O Caminho Certo

Ana Martines · Capítulo 38 de 44

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O Caminho Certo

Capítulo 40 · Ricardo

Um mês depois

Todo mundo seguia em frente e tudo muda o tempo todo. Por que somente para mim parecia que tudo regredia em vez de avançar? Por que parecia que eu havia cometido o maior erro da minha vida?

Talvez porque realmente fiz isso.

O dia em que Miguel desapareceu foi o dia em que arruinei de vez a chance de um futuro perfeito ao lado da mulher perfeita, vivendo a vida dos sonhos. Porém também foi o dia em que me dei conta de que fazia tudo errado... Cometia o mesmo erro que há cinco anos. E por mais que sinta uma falta absurda de Paloma, saber que estou mantendo salvas as pessoas que amo, já é mais do que suficiente.

Dizer que sinto falta da garota não descreve nem dez por cento de tudo o que sinto em relação à sua partida. A dor beira o insuportável... E dói mais ainda pensar no que causei a ela. A única coisa que me ajuda a aguentar é saber que, no final das contas, estou salvando-a. Saber que seria muito pior se nós dois continuássemos juntos.

Entretanto isso não muda o fato de que eu queria que ela estivesse aqui. Queria chegar a casa e encontrá-la sentada na sala, fingindo assistir TV quando na verdade estava perdida em pensamentos. Queria deitar na cama e ter o seu corpo para me aquecer, amá-la durante a noite inteira sem ligar para o dia amanhecendo, aconchegar meu corpo no seu, dormir sentindo o seu cheiro e acordar com aqueles olhos brilhantes me admirando e por fim; servir as mesas no quiosque tendo que me concentrar para não olhar o tempo todo em sua direção, sentindo aquela felicidade indescritível toda vez que nossos olhares se cruzavam.

Acima de tudo, queria dizer que a amava e sempre amarei.

Mas, mais uma vez, preciso convencer o meu cérebro – e o meu coração – de que tudo o que fiz foi para o seu bem. O seu e o do meu irmão que neste momento me encara como se não soubesse que consigo sentir a dor e prestar atenção no que acontece ao redor ao mesmo tempo.

– O que foi? – Perguntei, sem olhar em sua direção.

– Já ligou para ela? – Perguntou pela terceira vez naquele dia. Todos os dias fazia a mesma pergunta mais de dez vezes, então estávamos apenas no começo.

– Não e não vou ligar.

– Pois deveria. – Teimou.

– Mas não vou. – Teimei mais ainda, deixando-o falando sozinho para voltar a servir as mesas.

Fazia um mês que a minha vida havia desmoronado, mais uma vez. Pensar que perdi Miguel, meu irmão, melhor amigo e protegido, me deixou louco e fora de mim. Pensar que tudo não passou de um grande mal entendido só piorou as coisas. Nós ficamos sem nos falar por uma semana e, quando voltamos a trocar algumas palavras, foi para falar de Paloma. Ele sentia falta dela... Oh, pirralho, se soubesse a dor que sinto por ela ter ido embora...

Mesmo que Miguel não tenha sumido, não tenha colocado a vida em risco e nem ficado vagando sozinho na rua, aquele dia serviu para abrir os meus olhos e me fazer perceber a burrada que eu estava fazendo. Poderia não ter acontecido nada naquele dia, mas e amanhã? E se algo acontecesse com ele enquanto eu estava com Paloma? E se algo acontecesse com ela enquanto eu estava com Miguel? Jamais me perdoaria.

Paloma tinha seu tio. Miguel havia falado com ele logo quando soube o que aconteceu e me contou que ela tinha ido embora. Longe demais para uma trombada na rua ou na balada – esta, que eu não tinha mais vontade nenhuma de frequentar. O importante é que ela estava bem, seguindo a vida em uma nova cidade com alguém para cuidar dela. Se tivesse feito uma escolha diferente, Miguel estaria sozinho neste momento. Ele não tem ninguém além de mim para cuidar dele.

Saber disso não faz com que a dor por ter perdido a única garota que realmente amei desapareça. Sim, a única. Pensei que havia amado Raissa... Mas o que senti por ela não se compara ao que sinto por Paloma. Ao desejo, à necessidade... Não se compara a nada. E é por amá-la tanto assim que precisei deixá-la ir.

E me tornou o maior idiota da face da terra.

– Você precisa ligar para ela. – Começou Miguel novamente, enquanto chegávamos a nossa casa.

– Não vou ligar para ela. – Era a mesma resposta de sempre. Por que insistia tanto?

– Por que não?

– Porque não. – Falei, colocando um fim em mais uma insistência dele.

Só que dessa vez, em vez de fazer o habitual caminho para o quarto, deitar na cama e só levantar na hora de ir trabalhar novamente, Miguel se colocou em meu caminho, impedindo a minha passagem.

– Quem é o mais novo desta casa? – Perguntou, me encarando.

– É você. E eu sou o mais velho, o que quer dizer que mando em você. Sai da minha frente. – Falei, esperando que desistisse do assunto.

– Não vou sair. Por um mês venho sido o dono da casa. Você não faz comida, não compra nada e nem sai do quarto! – Falou ele, aumentando o tom de voz pela primeira vez na vida. – É o responsável? Então aja como um.

– Você tem passado fome? Tem um cartão de crédito na primeira gaveta da cozinha com mais dinheiro do que pode imaginar, então vá e compre o que quiser. Se desejar, compre o mercado inteiro, assim não precisa se preocupar com isso por um tempo. Só me deixe em paz.

– Não é este o caso! – Respondeu ele, frustrado. – Tenho feito almoço e janta todos os dias. Tenho lavado a louça, limpado a casa, feito as compras da semana... Estou vivendo sozinho! A única diferença é que tem um zumbi no quarto ao lado que só sai para usar o banheiro e trabalhar.

– Qual é o ponto? – Perguntei, encarando a porta atrás dele e desejando ser capaz de me teletransportar. Só queria deitar na cama e esquecer que passei mais um dia sem a dona do meu coração e que passarei o resto da vida assim. É pedir demais?

– Você só vê o que quer, não entende? – Perguntou acalmando-se, usando o tom que sempre usava quando queria me convencer de algo. – Já sou maior de idade, estou vivendo praticamente sozinho... E estou bem. Você diz que deixou a Paloma ir embora para poder cuidar de mim. Bom, não está fazendo isso, então a deixou partir à toa? Deixou a sua felicidade escapar por nada?

Suas palavras finalmente me atingiram, aumentando ainda mais a dor em meu coração. Puta merda! Será que tinha como piorar?

– Me desculpa, meu irmão! Desculpa por não estar cuidando bem de você. – Falei me arrependendo de todas as vezes em que eu me tranquei no quarto e foquei na dor, esquecendo-me do resto. Estava fazendo tudo errado mais uma vez. Meu irmão poderia ter sofrido algo nesse meio tempo...

– Cacete, não é essa a questão! – Gritou, com os olhos arregalados.

Sinto que Miguel ficou tão surpreso quanto eu por ouvir um palavrão sair da sua boca. Ótimo, o mau exemplo que dava ao garoto estava tendo efeito.

Depois de respirar fundo, Miguel me empurrou até o sofá, onde andei sem reclamar. Estava errando com ele... Era hora de acertar as coisas. De ouvir o que tinha para falar e fazer tudo o que precisasse. Estava na hora de voltar a cuidar do meu irmãozinho.

– Cara, pare de pensar em qualquer outra coisa aí e me escuta.

Fiz que sim com a cabeça, mas não consegui de deixar de pensar nas compras que precisava fazer para casa. Havia leite na geladeira? Pão? Queijo? Miojo? Tantas coisas que eu não sabia... Miguel precisava parar de falar logo, para que eu pudesse conferir tudo o que tinha que comprar e sair para fazer a minha obrigação.

– Você não está me ouvindo! – Reclamou, chamando a minha atenção.

– Desculpa. – Me desculpei mais uma vez, focando a minha atenção nele, finalmente.

– Vou ter que falar tudo de novo. – Suspirou, para então recomeçar: – Sei que errei quando saí de casa sem falar nada... Mas precisava de dinheiro. Um dinheiro que não poderia pedir para você porque não queria te incomodar com isso. Por isso fui atrás do nosso pai e depois, do meu pai biológico... Acontece que não desisti da história. Preciso ir para o exterior para encontrar a minha namorada e saber o que está acontecendo com ela.

– Você pode pegar todo dinheiro que temos no banco. Mas eu vou com você. – Falei, sem pensar nas consequências. Foda-se o trabalho, a casa... Onde Miguel for, eu estarei atrás.

– Não quero o dinheiro do banco, já encontrei outra solução. E você não vai comigo.

– O cacete que não vou! – Falei, sentindo a raiva subir pelo corpo. Era tão fácil substituir a dor pela raiva...

– Você não vai, porque preciso seguir a minha vida. Não quero viver a vida inteira com você atrás de mim, me vigiando.

– Não estou te vigiando, estou cuidando para que fique salvo!

– Não vou morrer só porque não está me observando! – Falou ele tão exasperado quanto eu.

– Quem garante? Já aconteceu uma vez. Eu não vou permitir isso acontecer novamente. – A dor voltou tão rápido como havia ido embora.

Miguel pegou a minha mão, um gesto que me fez erguer os olhos novamente e encontrar seu olhar tão dolorido quanto o meu.

– Não foi culpa sua. Não sei o que aconteceu com a nossa mãe... Mas eu vou descobrir, irmão. Eu prometo.

Sacudi a cabeça, querendo com todas as forças que aquelas palavras fossem capaz de me convencer... Mas nada era. Ninguém conseguia entender que a culpa havia sido toda minha. Se eu não tivesse me distraído...

– Ricardo, olhe para mim. Já tenho dezoito anos. Não pode me prender em casa para sempre.

– Não estou te prendendo... Você vai aonde quiser, mas eu vou junto. – Falei, cansado da discussão que parecia não ter fim.

– Não quero que você vá junto. Quero que siga a sua vida e vá atrás da sua felicidade que neste momento está a quatro horas de distância, e lute por ela. Corrija os seus erros e deixe-me cometer os meus. Viva a sua vida, irmão, não a minha.

– Você não entende... – Reclamei frustrado.

– Não, realmente não entendo. Não entendo como pode ser tão teimoso. Mas aqui está um fato que você não pode lutar contra: estou indo embora. Descobri onde meu pai está morando e, convenientemente, é exatamente onde eu preciso estar neste momento. Por isso vou seguir a minha vida. Não quero que venha comigo, não vou deixar. Você tem duas opções, irmão: ou fica aí se lamentando por todas as escolhas erradas que fez e não muda nada... Ou vai atrás da sua felicidade antes que seja tarde demais. Eu estou indo atrás da minha e você não vai me impedir.

Com essas palavras, Miguel me deixou de boca aberta e se trancou no quarto. Quando foi que o moleque havia crescido tanto?

O fato é que ele estava indo embora e não queria que eu fosse junto. Não queria a minha companhia... E tinha razão: tudo o que me restara era essas duas opções. A primeira opção era tão fácil e sem consequências... Eu seria o único a sofrer. Poderia me trancar no quarto pelo resto da vida e não me importar com mais nada, esquecer tudo e esperar que o tempo fizesse o seu trabalho.

Mas o segundo caminho implicava em ver Paloma mais uma vez. Daria qualquer coisa para vê-la por mais um minuto... Para tê-la nos braços por alguns segundos... Trocaria uma vida inteira por estes pequenos momentos, mas não faria nada se isso significasse fazê-la sofrer futuramente.

O que ela estaria fazendo numa hora dessas? Será que estava deitada com a minha camiseta, olhando para o teto e pensando em nós dois como eu fazia todas as noites? Ou estaria em um encontro com um rapaz do seu trabalho que a fazia sorrir e esquecer o que vivemos juntos?

Será que havia superado a nossa história? Porque eu sabia que jamais superaria, pois meu amor por aquela garota continuaria inabalável pelo resto da vida, ela estando ou não ao meu lado. Só restava saber se este amor era grande o suficiente para trazê-la de volta e fazê-la me perdoar e permanecer comigo para sempre.

Só de pensar que veria os seus olhos brilhantes mais uma vez, meu coração perdia uma batida e até cicatrizava um pouco. A ansiedade era grande, mas o medo era maior ainda.

Antes de entrar no quarto para refletir sobre tudo o que Miguel havia falado, o mesmo abriu a porta e me encarou, procurando saber o que estava sentindo.

– É bom você ligar para ela. – Falou uma última vez, antes de fechar novamente a porta.

Eu queria e muito ouvir a sua risada... Sua voz dizendo que sentia a minha falta e que me queria de volta. Mas e se ela não quisesse e nem me atendesse? Eu mereço e vou merecer qualquer rejeição... Mas não sei se serei capaz de aguentar.

Quanto sofrimento um coração seria capaz de aguentar?