O Caminho Certo

Ana Martines · Capítulo 21 de 44

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O Caminho Certo

Capítulo 23 · Ricardo

Acordei com gritos pela casa.

Não sabia se estava realmente acordado, pois não havia ninguém em casa que gritasse daquela maneira. Seria algum espírito? Algum ladrão que entrara no apartamento de cima, e uma garota gritando alto que daria para ouvir daqui?

Foi então que lembrei que sim, havia alguém em casa capaz de gritar daquele jeito. E os gritos vinham do quarto ao lado. O meu quarto. Onde Paloma dormia.

Foi um inferno para convencê-la a dormir na minha cama. Insisti, pois sabia que ela jamais conseguiria dormir no colchão do Miguel que é muito mais duro do que o meu – é assim que ele gosta. Uma parte de mim se sentia muito bem sabendo que ela dormia no meu travesseiro e que logo ele teria o seu cheiro. O seu maravilhoso cheiro.

Levantei o mais rápido que pude quando percebi que algo estava acontecendo. Ela gritava e, quando silenciava, dava alguns gemidos de dor. Não me importei por estar usando apenas uma cueca. Não me importei em bater na porta ao encontrá-la fechada. Não me importei com nada. Só queria tirá-la daquele sofrimento.

Quando entrei, ela estava se remexendo na cama, com o edredom amassado nas mãos e o rosto coberto de suor. Sonhava, e posso apostar que não era um sonho bom.

Andei até onde estava e ajoelhei ao lado da cama.

– Paloma, acorde. – Sussurrei, temendo que acordasse assustada caso falasse muito alto.

Passei uma mão por seu cabelo colado na testa pelo suor e tentei mais uma vez acordá-la.

– Vamos, linda, acorde. – Falei um pouco mais alto, mas ela continuou a ganir.

Nunca havia passado por isso quando tinha pesadelos. Miguel me acordava de qualquer jeito e então o pesadelo ficava na minha mente pelo resto do dia. Não ajudava em nada. Seria muito mais fácil se ele apenas deixasse o sonho chegar ao fim. Mas, neste momento, não suportaria vê-la nem mais um segundo com aquela dor.

Quando virou para o lado da parede, não pensei duas vezes antes de subir na cama. Deitei ao seu lado, colando nossos corpos.

Ok Ricardo, é hora de confortar a garota. Não de ter uma porra de uma ereção.

Na verdade a ereção havia aparecido no momento em que a vi sentada na sala, perdida em pensamentos, e percebi que ficaríamos sozinhos durante a noite inteira. O banho gelado não resolveu muita coisa. Era a primeira vez que tinha uma ereção apenas por olhar para uma garota, e aquela tinha durado mais do que imaginei que fosse capaz. Agora estava voltando com tudo.

Acariciei seu ombro, passando a mão levemente por todo o braço até a sua cintura, sem saber a forma correta de confortá-la. Aos poucos foi parando de se mexer, os ruídos diminuíram e pareceu voltar ao sono tranquilo. Sem pesadelos e nem dores.

Não pude deixar de notar o quão macia sua pele era. Poderia acariciá-la para sempre. Este pensamento me surpreendeu... Nunca fui de apenas deitar com uma garota. Na verdade, depois que tudo mudou sempre saí da cama antes que surgisse algum envolvimento. Não gostava de ficar trocando carícias, “apenas namorando”. Mas com aquela garota não queria parar de fazer isto.

A cama era de casal, mas seu corpo estava colado no meu como se não houvesse mais espaço. Ou o meu estava colado no dela, já que ela estava inconsciente. De qualquer maneira, não sairia dali tão cedo. Não arriscaria que tivesse outro pesadelo, então apenas me aconcheguei mais, amaldiçoando a ereção inconveniente e tentei dormir um pouco. Afinal, já era cedo. Nunca conseguia dormir muito durante a noite, então acordaria antes dela e fingiria que nada aconteceu.

Passei o braço por sua cintura, estranhando o quão confortável estava e dormi sentindo seu delicioso aroma.

Acordei novamente com a luz do sol entrando pela janela. Uma luz forte que transmitia todo o calor para dentro do quarto. Uma luz que com certeza não era vista durante o amanhecer.

Olhei para o lado e encontrei Paloma adormecida, completamente enroscada em mim. Sua cabeça relaxava no meu ombro, uma de suas pernas estava sobre a minha com a coxa perto demais da ereção matinal.

Que porra de ereção matinal que nada, a garota estava com a coxa nua quase no meu colo, e eu queria culpar a vontade de fazer xixi?

Tinha duas opções: levantar o mais silenciosamente possível e rezar para que não acordasse ou acordá-la e encarar sua fúria. Passei a mão livre por sua coxa, acariciando-a levemente e subi até seu rosto, escolhendo a segunda opção. Não tenho medo de garotas mimadas.

Aos poucos ela foi despertando e percebi o exato momento em que notou a situação ao seu redor. Quando me olhou pela primeira vez havia ternura em seu olhar. Um sorriso começou a surgir em seu rosto e posso jurar que se aconchegou mais em mim. Então, em um piscar de olhos seu sorriso sumiu e a ternura foi substituída por surpresa. Confusão. E finalmente a raiva. Muita raiva.

Ela usou a mão em meu peito para me empurrar, o que fez apenas com que seu corpo fosse para trás. Não era gordo, mas tinha meus músculos. Ou ela que era magra demais... Não, era perfeita. Ou melhor: tinha o corpo perfeito. A personalidade? Vou apenas dizer que não existe garota perfeita.

– O que pensa que está fazendo? – Gritou a voz rouca por ter acabado de acordar, enquanto se afastava de mim. – Seu abusado, pensa que pode me usar enquanto durmo? Canalha!

A cada palavra que dizia sua voz ficava mais alta e o olhar parecia cada vez mais desesperado.

– Paloma, calma. – Falei, ouvindo minha voz também mais grossa, mas tentando suavizá-la o máximo possível.

– Calma o cacete, saia já daqui! – Gritou sem me escutar, erguendo o edredom até o pescoço.

Como se não tivesse sentido aquele corpo há poucos minutos. Como se não tivesse deliciado cada uma das suas curvas durante a noite. Tive vontade de rir da sua vergonha, mas me segurei para não causar mais confusão.

Só não podia me levantar ainda. Caso contrário, a cena só ficaria mais constrangedora. Outra coisa já estava em pé.

Olhei para ela, ignorando o cabelo despenteado e a marca do travesseiro em seu rosto. Foquei seus olhos, tentando acalmá-la.

– Paloma, me escuta – falei, segurando suas mãos que voltaram a avançar em mim. – Para, caralho! Dá para me escutar por um segundo? – Aumentei o tom de voz, bravo por ser tão mimada.

Ela me encarou com muito ódio. Pelo menos havia parado de se mexer.

– Ótimo, assim está melhor. – Falei, respirando fundo. – Você teve um pesadelo. Acordei com seus gritos e vim aqui para te acalmar.

– Isso não explica nada!

– Pare de ser mimada. – Xinguei soltando suas mãos. – Fiquei apenas para que não tivesse mais pesadelos. Não precisa agradecer.

Pelo visto toda frustração por não saciar minha vontade do seu corpo estava sendo convertida em ódio.

– Estou tendo um pesadelo agora, está feliz? – Falou, cobrindo o rosto com as mãos.

– É, posso dizer que também estou em um pesadelo e é dos piores. Foi horrível dormir com você. – Falei, sem paciência.

Levantei da cama sem me importar que visse a minha cueca ou a ereção. Saí do quarto pisando firme enquanto ela continuava com o rosto coberto.

Parei na porta e, antes de sair, me virei de volta.

– E você ronca. – Falei, segurando a risada ao ver sua cara de surpresa.

Sem esperar por uma resposta, voltei para o quarto do Miguel para me arrumar. A porra da garota era uma ingrata, isso sim. Havia passado a noite inteira ao seu lado, preocupado, e era assim que me retribuía? Sem nem um beijo de bom dia? Sem nem um sexo de agradecimento?

É, até poderia viver sem o primeiro. O segundo teria que arranjar em outro lugar. Por mais que fosse evidente a atração que sentia por ela, era mais evidente ainda que nós não poderíamos transar. Meu cérebro estava ciente disso, ele só se esqueceu de avisar o outro participante da equação.

Ouvi Paloma abrir a porta do quarto e fechar a porta do banheiro com tudo como se aquilo fosse me atingir de alguma maneira. A garota era um inferno em pessoa, mas seu olhar de indignação era lindo. Irritá-la era cem vezes melhor do que magoá-la e eu queria fazer isso com mais frequência.

Acima de tudo, queria que continuasse dormindo na minha cama. De preferência comigo nela.

Só podia ser algo primitivo. Este negócio de ser dono de alguém, de saber que a pessoa está ali sob o seu teto. Era da natureza humana se sentir assim, certo? O coração não estava envolvido nisso. Era pura ciência. Não tinha vontade de sair arrastando-a pelo cabelo, mas não seria ruim mostrar para todos que ela tem um dono e que este sou eu.

O que, infelizmente, não é verdade. Foda-se a ciência e a história. Não queria ser dono de ninguém nem ser obrigado a cuidar de alguém. Afinal, para cuidar é preciso se importar, não? Não me importava com mais nada. Da última vez que me importei tudo mudou. Arruinei tudo e nunca mais correria este risco.

De todo modo, convenceria Paloma a continuar em casa. Seria bom para que visse quem realmente sou. Acabaria se afastando, não me olharia mais da maneira que olhou ontem como se quisesse ser beijada. E porra, foi por pouco. Foi por muito pouco.

Por mais que sentisse uma atração enorme por ela, teria que superar. Passaria essa atração para outra pessoa, ou outras. Talvez duas garotas fossem capazes de me fazer esquecê-la, desejá-la menos. Não era má ideia.

Faria qualquer coisa para tirá-la da cabeça.