O Caminho Certo

Ana Martines · Capítulo 25 de 44

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O Caminho Certo

Capítulo 27 · Ricardo

Mais uma típica noite de sábado. Beber, conquistar, beber mais um pouco, ir

para casa e fuder alguma garota que passaria a não ter mais importância no momento em que saísse da cama. Então viria a encrenca, quando a garota não se toca que está na hora de ir embora e tenho que ser direto demais. Eu evitava levar essas garotas para casa, mas algumas vezes o efeito da bebida era tão forte que não raciocinava direito. Quando via já estava na cama, tarde demais para colocar as roupas e ir para algum motel barato.

Esta era a rotina, a minha essência, mas algo parecia diferente naquela noite. Algo pareceu estranho no momento em que fechei a porta do apartamento, deixando Paloma no banheiro. Sozinha e nua. Tive que sair o mais rápido possível para não fazer alguma besteira ali.

Já havia perdido muito por sua causa. Fiquei em casa ontem e, enquanto Miguel dormia na casa da Marina, fiquei a noite inteira o amaldiçoando por ter me prendido ali. Então enlouqueceria se não saísse hoje.

Paloma estava acabando com a minha sanidade e destruindo todos os meus pensamentos racionais. Sabia que não deveria me aproximar e que não era certo me envolver com ela, mas esta missão tornava-se cada vez mais difícil. Se ao menos cooperasse com a distância, me xingando ou simplesmente me ignorando... Mas não, quando me olhava com aqueles olhos manhosos... não tinha como dizer não.

Estava cada vez mais linda. E, com isso, mais desejável. Era difícil me enfiar no edredom com ela e não fazer nada, mesmo sabendo que sempre estava acordada. Na verdade, saber disso só tornava tudo mais difícil, pois mostrava que ela queria aquilo tanto quanto eu. A garota que já me negou tanto, hoje me espera acordada para poder dormir.

E ela sabe que sei quando está acordada.

Enquanto dirijo pelas ruas a única imagem que me vem em mente é a garota mimada sentada no sofá da sala, assistindo a um filme e pensando sobre a vida. Ela sempre pensava demais nas coisas, mesmo que não fizesse sentido. Em muitos momentos a via olhando para a TV sem realmente assisti-la... Era a sua maneira de disfarçar a dor. Quem a via pela primeira vez, achava que o programa estava muito interessante, mas não eu, que já encarei muitos jornalistas sem realmente prestar atenção nas noticias trágicas que anunciavam. Afinal, já tinha a minha própria vida trágica.

São os momentos que Paloma sorri que mais fixam na minha memória. Seu sorriso trás o meu à tona, mesmo agora quando não passa de uma lembrança. Seu sorriso, tão raro e simples, é capaz de fazer com que queira voltar correndo para casa somente para vê-lo uma vez mais. A garota sabe sorrir... O que não sabe, no entanto, é fingir um sorriso. Só a vi sorrir verdadeiramente duas vezes: uma enquanto jogávamos truco em casa, onde estava tão descontraída, tão livre que nem parecia que estava sozinha no mundo. E a segunda quando fomos à casa do seu pai. Ao sair, sorriu para mim como se tivesse tirado um peso das costas, e nunca senti tanto orgulho de alguém como senti dela naquela tarde.

Era tão parecida com o Miguel. Agora; antes não. Antes estava sempre saindo, bebendo, reclamando de tudo... Hoje, uma semana depois, posso ver claramente a mudança em seus atos; Ela não reclama mais quando mando nela durante o trabalho, simplesmente coloca um sorriso no rosto e sai para atender os clientes e nem toca no assunto da vida miserável que tem. É por isso que digo que se parece com Miguel... Está sendo forte sozinha, assim como ele sempre foi, encarando a vida com a cabeça erguida.

Gostaria de ser como eles. Mas não, preciso de um refúgio. Que, no caso, são as garotas. O sexo, a bebida, a diversão... nem que dure apenas alguns segundos.

Mas porra, aquela noite estava estranha pra cacete!

Parei o carro na esquina da boate onde marquei de encontrar a garota daquela noite. Era toda charmosa e atrevida, com um corpo exuberante... Poderia até ser modelo. Mas não tinha os cabelos loiros e macios, as mãos delicadas e inexperientes e, principalmente, o olhar que Paloma usava quando me olhava. Ela me olhava como se soubesse o que se passava na minha mente, como se houvesse uma conexão entre nós.

Em menos de dez minutos estava estacionando o carro na frente do prédio. Foda-se, não ia sair com uma garota qualquer enquanto Paloma ficava sozinha em casa. Estava obrigando-a a ficar ali, era meu dever tomar conta dela. Acima disso... era tudo o que eu queria fazer.

Mandei uma mensagem para a garota da boate antes de descer do carro: "Não poderei ir. Marcamos outro dia. Divirta-se.". Não me sentia nem um pouco mal por deixá-la na mão, pois sabia que encontraria outro acompanhante assim que recebesse a mensagem – se já não tivesse encontrado. A única coisa que importava era a menina que dormia na minha cama todas as noites.

Abri a porta do apartamento e coloquei as chaves em cima do balcão da cozinha após trancá-la. Quando olhei para o sofá, Paloma estava exatamente onde imaginei que estaria. Na TV passava algum programa sobre culinária que com certeza não era assistido. Havia tomado a decisão certa ao voltar.

As coisas pareciam de volta ao normal.

Paloma me encarou com um misto de surpresa e esperança, sem sair do lugar. Apenas colocou a TV no mudo e permaneceu me olhando.

– O que aconteceu? – Perguntou.

– Nada...

– Mas... E a sua noite? – Seu olhar estava cada vez mais confuso.

– Minha noite está começando agora. – Sorri de lado, me aproximando do sofá.

Quando Paloma se moveu rapidamente, percebi que usava apenas a minha blusa. Era estranho, mas ficava muito mais irresistível com ela do que com qualquer outra roupa que já usara. No entanto, era a primeira vez que o edredom não cobria as suas pernas, que a luz estava clara o suficiente para poder apreciar suas coxas nuas.

– Não pensei que voltaria tão cedo. – Falou, desculpando-se por estar confortável.

Sentei ao seu lado sem deixar de olhá-la nos olhos. Se olhasse para seu corpo o volume crescente em minha calça ficaria ainda mais evidente. Isso me fez pensar se havia mesmo tomado a decisão certa. Ali não teria minha satisfação.

Coloquei uma mão na sua perna, um pouco acima do joelho, onde sabia que não se incomodaria. No escuro podia sentir seu corpo inteiro, mas no claro as coisas eram bem mais complicadas.

Ao tocá-la percebi que sim, teria a satisfação. Mas diferente, e com certeza melhor do que todas que tinha nos finais de semana.

– Quais eram os seus planos para a noite? – Perguntei, desviando o olhar da sua coxa arrepiada para os seus olhos castanhos claros.

Ela pareceu sem graça por um momento, mas não bateu na minha mão. Não fez nenhum movimento que indicasse que eu deveria sair dali.

– Eu... Não tinha nada planejado. Só ia assistir a uns filmes. – Falou, olhando para a TV e percebendo que não passava filme nenhum. É, garota, te peguei.

– Então vamos fazer nada juntos. – Falei, sorrindo.

Havia muita coisa que queria fazer com ela e 'nada' não estava na lista.

– Por que voltou tão cedo? – Perguntou, desviando o olhar e também o assunto, constrangida. Tímida... Ficava ainda mais linda quando estava tímida.

– Não tinha nada de interessante lá fora, sabe como é... – Falei, tirando a mão da sua coxa para que pudesse ficar mais à vontade, e me encostei melhor no sofá.

– E assistir filme em um sábado à noite é mais interessante do que qualquer coisa que havia lá fora? – Perguntou me encarando.

– Depende muito.

Ela riu ironicamente.

– Não depende não. Lá fora você estaria com alguma garota bonita, dançando e curtindo a vida. Aqui, vai ver um filme sem graça e dormir. Não tem muito para depender.

– Aí que você se engana. Lá fora corria o risco de entrar em um lugar cheio de mulheres feias, com bebida gelada em falta e um calor do cacete. – Teimei.

– Não sei se te avisaram, mas também estamos com bebida gelada em falta. Na verdade, nem quente temos. – Deu de ombros, achando estar certa.

– Pelo menos aqui sabia que encontraria uma mulher linda à minha espera. – Falei, jogando o meu charme.

Ela riu mais ainda. Só esse som já declarava a vitória da noite.

– À sua espera? Francamente, Ricardo... – Falou, sorrindo.

– Vai falar que não estava? – Perguntei, me aproximando enquanto ela ia mais para o canto do sofá.

– Não, não estava. – Seu rosto começava a ficar vermelho. Oh, Paloma, como não sabe mentir...

– Tudo bem então. Volte a assistir o programa de culinária, tenho certeza que estava muito interessante. – Ironizei.

Paloma alternou o olhar entre a TV e o controle, até que começou a procurar outros canais, sabendo que já havia percebido o seu desinteresse por aquele.

– Que filme nós vamos assistir? – Perguntei roçando dedos em seu braço levemente, até sentir seus pelos arrepiarem com o meu toque.

Era tão receptiva. Cada toque, cada sussurro... Podia sentir cada reação que causava em seu corpo e amava aquilo. Porra! Eu amava a maneira como era inocente e ao mesmo tempo sedutora.

– Tem certeza que não quer voltar para a balada? – Perguntou, jogando o controle no sofá depois de rodar todos os canais. Não sei se estava brava por não encontrar nada de bom passando ou por causa da minha atitude.

Se fosse a segunda opção, ficaria mais brava ainda.

– Certeza absoluta. – Falei, virando de frente para ela.

– Acho que a minha noite terminou mais cedo hoje então. – Falou, pronta para se levantar do sofá.

Segurei na sua cintura, impedindo que se levantasse. Não, a noite ainda não havia terminado. Havia muita coisa que queria fazer com ela... Muita coisa para uma noite só.

Por mais que quisesse pensar racionalmente, sua presença não me permitia. Só por saber que suas coxas estavam nuas, apenas aguardando pelo meu toque, o corpo já mandava o cérebro se ferrar e tomava conta da situação.

– Por que acha que a noite já acabou? – Perguntei, encarando sua boca tão convidativa.

– Porque estou com sono. – Teimou, fechando os olhos. Sabia que quando fechava os olhos estava lutando com todas as suas forças. Estava resistindo ao máximo. Por que resiste tanto, garota?

– Eu sei que não está. – Segurei na curva do seu pescoço, fazendo com que olhasse para mim. Tudo o que precisava era abrir os olhos.

– Você não sabe de nada, Ricardo.

– Então me fala. O que, exatamente, eu não sei? – Perguntei, roçando os lábios no seu queixo. Tão próximo daquela boca... Que gosto teria? Não via a hora de descobrir.

Esperei por sua resposta que não chegou nunca. Ela então abriu os olhos e mostrou todo desejo que sentia, com as pupilas dilatadas e a boca entreaberta. Sua respiração estava irregular com apenas um toque... O que aconteceria quando fossemos para a cama?

Mais uma coisa que não via a hora de descobrir.

– Posso garantir que sei algumas coisas... – Falei, sem desconectar nossos olhos.

– O que? – Perguntou, mais sussurrando do que realmente falando. Sua voz teve uma conexão direta com meu amigo lá de baixo, chamando-o para a brincadeira.

– Sei como te tocar. Sei que adora quando faço isso. – Falei, mordendo sua orelha de leve. – E isso. – Depositei alguns beijos no seu pescoço. – Ou até isso. – Empurrei-a para trás e deitei meu corpo por cima do seu, mantendo-a presa no sofá enquanto movia meus lábios pelo seu ombro descoberto.

Ela não parou de suspirar em momento algum.

– Ricardo... Não. – Implorou.

– Não o que? – Perguntei, possuído pelo desejo de beijar o seu corpo inteiro.

– Não faz isso. – Sussurrou. Sua voz dizia não, mas todo o seu ser dizia “continue. Não pare nunca mais.”.

– Não resista, Paloma. Não precisa mais resistir. – Falei, olhando em seus olhos com a mão vagando por seu corpo. Sua cintura, suas pernas... Minha perdição.

– Sim, preciso. Você não está pensando direito. – Falou entre suspiros. Sabia que não estava... Mas pouco me importava.

– É você quem está pensando demais. – Teimei, voltando a boca para o seu ouvido. – Se entregue a este sentimento. Pelo menos uma vez... Pare de pensar demais e só aproveite o momento. – Sussurrei com a voz rouca.

Quando voltei a olhá-la toda a dúvida havia sumido. Agora parecia dizer que sim, aceitava todo prazer que estava pronto para lhe dar.

Não hesitaria nem mais um segundo.

Aproximei o rosto do seu, pronto para beijar-lhe. Ansioso para finalmente sentir a textura da sua boca. Nada me impediria de aproveitar cada pedaço do seu maravilhoso corpo.

Até que escutei a porta sendo destrancada e percebi o quão enganado estava.

Soltei seu corpo e sentei no sofá novamente, deixando-a livre para se arrumar. Por que diabos havia alguém abrindo a porta? Paloma me encarou assustada, ainda com a respiração irregular, tentando arrumar a sua blusa amassada. Ou melhor, a minha blusa amassada.

Miguel abriu a porta da sala e arregalou os olhos ao encontrar a cena na sua frente: Paloma sentada em um canto do sofá, passando desesperadamente os dedos pelo cabelo e eu sentado no outro canto, esperando que a ereção fosse embora logo. Que porra.

– Por que sinto que interrompi algo? – Perguntou sem nos cumprimentar.

Tinha que ser o destino lutando contra aquilo, não? Essa foi a segunda vez que nos interrompiam nesta situação. Alguém muito importante lá em cima não queria que ficássemos juntos. E este alguém estava certo. Seria estupidez seguir em frente com aquilo.

– Aconteceu algo com a Marina? – Perguntei, desejando parar de pensar na burrada que quase aconteceu naquela sala.

– Não, ela está bem. Só fiquei preocupado com a Paloma. – Admitiu.

– Por quê?

– Porque pensei que passaria a noite sozinha aqui. – Falou, mas eu sabia a verdade. Estava com medo que trouxesse alguma das minhas conquistas para casa com ela aqui.

Isso poderia ter acontecido se não tivesse voltado antes de beber alguma coisa.

– Ela está bem. – Falei, olhando para a garota encolhida no sofá sem saber o que passava em sua mente.

Quando percebeu que esperávamos alguma reação, olhou para Miguel e sorriu.

– Estou bem. – Falou com o sorriso mais falso que poderia existir no rosto.

– E você, o que está fazendo em casa? – perguntou Miguel, desconfiado.

– Estava com dor de cabeça. Você sabe como é... Bebidas, música alta... – Falei me levantando do sofá. Ele não poderia descobrir o que estava para acontecer ali quando chegou.

– Sei como é. – A desconfiança permanecia na sua voz.

– Vou dormir. – Falei, andando em direção ao quarto. Até perceber que não dormia mais naquele quarto... Ao menos era isso que Miguel achava. – Combinamos de revezar o quarto, né? – Perguntei à Paloma, rezando para que entendesse a situação.

– Claro... Hoje é a sua noite. – Falou para o meu alívio.

– Boa noite então. – Entrei no quarto e fechei a porta atrás de mim, podendo finalmente respirar fundo.

Que porra estava acontecendo?

Sentei na cama, passando as mãos pelo cabelo e apoiando o cotovelo no joelho. Há cinco minutos estava por cima de uma garota maravilhosa, prestes a beijá-la, e agora me sentia o pior cara do mundo. No que estava pensando? Não podia fazer aquilo. Não podia ficar com ela.

Aquilo jamais poderia se repetir.

Ao menos a cena serviu para me fazer perceber que tudo estava errado. Não deveria estar dormindo abraçado no seu corpo todas as noites. Não deveria me aproximar tanto assim... Todas as provocações, insinuações... Estava tudo errado.

Jurei que nunca mais me importaria com garota alguma. Tinha muito a perder para colocar tudo em risco mais uma vez.

Só que, neste momento, estava perdendo ela. Sei que nunca a tive de verdade... Mas, cacete, pensar que não dormiria mais protegendo o seu corpo com o braço era horrível, mas inevitável. Só precisava fazer mais uma coisa antes de perdê-la para sempre. Só mais uma coisa para poder fingir que nada aconteceu e tentar seguir a vida como antes: sem me apegar, sem me importar e sem ferrar com tudo.

Quando ouvi a porta do quarto do Miguel fechar, abri a do meu e saí sem prestar atenção no que havia pelo caminho. Minhas forças estavam concentradas em Paloma levantando-se do sofá, surpresa, tentando disfarçar enquanto enxugava o rosto. Não se moveu quando me aproximei. Nem quando cheguei ao limite, sentindo mais uma vez seu corpo colar no meu. Não teve nenhuma reação quando segurei a lateral do seu rosto com uma mão e passei a outra por sua cintura, impedindo que se afastasse.

Poderia se afastar depois. Agora ela seria minha. Pela primeira e última vez, como deveria ser.

Paloma olhou nos meus olhos quando aproximei a boca da sua e pude notar a transformação em seu olhar. De assustado para o entendimento e, logo após, a aceitação. Sabia o que estava acontecendo e também queria isso.

Sem pensar duas vezes, colei nossas bocas, apertando ainda mais seu corpo no meu. No primeiro instante seus lábios ficaram tensos, amedrontados... Mas aos poucos relaxaram, deixando que guiasse o beijo, que a invadisse e provasse o seu sabor da maneira que quis fazer desde o dia em que veio morar naquela casa.

Ela então passou os braços pelo meu pescoço, entregando-se ainda mais ao momento. Não estava apenas deixando que a possuísse... Ela estava me possuindo de volta, deixando sua marca e colocando qualquer outro beijo aos seus pés. Era viciante. Nossas línguas se entrelaçando, seu corpo cada vez mais colado no meu, mas nunca perto o suficiente...

A garota sabia beijar. E tinha acabado de transformar minha vida em um inferno, pois nenhum outro beijo seria suficiente. Não quando havia provado o melhor.

Passei minha mão por suas costas até a barra da camiseta que usava, erguendo-a levemente para poder sentir sua pele. Só queria aprofundar aquele beijo. Queria deitá-la na cama e fazer com que não saísse mais. Com que jamais me esquecesse.

Mas quando eu estava pronto para levantar de vez a sua blusa, Paloma parou de me beijar, parecendo constrangida ao me olhar novamente. Seus olhos estavam escuros e sabia que desejava aquilo tanto quanto eu. Sua respiração estava tão descontrolada quanto a minha, mas mesmo com o desejo no ar parecia cada vez mais distante.

Deixei que se afastasse, dando o espaço que precisava. Cedo demais, havia chegado a hora de fingir que nada tinha acontecido. Muito, muito cedo.

Paloma sentou no sofá e voltou a me olhar, controlando a respiração. Ela conseguiu esconder tudo o que sentia e isto deixou-me furioso. Estava devastado pelo beijo e ainda mais por saber que não poderia beijá-la novamente, e ela simplesmente não sentia nada?

Sabia que no fundo, estava tão mexida quanto eu.

– Isso não poderá se repetir. – Falei, tentando normalizar a respiração.

– Finalmente você falou algo que faz sentido. – Ironizou, sem me olhar.

– Estou falando sério. Não apenas isso... Mas tudo isso. Não podemos ficar juntos.

– Tudo bem, Ricardo, já entendi essa parte. – Falou frustrada.

– Tudo bem então?

– Claro, por que não estaria? – Nunca a vi tão indiferente.

Vou falar porque não estaria... Porque foi o melhor beijo da minha vida, e olha que já fiz isso muitas vezes. Porque tudo o que queria fazer era segurá-la nos braços para sempre. Porque me importava demais para deixá-la partir... Só por causa disso.

Mas se para ela estava tudo bem, para mim estava melhor ainda.

– Que bom então. – Voltei para o quarto sem olhar para trás e fechei a porta depois de entrar.

A verdade é que não estava nada bem. Doía. Doía saber que não sentiria mais o seu corpo todas as noites, que teria que voltar para a rotina de dormir apenas quatro horas por noite por causa dos pesadelos que não surgiam quando ela estava por perto. Doía ainda mais saber que neste momento ela estava no cômodo mais próximo de mim, mas parecia mais distante do que nunca. E deveria estar sentindo essa dor. Não queria que sentisse dor nenhuma.

Eu tinha fudido tudo. Havia ignorado todos os sinais, todos os sentimentos e fingido que estava tudo bem. Havia fingido que não sentia nada quando na verdade, o sentimento só aumentava, e o beijo foi a gota d'água.

Não era Paloma quem não se importava. Eu que me importava demais. Havia me apaixonado quando jurei que nunca mais sentiria isso. Estava perdido. E fudidamente apaixonado.