O Caminho Certo

Ana Martines · Capítulo 23 de 44

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O Caminho Certo

Capítulo 25 · Agradeci internamente pela casa estar vazia. Era…

Agradeci internamente pela casa estar vazia. Era de se esperar... Meu pai

nunca estava presente, muito menos numa segunda-feira às duas horas da tarde. Poderíamos ficar ali o dia inteiro e ele nem saberia. Mas por via das dúvidas, apressei Ricardo para que parasse de observar cada foto que encontrava nos cômodos e fosse comigo até o meu antigo quarto.

Não queria abrir a porta. E se algo estivesse fora do lugar? E se meu pai tivesse destruído as minhas coisas e feito um quarto novo para sua outra família? Respirei fundo e toquei a maçaneta com a mão tremendo, desejando que estivesse tudo como havia deixado.

– Está tudo bem? – perguntou, se aproximando por trás e colocando a mão sobre a minha.

Olhei para ele e seus olhos diziam que compreendia o que acontecia dentro de mim. Duvido, mas era bom saber que conhecia ao menos um pouco da minha vida. Do meu mundo.

– Sim.

Abri a porta de uma vez, ansiosa para ter a resposta. Odiava quando a garota dos filmes de suspense demorava uma vida para descer a escada, enrolando ao máximo, sendo que no final encararia o perigo de qualquer maneira. Evitar o inevitável. Não adiantava, então simplesmente abri a porta e esperei pelo pior.

O quarto estava intocável. Suspirei de alívio e percebi que havia exagerado. Ele não seria capaz de trazer outras pessoas para morar ali, seria? No entanto, também achei que não seria capaz de dormir com outra mulher na mesma cama que dormiu com mamãe por tantos anos, e em pouco mais de um mês depois da sua morte lá estava ele. Depois disso podia esperar qualquer coisa.

Comecei a arrumar a mala enquanto Ricardo analisava meu quarto com uma atenção exagerada. O quarto que, tardiamente, percebi ser infantil demais. Alguns bichos de pelúcia estavam espalhados pela cama, o edredom era cor de rosa e florido e havia um pôster do meu amor, Adam Levine. Havia me esquecido completamente deste pôster, mas com Ricardo ali parecia que tinha um pisca alerta ao seu redor, dizendo "veja, ela ainda não saiu da adolescência!".

Rezei para que ele não visse o pisca alerta.

– Bonito quarto. – Comentou ironicamente.

Virei para ele e o encarei, notando o sorriso de “adoro te irritar” presente no rosto. Era o terceiro sorriso diferente que identificava... Quantos mais existiam?

– Não durmo aqui desde a morte da minha mãe.

– Eu sei. Não foi aqui que te coloquei na noite em que dormiu no meu carro. – Falou, sentando-se na cama, que se tornou um pouco menos feminina com a figura máscula em cima.

– Foi você que me deixou na cama aquele dia? – Perguntei me distraindo da tarefa de separar as coisas para prestar atenção em sua resposta.

Tinha uma vaga lembrança daquela noite. O que mais me marcou foi a nossa dança, aquela que não deveria ter existido, mas que foi a melhor que já tive. Lembro também que sonhei que nos beijávamos na parede da boate, mas de repente tudo ficou muito confuso, e só.

– Quem mais teria sido? – Perguntou sorrindo de lado. – Foi uma ótima noite.

Ótimo, ele também se lembrou da dança. Esta deveria ser uma memória proibida; daquelas que o cérebro decide bloquear para nos proteger. Se bem que se pudesse escolher alguma lembrança para esquecer, esta não seria a primeira opção.

– Você arranjou encrenca com o Fernando.

– Valeu a pena. – Respondeu, piscando.

Então lembrei mais uma coisa: como terminou sua noite. Os relatos da Lorel sobre como ele foi forte e atencioso, como lhe deu o melhor sexo da vida. Desgraçado.

Com raiva, voltei a fazer minha mala, socando as roupas sem me importar se estavam dobradas ou não. No entanto, não consegui manter a boca fechada.

– Sim, a noite deve ter valido a pena mesmo, pelo fim que teve... – Comentei, sem olhar para ele.

Até que seu corpo surgiu atrás do meu novamente. Aquele corpo alto e musculoso pressionou contra o meu, me encurralando. Nenhum lugar para fugir. Estava tornando-se um costume me prender assim, mas não posso dizer que não adorava.

Senti sua mão em meu cabelo, tirando-o do pescoço, onde logo estaria a sua boca, mas sem me tocar, mas tão próxima que os pelos da minha perna se arrepiaram. Imaginava o caminho que traçaria até o meu ouvido, me deixando cada vez mais arrepiada. Não me movi. Não tive reações.

O corpo ganhou do cérebro. Tudo o que eu queria era aproveitar a sensação de tê-lo tão próximo assim.

Mas sua boca não fez o que imaginei. Apenas passou o nariz pelo meu pescoço como se sentisse meu cheiro e disse com a voz rouca:

– Valeu a pena porque te ouvi sussurrando o meu nome. – Falou, e tive uma leve sensação da mão na minha cintura, mas só conseguia aproveitar sua boca tão próxima do meu pescoço. Tão próxima. Mas nunca próxima o suficiente.

Então o cérebro voltou a funcionar e tentei entender o que dissera. Não havia sussurrado seu nome. Jamais faria isso! Apenas em sonhos, mas isto ele jamais saberia. Ou ele...

Oh não. Eu deveria saber. Quando tinha cinco anos minha mãe disse que sabia quando eu mentia para ela, porque sempre lhe contava. Foi então que descobri um dos meus piores defeitos: eu falo enquanto durmo.

Naquela noite havia sonhado que estávamos nos beijando. Que seu corpo pressionava o meu contra a parede, cada vez mais perto, enquanto gemia em seu ouvido. Lembro que sussurrei seu nome... Foi então que tudo ficou confuso e o sonho acabou. Merda, não tinha sido apenas no sonho!

No fundo, estava grata por ser só isso que saiu da minha boca. Poderia ter sido muito pior, não?

– Não sei do que você está falando. – Falei, me virando de frente para o seu corpo.

Não deveria ter feito isso. Agora sua boca estava próxima demais da minha. Próxima demais...

– Eu sei que sabe... Vai me contar o que estava sonhando? – Perguntou, alternando o olhar entre a minha boca e os meus olhos.

– Não lembro – menti. – Provavelmente sonhava que estava te matando ou algo do tipo. – Falei, fechando os olhos para sair do seu feitiço. Impossível.

– Não minta para si mesma, Paloma.

– Não estou mentindo. – Minha frase saiu com um tom de “Por favor, pare com essa tortura”.

– Será que sonhava comigo fazendo isso? – Perguntou, descendo a boca até o meu ombro e traçando um caminho até o meu ouvido, mordendo-o levemente.

– Não. – Sussurrei, sem forças.

– E isso? – Passou a mão na minha coxa descoberta, erguendo o vestido improvisado. Tenho certeza de que ele conseguiu sentir o quanto arrepiada me deixou.

– Também não. – Queria resistir, mas a cada toque me sentia mais na beira do precipício.

– Talvez isso então? – Depositou beijos na minha clavícula, passando perto demais da minha boca. Perto demais.

Fiz que não com a cabeça, sabendo que se falasse algo não sairia como o esperado.

– Com alguma coisa você sonhou... Terei que testar tudo para descobrir?

– Não vai descobrir.

Se continuasse não demoraria muito para saber que estou mentindo...

– Não sabe quão enganada está... – Sussurrou e, quando abri os olhos tudo o que vi foi desejo nos seus, que estavam mais escuros do que o comum.

Não deveria ter aberto a porra dos olhos.

– Você não saiu da minha mente, Paloma. A noite inteira, só queria ouvir meu nome nos seus lábios novamente. – Falou, olhando para eles como se estivesse prestes a devorá-los.

Devore-os, Ricardo. Faça como se não houvesse amanhã.

Parecia que havia escutado meus pensamentos, pois se aproximou ainda mais de mim, com a boca a milímetros da minha. Podia prever seu gosto, sua textura... Podia sentir minhas pernas ficando bambas pelo beijo que me daria.

Até que a porta da entrada foi aberta, nos despertando no transe.

– Se for ele... – Falou, afastando-se sem concluir a frase.

– Precisamos ir embora. – O desespero tomava conta do meu corpo. Não queria ver meu pai novamente.

Queria estar beijando Ricardo.

Não. Ver meu pai era mais saudável... O que tinha na cabeça quando quase deixei que me beijasse?

Descemos as escadas, ele segurando a mala enquanto eu pegava todos os porta-retratos que encontrava da minha mãe pelo caminho. Não deixaria que meu pai desonrasse-os também.

Ao chegarmos ao último degrau, Ricardo pegou a minha mão, surpreendendo-me. Foi então que vi o motivo daquele ato, parado na minha frente, parecendo pronto para mais uma briga.

Meu pai deu alguns passos na minha direção, mancando. Um dos seus braços estava enfaixado na frente do corpo e seu rosto estava mil vezes pior do que o do Ricardo. Precisava agradecer o garoto pelo ótimo trabalho que fez.

Seus olhos transmitiam todas as broncas, lições de vida, castigos... Tudo que me livrei naqueles dois dias. E posso dizer que doeu da mesma maneira que se fossem palavras saindo por sua boca.

Então seu olhar mudou de mim para Ricardo, que permanecia ao meu lado pronto para me proteger a qualquer momento. Sua mão apertava a minha, tensa. Olhei para o seu rosto, procurando algum sinal de que sairia do controle, mas estava estático, sem expressão. Sua boca estava menos vermelha, mas o corte ainda era evidente e o da testa continuava com um esparadrapo. Preferiria que meu pai tivesse visto-o inteiro, não com as consequências do que aconteceu ontem. Entretanto, era bom ver quem claramente venceu.

– O que vocês estão fazendo aqui? – Perguntou bravo.

– Vim pegar minhas coisas, já estou indo embora. – Falei, querendo que saísse da frente.

– Para onde pensa que vai, mocinha?

– Não te interessa. – Respondi, sentindo Ricardo apertar minha mão como se aprovasse a resposta.

– Você é minha filha, é claro que interessa. Daqui você não sai. Já teve seus dias de diversão com esse pirralho aí! – Disse, indicando Ricardo que pareceu ainda mais tenso.

Coloquei uma mão em seu peito, sem olhar para o seu rosto, tentando evitar que algo ruim acontecesse. Teria que lidar sozinha com o meu pai dessa vez.

– Me espera lá fora – sussurrei para ele.

– Não vou te deixar sozinha.

– Estou te pedindo, Ricardo. – Falei, olhando em seus olhos. – Preciso disso.

– Promete que grita se precisar de algo?

– Prometo.

Relutante, Ricardo me deu um beijo na testa e saiu da casa, lançando uma última encarada para o meu pai antes de fechar a porta com tudo.

Quando saiu, andei até onde meu pai estava. Ele era mais alto, porém não muito. Não o bastante para me amedrontar. Nada mais nele me dava medo. Já havia dado... mas hoje só sentia nojo e estava na hora de dizer tudo o que sentia.

– Eu sou sua filha biológica, apenas isso. Este fato te deu poder sobre mim até os meus dezoito anos. No dia em que minha mãe morreu você perdeu completamente este controle. – Falei sem desviar o olhar do seu.

Ainda não havia terminado.

– No dia em que a mulher que tanto dizia te amar morreu, você perdeu sua filha também. No momento em que decidiu virar as costas e partir para a "viagem de trabalho" – Fiz aspas com os dedos no ar. – perdeu a sua família, ou o que restou dela.

Ele pareceu querer se expressar, mas ergui o dedo até o seu rosto e continuei.

– Você não manda em mim. Se quiser ir embora, eu vou. E é exatamente isso que estou fazendo. Pouco me importa o que você pensa. Você perdeu o direito de saber qualquer coisa sobre mim no dia em que colocou outra mulher na cama da mamãe. – Falei, sentindo as lágrimas de raiva invadindo meus olhos. Mas ao mesmo tempo me sentia cada vez mais forte. – Você não vai mais ouvir falar de mim. Nunca mais. Invente a história que quiser para a sociedade, não ligo. Diga que morri. Diga que fui viajar. Qualquer coisa!

Respirei fundo, segurando as lágrimas, e coloquei mais segurança na minha voz.

– Mas você saberá a verdade. Saberá que te deixei porque não aguentava mais viver ao lado de alguém tão infiel, tão desgraçado. Que te deixei para ficar com um cara mil vezes melhor, que me conhece há pouquíssimo tempo e que não tem o meu sangue, mas mesmo assim meu sentimento por ele é maior do que por você. Saberá que foi você quem me fez ir embora. É sua culpa que a família perfeita tenha desmoronado. É sua culpa que esteja indo embora para nunca mais voltar, sem me importar com o que está ficando para trás. E, se a mamãe está morta, isso também é sua culpa. – Terminei, sem deixar de encará-lo.

Pela primeira vez na vida vi um sinal de dor em seus olhos. Durou um milésimo de segundo, mas esteve ali, me deixando muito satisfeita. Meu trabalho estava cumprido.

Andei até a porta sabendo que não me impediria mais. Sem sair do lugar, virou para continuar me olhando, dessa vez sem expressão. Não conseguia saber o que passava em seus pensamentos... Era muito bom em esconder isso. Não queria me dar o gostinho da vitória, mas mal sabia que já havia saboreado.

Antes de sair olhei mais uma vez para o interior da casa e todos os móveis caríssimos.

– Quando morrer, o dinheiro não será enterrado com seu corpo. – Falei com a voz mais calma. – Apodrecerá sozinho sabendo que foi abandonado por todos que te amaram um dia. Morrerá sem conhecer a verdadeira felicidade. E eu estarei presente neste dia, apenas para saborear o momento. Sua ruína. Não pense que tardará a chegar. – Terminei, fechando a porta em seguida.

Joguei a chave o mais longe que pude, em direção ao parque que havia do lado da casa. Se tivesse sorte algum animal apareceria e sumiria com ela. Se tivesse muita sorte um ladrão a encontraria e seria muito feliz. Acredito que o ladrão mereça tudo isso mais do que o homem lá dentro neste momento.

Ricardo estava apoiado no carro observando a cena, quando me aproximei dele.

Havia um sorriso diferente de todos que conhecia em seu rosto, mas não consegui decifrá-lo. Quando cheguei mais perto, sentindo minha força e coragem diluírem, tudo o que fez foi me olhar.

– Você foi brilhante. – Falou, olhando nos meus olhos.

– Você ouviu alguma coisa? – Perguntei, envergonhada.

Não respondeu, mas se tivesse, a resposta seria “e acha que não deu para ouvir toda a gritaria?”. Seus olhos diziam exatamente isso.

Foi então que entendi o seu sorriso: orgulho. Ele estava orgulhoso de mim. Ninguém nunca sentiu orgulho de mim assim. E ele, que mal me conhecia, estava com um sorriso enorme no rosto como se eu fosse a sua heroína. Definitivamente amava aquele sorriso tanto quanto amava os outros que conhecia.

– Obrigada. – Falei, sorrindo timidamente, o que era raro para mim.

Um garoto me deixando tímida. Outra coisa que nunca havia acontecido.

– Cheia de surpresas, não? – Falou como se lesse os meus pensamentos. Parecia perdido nos próprios, mas a frase se encaixou tão perfeitamente que me surpreendeu.

– Sim, a vida é uma caixinha de surpresas. – Respondi, sorrindo, sabendo que dali em diante as coisas só melhorariam.

Eu havia colocado um ponto final numa história que implorava por ele há muito tempo. Uma nova história começava, e algo me dizia que as surpresas não terminariam por ali.