O Caminho Certo

Ana Martines · Capítulo 35 de 44

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O Caminho Certo

Por mais que o tempo com Ricardo…

Por mais que o tempo com Ricardo tivesse me curado, ainda havia uma última

coisa que eu precisava fazer para me sentir cem por cento feliz. Completa. Precisava de um final e de algumas respostas.

Era por isso que encarava depois de tanto tempo o túmulo da minha mãe, com o diário cada vez mais pesado na mão como se mostrasse que estava ali. Que precisava ser lido.

O amor que sentia por Ricardo era o sentimento mais forte que já existiu em meu coração. Mas nem o sentimento mais forte do mundo seria capaz de me fazer esquecer tudo o que havia acontecido. E, mais ainda, tudo o que eu ainda não sabia.

Estava na hora de ler o diário inteiro. De dar um ponto final naquela história e seguir em frente.

Respirei fundo, abrindo o diário calmamente querendo adiar aquele momento, até que encarava a página que havia parado. Acomodei-me perto do túmulo e comecei a ler.

“É importante ter tempo para dizer às pessoas que você ama, o quanto você

as ama, enquanto elas podem ouvir” – Greys Anatomy

Minha linda e crescida Paloma,

Queria que você não tivesse que ler isto. Ah, como queria. Mas comecei a carta tentando me convencer de que você está crescida e já tem maturidade – e força – o suficiente para aguentar tudo o que tenho para falar. No entanto, você sempre será a minha menininha.

Como foi o seu trajeto até aqui? Dolorido? Recompensador? Espero que tenha sido valioso. Tudo o que mais tenho feito nesses dias é ler e reler o que escrevi para você e espero do fundo do coração que tenha compensado. Que toda dor que te causei até agora tenha sido por uma causa maior. Porque só assim serei perdoada pela dor que causarei nesta carta.

Hoje é o seu aniversário de dezoito anos. Dezoito, meu amor. Ainda não consegui te dar parabéns, pois são apenas duas horas da manhã, mas a primeira coisa que farei ao ouvir você acordar será te dar um grande abraço por ter chegado a este ponto. Se não te dei esse abraço que estou prometendo, quero dizer que eu pensei melhor e decidi que seria melhor para nós duas. Você pode me perdoar, não pode?

Seu pai e eu brigamos mais uma vez esta noite. Você ouviu, sei que ouviu... Mas não sei se ainda se importa com isso. No começo você ficava toda chateada e assim que ouvia seu pai bater a porta da frente vinha correndo para o meu quarto procurando conforto – e me dando todo conforto que eu precisava. Hoje você se trancou no seu quarto e não saiu mais. Deve ter dormido, e agradeço por isso. Não queria que me visse neste estado.

Preciso te contar tudo. Tudo. E vou começar do começo, mais uma vez.

Todas as vezes que seu pai saía de casa e passava semanas fora, ele ia para a casa de outra mulher. Na época, pensava que ele se hospedava em algum hotel ou na casa de algum amigo... Mas agora sei a verdade. Sempre houve outra. Eu sei o nome dela, o endereço... E amanhã, amanhã mesmo, irei conhecê-la. A mulher que me substituiu durante todos esses anos. Dói tanto pensar nisso... Mas será que dói nela também? Como uma mulher se sente ao ver que é "a outra", "o estepe" na vida de um homem?

Dói pensar em como ela se sente, em tudo o que seu pai já fez com ela e em como está doendo... Tudo me causa dor, meu amor. Não há mais um momento de felicidade na minha vida. Nenhuma luz no fim do túnel. Nem mais um pingo de esperança... Tudo o que conheço é a dor. A dor de acordar e não encontrar o homem da minha vida na cama. A dor de perceber que estou fazendo um péssimo trabalho com você, e que está cada vez mais parecida com ele. A dor de passar a tarde inteira enrolada no edredom sem nada para pensar, além da dor que estou causando às pessoas que amo.

Neste momento estou causando dor em você, não é? Pois só de pensar que um dia estará lendo e sentindo tudo isso, já me causa mais sofrimento. A mim e ao novo habitante do meu corpo que não merece sentir nada disso, que não merece nascer nesta realidade. Se não fui capaz de criar você, como criarei outra criança?

Eis a causa da briga com seu pai hoje. Ele teve um ataque maior do que quando fiquei grávida de você. Tentou me matar mais uma vez. E, dessa vez, não pensei que foi apenas coincidência. "coincidentemente a faca saiu da mão dele e foi até a minha barriga, errando por pouco, mas causando um corte na lateral da minha cintura". "coincidentemente ele ficou mais bravo após ver que havia errado e me deu um tapa no rosto". Não tem como ser "sem querer".

Ele tentou matar mais um filho nosso.

Agora estou com uma atadura na cintura e com o rosto latejando. Não quero que me veja assim mais tarde. Não quero que me veja assim nunca.

Mas isso não justifica, eu sei.

Nada justifica o que farei. Você jamais poderá pensar "minha mãe se matou por causa disso". São diversas coisas unidas... Muitos ressentimentos guardados, muita mágoa e mais uma vez, muita dor. Virou tudo uma bola de neve... Se ao menos tivesse me livrado de tudo quando tive oportunidade, não teria que tomar uma decisão tão drástica hoje.

Se você leu tudo o que escrevi até aqui, sabe do que estou falando. Na verdade, escrevi metade de tudo o que já senti neste diário. Duplique o que leu até agora... Assim fica perto de imaginar a dor que sinto neste momento.

Mas por mais que existam milhares de motivos para cometer este ato, apenas um me convenceu de que é a coisa certa a ser feita: a falta de esperança. Eu, que sempre acreditei no melhor das pessoas, sempre busquei o amor eterno e nunca deixei de lutar pelo seu pai... Perdi as esperanças. Não acredito mais em amor eterno: acredito em amor momentâneo. O melhor das pessoas pode facilmente ser revertido em interesse.

E seu pai... Bem, ele mostrou que não merece tudo o que já fiz por ele. Portanto, não estou fazendo isso por ele. Estou fazendo isso para o seu bem. Sim, o seu bem... Consegue acreditar? Imagino que não. Não só o seu, mas também desta criança que está sendo formada no meu útero. Lembra quando disse que ela não merecia nascer em uma realidade assim? Pois bem. É um dos motivos.

E você, minha linda, não merece ver a sua mãe perdendo as esperanças porque você conhece o meu lado bom... Que sorri por qualquer coisa, que canta qualquer música e que está disposta a fazer de tudo. Você não conhece o que estou me tornando. Não quero que abra a porta do quarto e me encontre jogada na cama, sem vontade de levantar e com os olhos inchados de tanto chorar... E então, no dia seguinte, encontre a mesma cena. Isso se repetirá para sempre.

Você é a única que ainda me dá esperanças. Mas não para mim... Eu não tenho mais conserto, mas para si mesma, Paloma. Eu espero que você tenha um futuro brilhante, um marido que a ame acima de tudo e que esteja ali para você sempre que precisar, um cachorro que fique feliz ao te ver em casa e muitos filhos. Espero que saiba criar seus filhos melhor do que eu. E eu espero que tudo o que escrevi até agora sirva para alguma coisa.

Queria poder rasgar essa página. Fingir que nunca comecei a escrevê-la. Seria muito mais fácil. Mas então você nunca saberia o motivo da sua mãe ter se matado. Agora você sabe um pouco mais sobre isso, não? No momento, deve estar me odiando. Eu te entendo. Eu também me odeio.

Eu me odeio por ser fraca demais, por não aguentar isso, por não ficar ao seu lado quando mais precisará, por não ser capaz de falar tudo isso cara a cara não suportar mais a dor, por não querer viver essa vida, por ser tão egoísta e por tantos motivos... Poderia ficar citando-os para sempre, mas você tem os seus próprios motivos para me odiar, não precisa de mais, certo?

Então, esta é a minha última carta para você.

Você jamais deverá se culpar pela minha morte, está entendendo? A culpada de tudo sou eu, apenas eu. Se você for culpada de alguma coisa é por me fazer aguentar por mais tempo. Sem você teria feito isso muito antes. Talvez teria sido até melhor, com menos sofrimento... Mas não me arrependo de nem um segundo que vivi a mais por você. Só espero que entenda que agora não dá mais.

Chega uma hora que as nossas forças se esvaem. E nessas horas, a única coisa capaz de te levantar é a esperança. Como eu posso superar se não tenho mais nenhuma? Por isso, preciso que me prometa uma coisa: que você nunca deixará de ter esperanças, não importa quão ruim sua vida esteja. Prometa que sempre olhará para frente, seguindo a sua vida da melhor maneira possível e superando cada obstáculo.

Porque a vida não é um conto de fadas, meu amor. Não é pura felicidade. Você vai chorar e muito. Vai sofrer, odiar. E se perguntar "por que justo eu?" milhares de vezes. Mas então haverá um momento que irá rir e tudo terá valido a pena.

A vida é feita de momentos felizes. Nenhum momento é eterno, mas tendo-os em sua vida, poderá dizer que está vivendo e deverá continuar.

Quero que ame muito e com todo o seu coração. O entregue para alguém em quem confie e que saiba cuidar bem dele. Eu entreguei o meu para a pessoa errada... Não cometa o mesmo erro. Quero que sonhe muito, que imagine um futuro perfeito e lute com todas as forças para alcançá-lo. Mas, quando alcançá-lo, não pare de sonhar. Seja capaz de imaginar um futuro ainda melhor. Faça isso sempre.

Por fim, quero que seja capaz de perdoar. Não guarde ressentimentos e não seja rancorosa. Espero que um dia você volte a me amar, a pensar o melhor de mim e entenda que só fiz isso porque era a única solução. Rezo para que seja capaz de me perdoar um dia, minha Paloma.

Não há mais nada nesse mundo para mim, mas você ainda tem uma vida inteira pela frente. Aproveite-a da melhor maneira possível.

Da sua mãe que te amou mais do que tudo neste mundo, e agora está em

algum lugar olhando por você e desejando o seu bem. Da sua mãe que

transferiu toda a força para você, orando para que valesse a pena.

Nada na minha frente fazia sentido. Procurei mais páginas, mas todas estavam em branco. Todas! O diário era tão grande, mas ela não havia escrito nem na metade dele. Não estava preparada para uma despedida. Só queria ler mais um dia normal e mais um ensinamento. Só isso, cacete!

Joguei o diário dentro da bolsa com toda força que podia, desejando estar em um lugar fechado para jogá-lo na parede. Minha visão estava embaçada pelas lágrimas, mas meu coração era tomado pela raiva. Ódio. O mais puro e verdadeiro ódio. Como ela foi capaz de fazer isso comigo? Como pôde não ser forte o suficiente?

O caminho inteiro de volta para casa foi um borrão. Precisava me acalmar, mas respirar fundo não funcionava. Faltava ar nos meus pulmões e, em alguns momentos, sentia como se estivesse tendo um ataque cardíaco. Minha mãe se justificava que havia feito tudo por mim, mas nunca pedi nada disso! Não queria que se ela matasse para me dar um futuro melhor. Poderia muito bem viver do jeito que estava, se isso implicasse que ela estaria ao meu lado.

Sem forças, parti em busca da única pessoa capaz de me curar, de tirar um pouco daquela dor avassaladora em meu peito e da raiva que parecia crescer cada vez mais: Ricardo. Precisava do seu abraço, ver o seu sorriso e sentir os seus lábios. Precisava de qualquer coisa que viesse dele.

Entrei em casa com lágrimas escorrendo pelo rosto, sem me importar em secá-las, pois logo estariam ali novamente. Procurei por Ricardo em todos os cantos e consegui encontrá-lo sentado na cama com a cabeça apoiada nas mãos.

– Você está aqui. – Falei, ouvindo o choro na voz, mas aliviada por tê-lo encontrado. Agora tudo ficaria bem.

Fui direto para os seus braços, enquanto levantava a cabeça para me olhar, surpreso.

– Eu... Eu preciso de você. – Chorei ainda mais ao sentar no seu colo e envolver o seu pescoço com os braços. Sentir o seu corpo fez um pouco do ódio se dissipar, mas a dor continuava presente em meu coração.

Entretanto, algo parecia errado. Ele não falou nada, nenhuma palavra de consolo... E não moveu os braços. Somente eu o abraçava. Nenhuma reação da sua parte.

– O que está acontecendo? – Perguntei confusa, enquanto me afastava sem sair do seu colo.

O olhar que recebi foi o mais vazio que já vi no rosto do homem que mais amava neste mundo.

E, de repente, a dor se multiplicou. Mesmo sem entender o que havia acontecido para deixá-lo assim, uma coisa havia captado: eu era o problema.

– Você precisa ir embora. – Falou duramente, me empurrando para sair do seu colo.

Fiquei em pé na sua frente, procurando traços em seu olhar a fim de descobrir o que tinha acontecido. Os olhos que sempre transmitiram tanto amor e compaixão, agora não passavam nada. Simplesmente nada; eles estavam vazios.

– O que quer dizer com isso? – Perguntei, aguentando a dor para entender o que estava acontecendo.

– Quero dizer exatamente o que disse. Tá na hora de você ir embora.

– Co... Como assim? – Gaguejei, desacreditando.

– Sua mala está pronta. – Falou ele, desviando o olhar do meu.

Indignada, me aproximei mais uma vez, segurando seu rosto para que olhasse em meus olhos. Pensei ter visto um traço de dor em seu olhar, mas este durou muito pouco para ser verdade. Só poderia ser meu cérebro brincando comigo, pois não havia nada ali. Nada.

Era como se não se importasse com nada.

– Como assim, Ricardo? Você não pode fazer isso!

– Você é idiota, garota? Estou te mandando embora. Agora. – Não olhou mais nos meus olhos.

– Eu não vou embora. Nós estamos juntos! Você precisa falar o que aconteceu! – Engoli o meu orgulho e tentei manter a calma.

– A casa é minha e quero que vá embora.

Fui para trás como se tivesse levado um tapa na cara com as suas palavras. Tudo parecia tão surreal. Ele então se levantou e foi para a sala, andando como se nada estivesse acontecendo, como se não estivesse sentindo a maior dor que já senti na minha vida.

– Você está terminando comigo? – Perguntei com as lágrimas voltando a escorrer.

– Entenda como quiser.

– Não pode terminar comigo assim! – Me humilhei, sem me importar com isso. Eu só queria o seu abraço... Só queria o meu Ricardo de volta. – Eu sabia que isso ia acontecer assim que transássemos. Era tudo o que você queria, não era? Só queria me levar para a cama.

Ele não respondeu. Continuou de cabeça baixa, o que me deixou mais revoltada ainda.

– Conseguiu o que queria, agora já pode se livrar da garotinha mimada. Só pensa em você e nas suas conquistas. Agora parte para outro desafio, outra garota que não quer te dar. Quer saber? Foda-se, Ricardo. Está me ouvindo? Foda-se! – Gritei tão alto que até o porteiro deve ter escutado, mas eu não me importava.

Ao ouvir meu palavrão, ele se virou para mim e agora havia um sentimento em seus olhos: ódio. Preferia quando estavam vazios.

– Não deveria ter acontecido nada entre nós. Você já causou muitos danos nesta casa. Prometi que não me distrairia novamente e eu não vou fazer.

Coloquei a mão no peito, esperando que o gesto amenizasse um pouco a dor que as suas palavras causavam em mim. Enquanto eu imaginava um futuro eterno para nós, ele me via como uma diversão?

Humilhada, destruída e furiosa, peguei a mala de mão que estava em cima do sofá e fui até a porta, parando uma última vez antes de ir embora. Antes de partir para nunca mais olhar em seu rosto novamente.

Minha mãe havia entregado o coração para o homem errado. Eu também. Ela não encontrou outra solução a não ser se matar... Eu encontraria? Ou seria tarde demais para mim também?

Observei o homem que havia me curado e então me destruído mais ainda. O homem que não parecia ser ele mesmo naquele momento, mas meus olhos não mentiam. Muito menos meus ouvidos.

– Eu te amei. – Falei, atraindo o seu olhar para mim novamente. – Eu te amei mais do que qualquer pessoa neste mundo. E foi o maior erro que já cometi na minha vida. Espero que a sua se torne um inferno a partir de hoje.

Meu cérebro idiota imaginou mais um olhar de dor em seu rosto, mas não fiquei muito tempo para retornar ao normal e ver apenas o que realmente havia: o vazio. Fui embora sem olhar para trás, pensando milhares de vezes se deveria mesmo fazer aquilo, mas sem vontade de voltar. Voltar para quê? Para que pudesse me machucar mais um pouco com as suas palavras?

Foi assim, inesperada e instantaneamente, que nós terminamos. Eu disse adeus ao primeiro e único amor da minha vida e me arrependi de tudo o que fizemos juntos, de toda felicidade que já senti ao seu lado. Preferia ter ficado presa na casa do meu pai, sofrendo pela morte da minha mãe todo esse tempo a ter vivido o que vivi. Ter sentido o que senti.

Queria nunca ter conhecido o verdadeiro amor.

Estava sozinha mais uma vez. Sozinha, sem ter para onde ir e sem ninguém para contar. Só que dessa vez havia uma coisa diferente: meu coração havia ficado no prédio. Estilhaçado, destruído, esmagado... Não estava mais comigo. Comigo, estava só a dor. Não havia espaço para mais nada.