O Caminho Certo
“O cara que disse que dinheiro não…
Prólogo
“O cara que disse que dinheiro não compra felicidade, não sabia onde fazer
compras.” – David Lee Roth.
Capítulo 1
Havia finalmente chegado o grande dia: meu aniversário. Esperei meses por ele, ansiosa para completar dezoito anos e não precisar usar minha identidade falsa novamente, nem me preocupar se me parariam na porta do pub como já fizeram muitas vezes, ou pedir para alguém me contrabandear mais uma bebida. Sem mais complicações. Liberdade, aqui vou eu!
Demorei quarenta minutos me arrumando para a faculdade, pois queria estar impecável. Como se algum dia não estivesse... Mas hoje era um dia especial e, por isso, merecia um visual marcante. Muitos viriam me abraçar, tentariam se aproximar só para chegar mais perto da garota popular do curso, perguntariam sobre os meus planos, com a esperança de estarem incluídos neles. Tem como não amar toda essa atenção?!
Ao olhar no espelho, não senti que algo tivesse mudado. Tudo parecia a mesma coisa. A mesma garota com os cabelos loiros me encarava do outro lado, com a expressão já conhecida: aquela que conseguia tudo o que queria. Para mim, aparência era tudo. Não conseguia imaginar a minha vida sem todas as coisas que já ganhei com um simples sorriso de lado, e não via problema nenhum em ser assim. Na verdade, se alguém for julgar os meus atos, posso culpar a criação que tive. Meu pai deixava claro que seu lema de vida era: “Faça com que todos te amem, mesmo que não te conheçam verdadeiramente”. Imagino que ele jamais se decepcionará comigo neste quesito.
Só tinha um problema: com muito amor vinham muitas garotas invejosas. Coitadas. Jamais serão como eu. Jamais terão dinheiro suficiente para comprar tudo o que querem – como tenho – e uma família perfeita, com pais jovens e apaixonados – exatamente como os meus. E, é claro, jamais serão tão populares como eu sou.
Dizem que nunca podemos ter tudo na vida. Bom, estou aqui para provar o contrário. Nasci com tudo e, aos meus dezoito anos, continuo tendo tudo. Meu pai luta por isso dia após dia, trabalhando fora durante uma semana ou duas por mês, mas todo o seu esforço vale a pena.
E mesmo com os seus desaparecimentos, minha mãe ainda o amava incondicionalmente. Eram perfeitos juntos e tinham um amor que duraria para sempre. Já eu, nunca havia encontrado esse amor. E olha que não foi por falta de procura! Meu final de semana já começa na quinta e geralmente não vou para a faculdade na sexta, pois de manhã ainda estou sob efeito do álcool consumido na noite anterior. Então passo os três dias do final de semana à procura de mais felicidade, como se não fosse o suficiente tudo o que tenho.
Tenho tudo, mas ainda quero mais. Quero aquele romance de novela, ou melhor, de livros eróticos, onde o rapaz tem um corpo maravilhoso e leva a garota ao delírio com apenas um olhar. Sabe aquele romance capaz de arrancar suspiros? É dele que estou falando.
– Olha se não é a aniversariante do dia! – Cumprimentou Lorel, minha melhor amiga, assim que me viu.
Lorel era minha amiga por falta de opção, mas ninguém sabia disso. Ela apenas saía comigo todos os finais de semana e arranjávamos “ficantes” uma para a outra. Conhece aquelas duas garotas que estão sempre se agarrando na balada para poder atrair os homens? Somos nós, sem dúvida. Mas nossa amizade não passava disso. Quando não estávamos falando de homens, não tínhamos assunto.
– Ei, gatinha! – Senti seu corpo me apertando em um abraço e sorri. Do nosso jeito, ela era o mais perto de amor que já tinha chegado.
– Então, quais são os planos para hoje?
– Não sei Lo. Hoje é quarta. Não vi meus pais de manhã, mas tenho certeza que eles vão querer passar a noite comigo. Podemos marcar algo para mais tarde.
– Ok, vou ver o que terá de bom. – Entusiasmou-se, já com o celular na mão, provavelmente conversando com todos seus contatos pelo WhatsApp, aqueles que arranjavam as melhores festas para nós. – Como está se sentindo agora que pode fazer tudo o que já fazia? – Riu, sem tirar o olho do celular.
– Livre. – Respondi, vendo outras duas garotas se aproximarem para me cumprimentar.
A manhã passou assim: muitos abraços, beijos no rosto e insinuações. Verifiquei o meu celular duas vezes, procurando alguma ligação de meu novo ficante, Tiago. O conheci na última festa que fomos e ele anotou o meu número. Três dias se passaram e nenhuma notícia dele. Das duas, uma: ou ele não gostou do gelo que dei em uma hora não muito apropriada, ou perdeu o meu número. Minha aposta ia para a segunda opção.
No fundo, não me importava. Se ele ligasse, não iria atender. Ou talvez atendesse apenas para dizer que foi "apenas uma noite". Não era o que os homens faziam com as meninas inocentes que se apaixonavam após um beijo? Pois estou me vingando por vocês, garotas. Aquele cara que quebrou o seu coração, terá o dele estilhaçado por mim.
– Oi, Paloma. – Cumprimentou timidamente um garoto alto, com o corpo magro, sem qualquer sinal de músculos por baixo da camiseta simples. Percebi isso tudo depois de dar uma boa encarada nele, que ficou ainda mais vermelho.
– E aí? – Respondi casualmente, enquanto arrumava as minhas coisas para ir embora.
Finalmente o dia terminou e eu estava livre para voltar para casa. Olhei no relógio e constatei que sim, merecia um descanso. Eram seis da tarde, ninguém merecia ter aula o dia inteiro, ainda mais no dia do aniversário! Não era nada justo.
– Eu... Er, queria te parabenizar. – Enrolou-se, sorrindo para mim, enquanto passava a mão no cabelo, jogando-o para o lado. Não, não daquele jeito metido que os garotos faziam para impressionar alguém... Ele só parecia não saber o que fazer com as mãos.
Um garoto tão alto não deveria se sentir tão inseguro, ficava estranho. Ele até que era bonitinho, mas não servia para mim. Não sou de dar em cima de garotos inocentes, pois sei que não merecem ter o coração quebrado. Eles merecem alguém que saiba amar, que ligue no dia seguinte e que goste de conversar sobre qualquer assunto. Definitivamente, alguém diferente de mim.
– Obrigada.
– Você vai fazer algo hoje? – Perguntou tão rápido que quase não entendi o que havia dito. Quase.
– Vou ficar com meus pais.
– Ah.
Seu embaraço me dava pena. Era tudo um grande dilema. Se eu lhe desse atenção demais, ele criaria esperanças. Se fosse rude demais, ficaria magoado. E, com a carinha que estava, não queria magoá-lo de jeito nenhum.
– Mas estou livre mais tarde. – Respondi, sorrindo de lado pela primeira vez para o garoto.
Não sei por que disse isso. Realmente não sei e me arrependi no mesmo instante, mas já era tarde demais.
O garoto parecia surpreso, como se jamais achasse que teria uma brecha. Pois é, somos dois.
– Posso te ligar para a gente conversar? – Sorriu.
Conversar? Ok, ele realmente era inocente demais. Provavelmente nunca foi beijado. O que é muito difícil, pois estamos no terceiro semestre do curso e a maioria de nós tem dezoito anos. Não imagino que exista alguém com essa idade que nunca foi beijado.
Conversar sim, mas nada além disso. Depois de pensar um pouco, percebi que não seria tão ruim. Talvez por telefone ele fosse menos tímido e mais interessante.
– Sim, aqui está. – Entreguei-lhe um papel com o meu número anotado. Continuava sem saber se havia feito a escolha certa, mas sentia uma ansiedade estranha de ir embora. De ir logo para casa. E essa ansiedade me fez agir sem pensar duas vezes.
– O... Obrigado. – O garoto continuava vermelho.
– Então é isso. Preciso ir... Garoto. – Deveria ter me sentido mal por não lembrar seu nome, mas não me importei. Meu celular já tinha apitado duas vezes, avisando que o motorista estava me esperando do lado de fora do prédio.
– É Miguel. – Gritou, interrompendo a minha fuga. – Meu nome. Miguel. – Repetiu um pouco mais baixo.
– Você já sabe o meu. – Falei. Virei o rosto e sorri para ele, feliz com o seu esforço para se aproximar de mim. Miguel. Não merecia ter o nome esquecido.
Só que ao chegar em casa, dez minutos depois, não lembrava nem com que letra começava o seu nome.
O carro da minha mãe estava na garagem, então esperava que me recepcionasse com um grande abraço e um enorme beijo na bochecha, como sempre faz. Ansiava pelo seu afago no cabelo e seu toque. Não tinha conversado com ela de manhã, o que era incomum. Geralmente acordava com o cheiro de café e, quando descia, ela me recebia com um sorriso no rosto e um olhar cansado. Só agora parei para pensar que não tinha tomado café da manhã.
Minha mãe é a melhor pessoa que já conheci em toda a minha vida. Ela sabia o momento certo para me dar carinho, a hora em que eu mais precisava. Sabia quando deveria ficar distante e calada. Ela me amava mais do que tudo no mundo e demonstrava isso sempre que podia. Batalhou a vida inteira para ser escritora, mas não conseguiu ter sucesso com nenhum dos seus livros. Passava seus dias na frente do computador ou escrevendo em um caderno marrom, deitada em sua cama.
Ela merecia um sucesso enorme, do tamanho do seu coração.
E, neste momento, eu merecia o seu abraço. Precisava dele. O dia havia sido cansativo, por mais que tenha recebido muita atenção. Sabia que nenhuma era verdadeira, eles só queriam um pouco da minha fama. Ou da minha beleza, talvez. E este era o único problema de ter tudo: nunca sabia o que queriam de mim.
Procurei minha mãe pela casa inteira. Nada. Meu pai não estava, mas isso já era de se esperar, ele nunca chegava antes das nove. Seu trabalho como dono da maior empresa de alguma coisa importante – que não me interessava – exigia muito dele. E, depois da briga que ele e minha mãe tiveram ontem, é provável que não volte para casa tão cedo. Ele dizia que precisava esfriar a cabeça, voltando quatro ou cinco dias depois.
– Mãe! – Gritei, andando pela casa que parecia grande demais para apenas três pessoas.
Subi as escadas aos gritos, imaginando que ela havia dormido enquanto escrevia. Não, o quarto estava vazio. Sem nenhum sinal de sua presença. Tudo estava vazio e quieto demais.
Meu quarto tinha o mesmo silêncio da casa inteira, beirando o macabro. Fechei rapidamente a porta, com medo de estar sozinha numa casa com quartos que nunca havia entrado. Uma casa desconhecida, silenciosa e aterrorizante.
Ela esqueceu o meu aniversário? Não é possível! Como fora capaz disso? Não havia outra explicação. Deve ter feito as pazes com meu pai e saíram para jantar, me deixando sozinha. Como puderam?
Revoltada, tudo o que tinha para fazer era encher a banheira e colocar alguns sais relaxantes. Já que meus pais não estavam, tentaria relaxar sozinha. A banheira seria capaz de me acalmar por um momento, me dar os minutos felizes que meu aniversário merecia.
Ao acender a luz do banheiro, meu coração parou.
Não pude acreditar no que via. Não, não era a realidade. Havia enlouquecido. Tinha dormido no banco do carro e tudo era apenas um sonho. Não é a verdade. Não é a verdade.
Não pode ser!
Esfreguei os olhos, ainda paralisada na porta do banheiro. Rezei para estar sonhando. Rezei para que, quando abrisse os olhos, tudo estivesse normal. Tudo estivesse perfeito como sempre foi.
Contei até cinco, mais rápido do que os segundos normais, sem conter a ansiedade. Coloquei todas as esperanças no fato de que abriria os olhos e encontraria meus pais se abraçando na entrada ou minha mãe cozinhando o jantar, ou até a casa vazia novamente. Qualquer coisa, menos aquilo.
Mas não adiantou. Ao abrir os olhos, percebi que era verdade. Não era um sonho. Minha mãe deitada na banheira vazia, com os braços cortados e uma porcaria de uma faca largada no chão, e não era um sonho.
Sangue. Muito, muito sangue.
Atormentada; não sabia o que fazer. Deveria ligar para alguém ou me aproximar? Talvez devesse pegar aquela faca e fazer o mesmo que ela fez. Cortar os braços paralelamente da mesma maneira que ela havia se cortado. Por que ela fez isso? O que aconteceu?
No desespero, me aproximei e ajoelhei ao lado da banheira. Sua cabeça caía encostada na beirada, inconsciente. Segurei em seus braços e tentei sacudi-la, acordá-la, mas não funcionou. Ela não se mexeu. Não acordou. Por que não acordava? Por que EU não acordava?
– Acorda! Acorda! Mãe, sou eu, acorda! – Gritei, sacudindo cada vez mais o seu corpo já desfalecido.
Percebi que ela realmente não ia acordar, e foi assim que meu mundo ruiu.
Não sabia o que fazer, não enxergava direito. Apenas me aproximei mais do seu corpo vazio e o abracei, sem me importar com o sangue, sem me importar com nada. Só queria sentir seu toque vivo e macio, seu carinho no meu cabelo. O seu amor. Precisava daquele amor.
Encostei a cabeça em seu peito nu, abraçando-a cada vez mais forte, sem conseguir conter os soluços desesperados da minha dor. Meu corpo fazia o dela balançar, e o pingo de esperança que restava de que ela acordasse se foi.
Ela se foi e levou tudo o que eu conhecia junto.