Na hora da virada
Colofon
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 9 partes.
Jay mexe no interruptor da cozinha. Nada acontece. Ela corre para o corredor e mexe no interruptor. Nada. Vai até o meu quarto, o banheiro, a sala. Nada.
A agitação acorda Trey. Ele vai para o corredor esfregando os olhos.
— O que houve?
— Desligaram a energia — diz Jay.
— O quê? Achei que tivéssemos mais tempo.
— Deveríamos ter! Aquele homem me disse... ele falou... eu pedi mais uma semana. — Jay esconde o rosto nas mãos. — Agora não, Deus. Por favor, agora não. Acabei de comprar tanta comida.
Que provavelmente vai estragar em menos de uma semana.
Porra. A gente podia ter penhorado a corrente e usado o dinheiro pra pagar a conta de luz. Porra. Porra. Porra.
Jay tira as mãos do rosto, se empertiga e olha para nós.
— Não. Nós não vamos fazer isso. Não vamos sentir pena de nós mesmos.
— Mas, mãe... — Até a voz do Trey soa rouca.
— Eu disse não, Trey. Estamos mal, mas não estamos tão mal assim. Está me ouvindo? Isso é só um contratempo.
Mas parece um golpe forte.
Só que o golpe forte ainda pode estar por vir.
Onze horas, vinte minutos. Ainda não tive notícias da tia Pooh.
VINTE E TRÊS
Como o fogão é elétrico, não podemos comer pain perdu . Então, como cereal.
Fico quieta no ônibus. Somos só eu e Sonny hoje. Sonny disse que passou na casa do Malik e tia ’Chelle disse que o Malik sofreu um acidente estranho e ficou de olho roxo. Ele vai ficar em casa para se recuperar. Obviamente, não contou o que realmente aconteceu, como eu pedi.
Eu devia ficar aliviada, mas só me sinto pior. Malik nunca falta aula. Portanto, ou o olho dele está bem ruim, ou ele está tão abalado que precisa de um dia de folga.
De qualquer modo, a culpa é minha.
Mas talvez seja uma coisa boa Malik não ir à escola hoje. Assim, ele não precisa ver os quatro policiais armados agindo como seguranças.
Ele e Hana estavam certos. Midtown considera todos os alunos negros e latinos como ameaças agora. Nós passamos pelos detectores de metal, como sempre, mas é difícil me concentrar em qualquer coisa além das armas na cintura dos policiais. Parece que estou entrando em uma prisão e não na escola.
Fico feliz de ir para casa no fim do dia, mesmo significando entrar em uma casa às escuras.
Parece que o meu cérebro fica repetindo uma playlist de todas as merdas que estão acontecendo na minha vida. A arma apontada para a minha cara. O artigo no site do jornal. Long e Tate me jogando no chão. Os policiais na escola. As luzes apagadas. A tia Pooh.
Vinte horas e nada de resposta.
A única coisa que me distrai um pouco são as cartas de Uno que Jay pega depois do jantar. Sem televisão e sem internet, não tem mais nada para fazer, então ela sugeriu fazermos uma noite de jogos em família. Mas ela e Trey não estão agindo tanto como família.
— Bam! — Trey bate com uma carta na mesa da cozinha. O sol ainda está alto, o que nos dá a luz que precisamos para jogar. — Coringa, pessoal! Isso aqui vai ficar tão verde como vocês quando eu der uma surra em vocês!
— Mentira — eu digo, e jogo uma carta verde.
— Garoto, pode sentar essa bundinha aí — diz Jay. — Você não fez nada, porque, bam! — Ela bate com uma carta na mesa. — Eu tenho um coringa e vamos voltar pro amarelo, garoto.
— Está bem, está bem. Vou deixar você ficar com essa — diz Trey. — Mas você vai se arrepender.
Os dois vão se arrepender. Estou deixando que eles falem. Eles não sabem que tenho dois coringas comprar quatro , um coringa simples, um pular amarelo e um reverter vermelho. Estou pronta pra tudo.
É nosso terceiro jogo e milagrosamente ainda estamos nos falando. O primeiro jogo ficou tão tenso que Jay saiu andando da mesa e deserdou nós dois. Ela é uma péssima perdedora.
Prova A? Eu coloco a carta amarela de pular na mesa e Jay me olha com uma expressão mortal.
— Você vai mesmo pular a sua mamãe? — pergunta ela.
— Hum, você não é a minha mamãe. Agora, é só uma garota que eu tenho que vencer.
— Rá! — exclama Trey.
— Você também não tem importância nenhuma pra mim, senhor.
— Rá! — Jay o imita.
— Bom, como eu não tenho importância nenhuma... — Trey levanta lentamente uma carta e faz “aahhhh”, como um coral divino, e diz: — Bam! Compra duas, mana.
Ah, mal posso esperar para jogar a carta de comprar quatro na cara dele.
Eu compro as duas e Deus existe. Tiro outro coringa e uma carta de pular. Nas palavras do grande e falecido filósofo Tupac Shakur: não sou assassino, mas não me pressiona.
É meio errado eu estar gostando disso. Estamos sem luz e tia Pooh pode estar...
Várias batidas altas na porta da frente me assustam.
Trey se levanta para atender.
— Relaxa, Bri. É só a porta.
O tempo fica lento e meu coração dispara no peito.
— Merda — sussurra Trey.
Vou vomitar.
— Quem é? — pergunta Jay.
— Vovó e vovô — responde ele.
Graças a Deus.
Mas minha mãe diz “Droga!”. Ela coloca a mão na testa.
— Deixa eles entrarem, Trey.
Quando a porta mal se abre, vovó diz:
— Por onde vocês andaram?
Ela entra na casa e espia cada aposento como se estivesse procurando alguma coisa. Farejando. Como conheço a minha avó, sei que ela está procurando drogas.
Vovô entra na cozinha atrás do Trey. Ele e a vovó estão usando roupas esportivas Adidas combinando.
— Nós estávamos passando por aqui e quisemos dar uma olhada em vocês — diz ele. — Não foram à igreja ontem.
— Não minta! — diz a vovó quando se junta a nós na cozinha. — Nós paramos de propósito! Eu tinha que ver meus netinhos.
Faz sentido.
— Nós estamos bem, sr. Jackson — diz Jay para o vovô e a vovó. — Só decidimos ficar em casa ontem, só isso.
— Nós mal entramos na sua casa e você já está mentindo — diz a vovó. — Vocês não estão bem. Que coisa é essa da Brianna fazer músicas vulgares?
Meu Deus, agora não.
— A esposa do pastor me procurou ontem depois do culto e disse que os netos dela e do pastor estavam ouvindo uma porcaria que Brianna tinha gravado — diz a vovó. — Disse que é tão ruim que apareceu no noticiário. Vocês gostam de me fazer passar vergonha!
— A gente não precisa fazer o menor esforço — resmunga Jay.
Vovó aperta os olhos e coloca a mão no quadril.
— Se você tiver alguma coisa pra me dizer, diga.
— Quer saber? Na verdade, eu tenho...
— Nós já sabemos sobre a música — diz Trey antes que a Terceira Guerra Mundial comece. — Mamãe já conversou com Bri. Está tudo bem.
— Não está, não — diz vovó. — Eu já engoli muito sapo por causa de você e da sua irmã...
Hum, vovó nunca engoliu sapo nenhum.
— Mas isso? Isso é a gota d’água. Brianna não agia assim quando morava com a gente. Não fazia músicas vulgares e nem era suspensa da escola. Todo mundo na igreja está falando dela. Um horror!
Vovô mexe no botão do relógio do fogão, como se a vovó não tivesse dito nada. Ele é profissional em se desligar dela.
— Jayda, quando este relógio aqui parou de funcionar?
Se o vovô vê um problema, ele tenta consertar. Uma vez, estávamos no meu pediatra quando eu era mais nova, e uma luz na sala de espera ficava piscando. É verdade, o vovô perguntou se a enfermeira tinha uma escada. Ele subiu lá e consertou.
Jay fecha os olhos. Se estiver prestes a contar o que eu acho que ela vai contar, vai rolar uma explosão.
— Estamos sem luz, sr. Jackson.
— O quê? — berra a vovó.
— Por que você está sem luz? — diz o vovô. — É aquela caixa de fusíveis, não é? Eu vivo dizendo que precisa ser trocada.
— Não, não — diz Jay. — A luz foi desligada pela empresa de energia. Estamos com um pagamento atrasado.
Há um momento de calma antes da tempestade.
— Eu sabia que tinha alguma coisa acontecendo — insiste a vovó. — Geraldine disse que a filha achou que tinha visto você entrar na sede da assistência social onde ela trabalha. Era você, não era?
Meu Deus, a sra. Geraldine. A melhor amiga da vovó e companheira de fofoca. Vovó diz “Geraldine falou” quase tanto quanto respira.
— Sim, era eu — admite Jay. — Fui pedir cupons de comida.
— Jayda, você poderia ter pedido ajuda — diz o vovô. — Quantas vezes eu preciso dizer?
— Tenho tudo sob controle — diz Trey.
— Garoto, você não tem nada sob controle — diz o vovô. — Vocês estão sem luz.
Vovó levanta as mãos.
— Já chega. Não aguento mais. Brianna e Trey vêm com a gente.
Trey levanta as sobrancelhas.
— Hum, oi, tudo bem? Eu tenho 22 anos.
— Não quero saber quantos anos você tem. Você e Bri não precisam sofrer assim.
— Sofrer? — diz Jay. — Eles têm casa, roupas, cuidei pra que tivessem comida...
— Mas eles não têm luz! — diz a vovó. — Que tipo de mãe você...
— A pior coisa que já fiz foi ficar pobre, sra. Jackson! — Jay fala alto, com rispidez. Parece que a voz dela está usando cada centímetro do corpo. — A pior coisa! Já chega! Peço licença por ter a audácia de ser pobre!
Trey toca no ombro dela.
— Mãe...
— Você acha que eu quero meus bebês na escuridão? Eu estou tentando, sra. Jackson! Vou a entrevistas, larguei os estudos pra essas crianças terem comida! Implorei pra igreja não me despedir. Lamento se não basta pra você, mas, Senhor, como eu estou tentando!
Vovó se empertiga.
— Eu só acho que eles merecem mais.
— Bom, nisso a gente concorda — diz Jay.
— Então eles deviam vir morar com a gente — diz a vovó.
Trey levanta as mãos.
— Não, vovó. Eu vou ficar aqui. Não vou mais ser a corda nesse cabo de guerra de vocês.
— Eu nunca vou pedir desculpas por lutar pelos bebês do meu filho! — diz vovó. — Se você quer ficar aqui, é você que sabe. Não vou forçar você, Lawrence. Mas Brianna vem com a gente.
— Pode parar, Louise — diz vovô. — A garota tem idade pra decidir sozinha. Li’l Bit, o que você quer?
Eu quero comida. Quero luz. Quero segurança.
Tem uma expressão que já vi no rosto da minha mãe. É a mesma do dia em que ela voltou da reabilitação. Mas, naquele dia, também havia lágrimas nos olhos dela. Ela tirou meu cabelo do rosto e fez uma pergunta: “Brianna, você sabe quem eu sou?”
Aquela expressão era medo. Na ocasião, não entendi. Agora, entendo. Ela ficou tanto tempo longe que ficou com medo de eu tê-la esquecido.
Voltando para agora, ela está morrendo de medo de eu abandoná-la.
Posso não saber se vamos ter luz de novo ou se vamos ter comida, mas sei que não quero mais ficar longe da minha mãe.
Eu olho para ela quando respondo.
— Eu quero ficar aqui.
— Então pronto — diz Trey. — Aí está sua resposta.
— Tem certeza, Li’l Bit? — pergunta vovô.
Eu não afasto o olhar da minha mãe. Quero que ela saiba que estou falando sério.
— Tenho, sim.
— Tudo bem. — Vovô pega a carteira. — De quanto é essa conta de luz, Jayda?
— Não vou poder pagar tão cedo, sr. Jackson.
— Shh. Não falei nada sobre pagamento. Você sabe muito bem que o Júnior teria um ataque se eu não...
Os lábios da vovó estão tremendo. Ela dá meia-volta e sai. A porta da frente bate.
Vovô suspira.
— A dor é uma coisa horrível. Acho que Louise se agarra a essas crianças porque é como se agarrar a ele.
Vovô remexe na carteira e coloca dinheiro na mão da minha mãe.
— Me ligue sempre que precisar.
Ele beija a bochecha dela e a minha. Dá um tapinha nas costas de Trey e sai.
Jay olha para o dinheiro por muito tempo.
— Uau — diz ela com voz rouca.
Trey massageia o ombro dela.
— Ei, Li’l Bit. Por que você não pega a minha chave e leva nosso celular para o meu carro? Pra carregar.
Isso é código para “Jay precisa de espaço”. Acho que ela vai chorar na frente do Trey, mas não na minha frente. Isso é por ele ser o mais velho.
Eu faço que sim.
— Tudo bem.
Eu saio e ligo o Honda dele. Trey tem um daqueles carregadores que serve para vários celulares ao mesmo tempo. Ligo o dele e o da Jay. Quando pego o meu, ele toca.
Droga. Não é a tia Pooh. O nome de Supreme aparece na tela.
Tento não parecer decepcionada quando atendo no viva-voz.
— Oi, Supreme.
— E aí, garotinha? — diz ele. — Tenho novidades.
— Ah, é?
Posso não parecer decepcionada, mas não consigo me obrigar a parecer animada. A não ser que Supreme esteja prestes a me contar que conseguiu um contrato, nada pode me animar. E nem isso pode salvar a tia Pooh.
— Ah, sim. Hype quer que você participe do programa dele no próximo sábado. Ele viu o abaixo-assinado e a notícia e quer te dar a chance de falar.
— Ah, uau.
O DJ Hype é mais do que só o DJ do Ringue. Ele é uma lenda do rádio. Acho que não há ninguém fã de hip-hop no mundo que não tenha ouvido o Hype’s Hot Hour na estação Hot 105. O programa passa ao vivo no país todo e todas as entrevistas vão para o canal do YouTube. Algumas até viralizam, mas normalmente só se um rapper faz papel de bobo. Só que o Hype é conhecido por fazer a pressão certa e fazer as pessoas agirem como bobas.
— Pois é. Claro que ele vai querer falar do incidente no Ringue, do vídeo do Instagram. Até daquele videozinho que você divulgou ontem. — Supreme ri. — É criativo, tenho que admitir.
Droga, eu também tinha me esquecido disso.
Espera, mas por que ele chamaria de videoz inho ? Como se não fosse grande coisa.
— O vídeo é pra explicar a música.
— Deixe a música falar por si — diz ele.
— Mas as pessoas estavam dizendo...
— Olha, vamos falar disso depois — diz ele. — Isso é uma oportunidade importante, tá? Estou falando de mudança de vida. Vai botar você na frente de uma plateia bem maior. A única coisa que preciso é que você esteja pronta. Tudo bem?
Olho para a última mensagem que mandei para a tia Pooh. Como posso estar pronta para qualquer coisa se não sei nada sobre ela?
Mas me forço a responder.
— Estarei pronta.
VINTE E QUATRO
Faz quase cinco dias inteiros e a tia Pooh ainda não me respondeu.
Não sei o que fazer. Conto para a minha mãe ou para o meu irmão? Eu poderia, mas talvez não valha o drama se, no fim das contas, ela não tiver feito nada. Ligo para a polícia? As duas opções são péssimas. Eu teria que contar que a tia Pooh talvez tenha cometido um assassinato, o que é basicamente dedurar. Não só isso, mas que cometeu um assassinato por ordem minha.
Estou sem opções e cheia de medo.
O bom é que não estamos mais sem luz. Vovô deu dinheiro suficiente para minha mãe pagar a conta e para comprarmos mais comida. Como as luzes voltaram, o fogão está funcionando. Eu não sabia o quanto gostava de comida quente. As coisas estão melhorando.
Mas a escola é outra história. Primeiro, ainda parece uma prisão. Segundo, tem o Malik. Ele entrou no ônibus na terça de manhã e se sentou com a Hana. O olho só estava meio roxo e o inchaço tinha diminuído. Acho que ele ainda não contou para ninguém o que aconteceu. É nosso segredinho.
É tão secreto que ele não só não fala comigo sobre o que aconteceu como também não fala comigo, ponto.
Eu entendo o porquê. Sinceramente, odeio colocá-lo nessa posição. Droga, odeio estar nela. Mas ele tem que saber que, se alguém souber disso, vai ser tão ruim quanto dedurar a tia Pooh. E a mim.
Vou tentar falar com ele à noite, depois da reunião dos pais e responsáveis com o superintendente. O auditório da Midtown está lotado. A dra. Rhodes está falando com um homem de terno e gravata. Não muito longe, a sra. Murray conversa com outros professores.
Sonny e eu seguimos nossas mães e a tia ’Chelle pelo corredor do meio. Jay ainda está usando a saia e a blusa que colocou para uma entrevista hoje. Ela até levou a pastinha na qual carrega os currículos. Tia ’Chelle veio direto do tribunal, com o uniforme de segurança, e tia Gina saiu cedo do salão de beleza. Ela diz que as quartas-feiras são dias lentos mesmo.
Malik está com Hana e algumas outras pessoas da aliança. Eles estão nos corredores laterais, segurando pôsteres para o superintendente ver, com coisas como “Preto ou latino não deveria significar suspeito” e “Subsídios são mais importantes do que alunos?”
Sonny se inclina na minha direção.
— Você acha que a gente devia ir pra lá?
Do outro lado do salão, Malik ri de uma coisa que Hana diz. Ele está no modo Malik X total, com um punho de madeira do movimento black power pendurado em um cordão. O cartaz dele diz: “Escola ou prisão?”. E tem a imagem de um policial armado.
A última coisa que ele deve querer é que eu vá para lá.
— Não — eu digo. — Deixa Malik fazer as coisas dele.
— Vou ficar feliz quando vocês dois resolverem o que está acontecendo — diz Sonny.
Eu menti e disse para ele que Malik e eu brigamos depois que ele foi cuidar das irmãzinhas. Tecnicamente, não é mentira. Há uma discussão entre nós. Só não aconteceu. Ainda.
Tia Gina encontra lugares para nós na frente. Nós mal nos sentamos quando um homem latino calvo vai até o microfone.
— Boa noite, pessoal. Sou David Rodriguez, presidente da Associação de Pais e Professores da Escola de Artes Midtown — diz ele. — Obrigado por virem hoje. Acho que posso falar por todo mundo quando digo que há preocupações relacionadas aos eventos recentes aqui na escola. Convido o superintendente Cook ao microfone para discutir os próximos passos e responder perguntas que possamos ter. Por favor, deem as boas-vindas a ele.
O homem branco mais velho que estava falando com a dra. Rhodes vai até o microfone sob aplausos educados.
Ele começa dizendo como Midtown é um “farol de luz” no distrito escolar; é uma das escolas com melhor desempenho, uma das que mais tem diversidade, e se gaba de ter uma das taxas de formatura mais altas. Ele é do tipo que agrada a plateia, considerando o quanto nos diz para aplaudirmos a nós mesmos pelas realizações.
— Acho que estamos todos tristes com o que aconteceu na semana passada — diz ele —, e quero que vocês saibam que o distrito escolar está comprometido em garantir que Midtown seja um lugar de segurança e excelência. Dito isso, convido todos a fazerem perguntas ou os comentários que acharem adequados.
Conversas são iniciadas por todo lado. Pais e alunos fazem fila nos microfones dos dois lados do salão. Minha mãe é uma delas.
A primeira pergunta vem de um pai: como uma coisa assim aconteceu?
— Por causa de uma investigação em andamento, não posso entrar em muitos detalhes no momento — diz o superintendente Cook. — No entanto, a informação será revelada quando for possível.
Outro pai pergunta sobre os detectores de metais, revistas aleatórias e policiais armados.
— Isso aqui não é uma prisão — diz ele. Ele tem sotaque, como se o espanhol fosse sua língua materna. — Não entendo por que nossos filhos precisam ser sujeitos a esse tipo de medida de segurança.
— Devido ao aumento de crimes na região, achamos melhor para a segurança dos alunos se aumentássemos a segurança aqui — diz o superintendente Cook.
Ele não explica os policiais. Mas nós todos sabemos por que eles estão aqui agora.
Sonny bate no meu braço e faz sinal na direção do outro microfone. Hana é a próxima.
Ela limpa a garganta. Primeiro, não diz nada. Alguém grita “Fala, Hana!”, e duas pessoas aplaudem, inclusive Malik.
Ela olha direto para o superintendente.
— Meu nome é Hana Kincaid. Sou do segundo ano do ensino médio. Infelizmente, é diferente para mim e para os alunos com aparência similar à minha aqui nesta escola, dr. Cook. Tanto o segurança Long quanto o segurança Tate eram conhecidos por mirarem em alunos negros e latinos bem mais do que em qualquer outro. Nós tínhamos mais chance de sermos revistados, de nossos armários serem abertos aleatoriamente, de termos que passar pelo detector de metais uma segunda vez. Vários de nós passaram por altercações físicas com eles. Agora que policiais armados foram trazidos para cá, sinceramente, muitos de nós temem pelas próprias vidas. Nós não devíamos ter esse medo ao virmos para a escola.
Há uma explosão de aplausos e gritos, principalmente do pessoal da aliança. Eu aplaudo junto.
— Não é segredo que Midtown precisa de alunos como eu para receber subsídio — diz Hana. — Mas os alunos como eu não se sentem bem-vindos aqui, dr. Cook. Nós somos só cifrões ou somos seres humanos para vocês?
Eu também aplaudo isso. A maioria dos alunos aplaude.
— A revolta da semana passada foi resultado de frustração — diz Hana. — Muitos de nós fizeram reclamações contra os seguranças Long e Tate. Há um vídeo que os mostra agredindo fisicamente uma aluna negra. Mas eles tiveram permissão de voltar ao trabalho. Por quê, dr. Cook?
— Srta. Kincaid, agradeço sua participação — diz o dr. Cook. — Concordo que racismo e segregação racial são inaceitáveis. No entanto, por causa da investigação em andamento, não posso falar muitas coisas sobre aquele incidente específico.
— O quê? — eu digo enquanto meus colegas vaiam e gritam.
— Nós devíamos pelo menos saber por que eles tiveram permissão de voltar ao trabalho! — diz Hana.
— Calma — diz o dr. Cook para todo mundo. — Srta. Kincaid, agradeço pelo seu tempo. Próxima pergunta.
Hana começa a dizer outra coisa, mas a professora Murray aparece e sussurra alguma coisa no ouvido dela. Hana fica frustrada, mas deixa que a professora Murray a leve até uma cadeira.
Uma mulher branca de meia-idade fala no outro microfone.
— Oi, meu nome é Karen Pittman — diz ela. — Não é bem uma pergunta, mas um comentário. Tenho um filho no primeiro ano aqui em Midtown. É meu terceiro filho nesta escola maravilhosa. Meu filho mais velho se formou sete anos atrás, antes que as várias iniciativas fossem postas em ação. Nos quatro anos em que ele estudou aqui, não havia seguranças. É possível que meu comentário não seja muito popular, mas acho que é preciso observar que as medidas de segurança só foram aumentadas depois que alunos de certas comunidades vieram para cá, e foi correto fazerem isso.
Tia ’Chelle se vira completamente na cadeira para olhar para a mulher.
— Ah, eu queria que ela falasse. Ahh, queria que ela falasse.
Basicamente, ela falou. Todo mundo sabe o que ela quer dizer.
— Armas foram trazidas para a escola — alega Karen. — Atividade de gangues. Se não estou enganada, os seguranças Long e Tate apreenderam uma traficante aqui.
Ela está tão enganada que chega a ser engraçado. E atividade de gangue? O mais perto que tivemos de uma guerra de gangues foi quando o pessoal do teatro e o pessoal da dança tentaram fazer flashmobs um contra o outro. A coisa ficou séria quando os dois escolheram números do musical Hamilton .
— O nome dela tinha que ser Karen — diz Sonny. — Aposto que ela bota passas na salada de batata.
Dou um sorrisinho e cruzamos nossos braços sobre o peito. Wakanda pra sempre.
— Como todo mundo — diz Karen, mas há muito barulho na plateia. — Como todo mundo, eu vi os vídeos do incidente e fiquei perplexa. Não houve respeito à autoridade por parte de muitos dos nossos alunos. Usaram uma música vulgar e violenta para provocar dois cavalheiros que só estavam fazendo seu trabalho. Uma música que meu filho diz que foi feita por uma aluna e que fala especificamente deles. Não podemos e não devemos permitir que nossos filhos sejam expostos a esse tipo de coisa. Eu assinei um abaixo-assinado hoje de manhã para que a música seja tirada da internet. Encorajo outros pais a fazerem o mesmo.
Que se danem Karen e o filho dela.
— Obrigado, sra. Pittman — diz o superintendente Cook. Karen recebe uma mistura de aplausos e vaias quando volta para seu lugar. — Próxima pergunta, por favor.
Chegou a vez da Jay. De onde estou, quase consigo ver o vapor saindo dela.
— Vai, tia Jay! — grita Sonny. A mãe dele e a tia ’Chelle batem palmas para ela.
— Superintendente Cook — diz ela ao microfone. — Jayda Jackson. É um prazer finalmente falar com o senhor.
— Obrigado — diz ele, com um sorrisinho.
— É uma pena que tenha demorado tanto. Durante semanas, deixei mensagens de voz, mas ainda não recebi retorno.
— Peço desculpas. Estou extremamente atrasado com...
— Minha filha foi a aluna agredida fisicamente pelos seguranças Long e Tate no mês passado — diz Jay, interrompendo-o. — Quer saber por quê? Ela vendia doces, dr. Cook. Não drogas. Doces.
Jay se vira com o microfone e olha para Karen.
— Enquanto alguns de nós têm medo do impacto que músicas vão ter nos nossos filhos, há pais que simplesmente morrem de medo pela segurança dos filhos nas mãos das pessoas que deveriam protegê-los.
Há muitos aplausos. Tia ’Chelle grita:
— Isso mesmo!
— Muitas dessas crianças têm medo de andar neste bairro porque pessoas bem-intencionadas podem ter a ideia errada — diz ela. — Em casa, elas têm medo porque pessoas não tão bem-intencionadas podem colocá-las em perigo. Você está me dizendo que elas precisam vir à escola e enfrentar o mesmo problema?
Mal conseguimos ouvi-la por causa dos aplausos.
— O fato, superintendente — diz Jay — é que a revolta na sexta-feira foi em reação ao que aconteceu com a minha filha. Aqueles dois voltaram ao trabalho depois de agredi-la, como se o que fizeram fosse certo. É esse tipo de mensagem que você quer passar aos seus alunos? Que a segurança de alguns é mais importante do que a segurança de outros? Se esse for o caso, não há preocupação pela segurança de todos eles.
Ela é aplaudida de pé por metade das pessoas presentes. Eu aplaudo mais do que todo mundo.
O superintendente Cook está com o sorriso mais desconfortável do mundo enquanto espera os aplausos passarem.
— Sra. Jackson, lamento que você sinta que o distrito escolar não tenha sido proativo em relação ao incidente com a sua filha; entretanto, uma investigação está sendo feita.
— Você lamenta que eu sinta... — Ela se controla, como se estivesse a um segundo de explodir. — Isso não é um pedido de desculpas, superintendente. No que diz respeito a essa investigação, ninguém falou comigo e nem com a minha filha. Não é uma investigação válida.
— Está em andamento. Mais uma vez, lamento que você sinta que não tenhamos sido proativos. No entanto, no momento, não posso...
Basicamente, ele disse isso ao longo de toda a reunião. Quando acaba, são tantos os pais e alunos que vão para cima do dr. Cook que um policial tem que ajudá-lo a passar.
Malik está de lado. Talvez agora eu possa tentar...
Jay pega a minha mão.
— Vem.
Ela abre caminho na multidão e vai até as costas do dr. Cook quando ele chega no saguão.
— Dr. Cook! — chama ela.
Ele olha para trás. O policial faz sinal para ele seguir, mas o dr. Cook levanta a mão e se aproxima de nós.
— Sra. Jackson, certo?
— Sim — diz Jay. — Esta é minha filha, Brianna, a aluna que foi agredida. Podemos ter um momento do seu tempo agora, já que você não retorna as minhas ligações?
O dr. Cook se vira para o policial.
— Nos dê alguns minutos.
O policial assente e o dr. Cook nos leva para uma sala cheia de objetos grandes e cobertos por sombras. Ele acende um interruptor e revela baterias e instrumentos de sopro.
O dr. Cook fecha a porta.
— Sra. Jackson, mais uma vez peço as mais sinceras desculpas por não termos nos falado antes.
— É uma vergonha — diz Jay. Ela não é do tipo que mente, nem para ser educada.
— É mesmo. A responsabilidade disso é toda minha. — Ele estica a mão para mim. — É um prazer conhecer você, Brianna.
De primeira, não aperto a mão dele. Jay assente para mim e só então faço isso.
— Quero que você olhe para ela por um segundo, dr. Cook — diz Jay. — Que olhe mesmo .
Ela coloca a mão nas minhas costas e não tenho escolha além de empertigar as costas e o encarar.
— Ela tem 16 anos, sr. Cook — diz Jay. — Não é uma mulher adulta, não é uma ameaça. É uma criança. Você sabe o que senti quando soube que dois homens adultos tinham agredido fisicamente a minha filha ?
Os olhos do dr. Cook estão cheios de pena.
— Só posso imaginar.
— Não pode, não — diz Jay. — Mas essa não foi a primeira ligação que recebi sobre a minha filha, dr. Cook. Brianna sabe ser argumentativa, sou a primeira a admitir isso. Infelizmente, ela herdou isso de mim.
Olha só ela, não colocando a culpa no meu pai pela primeira vez.
— Mas ela foi enviada para a diretoria por “comportamento agressivo” simplesmente por revirar os olhos. O senhor pode olhar o histórico dela. Peço que faça isso. Leia os relatórios de quando ela foi enviada para a diretoria ou suspensa e me diga se alguma daquelas situações realmente pedia uma consequência dessas.
“Eu só tenho duas opções para a minha filha, dr. Cook. Duas. Ou ela vai para a escola do nosso bairro ou vem para cá. Naquela escola, não preparam os alunos para o sucesso, mas aqui? Está começando a parecer que estão preparando minha filha para fracassar. O que devo fazer como mãe? O que o senhor vai fazer como superintendente?”
O dr. Cook fica em silêncio no começo. Ele suspira.
— Espero que bem mais do que já fiz. Lamento por termos falhado com você, Brianna.
Uma palavra, três sílabas: lamento.
Ele sabe por quanto tempo
Não ouvimos a palavra “lamento”?
Eu pisco antes de lágrimas demais se acumularem.
— Obrigada.
— Você me deu muito em que pensar e sobre o que agir, sra. Jackson — diz o dr. Cook. — Por favor, fique à vontade para me procurar com qualquer preocupação que qualquer uma de vocês duas possa ter. Posso demorar um pouco para retornar, mas retornarei.
— Porque o senhor está sem secretária, certo? — diz Jay. — Eu vi a vaga no site do distrito escolar.
— Ah, sim. Eu praticamente preciso de uma secretária para marcar os horários das entrevistas das candidatas a secretária — brinca ele.
Jay enfia a mão na pasta e tira uns papéis.
— Sei que não é o protocolo adequado para se candidatar a uma vaga de emprego, mas pensei, por que não? Aqui está meu currículo junto com as minhas referências. Tenho vários anos de experiência como secretária.
— Ah — diz o dr. Cook, obviamente surpreso. Mas ele aceita os papéis e tira os óculos.
— Antes que o sr. pergunte, o período sem emprego é devido a um vício antigo em drogas — diz Jay. — No entanto, comemorei recentemente meu oitavo ano de sobriedade.
— Uau. Isso é louvável, sra. Jackson.
Agora, é Jay quem parece surpresa.
— É mesmo?
— É — diz ele. — Mostra sua determinação. É uma boa característica de personalidade. Estou sóbrio há trinta anos do alcoolismo. Tenho que levar um dia de cada vez. Só consigo imaginar o tipo de força de vontade que a senhora deve ter. Você devia sentir orgulho.
Pelo que parece, Jay nunca pensou assim. Eu também não, sinceramente. Sinto orgulho dela, mas sempre encarei como se ela tivesse se livrado das drogas e pronto. Ela dizia que foi para a reabilitação para conseguir encontrar o caminho de volta para mim e para Trey. O dr. Cook faz parecer que ela luta por si própria também.
Ele guarda o currículo e as referências dela no bolso interno do paletó e estica a mão para ela.
— Entrarei em contato.
Jay parece atordoada quando aperta a mão dele.
Quando saímos da sala da banda, todo mundo já foi embora. Tia Gina, tia ’Chelle, Sonny e Malik estão nos esperando no estacionamento.
— Meu Deus, se eu conseguir esse emprego — murmura Jay. — Benefícios, meu Deus. Benefícios!
Há empregos e há empregos com benefícios. É uma grande diferença. Sempre que alguém na família consegue um emprego, a primeira pergunta é: “Tem benefícios?”
Jay conta na mesma hora para tia ’Chelle e tia Gina o que acabou de acontecer. Elas ficam tão felizes que sugerem sairmos para jantar em uma pré-comemoração, por conta delas. Nada está garantido, mas tenho certeza de que elas só querem tirar a cabeça da minha mãe das outras coisas.
Eu normalmente topo comida grátis, mas comida grátis com a minha mãe e as amigas? Eu faço que não.
— Não, obrigada. Não posso sair pra comer com vocês três.
Sonny cai na gargalhada, pois ele sabe o motivo. Malik não dá um sorrisinho e nem me olha.
Jay apoia a mão no quadril.
— Qual é o problema de sair conosco?
— Qual não é o problema? — eu pergunto. — Vocês são um horror quando vão a restaurantes.
Primeiro de tudo, Jay tem que comer um pouco de tudo que eu peço, e antes que eu perceba, quase toda a minha comida acabou. Segundo, tia Gina adora mandar comida de volta para a cozinha até estar “certa” e eu não ficaria surpresa se cuspissem na nossa comida. Terceiro, minha mãe e minhas madrinhas não sabem ir embora. As bundas ficam grudadas na cadeira com elas rindo e conversando até o restaurante fechar. Principalmente se for um daqueles lugares de “bebidas e entradas à vontade”.
— Ela está certa — diz Sonny. — Se não tivermos uma mesa só pra nós, eu também digo não.
— Vocês estão ouvindo? — Jay pergunta às outras duas. — Nós carregamos esses palhaços na barriga, parimos eles e agora eles têm a coragem de sentir vergonha de nós.
Tia Gina suga os dentes.
— Aham. Aposto que eles não vão sentir vergonha quando a gente pagar a conta.
Sonny sorri.
— Isso é verdade.
Tia ’Chelle ri.
— Tudo bem. Vocês três podem ter uma mesinha só sua.
— Não — diz Malik. — Estou fora.
Ele olha para mim quando fala.
Malik beija a bochecha da mãe, diz alguma coisa sobre ir se encontrar com Hana e vai embora.
Mas parece que ele está me abandonando.
VINTE E CINCO
Dez dias depois que enviei a mensagem, tia Pooh finalmente responde.
Me encontra em Maple depois da aula.
Quase saio no meio da aula de Ficção quando vejo a mensagem. Depois disso, juro, o dia parece se arrastar. Quando o último sinal toca no fim do dia, vou direto para o ônibus. Quando o sr. Watson entra em Maple Grove para deixar Curtis, eu também desço.
Atravessamos o estacionamento juntos. Quase consigo sentir todas as pedras em que piso. Esses Timberlands falsos estão acabando. Jay estava agitadíssima hoje de manhã quando saí, e ainda não falei com ela sobre o Supreme, então não pude calçar os verdadeiros. Droga, eu ainda tenho que dar a notícia para a tia Pooh.
— O que você veio fazer em Maple? — pergunta Curtis. — Está atrás de mim agora, Princesa?
Sabe, houve uma época em que as piadinhas dele me faziam revirar os olhos. Ainda fazem, mas agora eu dou um sorrisinho debochado.
— Garoto, ninguém está atrás de você. Eu vim ver a minha tia.
Desviamos de um cara sem camisa que está correndo para pegar uma bola de futebol americano no ar. Ele deve estar congelando.
Curtis enfia as mãos nos bolsos.
— Estava querendo te contar uma coisa. Fui ver a minha mãe no fim de semana.
— É mesmo? Como foi?
— Ela ficou tão feliz que chorou. Eu não tinha pensado no quanto ela sofria por eu estar longe. Achei que estava ajudando. É meio horrível saber que eu estava fazendo mais mal a ela do que aquela porra de prisão.
— Você não sabia — eu digo. — Além do mais, ela entendeu por que era difícil pra você.
— Entendeu mesmo. Eu falei que você me convenceu a ir. Ela disse que você parece ser uma garota esperta. Não está errada quanto a isso.
— Uau, tantos elogios ultimamente, e da mesma pessoa que disse que eu era metida. Por que você está tentando me deixar ainda mais convencida?
— Deixa pra lá, Princesa. Mas é sério. Obrigado.
— De nada. — Eu dou um soco no braço dele. — Mas isso é por me chamar de metida.
— Eu estava mentindo?
Um grupo de garotinhos vem na nossa direção. Jojo pedala atrás deles na bicicleta. Curtis diz “Opa!” e sai da frente deles antes de todos se juntarem em volta de mim.
— Bri, você pode me dar seu autógrafo? — pergunta uma garotinha de rabo de cavalo.
— Sua música é a minha favorita! — diz um garoto de casaco acolchoado.
Todos querem que eu assine alguma coisa ou pose para uma selfie.
— Pessoal, vai com calma — diz Jojo. — Um de cada vez, gente.
Curtis ri quando sai andando.
— Você está famosa no bairro, Princesa.
Caramba, parece que estou mesmo. Tenho que inventar um autógrafo naquele momento. Eu nunca assinei nada além de formulários da escola e é bem diferente. Aquelas crianças gostam do meu garrancho.
— Bri, conta pra eles que nós somos amigos — diz Jojo. — Eles não acreditam em mim.
— Nós somos amigos mesmo — eu digo enquanto assino meu nome para um garotinho chupando o polegar. — Enquanto você frequentar a escola e ficar longe de confusão. — Eu olho para Jojo enquanto escrevo.
— Eu vou à escola! — diz ele. E não fala nada sobre a parte da confusão.
— Eu e minha irmã gêmea sabemos a letra toda da sua música — diz uma garota dentuça.
Eu escrevo meu nome para ela.
— É mesmo?
— “Os caras confundem mochila com pistola” — ela e a irmã cantam. — “Acham que levo cartuchos pra escola.”
Eu paro de escrever.
Quantos anos elas têm? Seis? Sete?
— Contei pra eles que você solta pipoco na cara de geral, Bri — diz Jojo. — Não é?
Meu estômago dá um nó.
— Claro que não, Jo...
— Ei, ei, ei! — grita tia Pooh conforme se aproxima. Ela tira várias crianças do caminho. — Cai fora, pessoal. Deem um tempo pra estrela, tá?
Tia Pooh me leva na direção do pátio. Eu olho para Jojo e para os amigos dele. Fiz com que eles cantassem sobre armas e porcarias assim. Como isso pode ser bom?
Tia Pooh sobe no capô do carro do Scrap. Ele não está por perto. Ela bate no lugar ao lado.
— Tudo bem?
Ela fica desaparecida por mais de uma semana depois de prometer matar uma pessoa. Como acha que eu estou?
— Por onde você andou?
— Olha, isso não é da sua conta.
— Você está de sacanagem... mandei um monte de mensagens! Você me deixou preocupada! Lembra a última vez que te vi?
— Lembro.
— Você...?
— Não se preocupe com o que eu fiz. Não recuperei a corrente, então não importa.
Ah, merda. Ela fez alguma coisa. Eu cruzo as mãos em cima da cabeça.
— Por favor, não me diga que você matou...
— Não tem ninguém morto, Bri — diz ela.
— E eu devo me sentir melhor por causa disso? O que você fez?
— Quanto menos você souber, melhor, tá? — responde ela com rispidez.
Ah, Deus. A questão é que ninguém precisa morrer. Mas a Tia Pooh iniciou alguma coisa, e começar alguma coisa no Garden nunca é bom.
A retaliação nunca termina aqui. Mas vidas sim. A pior parte? A culpa é minha.
— Merda — eu sussurro.
— Bri, relaxa! — diz tia Pooh. — Já falei, não tem ninguém morto.
— Isso não vai fazer diferença! Eles podem...
— Eles não vão fazer porra nenhuma — alega tia Pooh.
— Eu não devia ter te ligado. Não quero que eles vão atrás de você.
— Olha, estou pronta pra tudo a qualquer momento — diz ela. — Só lamento não ter conseguido a corrente de volta pra você.
Houve um momento em que fiquei arrasada de ter perdido aquela coisa, mas agora? Parece não ter valor nenhum.
— Prefiro ter você.
— Eu. — Ela ri quase que zombando. — Porra, não vou mentir. Você só me deu uma desculpa pra ir atrás dos idiotas. Eu estava esperando pra fazer alguma coisa com eles.
— Por causa do papai?
Tia Pooh assente.
— Por que você acha que me tornei Garden Disciple? Eu queria ir atrás de quem matou o Law.
Vamos acrescentar isso à lista de coisas sobre as quais eu não sabia. Eu pulo no capô ao lado dela.
— É mesmo?
Ela demora um segundo para responder. Só olha para um carro preto com janelas escuras que passa lentamente pelo estacionamento.
— É — responde ela por fim. — Law era meu irmão, meu Yoda, ou seja lá qual for o nome daquele carinha verde.
— Você acertou. — Impressionante. Ela sabia o nome dele e que ele é verde.
— É, ele — diz ela. — Ele cuidava de mim e realmente se preocupava comigo, sabe? Quando mataram ele, foi um dos piores dias da minha vida. Perder a mamãe e o papai já tinha sido bem ruim. Aí Jay se meteu com aquilo não muito tempo depois que ele morreu. Parecia que eu não tinha ninguém.
— Você tinha a mim e Trey.
— Não. Sua avó e seu avô estavam com você e Trey — diz ela. — Aquela sua avó é louca. Ela não queria que eu fosse lá. Mas a culpa não é dela. Eu queria sangue. Fui até os GDs que andavam com o Law e disse que topava o que fosse pra me vingar. Eles me disseram que eu não ia querer me meter nisso. Mas me deixaram entrar pra gangue. Se não fossem eles, eu não teria tido ninguém.
— Bom, você tem a nós agora.
Ela curva os lábios lentamente.
— Que brega. Bancando a sentimental. Você sabe que deixou muita gente puta da vida, né? Aquela notícia e aquele abaixo-assinado? — Ela ri. — Caramba, quem poderia imaginar que uma música poderia deixar as pessoas tão irritadas.
Tenho que contar para ela sobre o Supreme. Ela pode me odiar, pode me xingar, mas tem que saber.
— Hype me convidou pra aparecer no programa dele e falar sobre esse assunto.
— Como éééé? — diz ela, inclinando a cabeça para trás. — A Li’l Bit vai aparecer no Hot Hour ?
— Vou. Sábado de manhã.
— Uau. Que coisa incrível! Como isso foi acontecer?
É agora.
— Supreme marcou.
Suas sobrancelhas se unem.
— O antigo agente do Law?
— É. Ele, humm... ele quer ser meu agente.
Fico olhando para os meus Timberlands falsos. Só tenho que dizer que aceitei a proposta do Supreme. É só falar logo, como se eu estivesse no meio de uma batalha freestyle.
Mas, antes que eu possa dizer qualquer coisa, tia Pooh diz:
— Você aceitou a proposta que ele fez, não foi?
Meu rosto todo fica quente.
— Não é nada contra você, tia Pooh! Juro que não é. Eu ainda quero que você faça parte disso tudo.
— Só não como sua agente.
Eu engulo em seco.
— É.
Tia Pooh solta um suspiro lento.
— Eu entendo. Tudo bem.
— Espera, como é?
— Tá, talvez não tudo bem , mas eu entendo — diz ela. — Estou cuidando de coisas demais pra conseguir te ajudar do jeito que você precisa.
Uma ideia:
— Você pode deixar essas coisas pra lá.
— Eu também não sei muita coisa sobre o mundo da música. — Ela ignora o que eu falei. — Já teve gente me procurando querendo saber do abaixo-assinado e eu não faço ideia do que dizer ou fazer. Isso pode fazer você subir ou despencar, sabe? Não quero fazer besteira.
Tia Pooh não é de fingir, mas talvez ela finja comigo mais do que percebo.
— Tem certeza de que não se importa?
— Posso te ajudar mesmo não sendo sua agente — diz ela. — Posso ser da sua equipe. Ajudar a fazer músicas. Cuidar pra que você não cante sobre coisas que fazem as brancas se cagarem. — Ela mexe nas minhas tranças com um jeito brincalhão.
Eu dou uma risadinha.
— Ah, tá.
Ela estica a mão aberta. Eu bato nela, mas tia Pooh me puxa por cima do colo e dá o beijo mais longo e molhado na minha bochecha, como fazia quando eu era pequena. Eu caio na gargalhada.
— Você tem que pensar em um cargo pra mim, superestrela.
— Tia Chefe Responsável.
— Você sabe muito bem que Jay não vai aceitar mais ninguém achando que está...
Alguma coisa chama a atenção dela de novo. O mesmo carro preto com vidros escuros voltou para o estacionamento. O motorista desliga o motor e o carro fica parado, virado para nós.
Tia Pooh fica olhando.
— Bri, me promete uma coisa.
— O quê? — eu digo com a cabeça ainda no colo dela.
Ela não tira os olhos do carro.
— Promete que vai sair do Garden.
— Hã? De que você está falando?
— Promete que vai fazer o que for preciso pra chegar ao sucesso. Prometa como se fosse a última coisa que você fosse me prometer.
— Olha quem está ficando sentimental agora — eu brinco.
— Estou falando sério! Promete!
— Eu... eu prometo — eu meio digo e meio pergunto. — O que fez você falar assim?
Ela me faz sentar e me empurra para fora do capô do carro.
— Vai pra casa.
— O quê?
— Vai pr...
Duas vans pretas entram cantando pneu no estacionamento. Policiais com trajes da SWAT saem correndo, com armas apontadas para todo lado.
VINTE E SEIS
— Bri, vai! — grita tia Pooh.
Estou paralisada. A equipe da SWAT enche o conjunto habitacional, atrás dos Garden Disciples. Por toda parte, as pessoas correm e gritam. Pais correm até os filhos ou os carregam para longe o mais rapidamente que conseguem. Algumas crianças ficam chorando sozinhas.
Tia Pooh cai de joelhos com as mãos atrás da cabeça. Um integrante da SWAT corre na direção dela com a arma apontada.
Ah, Deus.
— Tia...
— Vai! — grita ela de novo.
Alguém segura meu braço.
— Vem! — diz Curtis.
Ele me puxa. Tento olhar para a tia Pooh, mas a correria torna isso impossível.
No caminho, uma coisa... estranha... acontece com um dos meus sapatos. Parece que está desequilibrado. Sou obrigada a mancar enquanto tento acompanhar o Curtis. Ele me leva até o apartamento onde mora com a avó. Só paramos quando estamos dentro.
Curtis fecha todas as trancas da porta.
— Bri, você está bem?
— O que está acontecendo?
Ele levanta uma persiana para espiar lá fora.
— Batida em busca de drogas. Eu sabia que alguma coisa ia acontecer. Aquele carro preto ficava rodeando o estacionamento. Parecia estar de tocaia.
Batida em busca de drogas?
Merda.
Corro até a janela e levanto uma persiana. O apartamento da avó do Curtis fica virado para o pátio e tenho vista clara de tudo. Se Maple Grove fosse um formigueiro, seria como se alguém tivesse pisado nele. Integrantes da SWAT derrubam portas de apartamento, e Garden Disciples saem ou são arrastados para fora com armas apontadas para a cara. Alguns corajosos tentam correr.
Tia Pooh está deitada no pátio, as mãos algemadas nas costas. Um agente a revista.
— Por favor, Deus — eu rezo. — Por favor, Deus.
Deus me ignora. O agente pega um saco do bolso de trás da tia Pooh. De repente, o céu não é mais nosso limite. Aquele saco de cocaína é.
Eu me afasto da janela.
— Não, não, não...
Curtis também olha para fora.
— Ah, merda!
Durante dias, fiquei pensando que a tinha perdido, mas acabei de recuperá-la. E agora...
De repente, tem uma mão invisível apertando todos os músculos do meu peito. Não consigo respirar.
— Bri, Bri, Bri — diz Curtis, segurando meus braços. Ele me leva até o sofá e me ajuda a sentar. — Bri, respira.
É impossível, como se meu corpo nem soubesse o que é respirar, mas soubesse chorar. Lágrimas caem dos meus olhos. Os soluços me fazem ofegar cada vez mais forte e mais alto.
— Ei, ei — diz Curtis. Ele me encara. — Respira.
— Todo mundo... — Eu tento respirar. — Todo mundo me abandona.
Pareço tão pequena quanto me sinto. É a minha mãe me contando que o papai nos deixou e foi para o céu. É ela saindo de ré de carro, mesmo comigo gritando para ela não me deixar. Ninguém nunca percebeu que levou uma parte de mim junto.
Curtis se senta ao meu lado. Primeiro, ele hesita, mas guia delicadamente minha cabeça para que fique apoiada no ombro dele. Eu permito.
— É, as pessoas nos abandonam — diz ele baixinho. — Mas não quer dizer que nós estamos sozinhos.
Só posso fechar os olhos. Há gritos e sirenes lá fora. A polícia deve estar pegando todos os Garden Disciples de Maple Grove.
Aos poucos, volto a respirar.
— Obrigada... — Meu nariz está tão entupido que falo de um jeito engraçado, fungando. — Obrigada por ir me buscar.
— Tudo bem — diz Curtis. — Eu estava molhando as plantas da minha avó quando vi você e Pooh conversando no pátio. Aí a van da SWAT chegou. Sabendo o que eu sei sobre a Pooh, eu logo percebi que você tinha que sair dali.
Eu abro os olhos.
— Você molha as plantas da sua avó?
— Molho. Alguém tem que manter essas coisinhas vivas enquanto ela está no trabalho.
Eu me sento mais ereta. Há plantas e flores em vasos por toda a sala e pela cozinha.
— Caramba — eu digo. — Você tem muito trabalho.
Ele ri.
— É. Ela tem algumas no parapeito da janela também. Mas gosto de ajudar com isso. É mais fácil do que um cachorro ou um irmãozinho ou irmãzinha. — Curtis se levanta. — Quer água ou alguma outra coisa?
Minha garganta está meio seca.
— Água seria bom.
— Tudo b... — Ele franze a testa para o meu pé. — Ei, o que houve com o seu sapato?
— O quê?
Eu olho para baixo. Um dos Timberlands falsos está bem menor do que o outro. Isso porque o calcanhar inteiro sumiu.
Meu sapato se desfez.
— Porra! — Eu escondo o rosto nas mãos. — Porra, porra, porra!
A essa altura, essa merda é risível. Tantos dias e horários para o meu sapato se desfazer, tinha que acontecer quando a minha vida está desmoronando.
— Olha só, deixa comigo, tá? — diz Curtis. Ele desamarra os tênis Nike que está usando. Tira os dois e os estica na minha direção. — Toma.
Ele não pode estar falando sério.
— Curtis, calça os sapatos.
Mas ele se apoia em um joelho na minha frente, coloca o tênis direito no meu pé direito e amarra com força. Tira com cuidado meu outro não-Timberland, coloca o Nike esquerdo nesse pé e também o amarra. Quando termina, se levanta.
— Pronto — diz ele. — Você já tem sapatos.
— Não posso ficar com seus sapatos, Curtis.
— Você pode ao menos ir com eles pra casa — diz ele. — Está bem?
Não tenho nenhuma outra opção.
— Está bem.
— Que bom. — Ele vai para a cozinha. — Quer gelo na água ou não?
— Não, obrigada.
Os gritos e berros pararam. Mas não consigo olhar lá para fora.