O Caminho Certo
Capítulo 8 · Ricardo
A garota conseguiu me machucar com aquele olhar. O olhar de decepção, de "você é o culpado". Cacete, jurei que ninguém nunca mais me afetaria com isto e ali estava ela, reabrindo a ferida, me fazendo quebrar a promessa.
Eu pedi por isso.
Não a conhecia. Não sabia seu telefone, seu endereço nem o nome dos seus pais... Não sabia se tinha um namorado, se gostava de cachorros, nem se era vegetariana. A única coisa que sabia era que ela era amiga do meu irmão. Ou, ao menos, parecia ser pela maneira que ele sorria sempre que a via.
Foi isso que me fez dizer aquela frase. Que me fez querer afastá-la o máximo possível dele. Afinal, ele não poderia ter o coração partido. Qualquer um poderia ter o coração partido, pouco me importava. Menos ele.
Percebi, naquele momento, que nem todos poderiam. Mesmo sem saber nada sobre a garota, eu não queria que o seu coração fosse quebrado e muito menos ver aquele brilho em seu olhar, indicando que as lágrimas estavam chegando. De ódio ou de tristeza? Acho que já havia visto as duas em sua feição. Não queria ver mais nenhuma.
Era a segunda vez que nos víamos. A segunda vez que a fazia chorar e que me olhava com dor, me passando tudo o que sentia. Afinal, quem era ela? A garota mimada que saía todas as noites não choraria desta maneira e muito menos ficaria tão afetada por uma frase sem sentido, certo?
Mais uma vez fiquei parado na areia enquanto a observava ir embora. Ao menos dessa vez não senti o rosto quente pelas próximas três horas, como quando levei o tapa. No fundo, esperava que me ela batesse, assim teria um motivo para sentir tanta raiva de mim mesmo.
Não poderia me importar com uma garota que só conhecia de vista. Mas, aparentemente, isso era possível, pois ela me atraía. Seu corpo estava muito mais visível da primeira vez em que nós nos encontramos: todo molhado por causa da água do mar. Por que estava toda de preto na praia, a esta hora da tarde? A cor preta não combinava com ela.
Realmente não sabia nada sobre a garota, mas queria saber tudo, cada pequeno detalhe ou, pelo menos, me desculpar.
Voltei para o quiosque, encontrando o olhar questionador de Miguel.
– O que aconteceu?
– Nada.
– Por que ela foi embora?
– Ela quem? – Perguntei me fazendo de desentendido.
– A Paloma. – Paloma era seu nome então. Paloma... Repeti o nome na mente, louco para testá-lo em minha boca.
Andei até o balcão do quiosque, feliz por saber algo sobre a garota. Já era um começo.
– E então... – Insistiu, me seguindo.
– E então... Ela foi embora. Por que eu deveria saber?
Miguel bufou. Odiava histórias mal contadas e omitia as coisas. Mas muitas precisavam ser omitidas.
– Por que vocês estavam conversando? – Insistiu novamente, ficando ao meu lado no balcão.
O dia estava mais cheio do que o normal, mas não conseguiria voltar ao trabalho com tanta coisa em mente. O olhar acusatório da Paloma não saía da cabeça.
– Pois é, estávamos.
– Você a conhece?
– Ela é sua amiga, não minha. – Falei, odiando o tom de ciúmes evidente na frase.
– Ela não é minha amiga. Não sei o que ela é... Ela sumiu esses dias. Pensei que viria aqui pegar a bolsa, mas não veio. Não deu notícias. – Reclamou cabisbaixo.
– Se não é sua amiga, não precisa dar notícias.
Estava curioso para saber mais sobre ela e Miguel era a única pessoa presente para me ajudar. Precisei continuar a conversa mesmo estando louco para parar de ouvir o quão bem ele a conhecia e eu não.
– O que você sabe sobre ela? – Perguntei, tentando parecer desinteressado.
Miguel me olhou desconfiado, mas não hesitou em responder.
– Não sei muita coisa. Ela estuda comigo ou estudava. Não foi às aulas essa semana. Sei que está mal, passando por algum momento difícil ou coisa assim. – Deu de ombros.
A garota – Paloma, melhor dizendo – passava por um momento difícil e eu consegui complicar ainda mais a sua vida. Nada do que Miguel dissesse poderia ter me feito sentir mais culpado do que aquilo.
Peguei minha carteira embaixo do balcão e as chaves do carro, decidido a tomar uma providência.
– Onde pensa que vai, Ricardo? – Perguntou meu tio indo para o caixa.
– Tenho uma emergência. – Inventei ansioso para sair logo dali.
Sempre foi assim. Sempre que quero algo, quero na hora. Anseio por isto. E, naquele momento, tudo o que eu queria era me desculpar com Paloma.
– Uma emergência com o que? – Perguntou, me encarando. Sabia que eu estava mentindo e não me deixaria sair.
Perfeito.
Coloquei de volta a carteira no lugar e peguei o bloco de anotações para os pedidos.
– Esquece. – Disse, saindo de lá para atender as mesas. Fiz um esforço enorme para não sair bufando de raiva. O quanto antes terminasse o serviço, mais cedo poderia vê-la.
O “cedo” demorou cinco horas. Meu tio ainda pediu para fechar o quiosque, o que fiz quando já estava anoitecendo. Sim, foram as cinco horas mais lentas da minha vida. Horas em que pensei no olhar de Paloma dirigido a mim e me perguntei se aquele olhar ainda estaria em seu rosto. Durante aquelas cinco horas que imaginei o seu corpo – por mais que não quisesse – e seus lábios carnudos.
Em cinco horas consegui pensar em muitas coisas.
Dei uma carona para Miguel até o nosso apartamento, a última parada antes de finalmente revê-la.
– Você não vai entrar? – Perguntou antes de sair do carro.
– Não, tenho um lugar para ir.
– Aonde você vai?
Ótima pergunta irmão. Aonde eu iria? Não sabia onde ela morava. Mas estava cara a cara com alguém que sabia.
– Anota o endereço da Paloma para mim. – Pedi, entregando-lhe um pedaço de um dos panfletos que foram colocados no carro durante o dia e uma caneta.
Miguel me olhou como se quisesse mais explicações, mas desistiu logo depois.
– Não a machuque. – Disse, devolvendo o papel com o endereço anotado.
Vou tentar, respondi mentalmente. Vou tentar.
Saí assim que Miguel fechou a porta, indo direto para o endereço anotado. Não era tão longe, mas era em um bairro muito rico. Pelo menos uma coisa sobre ela havia acertado: era uma menina mimada.
Por um momento, me perguntei se estava fazendo a coisa certa. A garota provavelmente não queria me ver nem pintado de ouro, ou nu, o que algumas prefeririam... Ia odiar a minha presença. Mas descobri que, se não conseguisse me desculpar naquele dia, não conseguiria dormir de noite. E aquelas poucas horas que tinha de sono eram cruciais para mim.
Pelo menos havia uma desculpa para vê-la: sua bolsa que estava no banco do passageiro, intocável, e eu guardei por sete dias, esperando que Paloma voltasse para pegá-la. Os saltos também estavam ali, mas imagino que ela não sentiria falta deles. Uma garota que mora em um bairro daqueles jamais sentiria falta de uma simples sandália.
Na verdade, não sabia. Não sabia de nada. E precisava parar de julgar as pessoas pela aparência ou por momentos. Sei o quanto dói ser julgado por um simples, mas significativo, momento da sua vida.
Estacionei em frente da enorme casa de Paloma, conferindo no panfleto se estava no lugar certo. Sim, estava. Entraria, entregaria os seus pertences e cairia fora, simples assim. Mas, se era tão simples, por que meu estômago revirava como se fosse um adolescente ansioso para o seu primeiro encontro?