O Caminho Certo

Ana Martines · Capítulo 30 de 44

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O Caminho Certo

Capítulo 32 · Não estava fácil a ansiedade do primeiro…

Não estava fácil a ansiedade do primeiro encontro com Ricardo. Já havíamos

dançado, dormido, nos beijado... Mas nunca tivemos um verdadeiro encontro. Algo me dizia que este seria especial e rezava para não me decepcionar com uma realidade diferente.

O relógio não funcionava em meu favor. Quanto mais chegava a hora de ir para casa e me arrumar, mais o ponteiro menor regredia, impedindo que o maior fizesse seu caminho corretamente e tudo ficava exageradamente lento. Tudo! Parecia que os funcionários faziam de tudo para me atrasar, para que nada desse certo... Os pedidos não ficavam prontos nunca, os clientes demoravam uma vida para decidir o que queriam e os outros empregados pareciam estar em uma competição com tartarugas. E perdiam feio.

A única coisa que me acalmava era olhar na direção de Ricardo e vê-lo tão sorridente e natural. Completamente o contrário do que via dois dias atrás, e diferente também da semana em que não nos falamos: não o vi pegando no celular em nenhum momento. Nenhum número novo, nenhum encontro marcado. Deveria estar dizendo para todas que já tinha um compromisso esta noite: e, acreditem ou não, dessa vez era comigo.

– Paloma, seu celular tá tocando. – Chamou uma das empregadas do quiosque, segurando o meu celular na mão.

Corri até ela, que não fez nada para encurtar o caminho. Como disse... Lerdos demais. Ou eu que estava eufórica? Não importa. Atendi sem nem ao menos ver quem era.

– Sim?

– Paloma?

– Fernando? – Olhei para a tela do celular, confirmando o número. – Fernando! Como você está?

– Estou bem, criança. E você, como está? – Perguntou interessado.

– Estou melhorando, Fernando. – Suspirei. Lembrar tudo o que havia acontecido era a última coisa que queria neste dia. Ou melhor, nesta noite.

– Fico feliz em ouvir isso. Está trabalhando?

– Estou. Na verdade, não deveria nem estar usando o celular. – Ri, procurando meu chefe ao redor, mas não vi sinais dele.

– Desculpe menina, não quero te prejudicar. Serei breve.

– Tudo bem, Fernando, não tem importância. – Falei, querendo que tivéssemos mais tempo para conversar. Não sabia que sentia tanta falta dele assim.

– Te liguei apenas para avisar que estou de mudança.

– Mudança? Como assim? – Perguntei surpresa.

– Seu pai está um pouco... Fora dos limites. Não é o caso. O fato é que consegui uma casinha numa cidade há cinco horas daqui, ainda no litoral. Vou para lá essa semana.

Levei alguns segundos para processar todas as informações.

– Com quem você vai morar? – Perguntei preocupada que fosse sozinho.

– Esperava que você fosse comigo. – Respondeu, usando um tom que dizia "mas é você quem decide".

– Eu... – Por um momento quis aceitar. Afinal, era tudo o que queria, não? Uma casa, morando praticamente sozinha, sem ser um problema para ninguém... Poderia arranjar um emprego nesse novo lugar e começar uma nova vida. Deixar o passado para trás e, acima de tudo, ficar o mais longe possível do meu pai.

Mas então meus olhos cruzaram com os de Ricardo e ele sorriu para mim. O sorriso sincero e preocupado, nada parecido com o sorriso safado que me queria apenas na cama. Se decidisse ir embora e deixar o passado aqui, estaria deixando-o também. Uma dor estranha invadia meu peito só de pensar nessa situação.

Não apenas ele, mas Miguel também. Miguel, meu pequeno irmão.

– Não posso, Fernando. – Respondi, aliviada pela escolha. – Tenho uma vida aqui e gosto muito dela.

– Não tem problema, criança. É bom que saber que está encontrando o seu caminho – pude ouvir um sorriso em sua voz. – Mas saiba que o convite será sempre válido. Estarei distante, mas sempre que precisar pode contar comigo.

– Obrigada. – Respondi, enquanto secava as lágrimas que ameaçavam escorrer pelo rosto. – Você também pode contar comigo, sabe disso, não?

– Eu sei... Eu sei.

– Sinto sua falta. – Falei manhosa.

– Em breve nos encontraremos, menina. Te cuida, tá? E dê um abraço no Ricardo por mim.

– Darei. – Sorri, olhando para Ricardo. Daria muitos abraços nele.

– Preciso ir agora e imagino que você também. Mandarei notícias. – Falou, se despedindo.

– Estarei esperando. – Foi a melhor despedida que encontrei. Percebi que nunca precisei me despedir de alguém e realmente não gostava de fazer isso.

Mas fora a melhor decisão que já tomei. Tive mais certeza ainda quando vi Ricardo se aproximando com os olhos presos em mim e sua habitual combinação de bermuda e camiseta que ficava mais perfeita nele do que um terno ficaria em um modelo profissional.

– Aconteceu alguma coisa? – Perguntou, reparando nos meus olhos inchados.

– Não, não aconteceu nada. Não se preocupe. – Sorri, confortando-o.

Ele me encarou por um momento, decidindo-se se acreditava ou não nas minhas palavras, mas por fim pareceu convencido de que eram sinceras.

– Tudo certo para hoje à noite? – Perguntou, sorrindo de lado.

– Acho que sim. – Respondi, olhando para sua boca que ficava ainda mais irresistível com aquele sorriso. A boca que não havia me deixado beijar no dia anterior, mas que não escaparia esta noite.

– Você pode ir para casa. Te pego lá as oito.

– Estou dispensada?

– Apenas para ficar ainda mais linda para mim. – Piscou, sorrindo.

– Então é por um bom motivo. – Sorri de volta. – Você não vai se trocar lá? – Perguntei surpresa.

– Não, tenho umas coisas para fazer antes. – Falou, mas quando percebeu o olhar de preocupação no meu rosto, completou: – Estarei lá as oito em ponto. Não se atrase.

Então, me dando um beijo próximo demais da boca para ser considerado na bochecha, mas longe demais para ser considerado um selinho, saiu, me deixando ainda mais confusa.

Coisas para fazer? Que coisas teria para fazer na noite que sairia comigo? Antes das oito seria muito cedo para pegar alguma puta, certo? Esperava que sim, afinal ele não seria capaz de tal coisa.

Não importava o que faria. O importante é que eu tinha exatas duas horas e quarenta e dois minutos para ir para o apartamento, tomar um banho, secar o cabelo, me trocar, passar uma maquiagem, arrumar a bolsa e checar tudo... Ok, agora já era duas horas e quarenta minutos. Se eu ficasse planejando o que ia fazer, jamais ficaria pronta a tempo.

Corri como nunca na vida. O caminho que demorava vinte minutos foi feito em doze. E, mesmo assim, sentia que não daria tempo. Simplesmente não daria tempo! Por que o relógio resolveu voltar funcionar normalmente justo agora?

Tomei banho em dez minutos. Sequei o cabelo, mais dez minutos. Comecei a alisá-lo e percebi que tinha pouco mais de uma hora e meia para fazer milhares de coisas ainda. Foi então que resolvi não olhar mais para o relógio. Foda-se a hora. Ficaria pronta a hora que quisesse e, se chegasse antes, ele que me esperasse. Afinal, era um charme chegar atrasada, não?

Nunca fiquei tão ansiosa para sair com alguém. Sim, já havia saído com muitos garotos... Mas todos eram completamente desconhecidos. Paqueras de uma noite ou duas e nunca duravam. Seus nomes eram esquecidos na semana seguinte. Com Ricardo era diferente, pois eu me importava com ele. E, se algo desse errado, teria que conviver com ele por muito tempo ainda.

Mas faria com que nada desse errado.

Escolhi o vestido que havia comprado duas semanas atrás, esperando por uma ocasião especial – que finalmente chegou – e o deixei em cima da cama. Seria realmente apropriado? Sua cor vermelha era vibrante, da mesma cor do vestido que usei quando dancei com Ricardo naquela noite... Talvez isso me desse alguma vantagem. Mesmo assim, as rendas o cobriam inteiramente, fazendo com que o que poderia ser um vestido para usar no dia a dia, se tornasse um vestido de festas.

E se parecesse arrumada ou exagerada demais?

Coloquei a peça no corpo e imediatamente senti um alívio por vestir algo de valor. Estava acostumada a usar roupas caras, chiques, mas nos últimos meses tudo o que tinha usado eram shorts e calças jeans combinados com blusinhas normais. Era bom voltar à minha antiga realidade, por mais que não sentisse aquela necessidade de estar sempre bem vestida.

Ao me olhar no espelho, fiquei mais confusa, pois notei que as mangas longas do vestido faziam com que ele ficasse mais sofisticado... Por outro lado, ia até pouco antes da metade da coxa, deixando-a quase inteiramente de fora, o que com certeza dava um ar leve ao visual. Mesmo assim não me sentia convencida de que estava casual, o suficiente para não parecer desesperada.

Só faltava resolver isso. Estava tudo pronto: maquiagem, cabelo, bolsa e sapato... Foi então que olhei para o lado e encontrei meu par de chinelos favoritos: e eram vermelhos! Ao tirar as sapatilhas – que de fato era uma péssima escolha, pois encheriam de areia – e colocar os chinelos, me senti outra pessoa. Muito melhor. Metade de cima: arrasando. Metade de baixo: casual.

Como é que dizem hoje em dia? Ah sim... Sexy sem ser vulgar. Sentia que isso me definia completamente.

Com um tempo perfeito, a campainha tocou. Saí do quarto junto com Miguel, que paralisou quando me viu. E olhou para a porta e em seguida para mim novamente. Aos poucos um sorriso foi surgindo em seu rosto, até que parecia ir de orelha a orelha.

– Sabia que vocês dois se acertariam. – Falou enquanto sorria e andava em direção à porta.

– Nós estamos saindo como amigos. – Falei antes que abrisse a porta.

– Sim, claro. Nada mais do que amigos. – Ironizou.

Pensei em uma resposta digna para silenciá-lo, mas todos os pensamentos fugiram quando a porta foi aberta e Ricardo deu um passo à frente segurando uma única rosa vermelha, completamente irreconhecível, mas mais sexy do que nunca.

Jamais pensei que veria Ricardo com roupa social. Pois agora meus sonhos mais intensos tornavam-se realidade: na minha frente estava uma versão elegante e, ao mesmo tempo despojada do garoto que era dono do meu coração. Seu peito estava coberto por uma camisa social branca, daquelas que nos fazem imaginar como ficaria depois de ser atingida por um balde de água... Para completar usava uma calça social preta, ainda com a marca de ferro no meio como se tivesse sido passada agora mesmo.

Eu me arrependi de ter tirado a sapatilha, pois agora não parecia desesperada, mas sim uma mulher qualquer que não sabia se vestir. No entanto a sensação durou pouquíssimo, pois meus olhos continuaram a trajetória pelo corpo delicioso do homem que era só meu naquela noite, e encontraram os seus pés. Seus pés, livres e bem feitos.

Ricardo também usava um chinelo, muito parecido com o meu, mas preto. Segurei a risada ao constatar isso, mas quando voltei a olhar em seus olhos, percebi que também havia notado a semelhança e encontrava-se na mesma situação: querendo rir, mas evitando magoar o outro.

– Vocês vão sair ou vão ficar aqui se encarando? – Interrompeu Miguel com um sorriso na voz.

– Vamos sair. – Respondeu, sem tirar os olhos de mim.

Ele parecia me comer com o olhar, tão intenso que estava. E este conseguiu se intensificar mais ao se aproximar de mim, ao me entregar a rosa.

– Você está espetacular! – Elogiou com a voz rouca, enquanto eu pegava a rosa da sua mão.

Tudo o que queria era tirá-lo daquela blusa e jogá-lo na cama, de onde não sairíamos por muitas horas. Sua expressão dizia que pensava a mesma coisa, e foi difícil dar às costas ao quarto e ir embora. Mesmo assim, sabia que aquela noite seria a minha ruína. Uma ruína perfeita e inesquecível, e estava pronta para me jogar de cabeça na mesma.