Na hora da virada

Angie Thomas · Capítulo 40 de 40 · parte 2/9

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Na hora da virada

Colofon

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 9 partes.

Malik me chamou pra sair.

Eu acho.

Bom, uma confissão: de acordo com o vovô, eu “tiro conclusões mais rápido do que os piolhos pulam da cabeça de uma criança branca para a outra”. É o tipo de coisa que só o meu avô diria, mas ele talvez tenha razão. Na primeira vez que me disse isso, eu tinha 9 anos, ele tinha acabado de contar para mim e para o Trey que tinha diabetes. Eu caí no choro e gritei: “Vão cortar suas pernas fora e você vai morrer!”

Eu era uma criança dramática. Além do mais, tinha acabado de assistir a Alimento da alma pela primeira vez. Descanse em paz, Big Mama.

Posso estar tirando conclusões precipitadas, mas pareceu que Malik estava me chamando para sair sem me chamar para sair, sabe? Daquele jeito casual de quem diz “Ei, nós somos amigos, é normal amigos almoçarem juntos, mas ainda bem que vamos ser só nós dois”.

Acho que é isso mesmo. Ou estou exagerando. Mas acho que é. Assim, posso ignorar o jeito como as pessoas me olham no corredor.

Tem pena. Tem surpresa, como se eu devesse estar na prisão. Alguns parecem querer falar comigo, mas não sabem o que dizer, então só olham. Um ou dois cochicham. Algum idiota tosse enquanto fala “traficante” na hora que eu passo.

Não ando de cabeça erguida, como minha mãe mandou. Na verdade, queria ser invisível de novo.

Quando entro na aula de poesia, meus colegas fazem silêncio de repente. Aposto cinco dólares que estavam falando sobre mim.

A professora Murray me olha por cima de um livro. Ela o fecha e o coloca na mesa com um sorriso que tem tanta solidariedade que é quase uma careta.

— Oi, Bri. Que bom ver você de volta.

— Obrigada.

Até ela parece não saber o que dizer e agora sei que as coisas estão bem ruins. A professora Murray sempre sabe o que dizer.

Todos os olhos na sala me acompanham até minha mesa.

Já não aguento mais isso.

 

Ao meio-dia, vou direto para o meu armário.

Uso o celular para olhar o cabelo. Na segunda-feira, fiquei sentada por quatro horas entre as pernas da Jay enquanto ela fazia minhas trancinhas na raiz que terminam em tranças embutidas. São lindas? Muito. Dão trabalho? Infelizmente. Estão tão apertadas que consigo sentir meus pensamentos.

Malik é tão alto que o vejo acima de várias pessoas quando ele vem andando pelo corredor. Está rindo e conversando com uma pessoa. Sonny, talvez?

Mas Sonny não é uma garota baixa de pele escura e usando coque.

— Desculpa o atraso — diz Malik. — Tive que ir buscar a Hana.

Hana, do ônibus, veste o casaco. Malik a ajuda.

— Ah, meu Deus, estou tão ansiosa. Não vou ao Sal’s há um tempão.

Acho que acabei de descobrir como um balão se sente quando está murchando.

— Hum... eu não sabia que a Hana também ia.

— Uau. É sério, Malik? — Hana dá um soco no braço dele. — Esquecidinho.

Ela deu um soco nele. Sou eu quem dá socos nele.

Ele segura o braço, rindo.

— Caramba, mulher. Esqueci, tá? Está pronta, Bri?

O que está acontecendo?

— Estou. Claro.

Eu ando na frente. Sabia que os dois conversavam; os dançarinos têm ensaio depois da aula e Malik sempre fica até mais tarde para trabalhar no documentário, então ele e Hana acabam pegando o ônibus da cidade para voltar para o Garden juntos às vezes. Mas eu não sabia que os dois se davam tão bem.

Eles riem e conversam atrás de mim enquanto seguimos pela calçada. Eu seguro as alças da mochila. O Sal’s fica a dois quarteirões apenas, mas mesmo naquela caminhada curta temos que seguir as regras do bairro, afinal estamos em Midtown. São regras tácitas, mas conhecidas.

 

1. Se entrar em uma loja, mantenha as mãos fora dos bolsos e da mochila. Não dê motivo para acharem que você está roubando. 2. Sempre use “senhora” e “senhor” e sempre fique calmo. Não dê motivo

para acharem que você é agressivo.

3. Não entre em nenhuma loja, café e nenhum outro lugar se não planejar comprar nada. Não dê motivo para acharem que você vai assaltá-los. 4. Se seguirem você pela loja, fique calmo. Não dê motivo para acharem que está fazendo alguma coisa errada.

5. Basicamente, não dê motivo. Ponto.

 

A questão é que às vezes eu sigo as regras e mesmo assim tenho que aguentar merda. Sonny, Malik e eu entramos em uma loja de quadrinhos alguns meses atrás e o funcionário nos seguiu até sairmos. Malik gravou tudo com a câmera.

O Sal’s é um dos poucos lugares onde as regras não se aplicam. As paredes são sujas e marrons e todas as cabines estão com o couro dos assentos rasgados. As coisas mais saudáveis do cardápio são os pimentões e as cebolas que podemos acrescentar à pizza.

Big Sal recebe os pedidos no balcão e grita para o pessoal de trás. Se demoram muito para preparar um pedido, ela diz: “Preciso ir aí eu mesma fazer?” Ela é pequenininha, mas todo mundo em Midtown e no Garden sabe que ela não está para brincadeira. Esse é um dos poucos lugares que nunca é pichado.

— Oi, Bri e Malik — diz ela quando chega nossa vez. Quando Trey começou a trabalhar aqui no ensino médio, Sal se tornou a tia italiana que nunca tivemos. — Quem é a mocinha linda com vocês?

— Hana — diz Malik. — Ela não vêm aqui há um tempo, por favor a perdoe.

Hana o cutuca de leve.

— Por que você tem que me dedurar?

Hum, ela está muito à vontade com ele.

— Ah, tudo bem. Não sou rancorosa — diz Sal. — Mas, depois que comer uma fatia, você volta logo. O que vão querer?

— Pepperoni média com queixo extra? — eu pergunto a Malik. É a nossa de sempre.

— Ahh, podemos acrescentar lombo canadense? — pede Hana.

— Por mim, tudo bem — responde Malik.

Primeiro: quem acrescenta lombo canadense na pizza?

Segundo: lombo canadense está longe de ser bacon. Sem querer ofender, Canadá, mas essa merda é presunto magro.

Sal faz nosso pedido, aceita o dinheiro do Malik (ele insiste em pagar), nos dá copos e nos manda ir para uma mesa. Ela também diz que o Trey não está. Saiu para almoçar. Aparentemente, é possível se cansar de comer pizza.

Enchemos nossos copos na máquina de refrigerante e Malik e eu levamos Hana até nossa cabine de cantinho, que costumamos dividir com Sonny. Por sorte, sempre está vazia. Não consigo me imaginar sentando em nenhum outro lugar. Tratamos o lugar da mesma forma que as senhoras da Templo de Cristo tratam seus bancos: se alguém chegasse primeiro ali, nós olharíamos de cara tão feia que a pessoa seria pulverizada.

Malik estica os braços no encosto do banco, tecnicamente nos ombros da Hana. Mas vou agir como se fosse só no encosto.

— Posso ouvir a música agora, Bri? — pede ele.

Hana toma um gole de refrigerante.

— Que música?

— A Bri gravou a primeira música dela outro dia. E tocou pra todo mundo no ônibus hoje de manhã.

— Aah, quero ouvir — diz Hana.

Se ela estivesse no ônibus de manhã, eu não teria tido problema em deixar que ela ouvisse. Mas agora? Agora é diferente.

— Talvez uma outra hora.

— Ah, para com isso, Bri — diz Malik. — Todo mundo ouviu, menos eu. Você vai me deixar magoado.

Eu já estou magoada.

— Não é tão boa.

— Considerando que você escreveu algumas das melhores rimas que ouvi na vida, aposto que é — diz ele. — Tipo “Tem um animal sempre rondando este local...”

— “...que se chama cocaína em cristal, o crack convencional...” — eu digo, cantando minha própria letra.

— “Impressiona como entra na corrente e transforma mães em estranhas que só têm o mesmo nome da gente.” — Malik termina. — Não posso esquecer minha favorita, “Desarmados e perigosos, mas, América, vocês nos fizeram, e só ficamos famosos...”

— “Quando morremos. E vocês dizem que nós merecemos” — eu termino desta vez.

— Que profundo — diz Hana.

— A Bri tem talento — diz Malik. — Por isso eu sei que essa música deve ser incrível. Só promete que você não vai ficar metida quando estourar. Eu te conheci quando você ainda tinha medo do Garibaldo.

Hana ri.

— Do Garibaldo?

— É. — Malik ri. — Ela fechava os olhos todas as vezes que ele aparecia na Vila Sésamo. Uma vez, o pai do Sonny vestiu uma fantasia de Garibaldo pra festa do Sonny. A Bri saiu correndo e gritando.

Hana cai na gargalhada.

Eu contraio o maxilar. Ele não tinha o direito de contar isso, principalmente pra fazer com que ela risse.

— Não faz sentido um pássaro ser grande daquele jeito — digo, com voz ferina.

Não é mesmo. O Piu-Piu é o amor da minha vida. O Garibaldo? Não confio naquele sujeito. Além do mais, alguém já viu o ninho dele? Ele deve esconder corpos lá.

A gargalhada de Malik some. Eu não estou achando nada engraçado. Nem um pouco.

— Relaxa, Bri. Estou brincando.

— Tudo bem — eu resmungo. — Tá.

Eu pego o celular, abro a música e aperto o play.

Hana se balança um pouco no assento.

— Legal. A batida é boa.

Meu primeiro verso começa e as sobrancelhas do Malik se unem. Ficam unidas durante o resto da música. Quando chega nos versos do incidente, os dois me olham.

Quando a música termina, Hana diz:

— Arrasou, Bri

Malik morde o lábio.

— É. Irado.

A expressão do rosto dele diz mais do que ele falou.

— O que foi? — pergunto.

— É que... você falou de fazer coisas que nunca fez de verdade, Bri.

— Acho que você não está entendendo a questão, Maliky — diz Hana.

Maliky?

— Ela não está dizendo que faz essas coisas. Está dizendo que é isso que esperam que ela faça — diz Hana.

— Exatamente — eu digo.

— Eu entendo, mas acho que pouca gente vai entender — diz Malik. — E esse papo todo de armas?

Ah, meu Deus. É sério?

— Importa, Malik?

Ele levanta as mãos.

— Esquece que falei alguma coisa.

Ele está quase me irritando.

— O que houve com você?

Ele me olha.

— Eu é que devia te perguntar isso.

Uma garçonete coloca nossa pizza quente na mesa. Ficamos em silêncio quando começamos a comer.

Depois de um tempo, Hana coloca a fatia no prato e limpa as mãos com o guardanapo.

— Na verdade, eu queria falar com você, Bri.

— Ah?

— É. Sobre aquele dia.

— Ah.

— É... — Ela para de falar e olha para Malik. Ele assente, como se estivesse dando permissão para ela continuar. — Alguns de nós andam conversando sobre como o Long e o Tate parecem marcar mais certos alunos do que outros.

Era melhor ela dizer de uma vez.

— Você quer dizer os alunos de pele morena e negra?

— Isso mesmo — diz ela. — É ridículo, sabe? Claro que você sabe agora... — Ela fecha os olhos. — Deus, isso saiu errado. Sou péssima nisso.

Malik coloca a mão na dela.

— Você é ótima. Eu juro.

Olho direto para as mãos deles e meu mundo para.

Ele... eles...

Tem alguma coisa entre os dois.

Eu devia saber. Ele é o Luke da minha Leia. Nada mais do que isso.

Hana sorri e ele passa o polegar na mão dela, depois ela olha para mim. Não sei como consigo não ficar com lágrimas nos olhos.

— Um grupo estava conversando e decidimos que vamos fazer alguma coisa sobre isso.

Estou tentando lembrar de como falar. Meu coração está tentando lembrar de como bater.

— Alguma coisa o quê?

— Ainda não sabemos. Desde as manifestações e protestos do ano passado, estou inspirada a fazer alguma coisa. Não posso mais ficar sentada deixando as coisas acontecerem. Nós tínhamos esperança de que você sentisse o mesmo.

— Nós formamos uma aliança não oficial de alunos negros e latinos — diz Malik. É a primeira vez que escuto falar disso. — Planejamos exigir mudanças da administração. A verdade é que precisam de nós naquela escola. Só começaram a usar os ônibus pra transportar alunos de outros bairros para poderem conseguir subsídio. Se a notícia de que alunos negros e latinos estão sendo perseguidos se espalhar...

— Midtown teria problemas — diz Hana.

— Isso mesmo — diz Malik. — E se a notícia do que aconteceu com você especificamente se espalhasse...

Opa, opa, opa.

— Quem disse que quero ser o símbolo disso?

— Me escuta, Bri — diz Malik. — Algumas pessoas gravaram o que aconteceu, mas só depois que você estava no chão. Eu filmei o incidente inteiro. Posso postar online.

— O quê?

— Mostra que você não fez nada que merecesse o que eles fizeram — continua ele. — Todos os boatos que estão se espalhando são só um jeito de tentar justificar o que aconteceu.

— É — diz Hana. — Eu já ouvi que alguns pais não se importam porque souberam que você era traficante. Eles querem Long e Tate de volta.

Isso é como um tapa na minha cara.

— Você está falando sério?

Isso explica por que aquele garoto gritou “Libertem Long e Tate”. Bom, claro que ele é um babaca, mas isso me ajuda a entender melhor.

— É ridículo — diz Malik. — Quem sabe o que pode acontecer depois que eu postar o vídeo?

Ah, eu sei o que pode acontecer. O acontecimento pode parar no noticiário e nas redes sociais. Pessoas de todo o mundo vão me ver ser jogada no chão. Depois de um tempo, vai acabar sendo esquecido, sabe por quê? Uma coisa parecida vai acontecer com outra pessoa negra numa Waffle House ou na Starbucks ou algum outro lugar e todo mundo vai passar a falar disso.

Prefiro esquecer que aconteceu. Além do mais, não tenho tempo de me preocupar com essas coisas. Minha casa está sem aquecimento.

Malik se inclina para a frente.

— Você tem a chance de fazer alguma coisa, Bri. Se esse vídeo se espalhar e você falar... As coisas podem mudar na nossa escola.

— Então fala você — digo.

Ele se encosta.

— Uau. Me deixa ver se entendi direito: você prefere fazer um rap sobre armas e coisas que você não faz a falar de uma forma positiva sobre uma coisa que realmente aconteceu com você? Que coisa vendida, Bri.

Eu o olho de cima a baixo.

— Como é?

— Vamos falar a verdade — diz ele. — O único motivo pra você ter cantado o rap daquele jeito é porque todo rap é assim, certo? Você achou que seria uma forma fácil de fazer sucesso com a música e ganhar dinheiro.

— Não, porque nem todo mundo tem versos sobre ser jogado na porcaria do chão!

Falo tão alto que várias cabeças se viram em nossa direção.

— Não é da sua conta por que eu fiz o rap do jeito que fiz — digo, com os dentes cerrados. — Mas eu disse o que queria dizer, inclusive sobre o incidente. É tudo que vou dizer sobre isso. Mas se eu fiz o rap daquele jeito só pra fazer “sucesso” e ganhar dinheiro, que bom pra mim, considerando toda a merda que a minha família está passando. Quando você acordar em uma casa gelada, me procura, mano.

A ficha parece cair em questão de segundos; seus olhos se arregalam quando ele provavelmente lembra que Jay perdeu o emprego, ele parece horrorizado por ter esquecido que não temos gás e abre e fecha a boca como se estivesse arrependido do que disse.

— Bri, me desculpa...

— Foda-se, Malik — eu digo. Por vários motivos.

Saio da mesa, jogo o capuz na cabeça e saio da pizzaria.

DOZE

 

Não falei com Malik pelo resto do dia e nem no dia seguinte. Nós passamos um pelo outro nos corredores e, no que me diz respeito, ele era um estranho. Ele entrou no ônibus naquela tarde e acho que o fato de eu não falar com ele o fez se sentar na frente com Hana.

Sonny odeia a situação.

— Quando vocês dois brigam, parece o Capitão América contra o Homem de Ferro e eu sou o Peter Parker, impressionado com os dois — disse ele. — Não consigo escolher um lado, droga.

— Não quero que escolha. Mas você sabe que o Peter estava tecnicamente do lado do Homem de Ferro, né?

— Não é essa a questão, Bri!

Odeio que ele esteja nessa posição, mas é o que é. Não vou falar com Malik enquanto ele não pedir desculpas. Falando sério, vendida? Eu já estava com raiva dele por ter feito Hana rir por minha causa. E também meio puta por ele a ter levado lá. Mas eu estava errada? Eu não fazia ideia de que havia alguma coisa entre os dois e de repente virei vela no que achava que seria um almoço com o meu melhor amigo.

E no que supus estupidamente que seria um encontro. Mas estou com mais raiva de mim mesma por causa disso. Eu sempre tenho sentimentos por garotos que nunca vão sentir nada por mim. Estou destinada a ser essa pessoa.

Mas não posso me preocupar com Malik. No momento, estou mais preocupada com essa geladeira quase vazia na minha frente.

É o segundo dia do recesso de Natal e estou aqui há um minuto. Tempo suficiente para contar quantos itens tem dentro. Dezoito, para ser precisa. Oito ovos, quatro maçãs, duas barras de manteiga, um pote de geleia de morango (para acompanhar o pote de creme de amendoim no armário), uma garrafa de leite, uma garrafa de suco de laranja, um pão. O freezer não está muito melhor: um saco de 5 quilos de frango, um saco de ervilha e um saco de milho. Esse vai ser o jantar de hoje e o de amanhã também. Não sabemos o que vamos jantar depois disso. O Natal é daqui a alguns dias e é um ponto de interrogação gigantesco.

Trey passa por mim.

— Para de deixar o ar frio sair da geladeira, Bri.

Agora, são sete ovos. Ele pega um, junto com o pão.

— Você parece a vovó. — Não posso estar com a geladeira aberta há dez segundos que ela já vem falar “Fecha a geladeira senão vai estragar a comida!”

— Ei, ela tem razão — diz Trey. — A conta de luz só aumenta desse jeito.

— Não enche.

Eu fecho a geladeira. A porta está coberta de contas novas. A conta de gás foi paga e é por isso que a casa está quente e a geladeira está quase vazia. Quando a decisão era entre mais comida ou aquecimento, o tempo frio fez Jay escolher o aquecimento; deve haver nevasca na semana que vem. Ela disse que podemos “prolongar” a comida que temos.

Mal posso esperar pelo dia em que não tenhamos que prolongar nem escolher.

— O que vou fazer de café da manhã?

Trey quebra o ovo em uma frigideira quente.

— Faz um ovo mexido como estou fazendo.

— Mas odeio ovo. — Ele sabe disso. É... melequento demais.

— Faz sanduíche de creme de amendoim com geleia, então — diz Trey.

— De café da manhã?

— É melhor do que nada.

Jay entra, prendendo o cabelo em um rabo de cavalo.

— O que vocês tanto conversam?

— Não tem quase nada pra comer — eu digo.

— Eu sei. Vou ao posto comunitário agora. Gina disse que tem distribuição de comida. Podemos conseguir algumas coisas pra segurar até o dia primeiro.

Trey coloca o ovo em uma fatia de pão.

— Mãe, acho que você devia ir ao centro logo.

O centro é o código para a “assistência social”. É como o pessoal do Garden fala. Chamar de “centro” faz com que ninguém se meta. Mas todo mundo sabe o que quer dizer. Não sei bem qual é o objetivo.

— Não vou lá de jeito nenhum — diz Jay. — Eu me recuso a deixar as pessoas de lá me diminuírem porque tenho a audácia de pedir ajuda.

— Mas, se ajudar...

— Não, Brianna. Acredite em mim, florzinha, o tio Sam não dá nada de graça. Ele arranca sua dignidade em troca de moedas. Além do mais, eu não conseguiria nada. Não permitem que universitários peguem cupons pra alimentos mesmo que eles não tenham emprego, e não vou largar os estudos.

Como assim? Juro, essa merda parece areia movediça: quanto mais tentamos sair, mais difícil fica.

— Só estou dizendo que ajudaria, mãe — diz Trey. — Nós precisamos de toda ajuda que conseguirmos.

— Vou dar um jeito de termos comida — diz ela. — Pare de se preocupar com isso, tá?

Trey suspira pelo nariz.

— Tá.

— Obrigada. — Jay beija a bochecha dele e limpa a marca de batom. — Bri, quero que você vá comigo à distribuição de alimentos.

— Por quê?

— Porque eu mandei.

 

Queridos pais negros de todos os lugares,

Essa não é uma boa resposta.

Assinado, Brianna Jackson, em nome dos filhos negros do mundo.

 

P.S.: Não temos coragem de dizer na cara de vocês, então corremos para o nosso quarto e nos vestimos enquanto resmungamos tudo que queremos dizer.

 

— O que você disse? — grita Jay.

— Nada!

Droga. Ela ouve até meus resmungos.

 

O centro comunitário fica duas ruas adiante, na Ash. Não são nem 8 horas ainda, mas o estacionamento está cheio de carros, tem um caminhão de dezoito rodas cheio de caixas e uma fila que sai pela porta.

Também tem uma van de noticiário.

Ah, droga.

— Eu não quero sair na TV! — digo quando Jay estaciona.

— Garota, você não vai sair na TV.

— A câmera pode se virar na minha direção, sei lá.

— E?

Ela não entende.

— E se o pessoal da escola me vir?

— Por que você está tão preocupada com o que eles pensam?

Eu mordo o lábio. Se alguém reparar em mim, de repente vou ser a garota pobrezinha de não-Timberlands que não só foi jogada no chão, mas também precisa pegar comida distribuída.

— Olha, você não pode ficar se preocupando com o que as pessoas pensam, flor — diz Jay. — Sempre vai ter alguém que vai dizer alguma coisa, mas isso não quer dizer que você tenha que dar ouvidos.

Eu olho para a van da televisão. Ela age como se fosse fácil não dar ouvidos.

— Nós não podemos...

— Não. Nós vamos entrar aqui, pegar comida e ficar agradecidas por isso. Senão, não é que vai ter pouca comida. Não vai ter nenhuma comida. Entendeu?

Eu suspiro.

— Tudo bem.

— Que bom. Vamos.

A fila anda rápido, mas também não parece que vai diminuir tão cedo. Entramos no final dela e menos de um minuto depois tem mais quatro pessoas atrás de nós. Tem todo tipo de gente na fila, mães com os filhos e idosos de andador. Algumas estão embrulhadas em casacos, outras estão com roupas e sapatos que parecem que deveriam estar no lixo. Tem música de Natal tocando alto e voluntários de gorro de Papai Noel descarregam o caminhão.

Um homem no estacionamento filma a fila com uma câmera de televisão. Acho que alguém em algum lugar ama ver os pobres do gueto implorando por comida.

Eu olho para os sapatos. Jay levanta o meu queixo e diz com movimentos labiais: Cabeça erguida.

Pra quê? Isso não é nada que me deixe orgulhosa.

— É sua filha? — pergunta a mulher atrás de nós. Ela está de casaco fechado, sapatos de ficar em casa e rolinhos no cabelo, como se tivesse acabado de sair da cama para ir até lá.

Jay passa os dedos pelo meu cabelo.

— É. Minha garotinha. Minha única garotinha.

— Que amor da parte dela vir ajudar. Não consegui tirar os meus da televisão.

— Ah, pode acreditar. Eu precisei obrigá-la a vir.

— Essas crianças não são nem capazes de reconhecer uma bênção. Mas querem comer tudo que a gente leva pra casa.

— E não é verdade? — diz Jay. — Quantos você tem?

Juro, não consigo ir a lugar nenhum sem que ela comece a conversar com algum estranho. Jay é uma pessoa que gosta de pessoas. Eu estou mais para “é verdade que as pessoas existem, mas isso não quer dizer que precise conversar com elas”.

Quando chegamos ao prédio, já ouvi a história da vida da mulher. Ela também conta para Jay sobre todas as igrejas e organizações da cidade que distribuem comida. Jay anota tudo. Acho que essa é nossa vida agora.

Há mesas por todo o ginásio cobertas de roupas, brinquedos, livros e alimentos embalados. Um dos voluntários pega algumas informações com Jay, dá uma caixa para ela e nos diz para dar uma volta. Outros voluntários entregam coisas. Perto das cestas de basquete, um Papai Noel negro dá balas que tira do saco para as crianças. Um garoto com o cabelo em corte zigue-zague o ajuda e posa para selfies. A frente do suéter dele diz “Sr. Chocrível”.

Eu sempre tive a teoria de que Deus é um roteirista de comédia que adora me botar em situações ridículas. Tipo, “Hahahaha, além de ter que mendigar comida, ela vai ter que fazer isso na frente do Milez. Hilário!”

Esse programa precisa mudar de rumo.

Jay segue meu olhar até Milez.

— Aquele é o garoto da sua batalha, não é? O da música idiota?

Como ela sabe?

— É.

— Ignora ele.

Quem me dera. Por mais que “Chocrível” seja idiota, não consigo andar pelo bairro sem ouvi-la.

Estou esperando tia Pooh me dizer o que fazer com “Na hora da virada”. Mas ela continua sumida. Não estou preocupada. Como falei, ela faz isso às vezes.

— Não fica assim. — Jay puxa meu braço. — Nós só viemos buscar comida. É só disso que a gente precisa. Algumas dessas pessoas não têm tanta sorte.

A primeira mesa está cheia de enlatados. Tem duas senhoras idosas, uma negra e uma branca. Elas estão usando suéteres iguais de Natal.

— Quantas pessoas moram na sua casa, querida? — pergunta a negra a Jay.

A companheira de mesa dela me olha com um sorrisinho, e a expressão nos olhos dela me dá vontade de gritar.

Pena.

Quero dizer para ela que as coisas não são assim para nós normalmente. Nós não costumamos entrar em filas compridas em centros comunitários para pedir comida. Às vezes, a geladeira ficava vazia, é verdade, mas havia a garantia de que ficaria cheia.

Quero falar para ela parar de me olhar daquele jeito.

Que vou resolver isso um dia.

Que quero sair daqui.

— Vou dar uma volta — eu resmungo para Jay.

Os alimentos ficam de um lado do ginásio e roupas, brinquedos e livros ficam do outro lado. Perto dos brinquedos e livros, as criancinhas fazem a dancinha do Milez em volta dele. Uma câmera pega toda a ação.

Vou o mais para longe que posso e sigo na direção da mesa de sapatos. É comprida como as mesas no refeitório de Midtown, separada por tamanhos. Todos os sapatos são, no mínimo, de segunda mão. Olho para a parte feminina tamanho 34, só por olhar.

De repente, eu vejo.

São mais altos do que a maioria dos outros sapatos. Tem uma parte gasta no dedão do pé esquerdo, mas estão novos e a etiqueta de couro está pendurada na corrente.

Timberlands.

Eu pego o par. Não é imitação, como o que obtive no bazar de trocas. A arvorezinha marcada na lateral é prova.

Timberlands de verdade que poderiam ser meus.

Meu olhar se desloca para os meus sapatos. Jay mandou a gente só buscar comida. Os Timberlands precisam ir para alguém que talvez não tenha sapatos. Não preciso deles.

Mas preciso. As palmilhas dos meus estão quase furadas. Começou alguns dias atrás. Não falei para Jay. Posso aguentar um pouco de desconforto e ela não precisa se preocupar em comprar sapatos pra mim agora.

Eu mordo o lábio. Posso levar esses, mas assim que sair daqui com eles, estou fodida. Estamos fodidos. Significa que chegamos ao ponto de precisar de sapatos que alguém decidiu doar.

Não quero ser essa pessoa. Mas acho que sou essa pessoa.

Cubro a boca para segurar o choro. Os Jacksons não choram, principalmente não em centros comunitários com olhos cheios de pena e câmeras de noticiário procurando por momentos penosos. Eu engulo o choro respirando fundo, e os coloco na mesa.

— Por que você não experimenta, Li’l Law? — pergunta alguém atrás de mim.

Eu me viro. O Papai Noel está com óculos escuros que escondem os olhos, tem dois dentes de ouro na boca e usa algumas correntes de ouro. A não ser que o visual tradicional do Papai Noel tenha mudado e ninguém tenha me contado, esse é o Supreme, o antigo agente do meu pai.

— Não existe nada como um Timberland de verdade — diz ele. — Anda. Experimenta.

Eu cruzo os braços.

— Não, obrigada.

Há regras na batalha e há regras para depois da batalha. A regra número um: ficar alerta. Na última vez que vi Supreme, eu destruí o filho dele no Ringue. Duvido que ele tenha ficado feliz. Como vou saber que ele não vai me atacar sorrateiramente?

A regra número dois: não esquecer nada. Eu não esqueci como ele riu daquela besteira que o Milez disse sobre o meu pai. Não posso deixar isso passar.

Supreme ri baixinho.

— Ah, rapaz. Você é igual ao seu pai. Pronta pra lutar e nem falei nada pra você.

— Eu preciso estar pronta pra lutar? — Ora, vai ter que ser assim, se bater, leva.

— Que nada, não estou com raiva. Você fez o Milez fazer papel de trouxa no Ringue, é verdade, mas não guardo rancor. Ele estava com a cabeça em outro lugar.

— Não estava tão em outro lugar assim. Ele fez um verso desrespeitoso sobre o meu pai.

— É, você é mesmo o Law. Com raiva por causa de um verso.

— Não foi só um verso.

— É, mas aquilo foi só uma batalha. Milez só queria irritar você. Não foi nada pessoal.

— Bom, é pessoal quando digo que se danem ele e você. — Eu me viro.

Ficamos em silêncio até que o Supreme diz:

— Você precisa das botas, não precisa?

A mentira sai com facilidade.

— Não.

— Não tem motivo pra vergonha se precisar. Já passei por isso. Minha mãe me arrastava pra todo tipo de distribuição de coisas assim quando eu era pequeno.

— Minha mãe não me “arrastou” pra todo tipo de distribuição de coisas.

— Ah, primeira vez — diz ele. — A primeira é sempre a mais difícil. Principalmente com os olhares de pena do pessoal. A gente acaba aprendendo a ignorar isso.

Impossível.

— Olha, não vim pegar no seu pé — declara ele. — Vi você e Jayda entrando e pensei em vir dar os parabéns. Você arrasou no Ringue.

— Eu sei. — Não, não sei, mas tenho que agir como se soubesse.

— Vi uma coisa em você que não vejo há muito tempo — diz ele. — Nós da indústria chamamos de “algo”. Ninguém sabe explicar o que é, mas nós reconhecemos quando vemos. Você tem algo. — Ele ri. — Caramba, como você tem.

Eu me viro.

— É mesmo?

— Ah, é. Law morreria de orgulho, sem dúvida.

Sinto uma pontada no peito. Não sei dizer se é de dor ou alegria. Talvez as duas coisas.

— Obrigada.

Ele enfia um palito na boca.

— Pena que você não esteja fazendo nada com isso.

— Como assim?

— Eu pesquisei. Você não tem nenhuma música por aí. Perdeu uma oportunidade. Porra, o Milez perdeu a batalha e mesmo assim teve repercussão. Se você tivesse um agenciamento certo, estaria fazendo mais sucesso do que ele agora.

— Minha tia é minha agente.

— Quem? Aquela garotinha que vivia atrás do Law?

Tia Pooh idolatrava meu pai. Diz que andava atrás dele como uma sombra.

— É, ela.

— Ah. Vou tentar adivinhar: ela viu que Dee-Nice conseguiu um contrato de um milhão de dólares e agora quer ficar jogando você no Ringue na esperança de que consiga um também.

É, mas isso não é da conta dele.

Supreme levanta as mãos.

— Ei, não falo por mal. Porra, é o que metade do bairro está tentando agora. Mas vou ser sincero, garotinha. Se você quiser fazer sucesso, vai precisar de mais do que o Ringue. Vai ter que fazer música. Foi o que falei para o Dee-Nice. Olha ele agora.

— Espera, você é o agente dele?

— Sou. Ele me contratou um ano atrás — diz Supreme. — O Ringue não foi o que conseguiu o contrato dele. Só conseguiu atenção. A música conseguiu o contrato. A mesma coisa com seu pai. Só foi preciso a atenção certa, a música certa na hora certa e, bam! Ele estourou.

A música certa.

— Como você sabe quando é a “música certa”?

— Quando escuto. Nunca errei até hoje. Veja só “Chocrível”. Admito que é uma música simples e boba, mas faz sucesso. Às vezes, basta uma música.

Eu tenho uma música.

— Enfim — diz Supreme —, pensei só em vir dar os parabéns. Eu provavelmente não estaria onde estou agora se não tivesse encontrado seu pai, então, se você algum dia precisar de ajuda — ele me entrega um cartão de visitas —, é só me chamar.

Ele começa a se afastar.

Ele reconhece um sucesso quando escuta e preciso de um. Talvez eu não precise voltar a pegar donativos no ano que vem.

— Espera — eu digo.

Supreme se vira.

Eu tiro o celular do bolso.

— Eu tenho uma música.

— Beleza.

Há uma pausa carregada enquanto ele espera o resto.

— Eu, hum... — De repente, as palavras somem. — Eu... não sei se é boa ou não... Meus amigos gostaram, mas eu...

Ele dá um sorrisinho arrogante.

— Você quer saber o que eu acho?

Eu quero e não quero. E se ele disser que é lixo? Por outro lado, por que de repente eu me importo com a opinião dele? Meu pai o demitiu. O filho dele falou mal de mim.

Mas ele tornou meu pai uma lenda. Conseguiu um contrato de um milhão de dólares para Dee-Nice. E Milez pode ser um lixo, mas Supreme está fazendo alguma coisa certa com ele.

— É — eu digo. — Eu gostaria da sua opinião.

— Tudo bem. — Ele tira fones de ouvido do bolso. — Me deixe ouvir.

Eu coloco a música e entrego o celular para ele. Supreme conecta os fones no aparelho, os coloca no ouvido e aperta o play.

Eu cruzo os braços para que fiquem parados. Normalmente, consigo interpretar as pessoas, mas o rosto dele está tão vazio quando um caderno novinho. Ele não balança a cabeça nem nada.

Fico com vontade de vomitar.

Depois dos três minutos mais longos da minha vida, Supreme tira os fones dos ouvidos, solta o fio do meu aparelho e me devolve o celular.

Eu engulo em seco.

— Ruim assim?

As beiradas dos lábios dele se curvam para cima e formam um sorriso, lentamente.

— Isso aí é um sucesso, garotinha.

— De verdade?

— De verdade! Caramba. Essa música aí? Ela pode ser o início da sua carreira.

Puta merda.

— Por favor, não brinca comigo.

— Não estou brincando. O ritmo pega, os versos são bons. Você ainda não botou online?

— Não.

— Olha só — diz ele. — Bota online e me manda o link. Vou fazer algumas ligações e ver o que consigo pra que você tenha atenção. Todo mundo está de férias agora, então vai ter que ser depois das festas de fim de ano. Mas, caramba, se eu falar com as pessoas certas, você pode conseguir alguma coisa.

— Simples assim?

Ele mostra os dentes dourados em um sorriso.

— Simples assim.

Jay se aproxima com uma caixa.

— Bri, vamos...

Ela aperta os olhos para o Papai Noel. Demora um segundo, mas ela diz:

— Supreme?

— Quanto tempo, Jayda.

Ela não retribui o sorriso, mas também não faz cara feia.

— O que você está fazendo aqui?

Supreme coloca o saco do Papai Noel no ombro.

— Eu só estava dizendo pra Bri que eu vinha a distribuições assim quando era pequeno. Achei que meu filho e eu poderíamos retribuir agora que estamos em posição melhor. Além do mais, é bom pra ele lembrar o quanto é abençoado.

Eu quase reviro os olhos. Como essas pessoas se sentiriam se soubessem que o Milez estava aqui para ver o quanto a coisa está ruim para elas e perceber o quanto estão boas para ele? Ele vai para a casa bonita no subúrbio e vai se esquecer disso em uma semana no máximo, enquanto ainda estaremos passando por dificuldades.

Minha realidade não deveria ser a atividade extracurricular dele.

— Você está bem — diz Supreme para Jay. Não de um jeito paquerador, mas como as pessoas falam para alguém que se livrou das drogas. — Está segurando a onda?

— Estou — diz Jay. — Não tenho alternativa.

— Você sabe que sempre pode me chamar se precisar de ajuda — diz Supreme. — Law era como um irmão mais novo pra mim. Não importa o que aconteceu entre nós. Ele ia querer que eu...

— Brianna e eu temos que ir — diz Jay.

Meu pai é um assunto do tipo que eu chamo de “depende do dia”. Tem dias em que Jay me conta histórias que compensam as lembranças que não tenho. Em outros, parece que o nome dele é um palavrão que não devemos dizer. Hoje, deve ser o dia do palavrão.

Jay se vira para mim.

— Vem.

Eu a sigo pelo ginásio e olho para trás, para Supreme. Ele abre o sorriso mais triste do mundo para mim.

 

A fila da distribuição foi encerrada. Alguns voluntários dizem para aquelas pessoas todas na calçada irem embora. Não tem câmeras por perto para captar os xingamentos gritados e nem para ver a mãe com um bebê no colo que suplica por comida.

A pior parte é passar por elas com a sua mãe carregando uma caixa de comida, sabendo que você não pode dar nada porque precisa de tudo.

Ajudo Jay a colocar a caixa no Jeep. Está cheia de enlatados, alimentos em caixa e tem um peru congelado.

— A gente vai ficar bem por um tempo — diz ela. — Vou ser como o Bubba do Forrest Gump com o peru.

Forrest Gump é meu filme favorito. (Não, espera, é meu segundo favorito. Wakanda pra sempre.) Não sei, tem alguma coisa na ideia de como um sujeito tão simples testemunhou tanta coisa na história. Faz com que eu pense que tudo é possível. Se o Forrest Gump pôde conhecer três presidentes, eu posso sair do Garden um dia.

Enquanto saímos, outros carros entram no estacionamento. A câmera do noticiário talvez tenha que voltar. Desse jeito, alguém vai fazer alguma cena.

— Sorte que chegamos naquela hora — diz Jay.

É assustador pensar que a sorte decidiu se teríamos ou não comida. Mas foi isso que aconteceu em Forrest Gump. A sorte o colocou nos lugares certos nas horas certas.

E se eu tiver acabado de passar por um momento Forrest Gump com o Supreme?

Jay me olha.

— O que você e o Supreme estavam conversando?

Eu me mexo na cadeira. Não contei pra ela sobre a música. A questão é que, se eu sou do tipo que tira conclusões rápidas, Jay é do tipo que se teletransporta para as conclusões. Não importa sobre o que é a música, ela ouviria o verso sobre a Glock e me enterraria a oito palmos na terra. Sete não seriam suficientes.

Quero ver o que posso fazer com a música primeiro. Vai ser difícil ela ficar com raiva se eu conseguir um contrato de um milhão de dólares igual ao Dee-Nice, não é?

— Nós estávamos falando da batalha e tal — eu digo. — Supreme acha que eu tenho “algo”. Você sabe, a coisa que torna as estrelas estrelas .

— Ele está certo quanto a isso. Ora, eu mesma vi esse algo no vídeo da batalha.

— Você viu minha batalha?

— Claro. Por que não veria?

— Você não disse nada.

— Eu estava com raiva por causa das suas notas. São mais importantes. Mas vi o vídeo logo depois que entrou na página do YouTube do Ringue. Você foi incrível, Bri. Não estou surpresa. Quando você era pequena, transformava tudo em microfone. Se minha escova de cabelo sumia, eu sabia que você estava cantando com ela em alguma parte da casa. Seu pai dizia — ela faz a voz mais grossa — “Nossa pequena milagrosa vai ser uma estrela”.

— Milagrosa?

— Eu sofri quatro abortos antes de finalmente ter você.

— Ah.

Milagrosa. Uma palavra. Rima com maravilhosa.

 

É uma coisa maravilhosa

Eu ser chamada de milagrosa.

 

Jay pisca rápido, mas mantém o olhar na rua. Às vezes, ela me olha como se estivesse procurando a si mesma e às vezes eu a observo enquanto ela não está olhando. Não de um jeito sinistro, mas o suficiente para ter uma ideia de quem ela era e ter um vislumbre de como posso vir a ser.

Ela me dá esperanças e me assusta ao mesmo tempo.

— Nossa pequena milagrosa. — Ela me olha. — Eu te amo. Você sabe disso, né?

Sinto um aperto no peito de novo. Esse é de alegria.

— Eu sei — eu digo. — Eu também te amo.

TREZE

 

O Natal consegue ser o Natal.

Mesmo que seja domingo e aniversário de Jesus, nenhum de nós consegue levantar antes das onze, então acabamos perdendo o culto. Eu nunca entendi aqueles filmes que mostram as famílias acordando ao amanhecer, todas cheias de alegria porque “Viva, Natal!” Para nós é “Viva, dormir!” Falando sério, dormir é a melhor parte do Natal. Ficar de pijama quase o dia inteiro é o maior bônus de todos. Meu macacão do Pikachu é simplesmente perfeito.

Só começamos a tomar café da manhã ao meio-dia. Jay sempre faz panqueca de maçã com canela no Natal e hoje não é diferente graças ao saco de farinha que estava na caixa do centro comunitário. A gente também costuma comer bacon, daquele tipo grosso com o qual eu me casaria se a lei permitisse, mas não havia bacon na caixa.

Levamos os pratos para a sala e nós três nos sentamos no sofá e cobrimos as panquecas de geleia e manteiga. Depois do café da manhã, normalmente é a hora dos presentes, só que este ano não tem nada embaixo da árvore. Jay não tinha dinheiro para o Natal e Trey também não, obviamente. Além do mais, estou acostumada. Se há três presentes embaixo da árvore, é um milagre. Zero não fica muito longe disso.

Tudo bem.

Jay vai para o quarto ligar para os parentes mais velhos que surpreendentemente ainda estão vivos e Trey e eu colocamos o jogo do Michael Jackson no Wii que meu pai comprou quando éramos mais novos. Juro por Deus, esse jogo é uma das melhores coisas que existem. Ensina a dançar igual ao MJ. Tecnicamente, você pode mover os controles do Wii na direção certa e ganhar, mas Trey e eu caprichamos. Os chutes, os movimentos de virilha, tudo. O fato de sermos competitivos à beça não ajuda.

— Olha esse chute! — diz Trey quando faz um. Ganha avaliação de “perfeito” no jogo. Os chutes dele sempre são superaltos. É uma capacidade que ele tem desde a época da banda. — Uiiiii! Você não é páreo, garota!

— Corta essa!

Faço um rodopio que ganha um “perfeito”. Claro. Conheço cada passo de cor. Meu amor pelo Mike começou quando vi um vídeo no YouTube da primeira vez que ele cantou “Billie Jean”. Eu tinha 6 anos e o Michael era magia. O jeito como ele se movia, sem esforço. A reação da plateia a cada chute, a cada passo. O fato de ele ter meu sobrenome também contribuiu. Eu o amava como se o conhecesse.

Vi aquela apresentação até aprender cada passo. Meus avós sempre colocavam “Billy Jean” nas reuniões de família e eu dava um show. Churrascos, jantares de domingo, funerais, não importava. Todo mundo se divertia com a minha apresentação e eu me divertia com as reações.

É, o cara tinha seus problemas, coisas que nem vou tentar entender, mas seu talento era inigualável. Ele sempre foi o Michael Incrível Jackson.

Eu quero ser assim. Bom, não exatamente assim, sem querer ofender o Mike, mas um dia quero que as pessoas olhem para mim e digam: “Apesar daquela garota ter perdido o pai pra violência das armas, de ela ter tido uma mãe viciada em drogas e de ser tecnicamente uma estatística de gueto, ela é Brianna Incrível Jackson e fez umas coisas maravilhosas.”

Empurro o peito do Trey e faço o moonwalk para longe dele, dou um giro e paro nas pontas dos pés enquanto exibo os dois dedos do meio. Como uma lenda.

Trey morre de rir.

— Isso não é passo do MJ!

— Não, é da BJ.

— Isso não soa muito bem.

— Eu sei, cala a boca.

Ele se senta no sofá.

— Tudo bem, essa rodada é sua. Não consigo vencer isso.

— Eu sei. — Eu me sento ao lado dele. — Como eu ganhei, você sabe o que tem que fazer.

— Ah, não.

— É a regra!

— É aniversário de Jesus, portanto aquela regra não se aplica, por ser uma violação clara de um dos Dez Mandamentos.

Eu inclino a cabeça.

— Vai vir com religião pra cima de mim?

— Você não ganhou! Eu cedi a vitória.

— Isso é vitória. — Eu bato palmas a cada palavra. — Então, vai logo.

— Cara — geme ele, mas fica de joelhos e me idolatra. — Um viva para a maravilhosa Bri.

— Que é um MJ melhor do que eu — eu acrescento.

— Que é um MJ melhor do que eu.

— E que me deu uma surra de lavada.

— E que me deu uma... — Ele murmura o resto a ponto de não dar para ouvir direito.

Eu levo a mão ao ouvido.

— Como é?

— Que me deu uma surra de lavada! — diz ele mais alto. — Pronto. Feliz?

Eu abro um sorriso.

— Sim!

— Tudo bem — resmunga ele quando volta a se sentar no sofá. — Esteja pronta da próxima vez.

Jay volta para a sala, segurando o celular entre a bochecha e o ombro. As mãos estão ocupadas com uma caixa.

— Aqui estão. Pessoal, digam oi para o tio Edward. — Ela segura a caixa com uma das mãos e estica o celular na nossa direção.

— Ele não está morto? — pergunta Trey.

Eu o cutuco. Que grosseiro.

— Oi, tio Edward — nós dizemos.

Ele é o tio da mãe da Jay, o que o torna meu tio-bisavô. Eu nunca o vi na vida, mas Jay me faz falar com ele sempre que conversam.

Ela coloca o celular no ouvido.

— Tudo bem, volte a dormir. Eu só queria desejar Feliz Natal... Tudo bem. Nos falamos depois. — Ela encerra a ligação. — Senhor. O homem dormiu no meio da conversa comigo.

— Sorte a sua que ele não morreu no meio da conversa — diz Trey. Jay olha para ele de cara feia. Ele assente em direção à caixa. — O que é isso?

— Surpresas de Natal pra vocês.

— Mãe, a gente disse que não ia comprar presentes...

— Eu não comprei nada, garoto. Estava olhando na garagem pra ver se tinha alguma coisa que dava pra vender. Encontrei umas caixas do seu pai.

— Isso aí são coisas dele? — eu pergunto.

Jay se senta de pernas cruzadas no chão.

— É. Tive que esconder da sua avó. A mulher quer tudo que pertenceu a ele. Tive até que esconder de mim mesma. — Ela baixa os olhos. — Eu provavelmente teria vendido algumas dessas coisas na época em que estava doente.

É assim que ela chama o vício.

Eu olho para a caixa. Tem coisas dentro que foram do meu pai. Coisas em que ele tocou em algum momento, que podem ter sido parte da vida diária dele. Coisas que o tornaram quem ele era.

Abro as abas da caixa. Tem um boné verde-exército em cima. É irado e é a minha cara. Obviamente, era a dele também.

— Law agia como se não pudesse ser visto sem boné — diz Jay. — Aquele homem me dava nos nervos. Não importava aonde íamos, ele precisava de algum tipo de chapéu. Achava que a cabeça tinha um formato estranho.

Eu sou igual. Tiro o capuz do macacão do Pikachu e coloco o boné. É meio grande e desajeitado, mas é perfeito.

Chego para a ponta do sofá e remexo mais. Tem um moletom que ainda carrega o cheiro da colônia dele de leve. Tem um caderno de composição. Todas as páginas têm coisas escritas com uma caligrafia feia que não devia ser chamada de caligrafia. Mas consigo ler. É bem parecida com a minha.

Tem mais cadernos, uma carteira surrada de couro com a habilitação dele dentro, mais camisas e jaquetas, CDs ou DVDs, difícil saber qual dos dois. No fundo da caixa, tem algo em ouro.

Eu pego o objeto. Tem um pingente de coroa pendurado em uma corrente de ouro. Diamantes formam o nome “Law” embaixo, como se a coroa ficasse na cabeça do nome.

Puta merda.

— Isso é de verdade?

— É — diz Jay. — Ele comprou com o primeiro cheque alto que recebeu. Usava o tempo todo.

Essa coisa deve valer milhares de dólares. Deve ser por isso que Trey diz:

— A gente tem que vender isso.

— Não, de jeito nenhum. — Jay balança a cabeça. — Quero que Bri fique com isso.

— É sério? — eu digo.

— E quero que Bri tenha comida e abrigo — diz Trey. — Nem inventa, mãe. Vende! Droga, vale mais do que ele valia.

— Olha essa boca — rosna Jay.

Quando o assunto é o papai, Trey não é muito fã. Não quero dizer que ele não escuta as músicas do papai (ele não escuta mesmo), mas se Trey for contar a história, vai dizer que o papai morreu por bobagens que poderia ter evitado. Trey nunca fala sobre ele por causa disso.

Ele seca o rosto com cansaço.

— Eu... é.

Ele se levanta do sofá e vai para o quarto.

Jay olha para o lugar onde ele estava.

— Pode ficar com tudo na caixa, Bri. Seu irmão obviamente não quer nada. Vou começar a preparar o jantar.

É, ela já está começando o jantar. O Natal serve para comer em homenagem a Jesus.

Fico sentada no sofá. A corrente está na minha mão e o boné na minha cabeça. Seguro o pingente contra a luz da sala e os diamantes brilham como um lago num dia de sol.

A campainha toca. Eu puxo a cortina e olho. Tia Pooh está com chapéu de Papai Noel e um suéter com o Papai Noel fazendo a pose dabbing . O braço dela está enroscado no de Lena.

Eu abro a porta para elas.

— Por onde você andou?

Tia Pooh passa por mim e entra na casa.

— Feliz Natal pra você também.

— Nem gasta energia, Bri — diz Lena. — Foi como sempre.

Considerando metade das coisas que Lena aguenta da tia Pooh, ela é uma santa. Elas estão juntas desde que tinham 17 anos. Do mesmo jeito que tia Pooh tem os lábios da Lena tatuados no pescoço, Lena tem “Pooh” no peito.

— Eu sou adulta — diz tia Pooh enquanto se senta no sofá. — Bri só precisa saber disso.

Lena se senta pesadamente no colo dela.

— Ai! Tira essa bunda grande de cima de mim!

— Você vai dizer pra mim também que é adulta? — pergunta Lena. Ela belisca a tia Pooh, que ri e faz careta ao mesmo tempo. — Hã?

— Você tem sorte por eu amar sua chatice. — Tia Pooh dá um beijo nela.

— Não. Você tem sorte — diz Lena.

Fato.

Jay entra na sala secando as mãos em um pano de prato.

— Achei que eram vocês mesmo.

Continuar: parte 3 de 9