha bochecha de novo, fazendo ainda mais barulho, um beijo ainda mais molhado. Tento fugir, mas também estou rindo.

Ele sorri para mim.

— Sei que você acha que fiz muita coisa por você, Li’l Bit, mas você fez o mesmo por mim. Penso em tudo pelo que passamos e, se eu tivesse passado por tudo aquilo sozinho, provavelmente estaria onde Pooh está agora.

Droga. Tia Pooh disse que se tornou GD porque não tinha ninguém. Agora, ela está em uma cela de cadeia sem ninguém de novo. Eu nunca percebi que Trey poderia ter sido como ela, com ficha criminal no lugar do diploma. Sei que tem muitas outras coisas que fizeram com que as vidas dos dois seguissem rumos diferentes, mas ele faz parecer que a diferença entre eles fui eu.

Talvez não dependa de mim salvar a tia Pooh. Talvez dependa da tia Pooh se salvar por mim.

Talvez dependesse .

— Ela vai demorar muito pra sair, né? — eu pergunto.

— Provavelmente.

— O que a gente faz?

— A gente vive — diz ele. — Claro que vamos dar apoio a ela durante isso tudo, mas você tem que lembrar que ela fez escolhas, Bri. Ela sempre soube que havia uma chance disso acontecer, mas fez tudo mesmo assim. A culpa é dela. Ponto final.

A porta da cozinha se abre de leve e Kayla espia.

— Trey? Desculpa incomodar, mas Sal precisa da sua ajuda com uma coisa lá na frente.

Entendo isso como minha deixa para levantar. Trey também se levanta e me oferece a mão para ajudar.

— Chega de entrevistas no rádio, tá? — diz ele. — Um DJ na minha lista já basta.

— Que lista?

— Minha lista de surra. Se eu encontrar com ele na rua, vou quebrar a cara dele.

Dou uma risada enquanto ele beija minha bochecha. A verdade é que, mesmo quando está com raiva de mim, mesmo quando está tão decepcionado a ponto de gritar comigo, meu irmão sempre vai estar do meu lado.

VINTE E NOVE

 

Na segunda-feira, pela manhã, bato na porta do quarto da minha mãe.

Estou acordada há um tempo. Já me vesti, comi cereal e arrumei um pouco meu quarto. Jay ainda não saiu do quarto dela.

As primeiras duas batidas não geram resposta. Tento de novo, e meu coração bate com ainda mais força contra o peito. É preciso mais duas tentativas para eu ouvir a voz baixa:

— O que é?

Abro a porta lentamente. Não tem cheiro nenhum. Eu sei, é uma coisa estranha de se procurar... bem, farejar , mas ainda me lembro do odor que saía do quarto dela quando ela estava doente. Parecia de ovos podres e plástico queimado misturados. O crack fede.

O quarto está tomado de escuridão: as luzes estão apagadas e a persiana e a cortina estão fechadas. Mas consigo identificar o volume, embaixo de um monte de roupa de cama, que é a minha mãe.

— Eu só queria me despedir — eu digo. — O ônibus já está chegando.

— Vem cá.

Vou lentamente até a lateral da cama. A cabeça da Jay aparece embaixo do edredom. Metade do cabelo dela está protegida por um gorrinho. Deslizou parcialmente em algum momento, e ela parece não se importar a ponto de ajeitar. Seus olhos estão inchados e vermelhos e tem bolas de lenço de papel na mesa de cabeceira e espalhadas em volta do travesseiro.

Ela estica a mão e passa os dedos pelos cabelinhos das minhas raízes.

— O cabelo está crescendo na base dessas tranças. Vou precisar refazê-las em breve. Você comeu?

Eu faço que sim.

— Quer alguma coisa?

— Não, mas obrigada, florzinha.

Tem tantas coisas que eu queria dizer, mas não sei como. Como é que você diz para a sua mãe que está com medo de perdê-la de novo? O quanto é egoísta dizer “Preciso que você esteja bem para eu ficar bem”?

Jay aninha minha bochecha.

— Eu estou bem.

Eu juro, mães são equipadas com a capacidade de ler mentes.

Jay se senta e me puxa para perto. Eu me sento na beirada da cama. Ela passa os braços em volta do meu corpo pelas costas e beija minha nuca, depois apoia o queixo no meu ombro.

— Foram dois dias sombrios — admite ela baixinho. — Mas estou superando. Só precisava de um tempo. Estou pensando em ir ao centro ver Pooh amanhã. Quer ir? Podemos ir depois da sua aula preparatória do ACT.

Eu faço que sim.

— Alguma notícia do dr. Cook?

Já faz mais de uma semana desde que ela entregou o currículo para ele na reunião de pais e responsáveis. Sei que não é muito tempo, mas dias parecem anos ultimamente.

— Não — diz Jay soltando um suspiro. — Aquele pessoal do distrito escolar não deve querer uma ex-viciada em drogas trabalhando lá. Mas vai ficar tudo bem. Tenho que acreditar nisso.

— Mas você vai ficar bem?

Eu falo como se tivesse 5 anos. Sinto-me como se tivesse 5 anos. Eu me sentei na cama dela uma vez naquela época, encarei os olhos vermelhos das drogas e fiz a mesma pergunta. Um dia ou dois depois, ela me deixou junto com Trey na casa dos nossos avós.

Jay fica parada quando pergunto. Vários momentos se passam até que ela responda.

— Vou — diz ela. — Prometo.

Ela beija minha têmpora para selar o acordo.

 

Minha mãe se levantou e está trocando de roupa quando saio para esperar o ônibus.

Ela está fazendo isso por mim, eu sei. Está se fazendo de forte para que eu não tenha medo.

Eu me sento no meio-fio, coloco os fones de ouvido e aperto o botão aleatório do celular. “Apparently”, do J. Cole, começa a tocar. Canto junto enquanto ele fala sobre o inferno pelo qual a mãe dele passou. E sabe a parte em que ele diz que quer que o sonho o salve? Acho que nunca repeti palavras mais verdadeiras. Parece que ele sabia que eu estaria sentada no meio-fio em frente à minha casa, ouvindo essa música e precisando dela.

Eu costumava dizer que queria fazer aquilo por algum jovem. Que ele ou ela ouvisse minha música e sentisse cada palavra, como se fosse uma mensagem direta e especial. Ultimamente, só quero fazer sucesso.

A música para e o celular toca. O nome do Supreme aparece na tela.

— Li’l Law! — diz ele, assim que atendo. — Tenho grandes notícias!

— Outra entrevista no rádio?

Prefiro comer toda a comida requentada do mundo. E eu odeio comida requentada.

— É melhor! — diz ele. — Tem uns executivos que querem conhecer você.

Meu coração fica tão acelerado que de repente parece que estou correndo. Eu quase deixo o celular cair.

— Ex... — Nem consigo dizer a palavra. — Executivos? De gravadora?

— Ah, sim! — diz Supreme. — É agora, garotinha! É sua chance!

— Espera. — Eu boto a mão na testa. — Como... por quê... quando...

— Quando? Hoje à tarde — diz ele. — Por quê? A entrevista! A música! Como? Eles me procuraram. Querem ouvir o que mais você é capaz de fazer. Sei que você não tem nenhuma outra música gravada, então pensei que podíamos nos encontrar no estúdio, está bem? Pra você gravar alguma coisa com eles lá. Assim, eles podem ver seu potencial. Vamos praticamente garantir um contrato!

Pu. Ta. Merda.

— Você está falando sério?

— Seríssimo. — Ele ri. — Posso pegar você depois da aula e levar para o estúdio. Você acha que está bom?

Eu olho para a minha casa.

— Tenho certeza.

 

Assim que me sento no ônibus, remexo na mochila procurando o caderno. Preciso escrever uma música nova ou encontrar uma que já tenha escrito. Uma que seja tão irada que os executivos da gravadora pirem. Eu poderia apresentar “Desarmados e perigosos” desta vez, a música que escrevi depois que aquele garoto foi morto. Ou talvez eu precise de outra música que faça as pessoas entrarem no hype... ou melhor, que encha as pessoas de energia. Mesmo em um contexto diferente, eu me recuso a usar a palavra “hype” de novo.

Estou tão ocupada folheando as páginas que dou um pulo quando falam comigo.

— Oi.

Curtis dá um sorrisinho no banco atrás do meu.

— O que te deixou tão tensa, Princesa?

— Nada. Só não reparei em você aí. — Isso saiu errado. — Não que eu não fosse reparar em você. Só não reparei desta vez.

— Entendi o que você quis dizer. — Ele está com uma expressão quase maliciosa nos olhos, como faz quando conta uma das suas piadinhas. Desta vez, é uma piada interna entre nós dois. — E aí... como você está?

— Estou bem.

Não sei o que mais dizer. Essa é a parte dos relacionamentos na qual eu fracasso. É verdade que nem sei se temos um relacionamento. Na verdade, nunca estive em um. Mas o que se faz depois de um beijo? O que se diz? Essa é a parte que me incomoda.

Curtis se senta ao meu lado.

— Andei pensando em você. Andei pensando naquele beijo também.

— Ah.

Eu olho para o caderno. Deveria estar procurando uma música agora.

— Eu sei, não deve ter saído da sua cabeça desde que aconteceu, né? — diz ele. — Eu costumo ter esse efeito.

Eu olho para ele.

— O quê?

— Ah, só estou falando, minha qualidade de beijo? Cem por cento.

Eu caio na gargalhada.

— Você é tão convencido.

— Mas chamei sua atenção e fiz você sorrir. — Ele cutuca delicadamente uma das minhas covinhas. — É uma vitória pra mim. O que está rolando hoje, Princesa?

— Tem umas coisas acontecendo nessa história de rap — eu digo. — Você ouviu minha entrevista para o Hype, né?

— Todo mundo ouviu sua entrevista para o Hype. Você foi com tudo.

Eu apoio a cabeça no encosto.

— É. Pra alguém que já foi invisível, parece que estou compensando agora.

Ele franze a testa.

— Invisível?

— Curtis, você sabe muito bem que ninguém na escola sabia que eu existia antes de eu conseguir um pouco de fama como rapper.

Ele me olha de cima a baixo e lambe os lábios.

— Não posso falar por mais ninguém, mas eu sempre soube da sua existência. Eu queria puxar papo, Princesa. Mas você parecia tão envolvida com seu amigo Malik que eu achava que não tinha a menor chance.

— Espera, o quê?

— Eu achava que vocês dois estavam juntos — diz ele. — Você agia como se não pudesse andar com mais ninguém além dele e do Sonny.

— Não é verdade!

— É, sim. Fale outra pessoa com quem você ande.

É verdade, não tem mais ninguém.

— Eu sempre achei que mais ninguém queria andar comigo, pra ser sincera — admito.

— E eu sempre achei que você não queria andar com mais ninguém, pra ser sincero.

Caramba.

Quer dizer, não sei. Eu sempre fico constrangida perto de gente, eu acho. Quanto mais gente você tem na vida, mais gente pode sair da sua vida, sabe? Já perdi gente suficiente até agora.

Mas agora, Curtis me faz pensar se perdi alguma outra coisa.

— Quer saber? Que se foda — diz ele. — Quer sair comigo amanhã, pelo dia dos namorados?

Ah, caramba. Eu tinha esquecido que era amanhã. Sinceramente, o dia dos namorados nunca está no meu radar.

— Tipo um encontro?

— É. Um encontro. Você e eu. Podemos fazer alguma porra romântica.

— Hum, uau. Bom, primeiro que não posso amanhã. Vou ver minha tia. Segundo, tenho certeza de que vai ser muito romântico considerando a forma como você me convidou.

— O que tem de errado na forma como eu te convidei?

— Garoto, você disse “foda-se”, literalmente.

— Caramba, Princesa. Você não pode me dar uma trégua?

— Hum, não. Não se você vai me convidar pra sair.

— O quê? Você quer que eu capriche? — pergunta ele. — Eu posso caprichar.

O ônibus para na frente da casa do Sonny e do Malik. Eles sobem na hora que Curtis fica em pé no nosso banco. Falando sério, ele fica em pé no banco.

— Brianna com um nome do meio que não sei Jackson — diz ele, alto o suficiente para todo mundo ouvir.

— Garoto, desce daí! — grita o sr. Watson.

Curtis faz sinal de dispensa para ele.

— Bri, apesar de você ter compromisso amanhã, quer sair comigo em um encontro em algum momento pra gente fazer alguma porra romântica?

Meu rosto está quente. Todos os olhares do ônibus estão voltados para nós. Sonny ergue as sobrancelhas. A boca do Malik está entreaberta. Deon pega o celular e fala:

— Repete pra sair no Instagram, Curtis!

Ah, meu Deus.

— Curtis, senta — eu digo por entre dentes.

— Aceita, garota. Por favor.

— Sim, agora senta!

— Isso aí, ela disse sim! — Ele tem que anunciar, e algumas pessoas até batem palmas. Inclusive o Sonny. Curtis se senta ao meu lado, sorrindo. — Está vendo? Eu disse que posso caprichar.

Eu reviro os olhos.

— Você é tão exagerado.

— Mas você vai sair comigo mesmo assim.

Sim, eu também sorrio. Não, não consigo evitar. Não, não sei qual é o problema comigo.

E acho que está bom assim para mim.

O ônibus para em Midtown. Curtis desce com Deon, que diz na mesma hora:

— Mano, me ensina como você faz!

Ridículo.

Coloco os fones sobre os ouvidos e aumento o volume da música da Cardi. Ainda tenho que decidir o que vou fazer no estúdio. Além do mais, a música vai me salvar do interrogatório do Sonny, porque não posso responder se não conseguir ouvir as perguntas dele. Mas, quando desço do ônibus, ele não está me esperando na calçada. Quem está é Hana.

Ela está com uma prancheta embaixo do braço. A boca se mexe, mas não consigo ouvir de primeira.

Eu abaixo o volume.

— O quê?

— Podemos conversar? — pergunta ela, mais alto do que deveria.

— Estou ouvindo agora.

— Ah. Você tem um minuto?

Ali perto, Malik está concentrado demais no celular. Ele olha para nós, mas, quando nossos olhares se cruzam, desvia rapidamente para o celular de novo.

Ele ainda não está falando comigo. Eu não estou com humor para a namorada dele tentar consertar as coisas entre nós.

— O que foi? — eu pergunto para ela.

— O superintendente aceitou se encontrar com a aliança hoje, depois da aula — diz Hana. — Nós gostaríamos que você fosse conosco. Afinal, ele vai nos encontrar por sua causa.

Eu puxo os fones para o pescoço.

— O que faz você pensar isso?

— Ele disse que falou com você.

— Ah.

Mas ele não pode ligar para a minha mãe para falar de um emprego.

— É. E ele também disse que viu o vídeo da sua música e que isso deu uma nova perspectiva na situação do Long e do Tate. Parece que está ajudando nossa causa. Então, obrigada.

Um silêncio constrangedor cresce entre nós. O fato é que em uma das últimas conversas que tivemos eu cheguei pertinho de dar na cara de Hana. É difícil esquecer isso.

Ela limpa a garganta e mostra a prancheta.

— Vamos levar este abaixo-assinado para a reunião. Pede que ele retire os policiais armados como seguranças. Se conseguirmos assinaturas suficientes, pode ser que ele escute.

— Pode ser.

— É. A reunião começa às 16h na sala da banda...

— Eu tenho outros planos.

— Bri, olha, se a questão for eu e você, vamos deixar de lado o que for — diz Hana. — Você seria muito útil na reunião. Você tem uma voz que vão ouvir.

— Mas eu tenho mesmo outra coisa marcada.

— Ah.

O silêncio volta.

Tiro o lápis preso na orelha e faço sinal na direção da prancheta. Ela a vira, e escrevo meu nome em uma linha em branco.

— Boa sorte na reunião.

Coloco os fones sobre as orelhas e começo a andar na direção da escada.

— O Hype é um babaca — diz Hana.

Eu me viro.

— O quê?

— Ele não devia ter te tratado daquele jeito na entrevista. Muita gente te apoia. Vi nomes importantes falando disso no Twitter.

Não olho as redes sociais desde que tudo aconteceu. Existe um limite para o quanto se pode aguentar ser descrita como alguém que você não é.

— Obrigada.

— Não foi nada — diz ela. — A gente está com você, Bri.

A gente. Isso inclui o Malik. Houve uma época em que ele mesmo teria me dito isso. Ele não está mais tanto comigo se a namorada dele é quem tem que dizer isso por ele.

Acho que o perdi de vez.

— Obrigada — eu murmuro para Hana.

Eu me viro e corro escada acima antes que ela e o Malik possam ver como meus olhos ficaram úmidos.

Não importa que eu possa ter conquistado o Curtis e que possa estar a horas de conseguir tudo que quero. Vou perder o Malik, e isso ainda dói.

TRINTA

 

O estúdio para onde Supreme me leva faz o primeiro ao qual eu fui parecer um buraco.

Fica em um armazém antigo em Midtown, o bairro. Na verdade, não fica longe da escola. Uma cerca de ferro forjado envolve o estacionamento, e Supreme tem que nos identificar para os seguranças para podermos passar pelo portão.

Placas de platina e de ouro ocupam as paredes da recepção. Todos os lustres parecem ser de ouro e eles têm um dos maiores aquários que já vi na vida, com peixes tropicais nadando dentro.

Supreme aperta meus ombros.

— Você conseguiu, Li’l Law. É agora!

Ele está mais tranquilo quando fala para a recepcionista quem somos e quem viemos ver. Eu olho para as placas. Músicas e discos lendários foram gravados nesse lugar. Tia Pooh surtaria se visse algumas delas.

Não parece certo estar aqui sem ela.

Tem também o fato de que menti para a minha mãe. Mandei uma mensagem dizendo que ficaria na escola para fazer exercícios adicionais do preparatório para o ACT. Vou contar a verdade assim que chegar em casa. Porque, se esse encontro acontecer como espero que aconteça, estou prestes a mudar nossas vidas.

A recepcionista nos leva até um estúdio nos fundos. Durante todo o caminho, puxo os cordões do moletom e seco as palmas das mãos na calça jeans. Estão muito suadas. Meu almoço forma um bolo no meu estômago. Não sei se quero vomitar ou correr para dentro do estúdio.

— Fica calma — diz Supreme baixinho. — Grave a música como faria normalmente e tudo vai ficar bem, tá? Só siga minhas dicas nas outras coisas.

Outras coisas?

— Que outras coisas?

Ele só bate nas minhas costas com um sorriso.

A recepcionista abre a última porta do corredor e juro que paro de respirar. Ela abriu a porta do paraíso.

Tudo bem, estou exagerando, mas isso é o mais perto que cheguei das portas do céu. É um estúdio. Não um amontoado de equipamentos legais no quintal de alguém, mas um estúdio de verdade, profissional. Tem uma placa de som com centenas de botões, alto-falantes gigantes nas paredes, uma janela enorme que revela uma sala de gravação do outro lado. Não um microfone no canto, mas uma sala de gravação de verdade com um microfone de verdade.

Um homem branco mais velho de camisa polo, calça jeans e boné encontra Supreme na porta com um aperto de mão.

— Clarence! Faz tanto tempo!

Clarence? Quem é Clarence?

— Muito tempo, James — diz Supreme.

— Realmente — diz o homem que deve ser James. Ele se vira para mim e segura a minha mão com as suas duas. — A superstar! James Irving, CEO da Vine Records. É um prazer conhecer você, Bri.

Ah, merda.

— Já ouvi falar de você.

Ele passa o braço nos meus ombros, me mostrando para um latino tatuado sentado à mesa de som e para uma mulher branca de rabo de cavalo.

— Estão vendo? Já gostei dela. Ela ouviu falar de mim.

Ele ri. Só quando ele faz isso é que Supreme e os outros dois riem também.

James fica à vontade em um sofá de couro do outro lado da sala.

— Essa é minha chefe de Artistas e Repertório, Liz. — Ele aponta para a mulher, que assente para mim. — Tenho que dizer uma coisa, Bri. Estou muito feliz de você ter aceitado me deixar ver essa sessão no estúdio. Muito, muito feliz. É possível descobrir um monte de coisas sobre um artista ao ver como ele trabalha, sabe? Já vi alguns gênios na vida. Todas as vezes eu fico perplexo pra caralho, eu juro.

Ele fala muito rápido. É quase impossível acompanhar.

Supreme parece estar acompanhando direitinho.

— Cara, estou dizendo, você vai testemunhar uma porra sinistra. Fenomenal, até.

Eu olho para ele. Por que ele está falando assim?

— Ah, eu acredito. Nós ouvimos sua entrevista, Bri — diz James. — Eu já adorava a música, mas aquilo? Aquilo selou a decisão pra nós, sem brincadeira. A única coisa de que gosto mais do que rappers bons são rappers bons sobre os quais as pessoas gostam de falar.

— Pode crer — diz Supreme por mim. — A gente sabia que o Hype ia botar pressão. Falei pra ela que todo mundo ia falar sobre ela se ela perdesse o controle, sabe?

James vira um copo de uma bebida.

— É por isso que você é um gênio, Clarence. Eu ainda lembro o que você fez com o Lawless. Meu Deus, aquele cara poderia ter ido longe. Uma tragédia tão grande, sabe? Eu sempre digo pras pessoas, faça rap sobre a rua, mas deixe a rua na rua. Você pode agir como um marginal do gueto e não ser um.

Todos os centímetros do meu corpo estão tensos agora.

— Meu pai não era marginal.

Minhas palavras saem tão tensas e frias que silenciam a sala.

Supreme tenta rir de novo, mas a risada sai forçada. Ele segura meu ombro e aperta com força demais.

— A dor não passa, sabe como é? — ele me explica para James.

Eu afasto o ombro. Não preciso que ele explique. Falei o que queria dizer mesmo.

Mas James aceita as palavras dele como verdade.

— É compreensível. Meu Deus, não consigo imaginar. É cada absurdo que vocês do gueto têm que aguentar.

Ou eu sou só uma filha que não deixa as pessoas desrespeitarem seu pai. Que porra é essa?

Há uma batida na porta e a recepcionista a abre.

— Sr. Irving, o outro convidado chegou.

— Deixe ele entrar! — diz James, fazendo sinal para ela fazer isso. Ela abre a porta toda e Dee-Nice entra no estúdio.

Ele bate na mão do Supreme. Aperta a do James. Tira uma pasta de debaixo de um braço e passa para o outro para poder me dar um abraço de lado.

— E aí, garotinha? Está pronta pra fazer a música?

— Ah, está, sim — diz Supreme.

Dee-Nice mostra a pasta.

— Já preparei uma parte.

Então nós vamos fazer uma música juntos. Tudo bem, legal.

— Caramba, estou um pouco atrasada — eu digo. — Ainda não decidi que música do meu caderno quero gravar. Se vocês me derem uns vinte minutos, posso escrever...

Supreme ri e novamente gera um coral de gargalhadas.

— Que nada, garotinha. Dee escreveu uma música pra você.

Espera aí. Espera. Aí.

— Como é?

— Eu já ouvi a batida — diz Dee-Nice. — Escrevi ontem à noite. Preparei seus versos, o gancho, tudo.

— Ele me mostrou mais cedo — diz Supreme. — Estou dizendo, essa porra vai pegar fogo.

James bate palmas com empolgação.

— Oba!

Espera aí, para, volta, vai mais devagar, tudo isso.

— Mas eu escrevo minhas próprias músicas.

— Que nada — diz Supreme, como se eu tivesse perguntado se está frio. — Dee cuidou disso pra você.

Ele não ouviu o que eu disse?

— Eu que cuido.

Supreme ri, mas desta vez não parece que ele está achando graça. Ele parece olhar para todo mundo por trás das lentes escuras.

— Estão ouvindo? É ela quem cuida dela mesma. — Ele se vira para mim e a gargalhada sumiu. — Como falei, Dee cuidou de tudo pra você.

Dee me entrega a pasta.

Eu a abro. Em vez de rimas rabiscadas em um afolha de papel de caderno, como costumo fazer, Dee digitou uma música inteira. Tem versos, um gancho, uma ponte. Ele até escreveu uma introdução, como se eu não conseguisse falar uma coisa espontaneamente.

Continuar: parte 8 de 9