O Caminho Certo
Capítulo 17 · Bati no despertador pela terceira vez naquela…
Bati no despertador pela terceira vez naquela manhã. Ou seria a quarta? Virei
para o lado e voltei a dormir, irritada por ter sido acordada em plena madrugada. Foi quando olhei para a janela com as cortinas abertas e percebi que não era tão madrugada assim.
Puta que pariu, precisava ir trabalhar!
Nunca achei que pensaria nesta frase, mas precisava aceitar a minha nova realidade. Pulei da cama e fiz tudo correndo. O “correndo” demorou meia hora. Só para arrumar o cabelo foram dez minutos, e fiz apenas um rabo de cavalo, sem tempo de lavá-lo como havia planejado.
Por que desliguei o despertador?
Desci as escadas de shorts e blusa branca. Era o mais simples que já vesti em toda a minha vida, mas não ficaria procurando roupas e combinações no guarda-roupa enquanto o tempo passava mais depressa do que o normal. Olhei no relógio novamente. Estava uma hora atrasada!
Sentia que não duraria nem um dia naquele emprego. E o pior de tudo: perderia a aposta com Ricardo. Que ótimo.
Saí da casa e encontrei Fernando sentado no banco do motorista, me esperando.
– Bom dia, Paloma. – Disse, sorrindo.
– Bom dia, Fernando. Por favor, não respeite nenhum sinal vermelho. – Falei enquanto fazia a maquiagem no banco de trás, errando várias vezes por causa do movimento do carro.
– Posso ir rápido, mas não colocarei sua vida em risco. – Falou, parando no primeiro sinal que surgiu no caminho.
– Minha vida já está em risco! – Falei, me exaltando. Não queria nem saber o que seria o pedido de Ricardo caso ganhasse a aposta. Na verdade, nem tinha pensado no que eu pediria caso ganhasse. Ou melhor; quando ganhasse.
Ia garantir aquele emprego, mesmo depois de um deslize daqueles. Precisava demais daquilo.
– Respire, Paloma. Apenas respire. – Falou, sorrindo pelo retrovisor para mim.
– Não consigo! – Estava entrando em pânico.
– Sim, você consegue. Vai dar tudo certo.
Tentei fazer o que mandou. Respirei fundo. Uma, duas, três vezes. A maquiagem estava básica, mas pronta. Pelo menos não tinha mais cara de quem acabou de acordar. Coloquei os óculos de sol e esperei enquanto Fernando estacionava na praia.
– Valeu, Fernando. Você acaba de salvar a minha vida. – Sorri, dando-lhe um beijo no rosto antes de sair do carro.
– Boa sorte no primeiro dia! – Gritou quando saí correndo para o quiosque.
O local já estava cheio.
Entrei sem saber o que fazer, com quem falar... até que avistei Miguel.
– Paloma! – Gritou sem se aproximar, indo para uma mesa ocupada por três garotas impacientes. – Tem um avental na dispensa para você. – Sorriu, voltando a atenção para as clientes.
Ok, então só precisaria pegar o avental e atender as mesas. Pelo visto ainda tinha uma chance.
Passei pelo caixa e entrei numa porta onde imaginei ser a dispensa. Sempre era, não? Pois estava certa! Havia muitos potes, molhos, refrigerantes... e pendurado em um cabide estava um avental vermelho, com um tubarão desenhado que imaginei ser o logo do quiosque.
Nunca vi Ricardo com aquilo. Ele deveria ser muito conhecido no local, por isso não usava. Miguel também não usava. Eu não queria usar, mas era o mínimo que podia fazer depois daquele atraso.
– Você está atrasada. – Sussurrou uma voz no meu ouvido, me deixando inteiramente arrepiada.
Senti seu corpo colado no meu da mesma maneira que fez na noite da boate. Mas dessa vez suas mãos não me tocavam. Talvez apenas tenha colado o corpo no meu por causa da falta de espaço da sala. Mas o que explicava o nariz descendo pelo meu pescoço como se apreciasse o que sentia?
Demorei um minuto a mais para ter a reação correta. Um minuto a mais para me deliciar com aquela sensação. Sua proximidade abalou a minha razão, mas não daria a ele tal poder.
Virei de frente para Ricardo, com o avental nas mãos, e senti sua respiração próxima demais. Ele estava próximo demais.
– Pelo visto ainda estou empregada. – Falei, subindo o olhar por seu corpo. Precisei erguer um pouco a cabeça por causa da sua altura, mas me arrependi no mesmo instante.
Seus olhos estavam intensos. Não encontrei o interruptor quando entrei, portanto a única luz que iluminava o ambiente era a que vinha da pequena janela do outro lado da sala, deixando um clima estranho no ar.
Seu cheiro continuava maravilhoso. Lembrava o mar, mas com um tom amadeirado misturado com algo particular. Um cheiro exclusivamente dele.
– Não acho que será por muito tempo. – Falou, sorrindo de lado, ainda próximo demais.
– Se você continuar me atrasando, não mesmo. – Falei, tentando mostrar um pouco de autoridade. Aquele sorriso me desestabilizava demais.
– Por que quer isso, Paloma? – Falou sério.
Ser sincera ou inventar uma desculpa qualquer para ir embora? Preferi arriscar a terceira opção: ser grossa.
– Não te interessa. – Falei, colocando a mão em seu peito para empurrá-lo, já que estava no meu caminho para a porta.
Sem sucesso.
– Sim, me interessa e muito. – Falou, se aproximando um pouco mais. – Tudo sobre você me interessa. – Perto demais, garoto. Perto demais.
Conquistador. Ótimo, que seja a primeira opção então.
– Quero ser independente. – Falei, esperando que se contentasse com a resposta.
– Todos querem. – Retrucou, querendo mais informações.
Olhei nos seus olhos e eles não estavam tão intensos como antes. Na verdade, estavam... mas continham certo quê de curiosidade, talvez até de preocupação. E foi isso que me fez desabafar.
– Preciso ter minha própria vida. Algo que seja meu, que não tenha sido comprado pelo dinheiro sujo do meu pai. Preciso me livrar dele e de toda a influência que tem sobre mim. Eu preciso... Só preciso aprender a me virar sozinha. – Terminei suspirando e olhei para baixo, envergonhada pela exposição.
Quando voltei a olhar para Ricardo, parecia surpreso. Mas novamente agradeci por não haver nenhum sinal de pena em seu olhar.
– Ok, garota mimada, comece o trabalho então. – Falou, se afastando para abrir caminho até a porta. Quis xingá-lo pelo “mimada”, mas não tive tempo. – E não pense que vou pegar leve com você só por causa da história tocante.
Olhei para ele brava, e tudo o que fez foi piscar.
– Mais uma vez... Você está atrasada. – Falou, sorrindo.
– Dessa vez a culpa é sua. – Reclamei.
Coloquei o avental, que ficou bem estranho em mim e procurei por Miguel novamente.
– Ei, garota. – Chamou um homem atrás de mim. Ele era muito charmoso, mesmo sendo mais velho. Tinha os olhos do Ricardo... mas não tão atraentes. – Você é a garota nova, amiga dos meninos? – Perguntou, se aproximando.
– Sim, sou eu. – Falei, arrumando o avental.
– Sou Evandro, o tio deles e seu chefe temporário. Você sabia que está atrasada? – Perguntou, sem um aperto de mão, sem um 'seja bem vinda', sem nada... Apenas profissional.
– Desculpe-me, senhor. – Tentei causar uma boa impressão. – Não acontecerá novamente.
– Assim espero. – Falou, me encarando de cima em baixo. Depois de uma análise completa, jogou um bloquinho de anotações e uma caneta para mim, e me esforcei para pegá-los. – Agora vá atender algumas mesas.
Fiquei parada na sua frente, confusa. Como assim? Não receberia nenhum treinamento?
Ele percebeu que continuei ali e me voltou a me encarar.
– Precisa de algo?
– Nunca fiz isso antes, senhor. Estava esperando por algumas dicas... – Falei, tentando colocar na voz a doçura que já conquistou muitas coisas.
Ele amoleceu o olhar. Pelo visto ainda conseguia usar minhas artimanhas.
– Procure pelo Ricardo, ele te dirá o que fazer.
Ótimo, era exatamente o que eu precisava. Olhei frustrada para ele, querendo teimar, mas sabendo que não daria certo.
– Ali está ele. – Falou, antes que eu tomasse coragem de falar algo. – Ricardo, vem aqui! – Gritou.
Ricardo se aproximou, com o andar que, até agora, não havia percebido o quão masculino era. Sensual.
– Fala tio. – Disse, parando do meu lado.
– Ela é responsabilidade sua. Ensine-a tudo o que sabe. – Disse, saindo sem esperar por minhas reclamações.
Ricardo parecia confuso. Até me olhar com uma nova determinação no olhar.
– Assim vai ser mais fácil ainda te fazer pular fora. – Disse, sorrindo.
Era exatamente o que precisava. Sabia que não fiz a escolha certa ao aceitar este emprego.
– Vem, siga-me e apenas observe. – Falou, saindo do meu lado e indo em direção às milhares de mesas espalhadas pela praia. De repente, Tirou a camisa e a enlaçou na bermuda, me dando uma visão muito privilegiada das suas costas e de uma parte até então desconhecida da sua tatuagem.
Fiz o que mandou e apenas observei enquanto atendia várias e várias mesas. Fingi que era um fantasma. Não falei com ninguém, não olhei para ninguém... Apenas me dediquei a aprender tudo o que conseguia em cada pedido diferente.
No entanto, suas costas definidas e as tatuagens diversificadas eram ótimas distrações.
– Está conseguindo pegar tudo? – Perguntou quando voltamos ao balcão.
Quis responder que não, que ainda não havia entendido todas as imagens da sua tatuagem, nem decorado todas as nuances das suas costas... Mas apenas acenei com a cabeça.
Meu bloco de anotações estava repleto de rabiscos e tentativas de escrever tudo o que estava acontecendo: o preço de cada coisa, a especialidade da casa, a maneira certa de cumprimentar os clientes...
Ricardo viu que eu encarava o bloquinho e o retirou da minha mão, lendo minhas anotações. Ou melhor, tentando. Nem eu conseguia entender direito o que havia escrito ali.
– Você não precisa anotar cada passo que damos. – disse, retirando a folha e rasgando-a em vários pedaços.
Fiquei boquiaberta com o seu ato. Passei a manhã inteira anotando coisas importantes naquele maldito papel, e ele o rasgou em menos de um segundo!
– Seu idiota! – Falei, um pouco mais alto do que desejava e levantei o braço para bater em seu peito.
Segurando meus braços, ele conseguiu impedir que me mexesse.
– Ouça o que digo. Você não vai ganhar nada com aquelas anotações. – Falou, segurando meus pulsos.
– Você só quer que eu desista logo! – Reclamei com os olhos molhados de raiva.
– Sim, eu quero para poder ganhar nossa aposta. – Sorriu de lado. – Mas estou sendo sincero com você. Aja por instinto, com naturalidade. Seja você. Ou um lado agradável seu... – Disse, sorrindo mais largamente.
Soltou meus pulsos quando percebeu que havia me acalmado. Ótimo, teria que ser eu. Se fosse assim, estaria sentada na beira do mar e sendo servida por eles, não aqui, lutando para servir todos os clientes. Belo conselho que havia me dado.
– Se você for superficial as pessoas não vão gostar de você.
– As pessoas não precisam gostar de mim. – Respondi emburrada. Já não bastava ter uma boa imagem para o meu pai, teria que fazer as pessoas gostarem de mim aqui também?
– Elas precisam estar satisfeitas com o seu atendimento. Seja simpática e natural, só isso.
Respirei fundo mais uma vez. Ser simpática até conseguia... Mas natural? Como poderia ser natural se estava completamente fora de tudo o que conhecia?
Ricardo reparou no meu olhar sem esperanças.
– É só o seu primeiro dia. Fica mais fácil com o tempo. – Falou, piscando.
– Por que está fazendo isso? – Perguntei antes que fosse embora.
– Isso o que?
– Me ajudando... Você quer ganhar a aposta, certo? Então por que está me ajudando para que eu dure mais aqui? – Perguntei confusa e desconfiada dos seus conselhos.
Sorriu para mim; aquele sorriso de lado que era capaz de me derreter.
– Vou ganhar a aposta, mas não preciso que você saia logo no primeiro dia para isto. Será divertido te ter por perto por algum tempo. – Disse, virando-se e partindo definitivamente, sem esperar por uma resposta.
Esses dias seriam qualquer coisa, menos divertidos.