O Caminho Certo

Ana Martines · Capítulo 28 de 44

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O Caminho Certo

Capítulo 30 · Acordei decidida a continuar ignorando tudo o…

Acordei decidida a continuar ignorando tudo o que havia acontecido entre

Ricardo e eu. Eu estava preparada para agir como se mal nos conhecêssemos como venho fazendo há quase uma semana. No entanto, minha coragem foi por água abaixo assim que o encontrei na cozinha, ao lado de vários ingredientes para o café da manhã, com um olhar desolado. No mesmo momento me lembrei daqueles cachorrinhos abandonados que encontrava na rua e morria de vontade de levar para casa. O único problema é que este já tinha uma casa, uma família, alguém que se importasse com ele, e mesmo assim mantinha aquele olhar.

Algo parecia errado, fora do lugar. O ambiente estava tenebroso, com um ar fúnebre e lastimável. Não conseguia entender o que colocou aquele olhar doloroso em sua feição. E, acima de tudo, queria que saísse logo de lá.

Andei até a cozinha pisando o mais firme que podia, esperando que com isso ele percebesse a minha presença e fingisse estar bem, que tentasse ficar bem ou, ao menos, fizesse algum comentário malvado. Mas não, não houve nenhuma reação. Parecia que estava perdido em outro mundo, um mundo muito doloroso.

Procurei sinais do Miguel pela casa, mas não parecia estar ali. Ótimo, as coisas realmente estavam estranhas.

– Bom dia. – cumprimentei calmamente.

Ricardo finalmente olhou para mim com um vazio profundo em seus olhos sedutores, e pude perceber o momento em que notou que eu estava ali. Ou talvez que ele estava ali. Seus olhos mudaram do vazio para a dor e da dor para a ignorância. Depois de tanto me olhar – uma coisa que senti muita falta, pois evitávamos ao máximo este contato – simplesmente virou as costas e saiu da casa, deixando a porta encostada.

Ok, então eu mereço um olhar digno, mas não um "bom dia"?

Quando desci, seu carro não estava mais na garagem do prédio, então a única coisa que podia fazer era ir andando para o quiosque. Não, não era tão longe assim, mas não custava nada ele ter me esperado, né? O que havia acontecido?

Pelo caminho e durante o dia inteiro no trabalho tentei me convencer de que era uma coisa pessoal, que não tinha nada a ver comigo e que logo passaria. Sua vida não era da minha conta. Mas cada vez que olhava na sua direção, pegava-o olhando para o mar com a mesma expressão distante de manhã. Era tudo o que precisava para voltar a me preocupar.

A única mudança no humor fúnebre do dia foi quando uma garota vestida com nada mais do que um biquíni minúsculo chegou para falar com ele. Nada que já não tivesse acostumada... Mas esta chamou a minha atenção. Não por estar dando em cima dele, mas por ele não estar correspondendo.

Parecia desesperado. Olhava para todos os lados, menos em sua direção. A garota não desistiu, continuou a tocá-lo de maneira inapropriada e um tanto íntima, enquanto ele tirava a mão de si sempre que conseguia.

Foi então que resolvi interferir.

– Ei amor, precisa de alguma coisa? – Cheguei ao seu lado, passando a mão pela sua cintura e colando na lateral do seu corpo.

Ricardo me olhou surpreso, mas não demorou a me abraçar de volta e depositar um beijo na minha testa.

– Que bom que você chegou. – Sorriu falsamente. – Esta é uma velha amiga, Raissa. Raissa, essa é a minha... Namorada, Paloma.

Velha amiga? Desde quando ele tinha amigas? No entanto, não foi isso que ficou gravado na minha mente, mas sim a palavra “namorada”. Sua namorada. Precisei me concentrar muito para não esquecer que tudo não passava de uma encenação.

– Velha amiga? – Sorri amargamente para ela. – Não ouvi nada sobre você.

– Pois é... O Ricardo tem a mania de surpreender as pessoas. – Retrucou sem desviar os olhos dos dele.

– Aprendi com a melhor. – Falou, encarando-a.

O que estava acontecendo ali?

– Concordo completamente com você, Raiana. – Errei seu nome de propósito. – Ele tem esse dom. – Falei, olhando para ele o mais apaixonadamente que eu pude, o que não foi nem um pouco difícil.

Ricardo retribuiu o olhar e, por um momento esqueci que estávamos em público. Esqueci que havia uma garota atrevida e muito vadia nos encarando... Esqueci até que estava brava com ele. Tudo o que importava era o seu dizendo “você também me surpreende demais, meu amor”. Ok, a parte do “meu amor” foi meu cérebro idiota que inventou.

– Bom, não quero atrapalhar o casal... Na verdade, nem sabia que estava namorando, Ricardo. – Intrometeu-se, me despertando. Vadia; era apelido para o que ela era.

– Estou, Raissa. E dessa vez com a pessoa certa. – Falou, sem tirar os olhos de mim.

Oi? O que aquilo queria dizer?

Tive vontade de rir quando olhei para ela. Seu rosto mostrava nada menos do que pura indignação. Pois é, garota, ele tem dona... Pelo menos durante esses poucos minutos.

– Felicidades ao casal então. – Falou me dirigindo um olhar de puro ódio e virou-se para ir embora.

Assim que estava longe o suficiente para não nos enxergar mais, Ricardo me soltou e mudou completamente o olhar. A distância havia voltado.

– Não precisava fazer isso. – Falou indiferente.

– Parecia que você estava em apuros... De nada por isso. – Respondi brava.

– Sei me virar sozinho, Paloma. – Reclamou.

– Urgh. Você é impossível! – Resmunguei, jogando os braços para o ar e indo; arrependida de tê-lo ajudado.

Assim que eu era retribuída. Que seja então. Cuide da sua vida que eu cuidarei da minha... E não me procure quando precisar de alguém para fingir ser a sua namorada. Deveria ter várias outras opções.

Sabe quando você discute com alguém e horas depois, não para de pensar em coisas que poderia ter falado durante a briga? Pois é, pensei em milhares de respostas maravilhosas que poderia ter dado... E me arrependi de não ter feito. Por que elas não surgiram na hora certa?

Resumindo: o dia demorou mais do que nunca para passar. Não conseguia atender os clientes, prestar atenção no Ricardo e nem tentar entender o que havia acontecido ao mesmo tempo. Com isso, falhava nas três funções.

– Paloma, eu posso te ajudar em alguma coisa? – Perguntou Evandro quando percebeu que parei ao seu lado sem saber o que dizer.

– Po... Pode, na verdade, pode sim. – Comecei, deixando a vergonha de lado. Era raro nos falarmos e por ser meu chefe ainda me sentia muito intimidada com a sua presença. – Gostaria de saber do Miguel.

Este não havia aparecido no trabalho hoje. Mais um motivo para ficar preocupada.

– Ele não veio hoje, né? – Perguntou, olhando em volta por um momento, já sabendo a resposta.

– Não, senhor. – Respondi.

Ele então suspirou e, com pesar na voz, respondeu sem olhar na minha direção.

– Ele deve estar dando uma volta. – Falou, tentando parecer casual, mas falhando claramente.

– Como assim? Está sumido desde manhã... O senhor não está preocupado? – Pude ouvir minha voz se elevando e tentei controlar o desespero, me lembrando com quem falava. Não poderia descontar toda frustração no meu chefe.

– Não, não estou, e você também não deveria estar. – Disse, finalmente olhando para mim, apenas para me dirigir um olhar duro, indicando que a nossa conversa acabava ali.

Saí de perto mais frustrada do que antes. Ótimo, um de seus sobrinhos está desaparecido e o outro está agindo como idiota. Ele não dá a mínima.

Teria que resolver tudo sozinha. Ou melhor, matar a curiosidade sozinha. E como havia aprendido em uma das aulas de economia da faculdade: sempre que tiver muitos problemas, comece pelo mais fácil de ser resolvido. O mais fácil no caso, era o Miguel. Lidar com ele sempre fora mais fácil.

Talvez o ano na faculdade não tenha sido em vão.

Sem saber onde ele se escondeu, tudo o que eu podia fazer era mandar uma mensagem. Por um momento me amaldiçoei por não ter pensado nisso antes. Eu, que era tão ligada no celular e estava sempre conversando com muita gente por ele, agora nem me lembrava de sua existência. Ficava a tarde inteira dentro da bolsa, trancado na dispensa. Só servia para me acordar de manhã.

Imagino que seja por isso que a bateria está durando tanto.

Fiquei na dispensa para não levar xingos por usar o celular quando deveria estar trabalhando e o procurei na bolsa. Não foi tão difícil achar, pois assim que abri a mesma ele começou a tocar.

Desesperada, peguei o mais rápido que pude enquanto ainda tocava, torcendo para ser Miguel ligando para dizer que estava tudo bem e que não precisava me preocupar com ele. Mas ao olhar no visor, encontrei um lembrete do calendário que dizia "Hoje faz quinze dias que você está trabalhando no quiosque! Parabéns, você ganhou a aposta!". Sim, escrevi o lembrete sabendo que aguentaria os quinze dias, mas imaginei que me sentiria muito realizada quando o lesse, e não da maneira que me sinto: decepcionada.

Ok, então ele não ligou, não mandou mensagem, nem sequer um sinal de fumaça... O que poderia fazer para encontrá-lo?

Selecionei seu número e liguei, rezando para não cair direto na caixa postal. Não caiu! No entanto, depois de infinitos toques a voz ridícula da secretária eletrônica atendeu, mandando deixar um recado.

– Miguel, onde você está? Não tenho notícias desde cedo e seu irmão também não está normal. Parece que acordei em um universo paralelo. O que aconteceu? Vocês não podem me deixar nessa agonia para sempre! Preciso que me dê um sinal de vida, nem que seja um "oi". Tanto faz. Só prove que não foi sequestrado e ficarei aliviada. É, acho que é isso. Não pense que ficará tudo bem quando você aparecer novamente, porque terá vingança. Trate de aparecer! – Terminei, clicando furiosamente no botão de desligar.

Minha intenção era deixar apenas um: "Estou preocupada, mande notícias", mas a emoção tomou conta de mim e acabei falando mais do que deveria. Mais do que ele merecia ouvir. Mas se isso fizesse com que respondesse, já sairia no lucro.

Coloquei o celular no bolso do avental e saí do depósito, pronta para a segunda pessoa que estava me deixando frustrada – e, de certa forma, muito magoada – neste dia tão esquisito.

Com o escasso movimento do quiosque, não foi difícil perceber que Ricardo não estava mais por ali. O relógio marcava seis horas e os funcionários encarregados de fechá-lo já faziam o trabalho. Acredito que se tivesse ficado dez minutos a mais na dispensa teria que passar a noite por ali.

– Ei, você – chamei a atenção de um dos funcionários novos que não consegui lembrar o nome. – Onde está o Ricardo?

Ele olhou para mim assustado por estar sendo questionado, mas não respondeu. Apenas indicou a praia com a cabeça e voltou à sua função. Quando olhei para onde havia apontado, vi uma figura sentada na areia, longe demais para ser percebida ao entardecer, mas não tão longe para não reconhecer que a tal figura era quem procurava.

– Obrigada. – Agradeci, deixando meu avental em cima de uma das mesas.

Estava na hora de engolir mais uma vez o orgulho.

Andei calmamente até ele, repassando na mente o que falaria. Na verdade, procurei assuntos para abordar durante o caminho inteiro e, quando cheguei, continuava sem ideias. O que se fala para alguém que te beija inesperadamente e então passa a te ignorar por uma semana? E fala que não precisa da sua ajuda, mas você sabe claramente que não é verdade?

Já estava próxima demais para fingir que não estive ali, então mandei tudo à merda e sentei ao seu lado, abraçando as pernas da mesma maneira que ele. Analisei sua feição em busca de alguma mudança, mas não encontrei nada. O mesmo olhar doloroso, a mesma expressão vazia como se não estivesse realmente ali.

Isso estava me matando... Vê-lo tão desolado e não ser capaz de fazer nada. Queria puxar a sua cabeça para o meu colo e acariciá-lo até que surgisse um sorriso naqueles lábios tão deliciosos. Qualquer sorriso. Podia ser o safado, o feliz, o orgulhoso... Qualquer um seria melhor do que aquela dor tocável ao seu redor.

– O que você quer? – Perguntou, mostrando que reparara na minha presença, mas não queria companhia.

Seu tom não foi ríspido. Nem para isso parecia ter forças... Tudo nele demonstrava dor. Ombros caídos, lábios franzidos e a voz. Se tivesse sido idiota teria me levantado e ido embora. Mas não, enquanto suas palavras pediam para que me afastasse, seu tom suplicava por socorro. E, infelizmente, me importava o suficiente para não ser capaz de ouvir apenas as suas palavras.

– Eu quero saber o que está acontecendo. – Falei, usando o tom mais calmo e doce que consegui.

– Não está acontecendo nada.

– Ok, isso eu já sei que é mentira.

Fiquei esperando que dissesse mais alguma coisa, mas permaneceu encarando o mar, sem sinal de que falaria comigo. Pois é, também não dei sinal de que iria para casa.

– Paloma, eu quero ficar sozinho. – Disse calmamente como se tentasse explicar um assunto sério para uma criança.

– E eu quero te ajudar, seja lá o que esteja acontecendo! – Retruquei, deixando as emoções tomarem conta de mim.

– Não há nada que você possa fazer, ok? – Disse um pouco mais duro, no limite.

– Você não me deixa tentar! – O meu limite já havia sido atingido. – Escuta, foi mal se me intrometi em um assunto que não deveria mais cedo... Mas sei que este não é o problema. Quero saber o que está te incomodando desde manhã.

– Só preciso ficar sozinho, Paloma. É pedir demais?

– Estou aqui, engolindo o orgulho e ouvindo você me machucar cada vez mais, então aproveite isso. Não há nada, realmente nada, que eu possa fazer para te melhorar?

– Na verdade, tem uma coisa que pode fazer. Sabe o que é? – Finalmente olhou para mim e, enquanto sua voz transmitia fúria, seu olhar mantinha a dor. – Pode me deixar em paz. Pode pegar as chaves de casa e ir embora. É tudo o que você pode fazer.

Ficamos nos encarando por alguns segundos. Ele tentando fazer com que a dureza das suas palavras chegasse até o seu olhar e eu procurando outra saída.

No fundo sabia que ele estava certo. Se não queria se abrir comigo, o que mais eu poderia fazer? E, para piorar, meu orgulho começava a se manifestar, exigindo que parasse de correr atrás de quem não me queria.

– Que seja então. – Falei, levantando. Ele voltou a olhar para o mar, enquanto saí sem olhar para trás, sem dar a chance de me arrepender.

Em menos de quinze minutos de caminhada estava na frente do prédio, com a lua brilhando no céu e o coração nas mãos. O apartamento continuava do mesmo jeito de quando saí logo cedo, sem sinais do Miguel. Também não havia ligado, o que parecia cada vez mais estranho.

O pior de tudo era a vontade que tinha de voltar para a praia e carregar Ricardo até aqui. Mesmo sabendo que conseguia cuidar de si mesmo, me arrepiava só de pensar nas coisas que poderiam acontecer com ele daquela maneira. Tão devastado.

E não pude fazer nada.

Tentei de todas as maneiras distrair-me e fazer o tempo passar mais rápido. Tomei banho, fiz o jantar – que ficou intocável em cima da mesa -, arrumei a sala, organizei as roupas de Ricardo, passei pano no chão... Até que não tinha mais forças para fazer nada e a preocupação continuava tomando conta do meu corpo. O relógio marcava uma da manhã, e nenhum sinal dos dois.

A porta da sala se abriu no exato momento em que levantei do sofá para ir dormir. Tinha desistido de esperar por notícias e cansado de imaginar milhares de situações em que poderiam ter se metido. Mas então Ricardo entrou pela porta, seguido por Miguel, que passou por mim sem olhar para trás, com a cabeça abaixada e foi direto para o quarto, trancando-se.

A cena parecia irreal. Por um momento pensei que havia pegado no sono e tudo não passava de um sonho. Mas devido aos momentos inesperados que já tinha vivido era capaz de diferenciar o sonho da realidade; e aquele momento estava realmente acontecendo.

Ricardo trancou a porta do apartamento e sentou no sofá, deliberadamente ignorando a minha presença. Não, não fugiria de mim novamente.

– Tá legal, você não vai me falar o que tá rolando, eu já entendi. – Falei, sentando ao seu lado, o que fez com que me olhasse. – Não vou falar que não estou curiosa, porque estou e ainda vou fazer de tudo para descobrir o que há de errado com vocês dois.

– Eu só quero dormir. – Me interrompeu, arrumando o travesseiro que estava pronto para a noite que alternávamos quem dormia no sofá.

A cada palavra que dirigia com dor para mim, uma ferida no meu coração era aberta. Não tinha sido capaz de confessar até agora, mas fora ele quem curara um pedaço do mesmo. Ele e seus carinhos durante a noite, seus olhares doces, seus sorrisos sinceros e aquele beijo inesquecível que conseguiu fazer com que a dor fosse mais suportável. Mas também era ele quem estava retirando tudo isso, transferindo a sua dor para mim.

Só queria vê-lo bem novamente e me sentia inútil por não conseguir.

Entretanto, continuava com uma parte antiga de mim que sabia que sempre conseguia o que queria. E, se desejava vê-lo sorrir, assim seria. Custe o que custasse. Iria tirar uma parte da sua dor da mesma maneira que ele havia tirado uma parte da minha.

– Hoje faz quinze dias que estou trabalhando no quiosque. – Falei, voltando a olhar para ele, que já estava com a cabeça apoiada no travesseiro e os olhos fechados.

– E? – Perguntou tão baixo que não sei dizer se ouvi aquilo mesmo, ou se foi imaginação.

– E... Eu ganhei a aposta. – Concluí como se fosse uma notícia qualquer. Em outro dia teria pulado na sua frente e jogado na sua cara de todas as maneiras possíveis que eu tinha ganhado, e ele perdido. Mas hoje não era o dia para isso.

– Parabéns. – Ironizou, sem abrir os olhos.

– Quero o meu prêmio hoje. – Disse, com um plano tomando forma. O melhor plano de todos e, de certa forma, o mais egoísta também.

– Paloma, quantas vezes eu preciso pedir para me deixar em paz? – Suspirou, cansado.

Não se abale Paloma. Ele não quis dizer isso. Tentei me convencer de que era apenas a mágoa tomando conta do seu ser... Precisava ser forte para deixá-lo bem.

– Quero que durma comigo hoje. – Soltei antes que o orgulho falasse mais alto novamente e me fizesse ir para a cama sem mudar nada. Não, não era mais capaz de não me importar com ele e seus sentimentos.

Ao ouvir a frase seus olhos se abriram, surpresos. Fiquei aliviada por não ver raiva, muito menos dor, pela primeira vez no dia naqueles olhos tão lindos.

– Você não está falando sério. – Disse surpreso, começando a acreditar que era tudo uma pegadinha.

Mas não era. Realmente queria ter o seu corpo colado no meu naquela noite.

– Eu estou. Só dormir. Só... Só quero que venha para a cama comigo e me abrace, da mesma maneira que fazia alguns dias atrás. – Falei, olhando-o nos olhos.

– Não vou fazer isso. – Falou, desconfiado.

– Você não pode negar. Eu ganhei a aposta, me deve isso. – Falei orgulhosa por ser tão firme naquela decisão. Não teria outra situação melhor para usar o prêmio.

Ricardo bufou e se levantou, andando até o quarto.

– Já que é assim, vamos acabar logo com isso.

Não sei definir o que senti ao ouvir a sua frase. Em certa parte me senti vitoriosa por conseguir convencê-lo a fazer o que queria. Mas em outra parte muito grande me senti rejeitada, pois parecia que ele não queria aquilo de jeito nenhum. Parecia que dormir comigo era um sacrifício que estava fazendo.

Mas no momento acreditava que este sacrifício era o que o ajudaria a acordar melhor no dia seguinte.

Segui-o até o quarto e fechei a porta após entrar, com a luz apagada. A lua iluminava o quarto e tudo o que conseguia discernir era o corpo musculoso na cama, exatamente onde eu queria. Não hesitei em deitar ao seu lado, evitando encostar nossos corpos de início.

– Por que você quer isso? – Perguntou ele. Então pude sentir seu olhar se aprofundando em mim.

– Porque eu preciso. – Admiti. Agora mais corajosa por saber que não conseguia ver muito de mim também.

Ficamos alguns minutos em silêncio, apenas analisando nossas silhuetas. Com o tempo minha visão se adaptou melhor à escuridão e seu rosto ficou mais fácil de ser admirado. Ele também me encarava, mas era impossível decifrar seu olhar. Queria ser capaz de ler seus pensamentos, sentir sua alma... Mas, no momento, já ficaria feliz se conseguisse deixá-lo melhor.

– Se vamos fazer isso, precisamos fazer direito. – Falou, segurando na minha cintura e me puxando para o seu corpo.

Foi então que a realidade caiu sobre mim. Estávamos na cama mais uma vez. Sozinhos, no escuro e sem ninguém para nos julgar. Sua mão na minha cintura ficou cada vez mais evidente, causando alguns choques elétricos pelo meu corpo e fazendo com que as lembranças das nossas noites viessem à mente.

Não sabia que havia sentido tanta falta daquilo.

Ergui a mão até o seu rosto, acariciando-o levemente, indo em direção à sua boca. Passei o dedão por ela, sentindo-a, desejando-a mais do que nunca. Agora que sabia seu gosto e não tinha como não querer prová-lo novamente. Nossos corpos já estavam colados, seria fácil demais levantar um pouco mais o rosto e juntar nossos lábios.

Estava pronta para agir, até lembrar que isso não deveria acontecer. Se acontecesse, ele se afastaria novamente, e então tudo seria à toa. Precisava me contentar com o toque das suas mãos vagando pelo meu corpo, apreciando-o da mesma maneira que havia sonhado na noite anterior. Precisava me sentir bem por, no fundo, saber que ainda me desejava da mesma maneira que eu.

Não, não era da mesma maneira. Enquanto me virava de costas e colava ainda mais seu extenso corpo no meu, passando os lábios pelo meu pescoço e causando os tão esperados arrepios, percebi. Enquanto sentia sua mão acariciando minha coxa e parando na cintura, deixando-me presa, resolvi aceitar a realidade. E, quando ouvi sua respiração tornar-se mais pesada indicando que dormia, não tive mais dúvidas.

Estava perdidamente apaixonada. Eu, que nunca soube o que era o amor de verdade, agora sabia menos ainda. Não conseguia definir o que me fizera sentir aquilo... Mas a necessidade que sentia de cuidar dele o tempo todo, a saudade que senti do seu corpo colado no meu todas as noites, a alegria que tomava conta de mim toda vez que via seu sorriso e o alívio que agora habitava meu coração por saber que havia conseguido fazer algo para melhorá-lo, só podia indicar isso. Nada mais conseguia ser tão forte do que o que sentia por ele, e agora que percebi o sentimento só parecia aumentar.

Havia apenas um problema naquela situação: o sentimento não era recíproco. Ricardo não era de ficar com uma garota só. Sabia disso desde o momento em que nos conhecemos na praia, e mesmo assim entreguei o meu coração em suas mãos.

O fato de nunca ter me apaixonado antes remetia no fato de nunca ter que esquecer alguém antes. Teria que esquecê-lo, me desapegar... Mas não fazia a menor ideia de como. E, no momento, o que mais queria era me apegar ainda mais. Juntar nossos corpos de uma maneira que nada seria capaz de separar. Por hora, teria que ser suficiente.