O Caminho Certo
Capítulo 10 · A luz de fora me acordou mais…
A luz de fora me acordou mais uma vez. Só que, desta vez, não havia ninguém no quarto. As empregadas provavelmente perceberam que eu acordaria em breve e não se importaram em fazer isso também. Melhor assim, odiava ser acordada.
Sentia que estava um pouco mais disposta. Espreguicei na esperança de que hoje fosse um dia completamente diferente dos anteriores. Que não ficasse sentindo aquela dor miserável no peito a cada segundo ou, se ficasse, que ela diminuísse nem se fosse um milésimo. Já faria muita diferença.
Sem levantar da cama, olhei para o diário que ocupava o lugar vago ao meu lado no colchão. Já tinha passado da hora de ler a primeira página. Até agora, só havia lido a introdução; uma página que nem linha tinha... Precisava ser forte e encarar o resto. Afinal, queria conhecer melhor a mulher que mais amei neste mundo e que não estava mais aqui para contar seus segredos. Deveria me sentir agradecida por ela ter escrito aquilo.
Respirei fundo. Ok, Paloma, vamos lá.
“Você foi a esperança nos meus dias de solidão, a angústia dos meus
instantes de dúvida, a certeza nos momentos de fé.” – Paulo Coelho.
Minha doce e pequena bebê,
Há quatro meses descobri que você é uma menina e isso me deixou mais emocionada do que imaginei que ficaria. Antes te chamava por "meu anjo", "meu bebê", mas sempre no masculino como se previsse que você seria um menino. Seu pai teria adorado. No entanto, amei saber que vou ter uma companhia feminina nesta casa tão grande.
Seu pai quase nunca está em casa e eu não deveria estar também, mas larguei meu emprego para cuidar de você. Minha gravidez teve muitas complicações até agora, pequena. Você não faz ideia. Hoje, aos sete meses, agradeço por cada dia que posso sentir um chute seu. É bom saber que você está viva dentro de mim e que eu estou conseguindo te manter salva.
Vou te contar um pouco sobre meu casamento... Foi fantástico: teve muita festa, muita gente e tudo foi muito chique... Mas esta não é a questão. Nós nos casamos por amor, pequena, jamais duvide disso. Eu amava o seu pai mais do que tudo neste mundo. Digo amava, pois agora é você quem ocupa este lugar. Você é a coisa mais importante para mim, mas jamais deixarei de amá-lo também.
E sei que ele também me ama. Por mais que não esteja sempre presente, ele ama. O único problema é o trabalho. Se não fosse por isto ele estaria aqui, beijando minha barriga e conversando carinhosamente com você. Perfeito... Mas nem sempre foi assim.
Estamos casados há apenas dois anos e ele está se adaptando na empresa do seu avô. Muita coisa para aprender, por isso a correria e o stress são tão frequentes. Ele não queria ter um filho agora. Até insistia para eu jamais me esquecer do remédio, pois um filho arruinaria tudo neste momento da sua vida. E nunca me esqueci, minha linda, eu juro. Tomei todos os dias, sem atrasar nem uma hora sequer. Não queria deixá-lo mais preocupado... Mesmo assim você surgiu. Um milagre em nossas vidas. E me apaixonei por você no instante em que vi aqueles dois risquinhos no teste de gravidez.
Depois disso ele ficou sem falar comigo por muito tempo. Na verdade, não apareceu em casa por um mês inteiro. Não quero pensar no que ele fez ou com quem fez ou onde esteve. Não importa. Tento me convencer de que ele apenas se dedicou mais ao trabalho. Só isso. Às vezes ser inocente machuca menos, sabia?
No entanto, depois deste mês devastador, ele voltou. Carinhoso, amoroso, como se nada tivesse acontecido. Beijou minha boca e minha barriga, que ainda não tinha mudado nada. Demonstrou o quanto me amava, o quanto me queria ao seu lado e isso bastou para perdoá-lo. Era tudo o que eu precisava... um pouco de carinho e atenção da pessoa que amo. E tive isto.
Aconteceram outras coisas durante a minha gestação. Fui internada duas vezes, uma delas com suspeita de ter ingerido veneno. Não sei como isto aconteceu, mas imagino que tenha sido engano de algum empregado. Da segunda vez, seu pai estava dando ré no carro e não me viu atrás dele. Eu caí e corremos para o hospital com medo de ter acontecido algo a você. Felizmente, você está cada vez mais saudável.
Sei que ele não fez de propósito. Jamais seria capaz disso.
Agora estou apoiada na minha barriga que está cada vez maior. Parece que vou explodir! As calças de antes não servem mais, então nem arrisco sair da cama. Quando saio é com os meus vestidos. Vou deixá-los guardados para quando você estiver grávida do meu netinho, ou da minha netinha. Espero ter a oportunidade de conhecê-los, e ver você amando-os da mesma maneira que te amo agora.
Sim, é possível amar alguém que você nunca viu na vida. Alguém que nunca tocou ou que nunca conversou. Sou a prova real disso.
Da sua mãe, que te amou desde o primeiro instante.
As primeiras palavras me deixaram sem reação. Ela nunca demonstrou tanto o seu amor... Pelo menos não com palavras. Talvez isto que fazia dela uma escritora tão boa: o sentimentalismo. Ela conseguia me fazer chorar com apenas uma ou duas frases. Um choro de felicidade e ao mesmo tempo de tristeza. Não conseguia decidir qual dos dois prevalecia.
Meu pai tentou matá-la. Tenho certeza disso. Duas vezes. Ela poderia não ver naquela época, mas hoje está claro que não foram acidentes. Quem não vê a mulher grávida atrás do carro? Ele viu. Ele viu e tentou matá-la. Ou melhor, tentou nos matar. Quis tirar a vida dela por minha causa.
Joguei o diário longe sem me importar com onde ele parou e entrei debaixo do chuveiro. Era exatamente isso que não queria: ler e me sentir pior. Sabia que aconteceria, mas a curiosidade falou mais alto. Ela sempre falava.
Diferente do que havia planejado, não saí do quarto. Voltei a fechar as cortinas e me enrosquei na cama. Era ali que passaria o dia.
Só acordei novamente oito horas da noite. O quarto em pleno silêncio me dava medo. Durante os dias que havia passado trancada no quarto, não acordei no meio da noite. E este era um fato... Eu era medrosa. Muito. Não tinha medo de não ter para quem ligar caso acontecesse algo, mas sim do que a minha mente era capaz de criar no meio do quarto escuro.
Não poderia ficar ali aquela noite.
Peguei o celular, que ficou carregando desde a hora em que subi com a bolsa e liguei para Lorel. Fazia uma semana que não nos falávamos.
– Paaaaaaaa, você sumiu! Menina, que saudade! – Gritou, com uma música alta no fundo.
– Onde é a festa? – Perguntei, gritando para ser ouvida acima do som.
– Não acredito que você virá! Vem logo, você me abandonou semana passada! Vou te mandar o endereço por mensagem. Te espero. – E desligou. Sempre assim. Como eu disse; não éramos melhores amigas, apenas amigas de balada.
Talvez uma balada fosse tudo o que precisava agora.
Coloquei um vestido preto, o mais curto que encontrei no guarda-roupa, e um salto alto vermelho. Manteria o preto, ele me fazia sentir um pouco melhor. Pelo menos uma parte de mim estaria de luto naquela noite, mesmo que meu cérebro não se lembrasse do motivo. Esta era a intenção.
Meia hora depois o taxista me deixou no lugar indicado pela mensagem. Não avisei a ninguém que estava saindo, porque não havia a quem avisar. O Fernando poderia se preocupar, mas não deveria. Não seria um problema em sua vida.
A boate estava lotada como sempre, mas consegui entrar na frente de todas as pessoas da fila. Ótimo, meu charme continuava intacto. Me enfiei no meio da multidão, sabendo que encontraria Lorel uma hora ou outra. O importante agora era esquecer. Esquecer tudo.
Sentei em um banquinho encostado no bar e dirigi o meu melhor olhar para o barman.
– Eu quero o mais forte que você puder. – Falei, usando os dois sentidos da frase para que se empenhasse para fazer uma ótima bebida para mim.
– Tudo o que você quiser, princesa. – Piscou ele, saindo para preparar a bebida milagrosa. Neste momento, precisava ser.
Dois copos do paraíso e já me sentia mais leve. A música que antes parecia alta demais para meus ouvidos desacostumados, agora se alojava em meu corpo e o atraía para a pista que continuava lotada. Minhas pernas já se mexiam no ritmo da batida, e não faltava muito para que eu realmente esquecesse.
Mais um copo. Esquecer o que? Não lembro o que precisava esquecer. Assim estava ótimo.
Por algum motivo ainda sentia o vazio dentro de mim. Só poderia ser falta de atenção! Felizmente, sabia o lugar exato onde a encontraria.
Levantei do banquinho, sentindo o chão um pouco instável aos meus pés, mas nada que impossibilitasse a caminhada até a pista de dança. Na verdade, deixava tudo mais divertido. As luzes giravam, tudo girava e agora meu corpo girava no meio do furacão de pessoas.
Pessoas bebendo, dançando, girando... Sempre girando. A vida nunca foi tão divertida.
– Você veio mesmo!!! – Gritou Lorel no meu ouvido, me pegando pela cintura e movendo seu corpo com o meu.
– É claro que vim! – Gritei de volta, erguendo os braços.
Chegou a hora de achar a vítima da noite. O sortudo.
Movi o corpo com o de Lorel, sem me importar muito com os movimentos. Estava acostumada com aquela dança. Nossas coxas tocavam-se, nossas mãos exploravam o corpo uma da outra... Nada era novidade, fazíamos aquilo há mais de um ano. E sempre dava certo.
De repente, senti uma mão mais forte na minha cintura. Não era da Lorel, esta já estava virada de costas para mim, dançando com um cara que poderia ser mais bonito. Ela conseguiria coisa melhor, mas isto pouco importava. Não quando a mão masculina me segurava tão firmemente.
Virei o corpo para o dono da mão, sem olhar o seu rosto, apenas tentando entrar no seu ritmo. Sua fisionomia também não me importava, afinal ele não seria lembrado. Estava apenas tirando o vazio existente dentro de mim. Uma noite e nada mais.
No entanto, não deixei de reparar no quão definido era seu corpo. Enquanto dançávamos, me virou de costas para si novamente, encaixando o corpo no meu. Pude sentir seu peitoral nas minhas costas, suas coxas, suas mãos – já sentidas, mas ainda desejadas – passeando por minhas curvas causando-me arrepios. Era bom sentir o desejo voltando. Aquele que sempre sentia quando saía com Lorel, mas que durava pouco mais de cinco minutos.
Queria que aquela noite fosse diferente.
Continuamos dançando até a música mudar. Sentia o corpo suado, o ambiente cada vez mais quente, e precisava de mais uma bebida. Ainda não me lembrava de nada... Precisava lembrar. Não, não conseguia. Melhor assim. Queria ir para o bar, tomar um ar, mas aquelas mãos não me deixaram partir.
Não posso dizer que não gostei. Na verdade, amei. Fazia mais do que cinco minutos, com certeza, e o desejo só aumentava. Sentia que com aquele homem misterioso poderia dar o próximo passo... O passo que nunca havia dado com nenhum daqueles caras que tentaram levar-me para a cama.
Mesmo que ainda não tivesse visto seu rosto, o desejo estava mais presente do que nunca.
Tentei me virar novamente para ele, mas suas mãos firmaram em meu corpo, impedindo que me movesse. Mais uma vez. A música mudou de novo, e ele não me soltou. Explorava meu corpo com aquelas mãos... E desejei que estivéssemos em outro lugar. Em um lugar onde ninguém veria. Um lugar onde ele pudesse descer mais as mãos, me fazer esquecer ainda mais.
Já na quarta música dançando com ele, meus pés não aguentavam mais. Tudo continuava girando, mas a diversão estava indo embora. O cara atrás de mim deve ter percebido a mudança, pois aproximou o rosto do meu pescoço, causando um arrepio que percorreu meu braço inteiro, e sussurrou:
– Não imaginei que te encontraria aqui.
Conhecia aquela voz. Puta que pariu, eu conhecia aquela voz. Meu cérebro demorou um pouco para processar tudo o que estava acontecendo, mas quando me dei conta, virei de frente para ele sem saber se queria dar um tapa em seu rosto ou um beijo na sua boca.
O desejo do beijo era por causa da bebida, é claro. Jamais desejaria beijar o cara que me fez chorar duas vezes e que me deixou acordada por várias horas na noite anterior.
Ricardo.
De todos os homens na balada, tinha que ser ele a despertar aquele desejo desconhecido em mim? Justo ele?
Fiquei encarando-o, sem saber por onde xingá-lo. Por fim, não falei nada, apenas saí de perto e andei em direção ao bar, pois precisava de mais uma bebida.
Não, não podia beber mais. Os três copos me deixaram delirando e quase deixei o idiota me pegar no meio da pista de dança. Um copo a mais e não seria capaz de me controlar. E, com certeza, me arrependeria no dia seguinte. Mais do que se fosse com qualquer outro cara.
Ótimo, ele estragou mais um momento importante para mim.
Saí da boate bufando, parando para respirar só quando cheguei ao meio da calçada. Tudo continuava girando e eu precisava ligar para alguém. Precisava ir para algum lugar. Para onde?
Ah sim, para casa. Era para lá que precisava ir, mesmo que não houvesse ninguém me esperando.
– Vai fugir de mim? – Perguntou a mesma voz rouca que estava no meu ouvido alguns minutos atrás.
– Foi você quem começou. – Falei sem virar para ele, me referindo ao modo como foi embora de casa ontem.
Ele apenas riu. Chegou mais perto de mim, fazendo com que desse um passo para frente. Não queria sentir aquele desejo novamente. Não por ele.
– Como vai fazer para ir para casa? – Perguntou, sem se aproximar mais.
– Vou dar um jeito.
– Eu te levo.
– Não, não precisa. – Neguei. A combinação carro + aquelas mãos fortes era tudo o que queria alguns momentos atrás. Agora, era tudo o que não podia querer.
– Vamos lá, Paloma. Sem medo. – Sussurrou a última frase no meu ouvido. Como não percebi sua aproximação?
Arrepios. Novamente os malditos arrepios, e ele nem me tocou ainda. Acho que saber a quem pertence aquele corpo só piorou a situação.
– Não tenho medo. – Teimei.
– Então vamos. É só uma carona. – Disse. Pude ver aquele sorriso de lado em seu rosto, mas não tive coragem de virar para confirmar se estava ali. Sim, um pouco de medo eu tinha. Mas eu jamais admitiria isto.
– Tudo bem. – Aceitei, derrotada. Não conseguia erguer os muros com aquela nuvem na cabeça. Na verdade, não conseguia nem pensar nos motivos para erguê-los, mesmo sabendo que era o certo ser feito.
Andei ao seu lado até o carro que Miguel usou para me levar em casa no dia que dormi na praia. Chegando lá, ele abriu a porta para mim com um sorriso torto no rosto. Por que olhei? Fiquei alguns segundos olhando, o que provavelmente pareceu estranho e o sorriso foi sumindo. Ótimo, agora me fiz de besta na sua frente.
Bufei novamente e sentei no banco do passageiro, esperando que fechasse a porta e me levasse logo para casa. Aquele dia precisava acabar urgentemente!
– Por que você foi naquela balada? – Perguntou, puxando assunto.
– Porque eu gosto. – Respondi, encostando a cabeça no banco e olhando as casas passarem rapidamente enquanto ele dirigia. Não, isso não foi uma boa ideia. Olhei para frente, onde o enjoo não existia.
– É um pouco fora do seu... Habitat. – Comentou.
Não sei o que quis dizer com aquilo. Também não era boa o suficiente para aquela balada?
– Que pena. – Disse ironicamente e fechei os olhos. Foda-se, não queria conversar. Não quando a qualquer momento ele poderia dizer algo que me machucasse.
– Paloma, acorda. – Ouvi Ricardo dizendo com a voz grossa em meu ouvido enquanto chacoalhava meu ombro.
Não queria acordar. Estava sonhando com suas mãos no meu corpo, quando ainda não sabia a quem pertenciam e aquilo era muito melhor do que a realidade. Obrigue-me a acordar, idiota! Só queria continuar com meu sonho erótico. Será que no sonho nós poderíamos avançar mais?
– Merda! – Ouvi dizer, mas não sabia se era no sonho ou na realidade. Senti meu corpo sendo levantado, ao mesmo tempo em que me prensava na parede da balada, levantando minhas pernas ao redor da sua cintura.
O balançar permaneceu nas duas situações. Em meu sonho, pressionava cada vez mais e nunca era o suficiente. Eu só queria sentir mais. Mais. Mais. Preciso de mais! Em meu outro sonho – não conseguia saber se este era real – ele me carregava no colo pelas escadas de casa.
Não, não gostei do segundo sonho. Vou permanecer no primeiro.
Forcei o cérebro a se concentrar apenas no primeiro e foi a coisa mais fácil que já fiz em toda a minha vida. De repente, estávamos em um canto da balada onde ninguém poderia nos ver e, se alguém visse, seu corpo me escondia completamente. Ele desceu os lábios pelo meu pescoço, alternando entre beijos e mordidas, me fazendo ansiar por mais.
Podia sentir um volume em suas calças, o mesmo que pressionava contra mim, roçando nossas roupas. O volume que tanto rejeitei de outros caras, mas que dele eu só queria mais. Mais. Apertei as pernas ao redor da sua cintura. Ainda não era o suficiente.
Ele continuou a pressionar e a fricção que os movimentos geravam era maravilhosa. Indescritível. Passei as unhas por suas costas, fechando os olhos e me concentrando naquela sensação.
Não pude evitar sussurrar seu nome. O nome do cara que eu queria que não tivesse uma identidade, mas que deixava tudo mais sensual quando me olhava com aquele sorriso torto.
Ele então parou o que estava fazendo e me olhou com o exato sorriso que imaginei em seu rosto. O cenário mudou para minha casa, mas ele permaneceu ali com o sorriso torto. No quarto da minha mãe, em cima de mim e o sorriso torto no rosto.
Ok. Eu havia enlouquecido de vez.
Brava com meu cérebro por não saber separar a realidade dos sonhos, virei de lado na cama e abracei o travesseiro, mergulhando em mais um sono profundo. Dessa vez, sem sonhos frustrantes.