O Caminho Certo
Capítulo 28 · – Está na hora de me contar…
– Está na hora de me contar o que anda acontecendo entre você e o meu irmão. – Exigiu Miguel depois de me puxar pelo braço até uma das mesas do quiosque, sentando-se o mais perto possível de mim para impedir que escapasse novamente.
Consegui fugir desse assunto por quase uma semana. Não que estivesse contando, mas fazia exatos cinco dias que havia provado o melhor beijo da minha vida. Cinco dias que não conseguia dormir mais do que duas horas por noite, que não sonhava com outra coisa além daqueles lábios maravilhosos e, principalmente, que vinha falhando na tentativa de esquecer tudo isso.
Miguel percebeu logo no dia seguinte, quando acordou e não encontrou ninguém em casa. Ricardo tomou seu café logo cedo e saiu sem falar nada, sem nem sequer olhar para mim. Com isso a casa tornou-se grande demais – e ao mesmo tempo sufocante – para ser confortável. Corri para a praia na primeira oportunidade que tive, e foi lá, ou melhor, aqui que passei o dia inteiro. Todos já estavam na cama quando voltei, mesmo que suspeitasse que Miguel tivesse me esperado acordado.
– Não tem nada acontecendo. – Tentei disfarçar novamente.
Havia muitos motivos para não querer tocar no assunto com ele: 1) era do irmão dele que estávamos falando... Não podia simplesmente falar "seu irmão é um canalha, sem coração, que entrou na minha vida apenas para deixá-la mais confusa"; 2) doía pensar no assunto. Não mais do que doía pensar em tudo o que aconteceu nesses meses... Mas de qualquer jeito queria escapar de tudo que causava dor; 3) Ricardo não queria que Miguel se envolvesse. Escondeu o assunto do irmão de todas as maneiras... Não estragaria o seu esforço.
Sim, queria ter alguém para desabafar. Alguém para contar todos os meus sentimentos, que me ouvisse e me desse uma chacoalhada, dizendo "você está fora de si, Paloma". Queria muito, mas Miguel não poderia ser aquela pessoa, certo?
Quando olhei novamente para ele percebi que estava errada. Por que não? O Ricardo que se ferrasse... Era o mínimo que merecia depois de acabar com a minha vida. E então todas as alternativas foram esquecidas, substituídas pela necessidade de botar tudo para fora.
– Tudo bem. Está acontecendo tudo. – Suspirei. Pela cara de surpresa que Miguel fez, não foi a melhor maneira de começar a história.
– Sabia que estava certo. – Falou vitorioso. – Vamos lá, especifique. – completou, sem esconder a ansiedade para mais informações, mas mostrando que estava ali para me ouvir.
Não me segurava mais na mesa. Deve ter percebido que era exatamente ali que queria estar naquele momento. O quiosque estava quase vazio, prestes a fechar, mas nós dois que fecharíamos, então não teria problema ficar um pouco a mais. Poderia contar tudo.
– Lembra quando você falou que aquela noite poderia me machucar? – Perguntei, achando um caminho para começar. – Que deveria ter saído com você... Que algumas noites eram intensas por lá?
– Realmente atrapalhei algo naquela noite, né? – Perguntou, já sabendo onde eu queria chegar.
– Não exatamente... – Como falaria que logo quando entrou no quarto seu irmão me beijou até me deixar sem ar?
– O que aconteceu?
– Ele... Nós... Nós nos beijamos. – Enrolei para falar, tímida.
Miguel ficou em silêncio por alguns minutos, perdido em pensamentos, o que me deu a oportunidade de relembrar o desastre daquela noite.
Deveria ter ido dormir assim que saí do banho, ou ao menos quando vi Ricardo chegando a casa. Deveria ter sido mais forte, afastá-lo com mais convicção... Por que sou tão fraca quando se trata dele? Por que a emoção sempre ganha da razão?
Nossa relação passou de muito carnal – porém escondida – para platônica. Na verdade não acho que "platônica" seja uma boa definição... O que somos ainda não há uma palavra que defina. Trocamos um "bom dia" todas as manhãs, apenas isso. Sinto seu olhar em mim enquanto tomo o café e não nego que o observo várias vezes quando sei que está distraído... E então, nós saíamos; os três juntos, sempre.
Ele não precisa mais me guiar no trabalho, então são raras as vezes que trocamos algumas palavras durante a tarde. Foco em atender os clientes e dar o meu melhor para deixar todos satisfeitos, e ele... Ele foca em pegar telefones. Vi tirar o celular do bolso inúmeras vezes em apenas um dia, com aquele sorriso safado no rosto, prometendo dar a qualquer garota uma noite inesquecível. E tudo o que podia fazer era observar.
Observar enquanto colecionava números, nomes, endereços... Observar enquanto distribuía cantadas baratas e sedutoras há poucos metros de mim, sem se importar com o que existiu entre nós. Observar enquanto meu coração se quebrava um pouco mais cada vez que ouvia o "vou te ligar, então" para uma garota diferente. É como se após ouvir essa frase fosse capaz de ouvir o trincar de um copo de vidro. Este era o barulho que meu coração fazia quando era quebrado. E, mais uma vez, não havia nada a ser feito.
– Agora tudo faz sentido. – Falou, me fazendo pular da cadeira. Tinha esquecido a realidade.
– O que faz sentido? – Perguntei voltando ao assunto.
– Vocês dois. Eu sabia que algo estava errado... Estavam dormindo juntos todas as noites, mas fingiam que nada acontecia. Trocavam olhares quando pensavam que ninguém olhava... E então, domingo passado tudo mudou, não é mesmo? Ele conseguiu estragar tudo. – Agora Miguel parecia falar consigo mesmo, diminuindo o tom de voz.
– Você sabia esse tempo todo? – Perguntei surpresa. Tomamos cuidado durante as noites, sempre esperando uma meia hora depois de Miguel pegar no sono... Aparentemente não havia adiantado.
– Era óbvio demais. – Falou sem se importar. – E agora vocês tentam fingir que nada mudou, mas nem olhar nos olhos um do outro; vocês conseguem. Não dormem mais. Não brigam! – Completou entusiasmado por tudo estar se encaixando.
Mas na minha mente as coisas só pioravam. Estávamos sendo óbvios demais. Ou melhor, eu não consegui controlar meus sentimentos. Meus estúpidos sentimentos por um garoto que só se aproveitou de mim.
Deveria ter o deixado tirar a minha roupa naquela noite. Era isso o que ele queria, não era? O que sempre quis... Por mais que o beijo tenha parecido especial na hora, cada vez que pensava melhor no assunto percebia que foi especial apenas para mim. E havia sido especial porque sentia algo por ele. Algo que ele jamais seria capaz de sentir de volta.
Algo que precisava parar de sentir o mais rápido possível.
– O que importa é que acabou. – Falei, misturando os pensamentos com as últimas palavras de Miguel.
– Não, não acabou. – Falou, me olhando nos olhos. – Está apenas começando.
– O que quer dizer com isso?
– Vocês estão apaixonados. – Deu de ombros, sem me deixar dizer algo. – Esconder já sabe que não dá certo... Pelo visto negar também não. Só há mais uma coisa a ser tentada...
Miguel me olhou como se eu soubesse o que precisava fazer, mas não tinha a mínima ideia. A única coisa que pensava em fazer era me afastar cada vez mais.
Resolveu se esclarecer ao perceber minha feição confusa.
– Vocês precisam ficar juntos logo! – Disse, empolgado novamente. – Nunca pensei que apoiaria o meu irmão com alguma garota, ainda mais uma garota que eu me importo... Mas não há outra saída.
Eu ri. Dolorosamente, mas ri. Miguel conseguiu falar a coisa mais absurda que já ouvi em toda a minha vida.
– Você não entende. – Falei, parando de rir aos poucos. – Não é tão simples.
– O que é complicado então? – Perguntou.
– Não posso me envolver... Muito menos com alguém que... – Ponderei se deveria falar o que sentia ou não. Ele me olhou com seu olhar de "estou aqui por você" e foi o que me fez terminar a frase. – Alguém que foi capaz de quebrar o meu coração com um simples beijo. – Que de simples não teve nada.
– Você só está assim porque não estão juntos. – Falou sem entender o que passava dentro de mim.
– Você conhece o seu irmão, Miguel. – Falei, percebendo que a conversa não levava a lugar algum. – Realmente acha que ele é capaz de ter um relacionamento sério com alguém?
Mais uma vez, pareceu pensativo. Durou pouco, mas quando voltou a me olhar não tinha mais empolgação em sua feição. Tudo o que pude encontrar foi decepção.
Ele parecia desejar, tanto quanto eu, que o irmão fosse diferente.
– Ele nunca tentou. Não depois... – Começou, mas parou no meio da frase, perdido em pensamentos de novo.
– Depois do que? – Perguntei curiosa.
Até que Ricardo nos surpreendeu, voltando da praia.
– Já passou da hora de fechar, vão ficar fofocando até que horas? – Perguntou de mal humor.
Eu me levantei no mesmo instante, pronta para ir a qualquer lugar que não fosse perto dele. Onde não corresse o risco de olhar em seus olhos e sentir mais um pedaço do meu coração se derretendo. Se fosse para sofrer, sofreria por algo que realmente valesse a pena.
E tinha em mãos, ou mais especificamente na bolsa, este algo.
– Já estou de saída. Não esperem por mim... Não sei que horas chego. – Falei, acenando com a cabeça para Miguel. – Depois continuamos a nossa conversa. – Intimidei louca para saber o que havia acontecido com Ricardo. Depois?
Dei as costas e saí andando pela praia, sentindo o olhar de Ricardo queimando em mim. Só queria andar, achar um lugar tranquilo e ler mais um pedaço do diário da minha mãe.
Nenhum dos dois impediu que eu partisse. Miguel sabia que eu era capaz de me virar sozinha. Ricardo com certeza não se importava o suficiente. Na verdade, não se importava nem um pouco.
Depois de vinte minutos de caminhada consegui sentar em um lugar mais iluminado e perfeitamente vazio. O sol já havia dado lugar à escuridão que, diferente de outros momentos, me acolhia da maneira que precisava. Era a hora perfeita.
Abri o diário na página que havia parado duas noites atrás e comecei a ler mais um dia da sua vida.
"Guardar ressentimento é como tomar veneno e esperar que a outra pessoa
morra." – William Shakespeare.
Minha amorosa e piedosa Paloma,
Esta será uma carta diferente... Não vou falar de mim. Nem de você. O nosso assunto de hoje é o seu pai e o seu jeito rancoroso. Sabe quando alguém te nega uma bala num dia qualquer e então você passa a negar bala para esta pessoa todas as vezes que ela pede? Este é o seu pai. Não, conseguia ser pior... Ele era aquele que depois de ouvir o único "não" comprava balas todos os dias, jogando na cara da sociedade que pode ter qualquer bala que quiser e não divide com ninguém. Nunca.
Eis o que aconteceu... Meu pai, seu avô, morreu no dia do aniversário do seu pai. Ou melhor, na noite. Foi uma noite muito agitada, todo mundo estava no hospital, exceto o seu pai. Eu estava do lado do meu pai, segurando a sua mão o mais firme que conseguia, querendo que aquele aperto prendesse-o na terra com a gente. Mas não apertei forte o suficiente e às duas horas da manhã ele se foi. Nós sabíamos que isso aconteceria cedo ou tarde... Mas a morte de uma pessoa nunca é menos dolorosa, não importa se é iminente ou não.
Como deve estar raciocinando, passei a noite com o meu pai e longe do seu. Fora de casa. Ele ficou em casa, deitado na cama, me esperando para dormir. Eu o deixei sozinho em pleno aniversário. Nesta época você ainda não existia... Nós havíamos acabado de nos casar. E nunca mais ele esqueceu isso. Hoje é mais um de seus aniversários, e desde aquele dia ele nunca passa essa data ao meu lado.
Saiu há horas, e já é madrugada... Sei que não vai voltar. Sei que não quer voltar e que jamais me perdoará por isso. Entendo a parte dele... Mas ele nunca tentou entender a minha. Esta é uma das datas mais difíceis para mim, pois foi quando perdi o meu pai. É sempre no mesmo dia do ano que fico a noite inteira lembrando cada vez que ele me levou para pescar, para tomar sorvete, para ver os animais que criava... E em nenhuma dessas noites tive alguém do meu lado para dizer que tudo ficaria bem.
Você deve estar se perguntando o motivo de te contar essa história... Acredite, não foi apenas para tirar um peso das costas – na verdade o peso só aumenta. Estou escrevendo isso para que não cometa o mesmo erro que seu pai está cometendo a cada ano – e continuará assim. São duas coisas que você precisa pegar deste sofrimento, meu amor, e a primeira delas é aprender a perdoar.
Não vale a pena guardar rancor por algo, sabia? Porque não sei o que seu pai sente sobre isso, mas eu não sinto nada. Mil pensamentos passam por minha mente nesta data e nenhum é de arrependimento da escolha que fiz. Se pudesse faria novamente sem pensar duas vezes. Não acredito que seu pai sofra com este rancor porque ele não é capaz de sofrer. Mas você é, e estou falando isso para o seu bem. Pequena, quando você não perdoa alguém, uma mancha negra surge em seu coração. E esta mancha negra é capaz de quebrar o mesmo se a pessoa que você guarda rancor morrer... Ela vai morrer e tudo o que conseguirá pensar é "ela morreu sem o meu perdão".
Eu vou morrer e seu pai ainda não terá me perdoado. Espero que ele pense, durante cada dia solitário, pelo resto da sua vida, em como errou ao fazer isso. E saiba que uma vez morta não tem mais como perdoar esta pessoa. A chance evapora. É enterrada junto com o corpo.
A segunda coisa que eu preciso que entenda é que nunca é apenas o seu lado. Mais um erro do seu pai... Ele sai sem dar explicações, talvez para sentir a dor, mas nunca pensa na minha. Nunca pensa no que aconteceu comigo na mesma noite. A única coisa que consegue pensar é que o deixei sozinho na noite do seu aniversário. Ele esquece que tive os meus motivos para isso.
Portanto sempre tente entender o próximo. Se alguém fizer algo que não te agrade, não desconte na hora... Tente entender o motivo dessa pessoa. A sua dor pode ser grande, mas a dor dos outros pode ser três vezes maior. E você nunca saberá se não tentar entendê-la.
Espero do fundo do coração que o meu sofrimento esteja servindo para alguma coisa. Espero que as minhas cartas estejam conseguindo chegar até o seu doce interior, e que jamais seja capaz de fazer o que seu pai faz comigo. Porque sim, ele parece perfeito... Mas está longe disso. Na verdade, todos nós estamos. E a imperfeição, algumas vezes, leva à destruição.
Da sua mãe que chora cada vez que escreve uma palavra a mais nestes
papéis, mas que espera que as lágrimas não sejam em vão. Sei que não serão.
Oh mãe...
Minhas lágrimas caíam em cima do diário onde antes estavam as suas. Tudo o que o meu pai a fizera passar... E, em certa parte eu. Se não tivesse me tornado tão parecida com ele, ela jamais precisaria sofrer escrevendo as cartas. Se não tivesse ignorado tudo o que falou, tudo o que tentou me ensinar...
Se apenas tivesse aberto meus olhos um pouco antes.
Voltei para o apartamento, andando calmamente com as palavras da minha mãe circulando na mente. "Sempre tente entender o próximo". Entendia... Estava no caminho certo, não estava? Entendia que meu pai era um canalha e que Ricardo não queria estar com uma menina só. Talvez sejam parecidos... Talvez sintam essa necessidade de estar com pessoas diferentes, vivendo experiências diferentes a cada momento. Entendo tudo isso.
E entendo que preciso me afastar dos dois antes que acabe da mesma maneira que a pessoa que mais me amou no mundo.