O Caminho Certo
Capítulo 41 · É incrível como uma pessoa pode mudar…
É incrível como uma pessoa pode mudar em trinta dias. Minhas roupas não servem mais – todas caem. A geladeira só contém o que
será preparado para o jantar com o Fernando – e essa é a única refeição que faço no dia, a mesma que me esforço para não vomitar logo em seguida. A casa permanece arrumada, com alguns cantos intactos, já que eu passo a maior parte do tempo no quarto.
Apesar de todas essas mudanças, a mais importante ainda não aconteceu: o esquecimento. Afinal eu continuo pensando em Ricardo o tempo inteiro e em como ele se encaixaria perfeitamente nesta cidade pequena e confortável. Como ele se sobressairia ao andar pela rua com a sua bermuda preta e blusa azul? Aquelas que deixavam os seus olhos ainda mais atraentes? Como ficaria perfeito na minha cama com o corpo colado ao meu, me aquecendo durante a noite.
As lembranças implicam na permanência da dor. Uma dor que não mudou nada ao longo dos intermináveis trinta dias e que não foi esquecida e nem disfarçada por um segundo sequer. Hoje, eu sei sorrir falsamente sem que as pessoas percebam que estou fazendo isso e choro escondida sem que me escutem. É o máximo que consigo fazer para parecer um pouco normal.
No entanto, estou seguindo a vida do jeito que minha mãe mandou. Arranjei um trabalho na sorveteria há poucas quadras de casa, o que faz com que não precise de um carro para ir até lá. A cidade é tão pequena que não preciso de um carro para ir a lugar algum. A maravilha disto é que é possível andar observando o mar; diferente a cada dia, alterando a sua força como se fossem as minhas próprias emoções.
– Paloma, está viva? – Perguntou Carol, me tirando dos devaneios. Quando olhei para frente, a fila de pessoas esperando para serem atendidas havia aumentado e eu deveria estar trabalhando.
Estes momentos não eram raros, tanto é que algumas funcionárias já haviam se acostumado a ter que me chamar sempre que eu olhava para o nada, perdida em pensamentos, ou melhor; perdida em minha própria dor.
– Desculpa. – Falei, correndo para atender a primeira cliente. Hoje seria um dia corrido.
Pensei que adoraria dias corridos, pois dizem que estes são capazes de nos distrair. Mas a dor que sentia não seria esquecida apenas por causa de um dia inacabável. Ela sempre encontrava uma maneira de entrar em meus pensamentos, e tudo o que eu podia fazer era aprender a viver assim.
Se ficasse mais fácil a cada dia, não teria problema... Mas não. Minha esperança estava esgotada e eu não sabia se teria forças para levantar mais um dia e encará-lo como se nada tivesse acontecido. Como se não tivesse perdido a minha mãe seis meses atrás e descoberto que ela fez isso por não me amar o suficiente. Como se não tivesse me entregado completamente a um garoto que me mandou embora um mês atrás, deixando meu coração por lá, sem utilidades.
Eu era obrigada a encarar aquela angústia todos os dias como se tivesse algum motivo para viver, mas a verdade era que não tinha e nada mais fazia sentido para mim. Tentei paquerar novamente, mas não sei sorrir como antes. E parecia estranho demais e não valia a pena. Tentei ser feliz... Mas não sabia por onde começar. O que me fazia feliz? Ficar com Ricardo. O problema era que este não estava mais comigo.
A única coisa que me dava forças para levantar toda manhã era saber que ele estava bem. Miguel havia me mandado algumas mensagens perguntando como eu estava e avisando que o Ricardo estava vivo e saudável, mas não estava muito bem, entretanto ele vivia a sua vida. E era isso que importava. Duvido que esteja tão mal quanto eu
Ele pelo menos tinha alguém para viver. Eu não tinha ninguém que me fizesse pensar "se morresse hoje, essa pessoa estaria perdida". Ninguém. Por mais que minha relação com Fernando tenha se fortalecido e chegado a uma amizade que jamais imaginei que teria, ele ainda não era capaz de me fazer sentir isso. Ele saberia encarar a minha partida com força, como já encarou todas as coisas que surgiram na sua vida.
Estes pensamentos tomavam conta da minha mente todas as noites e em todos os momentos em que eu ficava sozinha. Minha mãe havia sacrificado tudo para me dar essa segunda chance... Mas não estava funcionando. Foi tarde demais. Se tivesse mudado para cá antes de conhecer Ricardo as coisas poderiam ser diferentes... Mas agora não tem mais volta. Meu coração ficou com ele e sei que jamais amarei outra pessoa tanto quanto o amo.
E eu não quero. Muito menos pensar em amar alguém que não seja ele, pois ele é o único que desejo. O único que aparece em meus sonhos todas as noites e me faz ter esperança de um futuro melhor... O único capaz de me salvar. Só que ele não está aqui para isso, pois me abandonou e ainda me mandou embora. Afinal, ele nem se importa mais.
Miguel mandou mensagens, mas Ricardo não deu sinal de vida. Será que voltou para a vida de colecionador de telefones conseguiu me esquecer por uma noite com alguma vagabunda e nem sequer me amou de verdade alguma vez?
– Paloma, espera! – Gritou Henrique, um colega de trabalho que me acompanhava até em casa de vez em quando.
Na maioria das vezes eu saía correndo para que ele não fosse capaz disso.
Parei na hora em que ouvi meu nome, esperando ele me alcançar e me amaldiçoando por não ter sido rápida o suficiente.
– Olá. – Coloquei mais um sorriso falso no rosto, enquanto voltava a andar ao seu lado.
O bom de ser nova na cidade era que ninguém sabia que o sorriso não era verdadeiro. Para eles era o único que existia, então tinha que ser sincero.
– E aí. – Cumprimentou, seguindo os meus passos com as mãos no bolso. – O que vai fazer hoje à noite?
– Nada. – Respondi rapidamente. Nunca fazia nada.
– Quer sair comigo? – Perguntou direto.
– Não... Não posso. – Procurei alguma desculpa para dar, mas quando me toquei, muito tempo havia passado e essa foi a única explicação que eu dei.
– Você nunca sai?
Eu saía – queria responder. Saía com o meu namorado. Mas ele me abandonou, assim como todos que já amei.
– Não. – Respondi simplesmente.
– Sempre tem uma exceção, não é? – Perguntou ele parando na minha frente, impedindo que continuasse o caminho até em casa que estava perto demais.
Henrique me lançou um olhar que parecia tentar ser charmoso, mas tudo o que conseguiu foi me dar nojo. Seu olhar não chegava nem aos pés do de Ricardo, quente e intenso. Seu sorriso de lado parecia que estava com metade do rosto travado, muito diferente do outro que era capaz de conseguir qualquer coisa de mim.
– Não posso essa noite. – Falei, evitando olhar para o seu rosto novamente.
– E que tal amanhã? – Insistiu.
– Henrique... Não... Não quero sair.
– Não quer sair comigo? – Perguntou fazendo manha, como se isso fosse me conquistar.
– Não quero sair com ninguém. – Suspirei, querendo apenas entrar em casa e me perder na dor.
– O que aconteceu com você? – Seu tom de voz mudou para preocupado.
Droga. Minha máscara não estava mais funcionando tão bem.
– Nada.
– Está machucada. – Constatou ele pegando o meu braço e erguendo-o para analisar meu pulso.
Tirei o braço das suas mãos e escondi o pulso, protegendo-o de olhares curiosos.
Sim, eu estava machucada, mas não era com este machucado que deveria se preocupar. Este só havia sido feito para tentar amenizar a dor que existia por dentro... Desde que descobrira que a dor física era capaz de esconder a dor interior por algum tempo, fazia tudo o que podia para ter esses segundos de alívio. Durava muito, muito pouco, mas era melhor do que nada.
Só precisava tomar cuidado para que Fernando não descobrisse nada disso, pois ele e nem ninguém entenderia. Ninguém seria capaz de entender a dor que existe dentro de mim.
E neste momento, enquanto Henrique me olhava com pena, com diversas coisas passando na mente, tudo o que eu queria era correr para dentro de casa e ter meus poucos segundos de alívio. Afinal, era tudo que eu precisava.
– Não me toque mais. – Pedi, me encolhendo e passando por ele, em direção à porta de casa.
Sentei encostada na porta assim que entrei, aliviada por não precisar explicar mais nada e muito menos precisava de mais um problema em minha vida. Esta, sem soluções e nem esperanças... Teria como piorar?
Sim, sempre piora. Ao ligar a TV a primeira noticia do jornal que vi foi: Empresário se casa pela segunda vez. Meu pai está na TV com uma mulher vulgar ao seu lado, acenando sem parar. Não é a mesma loira que vi entrando em casa aquele dia... Mas é uma das suas vadias. Com peitos grandes e roupas comportadas. Claro, havia obrigado a garota a usar aquilo, afinal tudo o que lhe importava era a imagem.
E a sua imagem de solteiro estava ficando manchada. Ele, como sempre, conseguiu dar a volta por cima.
Mas logo em seguida, o repórter mudou o foco para a ex-mulher dele – minha mãe. Fotos do seu caixão passaram pela TV, seguidas de algumas minhas vestida de preto e outras onde estou com ela no shopping na última vez em que saímos juntas. Tentei ouvir melhor o que o repórter dizia, em vez de me concentrar nas imagens.
– Com boatos de desaparecimento, a verdade é que Olívia Bortolon está morta há quase meio ano. Alguns dizem que seu marido, Maurício Bortolon a matou e escondeu o corpo, mas a abertura do túmulo ainda não foi realizada para a acusação ser comprovada. Outros alegam que Olívia morreu de overdose, já que algumas fotos foram encontradas onde seu marido fumava algo desconhecido. A causa da morte ainda é desconhecida, e estudos estão sendo realizados no caso. Por enquanto ficaremos com as nossas próprias divagações.
Overdose? Como podem falar que a minha mãe bebia ou fumava? Ela era a pessoa mais saudável que conheci e jamais teria sido capaz de experimentar algo do tipo. Desliguei a TV frustrada por ver a imagem da minha mãe indo por água a baixo, tudo para que meu pai voltasse a ser famoso e querido.
Ela havia morrido e não conseguiria se explicar. Eu teria que fazer isso por ela.
Sentei na escrivaninha do quarto e comecei a escrever uma carta para a produção do jornal. Precisava contar tudo o que havia acontecido. Tudo o que levou minha mãe a cometer o suicídio.
Ela havia se matado por mil e um motivos, mas pensando melhor, havia se matado por não encontrar motivos para viver. Tinha cumprido o seu dever: Garantir para a sua filha uma segunda chance de vida, e tudo o que ela buscava era paz. Uma paz que eu sabia que não encontraria nesta vida.
Uma paz que eu sabia não ser capaz de encontrar novamente.
Seria fácil. Poderia tomar alguns remédios e esperar que fizessem efeito... Poderia abrir os cortes do pulso e esperar o sangue se libertar das minhas veias ou ainda... me jogar na frente de um carro ou entrar no mar sem pensar nas consequências.
Mas, pensando nas consequências... Não haveria nenhuma. Ninguém sentiria a minha falta e nem sairia ferido. Tudo o que fiz até hoje foi pelo Fernando, que queria que eu fosse feliz. O problema era que eu não conseguia mais. A felicidade havia desistido definitivamente de mim.
Estava na hora de parar de pensar em outras pessoas e pensar um pouco em mim.
Sabia o que era melhor. O mesmo que fora melhor para minha mãe.
Só precisava me despedir de uma pessoa antes de finalmente encontrar a paz que eu tanto procurava. A pessoa que está com meu coração... Com a minha felicidade.
Se tudo tivesse sido diferente...