O Caminho Certo
Capítulo 13 · Desci do carro segurando o vestido contra…
Desci do carro segurando o vestido contra o corpo para não levantar com o
vento, peguei minha bolsa no banco e fechei a porta. Ali era o último lugar que queria estar, mas precisava de respostas.
– Me liga quando quiser que te busque? – Perguntou Fernando de dentro do carro.
– Vou ver o que faço. – Falei, sem me importar. Tudo que importava era estar ali e a dor imensa que isso me causava.
Andei entre os túmulos observando os detalhes de cada um, tentando adiar ao máximo o momento em que encontraria o da minha mãe. Cada um era único. Muitos ostentavam com mármores e dizeres maravilhosos enquanto outros tinham apenas uma camada a mais de cimento.
Alguns eram pequenos, provavelmente de crianças. Imaginei a dor que os pais sentiram ao perder seus filhos tão jovens. Seria igual à dor de perder uma mãe? Talvez fosse, mas duvidava que houvessem encontrado o filho morto na banheira todo coberto de sangue, como encontrei minha mãe.
Esperava que eu fosse uma exceção. Que não fosse comum que as mães cometessem suicídio no aniversário de suas filhas.
Depois de caminhar o mais lentamente possível, cheguei aonde Fernando indicou que estava o túmulo de minha mãe. Este, por sua vez, era de mármore preto, muito chique, como tudo em minha vida. Havia uma pequena foto da minha mãe sorrindo. Seu sorriso era lindo! Por que nunca reparei nele?
Como gostaria de vê-la sorrindo mais uma vez...
Respirei fundo. Via a foto dela com meu pai todos os dias quando acordava, mas não era tão recente quanto esta. Estar aqui fazia a dor parecer muito maior. Tão perto do seu corpo, mas tão longe da sua alma... era como se voltasse no tempo, diretamente para a noite em que a encontrei morta.
Sentei no canto do túmulo, olhando ao redor para ver se havia alguém para me xingar. O cemitério estava vazio. Com certeza não estaria aqui se fosse de noite, mas ainda era duas horas da tarde e uma sensação estranha e inusitada de calma me inundava, como se houvesse alguém me dizendo que nada de ruim aconteceria comigo enquanto estivesse ali.
– Oi, mãe. – Comecei, olhando para a foto e imaginando que estava ali comigo. – Desculpa não ter vindo antes... espero que entenda.
Por mais esquisito que pareça para os outros, não me sentia nem um pouco estranha. Conseguia imaginar o sorriso da minha mãe ao me ouvir, dizendo: "tudo bem, Paloma. Eu te desculpo". Parecia que conversava com ela de verdade.
Tirei o diário da bolsa e o apoiei no colo, encarando-o.
– Encontrei isso dentro do seu travesseiro. – Continuei. – Você sabia que eu o encontraria lá, não sabia? – Perguntei, sabendo a resposta. – Tenho certeza que sim.
Suspirei. Não era nada fácil. Esperava que por alguma magia do além ela aparecesse ali, segurasse a minha mão e dissesse que estaria ao meu lado para sempre. Mas não, não estava mais ao meu lado, ela não apareceria ali. Eu estava completa e terrivelmente sozinha.
Engoli o choro e continuei o que fui fazer ali.
– Não consigo ler isto, mãe. Dói muito. – Falei, me esforçando para não chorar, mas já sentindo os olhos cheios de lágrimas.
Respirei fundo pela última vez. Contei até dez. Voltei a falar quando me senti mais estável.
– Vou tentar novamente. Espero que aqui, ao seu lado, não doa tanto. – Falei, abrindo o diário na página em que havia parado.
“Você nunca sabe a força que tem. Até que a sua única alternativa é ser
forte.” – Johnny Depp.
Minha pequena Paloma,
Sabe o motivo de não ter te chamado de Paloma na primeira carta que escrevi aqui? Porque ainda não sabia que nome você teria. Estava esperando olhar em seus pequenos olhinhos para descobrir. E foi a melhor decisão que já tomei em toda a minha vida! Você me olhou com eles cheios de lágrimas, coberta de sangue, mas mais viva do que nunca e eu soube: Paloma. Sabe o que significa? Determinação. Firmeza. Perseverança.
Isso é tudo o que quero que você se torne, minha princesa. Quero que tenha muita determinação durante a sua vida, que corra atrás dos seus sonhos custe o que custar. Eu sei que, se realmente estiver lendo isso, tudo parecerá muito mais difícil, mas não quero que desista. Seja firme, corajosa, confie em si mesma.
Hoje você está com dois anos e anda pela casa como se fosse a dona de tudo. Quando vê algo que gosta em uma loja faz de tudo para que eu compre. Sim, você é determinada. Mas não quero que os obstáculos da vida tirem essa determinação de você. Não deixe que façam isso. Hoje você é apenas uma criança, não sabe muita coisa sobre a vida... Eu te olho e vejo a inocência em sua feição, queria que fosse assim para sempre! Mas sei que não vai ser.
Um dia a vida lhe dará uma pancada tão forte que te mudará para sempre.
Portanto te peço, meu amor. Seja forte. Acima de tudo, seja forte. Tenha um objetivo em mente e corra atrás dele. Eu não fiz isso, e me arrependo mais do que pode imaginar. Tive tudo para ser uma escritora famosa, minha pequena. Muitas oportunidades surgiram, mas então seu pai também surgiu e... destruiu tudo. Ou melhorou tudo. Não sei dizer. Só sei que não corri atrás dos meus sonhos e, hoje, a única pessoa que ouve minhas histórias é você.
Por mais que eu ame te contar histórias, você ainda é muito nova para ouvir tudo o que tenho criado na mente. Quando estiver lendo isto, talvez não seja... talvez se pergunte o que quero dizer. Talvez saiba a resposta. A vida é difícil, minha linda. E quando você tem uma imaginação fértil, a vida se torna ainda mais difícil.
Não digo para não dar asas à sua imaginação, mas não deixe a ficção se infiltrar na vida real. Não deixe que alguns pensamentos te levem à loucura. Este é apenas mais um obstáculo da vida. Determinação, minha pequena. Não esqueça. Determinação.
Tenha a determinação que nunca tive.
Da sua mãe, que te ama a cada segundo mais, principalmente quando segura
meu dedo com esta mãozinha minúscula e me olha com o olhar mais fofo que
consegue fazer, implorando para ganhar alguma coisa que quer muito.
– Mãe... – Suspirei, deixando as lágrimas rolarem quando terminei de ler seu texto.
O dia estava lindo, então por que tudo dentro de mim parecia tão obscuro?
– Vou ser determinada. – Falei, colocando uma firmeza que até então não sentia na voz. – Vou ser determinada por você.
Fechei o diário, colocando-o de volta na bolsa. Isso era tudo o que aguentaria por hoje. O texto só me fez sentir mais a sua falta e arrependimento por nunca ter prestado atenção no que falava. Se tivesse escutado mais talvez ela ainda estivesse aqui, do meu lado, me dizendo essas coisas em vez de escrever.
Enxuguei os olhos e voltei a olhar para o seu túmulo.
– Eu te amo, mãe. – Falei, contendo as lágrimas mais uma vez. Agora tinha uma força maior para conseguir isto. Ia conseguir. – Queria que estivesse aqui.
Dei as costas ao túmulo e saí do cemitério o mais rápido possível. O caminho que havia feito anteriormente em dez minutos foi feito em menos de dois. Precisava sair daquele lugar, seguir meu caminho... Mesmo sem saber por onde começar.
Do que, exatamente, eu precisava?
O toque do celular me tirou da divagação. Olhei para onde andava e vi a praia na minha frente. Sim, a praia era o caminho certo por hora. Ela conseguiria colocar meus pensamentos no lugar. Assim esperava.
– Alô? – Atendi sem olhar no visor, distraída demais com a beleza do mar.
– Paaaaaa, onde você está? – Gritou Lorel, sem nenhum ruído no fundo. Por que sempre gritava?
– Estou na praia. – Falei, colocando o celular um pouco afastado do ouvido, evitando uma futura surdez.
– Aaaaaah, que ótimo! – Sim, foi uma ótima ideia tirar o celular do ouvido. Parecia que estava no viva-voz. – Estou aqui também. Vamos nos encontrar!
– Eu... Não sei não, Lorel. Já estava indo para casa e... – Não consegui terminar a frase.
– Acabei de te encontrar! – Falou, desligando na minha cara.
Pois é, praia; não é hoje que cumprirá sua função.
Olhei na direção em que uma garota vestida apenas com um biquíni minúsculo e uma tanga transparente corria, cada vez mais perto. Lorel chegou até onde estava e me abraçou forte, como se nada tivesse acontecido, como se ainda fôssemos as mesmas amigas da semana passada. Claro, para ela nada havia mudado. Mal sabia o quão rápido meu mundo desabara.
– Menina, você não tem noção de como foi a minha noite! – Falou, enroscando o braço no meu e me levando até o quiosque mais perto, onde sentou em um banco, me fazendo sentar ao seu lado.
Só precisaria ouvir tudo o que tinha para falar – que geralmente durava de quatro a seis minutos – e acenar com a cabeça cada vez que me olhasse, esperando minha opinião. Depois disso estaria livre. Ela não perguntaria sobre a minha noite – nunca perguntava – e eu não precisaria contar sobre tudo o que aconteceu na minha vida. Ela não estava nem aí.
Melhor assim.
– Então, você não vai acreditar! A gente estava dançando, né? Aí chegou um cara muito gato do meu lado e começou a dançar comigo, você lembra? – Chegou o momento de acenar com a cabeça. Confesso que não estava prestando atenção no que falava, mas percebi pelo olhar que esperava alguma resposta.
Acenei como mandava o roteiro e voltei às minhas divagações. Seria isso que minha mãe quis dizer com "obstáculos"? Esperava que sim, pois, se fosse, estava muito bem preparada para ultrapassá-los. Era só voltar aqui amanhã ou quando sentisse vontade e poderia ficar sozinha. Só a praia e eu.
Lorel me lançou outro olhar de pergunta e acenei com a cabeça mais uma vez.
– Está me ouvindo? – Droga, não era uma pergunta tão simples.
– Desculpa, me distraí. O que estava dizendo? – Perguntei, tentando me concentrar no que dizia.
– Perguntei para onde você foi, porque depois que comecei a beijar aquele gatinho, não te encontrei mais. Mas não importa. Vou continuar. – Ótimo, continue.
Olhei ao redor enquanto ouvia sua voz de fundo e percebi que estávamos no quiosque do Miguel. Ou melhor, do Ricardo. Onde ambos trabalhavam. Por que havíamos parado ali? O caminho estava completamente errado.
– E ele tinha uma tatuagem no ombro e pelo braço. Não lembro o que era, porque eu estava bêbada, é claro, mas ele era muito quente e... – Continuava falando do cara da noite passada. Tinha certeza que já havia passado mais de seis minutos.
Miguel não estava por perto. O quiosque estava muito cheio e várias mesas também se espalhavam pela praia, então ele deveria estar atendendo por lá. Queria muito encontrá-lo novamente, agradecer pelas palavras de apoio que disse no dia da carona... Havia dito que poderia contar com ele para o que precisasse, mas não tinha coragem de realmente fazer isso.
Não procurei por Ricardo. Não sei o que faria caso o encontrasse novamente. Desejei que tivesse tirado o dia de folga, assim nenhum inconveniente surgiria.
– E o sexo foi tão... indescritível. O melhor de todos! Ele sabia exatamente o que fazer com aquelas mãos grandes e aquela outra coisa grande. Meu Deus, você precisava estar lá! – Riu, enquanto me arrependia de ter voltado a prestar atenção bem naquela parte. – Na verdade, foi bom você não estar lá, assim ele pôde se dedicar inteiramente a mim. Foi tudo muito rápido, mas foi forte e... Oh! Teve uma hora que tudo se intensificou ainda mais, como se tivesse ficado louco... Foi... Oh! – Suspirou, corada ao se lembrar.
Mesmo sem ter feito algo, já sabia exatamente o que era transar, tudo por causa da incrível habilidade de descrever cenas da minha amiga. Ela não sabia que eu ainda era virgem. Na verdade, muitas vezes precisei mentir que já havia feito para que não ficasse falando sobre o quanto é bom por mais de meia hora, tentando me convencer de fazer logo.
De repente, avistei Ricardo andando em nossa direção. Ele olhava para o bloco de notas, mas, quando levantou a cabeça, seu olhar fixou no meu. Agora era eu quem estava corada.
Tudo o que senti na noite anterior voltou. Sua mão passeando pelo meu corpo, seu peito colado nas minhas costas, minhas pernas ao redor da sua cintura...
Não, isto foi no sonho. Mas foi um sonho tão bom que, por um momento, queria que realmente tivesse acontecido. Mas não contaria a ninguém.
Não, não podia desejar aquilo. Não podia sequer me aproximar daquele cara que já havia me machucado de diversas maneiras, mesmo sem me conhecer.
– É ele, é ele! – Ouvi Lorel sussurrar no meu ouvido, dando pulinhos na cadeira enquanto Ricardo se aproximava.
Sim, Lorel, ele é o Ricardo. Ricardo, esta é a Lorel.
Oh não!