O Caminho Certo
Capítulo 29 · Ricardo
Cinco anos atrás
Aquele era para ser o melhor dia da minha vida. Sim, o melhor. No entanto,
foi o dia em que aprendi que nada acontece do jeito que desejamos. E muito menos como esperamos.
Depois de duas semanas treinando a música que tocaria para a Raissa em nosso primeiro aniversário de namoro, havia finalmente chegado o grande dia. Ou melhor, a grande noite. Estava tudo pronto. Já tinha decorado a música e os acordes no violão, treinado a voz da mesma maneira que via os cantores fazendo antes dos shows – o que me fez parecer estúpido, mas era por uma boa causa – e comprado a nossa aliança de namoro. É claro que não daria apenas uma música numa data tão especial.
Agora só precisava aguentar aquelas últimas duas horas de aula para finalmente ir para casa, trocar de roupa e procurá-la. A ansiedade corroia-me por dentro, o que fazia com que o tempo passasse cada vez mais devagar. Lento... Mais lento a cada segundo. Como era possível?
Quatro séculos depois tocou o sinal para a última aula. Ou, ao menos, foi assim que pareceu. O segundo colegial era um saco, não aguentava mais estudar para provas e mais provas e não sair daquilo. Para piorar, sabia que veria a mesma matéria no ano que vem. O que fazia ali? Poderia estar passando o tempo com a minha namorada.
No ano passado consegui aguentar o colegial porque tinha Raissa ao meu lado. Mas ela está dois anos na minha frente e neste ano entrou em uma faculdade integral. Ou seja: encontros só durante a noite. Não via a hora de sair logo dessa droga de colégio para poder vê-la novamente todos os dias.
Cheguei a casa apressado, mesmo sabendo que teria a tarde toda pela frente. Não havíamos marcado de nos ver, mas tinha certeza que ela não marcou nada na esperança de que eu marcasse. Estava me testando para saber se me lembraria da data de hoje. Neste momento, deveria estar me xingando de todos os nomes possíveis, porque achava que não havia lembrado. Mas é óbvio que eu havia. Jamais esqueceria o dia em que nos conhecemos, a trombada que demos na escola no primeiro dia de aula, e como tudo mudou desde então.
Jamais esqueceria o meu – o nosso – primeiro beijo. O nosso primeiro encontro. A nossa primeira dança... E hoje era mais um dia para entrar para a memória: a nossa primeira vez. Tornaria tudo especial. Mesmo sabendo que ela era mais experiente – claro, já havia namorado outros garotos antes. Faria com que fosse o melhor, para que ela jamais quisesse estar com outro.
E como faria isso? Com o meu amor por ela. Este é tão grande que será capaz de eternizar a nossa noite.
– Olá meu filho, chegou cedo a casa! – Exclamou Andressa, minha mãe.
Estava com luvas amarelas e um avental branco repleto de espuma. Seus cabelos morenos eram escondidos pela touca, mas alguns fios rebeldes conseguiram a liberdade. Mesmo assim, sem maquiagem e molhada, conseguia ser a mulher mais linda que já conheci. E tudo o que consegui puxar dela foram os olhos azuis.
– É. Eu corri. – Falei, aproximando-me para abraçá-la.
Ela hesitou por um momento, temendo me sujar, mas não me importei. Envolvi os braços na sua cintura e senti a camisa ficar cada vez mais molhada. Teria que tomar banho de qualquer jeito, não fazia questão. Ela me apertou contra o seu corpo e, como sempre fazia e me deu um beijo quente na testa. A testa que antes tinha que se abaixar para beijar, mas hoje estava prestes a ficar nas pontas dos pés.
– Algum compromisso para hoje? – Perguntou após me soltar.
– Raissa e eu estamos comemorando um ano de namoro! – Falei sem conseguir esconder o entusiasmo na voz.
– Ah, então era por isso que tive que aguentar as suas cantorias esse tempo todo? – Brincou, me deixando sem graça. Não sabia como faria para cantar para a Raissa hoje, mas teria que arranjar coragem em algum lugar.
– Ei, maninho, você tá meio molhado. – Brincou Miguel, surgindo do quarto, ainda com o pijama no corpo.
– E você está atrasado. – Falei, rindo.
Ele mostrou a língua para mim e se jogou no sofá da sala, pegando o controle do videogame e perdendo-se em outro mundo. O moleque estava conseguindo zerar um jogo por semana, e virava um inútil da vida. Como queria ser ele...
– Ele estava com dor de cabeça hoje de manhã... – Explicou minha mãe, se sentindo mal por seu filho estar doente.
– Sim, ele teve dor de cabeça durante a semana inteira. – Ironizei.
– Não seja birrento. Ele tem apenas quatorze anos, precisa se divertir.
– Tenho dezesseis, e aí? Qual a diferença?
– A diferença é que você já está em outro tipo de diversão. – Riu, bagunçando meu cabelo.
Sim, estava. E esta noite evoluiria ainda mais.
– Preciso me apressar. – Falei, olhando para o relógio da sala.
– Ok, meu filho. Fique lindo para a sua namorada. – Disse com um sorriso no rosto. – Eu te amo.
– Eu também te amo, mãe. – Falei, me soltando dela e indo para o banheiro, sem querer me atrasar um segundo sequer.
Naquele momento não percebi que ela nunca falava que me amava. Demonstrava o tempo inteiro, mas não era de falar. Não percebi que tinha lágrimas em seus olhos. E, acima de tudo, não captei tudo o que aquele "eu te amo" significou. Deveria ter captado.
Quatro horas depois, estava pronto. Já havia tocado a música mais três vezes, tentando mudar alguns acordes para a minha voz parecer mais natural, mas nada adiantava. I'm Yours, do Jason Mraz, já estava gravada em minha mente, e daria o meu melhor para cantá-la – mesmo sabendo que jamais chegaria aos pés dele. O que importava eram as palavras. Queria que ela soubesse que sou inteiramente dela. Cada pequeno pedacinho do meu corpo, da minha alma, pertence a ela.
O nosso começo não foi fácil. Com dois anos de diferença, os meus quinze anos pesaram muito para a aceitação da escola. Namoramos escondido por alguns meses, com ela vindo em casa e eu indo à sua. Apenas isso. Na escola parecíamos melhores amigos. Aos poucos ela pareceu não se importar mais com o que os outros pensavam, e resolveu me assumir como seu namorado.
Sim, posso me considerar um cara sortudo. Estou com dezesseis anos e já namoro a mulher da minha vida. A garota com quem quero me casar, ter dois filhos e três cachorros. Aquela que faz meu coração bater mais rápido – figurativamente, porque nunca percebi nenhuma alteração nele enquanto estava ao seu lado. Mas me deixava assim... Todo bobo e clichê. Romântico e apaixonado. E por ela era capaz de falar as maiores idiotices do mundo.
Raissa morava sozinha há pouco tempo, o que facilitava bastante os nossos encontros. Com o violão pendurado no ombro e um buquê de rosas da mão, abri a porta da sua casa, já sabendo que estaria aberta – era descuidada demais para se preocupar com isso. A caixinha com nossas alianças pesava dois quilos no meu bolso e a cada passo que dava em direção ao seu quarto minha ansiedade aumentava. Sim, agora podia sentir o coração batendo mais rápido.
A casa estava toda escura e silenciosa. Será que ela não estava? Não era possível, pois ela havia me falado que passaria a noite inteira estudando para uma prova. E eu disse que não iria vê-la para não interrompê-la, como já fiz milhares de vezes. Mas hoje era um dia especial e merecia uma surpresa inusitada.
Quando me aproximei do seu quarto, comecei a ouvir algumas batidas na parede. O que estava acontecendo? Ela... Alguém invadiu a casa? Olhei ao redor e não encontrei nenhum sinal de arrombamentos ou furtos... Tudo estava no lugar. Mas, mesmo assim, o barulho continuava.
Curioso e preocupado, não pensei duas vezes antes de correr até a porta e abri-la, temendo o pior. Queria salvá-la se algo de ruim estivesse acontecendo. Queria ser o seu protetor, seu guardião. Podia imaginar mil cenas horríveis que encontraria naquele quarto fechado: o ladrão com a faca beirando o seu estômago; o estuprador prendendo suas mãos; algum bêbado querendo seu dinheiro...
Mas o que encontrei foi completamente diferente disso.
Nada poderia ter me preparado para a cena que acontecia na minha frente. Nem se alguém contasse ou mostrasse fotos... Jamais seria capaz de acreditar sem ver com os próprios olhos. E, mesmo assim, parecia irreal demais.
Raissa, a dona do meu coração, estava sentada na cama em cima de um corpo que ainda não tinha tido coragem de olhar. Seus cabelos estavam bagunçados, suas bochechas coradas e seus seios estavam de fora. Os seios, a única parte que havia me deixado tocar, estavam livres de uma maneira que nunca havia visto.
Não desprendi o olhar do dela. Não queria saber quem era o canalha que fazia aquilo com a minha namorada e, acima de tudo tinha esperanças de encontrar um pingo de arrependimento na sua expressão. No entanto, nada apareceu. Tudo o que consegui captar foi raiva.
Deixei o buquê no chão e saí do quarto, da casa. Não queria vê-la nunca mais, pois sabia que sempre que visse aqueles olhos verdes inocentes, lembraria que não eram tão inocentes assim. Lembraria que eram capazes de queimar, mas que nunca queimaram por mim.
Corri sem direção e tudo o que via eram borrões vermelhos. As lágrimas me cegavam e a raiva estava cada vez maior. Não sabia qual sentimento prevalecia: a dor ou a raiva. Por fim, deixei a dor ganhar. Deixei que entrasse no meu coração e o destruísse ainda mais.
Quando vi, estava sentado na areia de frente para o mar. Estava escuro, mas não era tão tarde assim. Nove horas no máximo. Não me importava. Nada mais importava. Tinha deixado meu coração naquela cama com a garota que pensei que seria para sempre, mas que mostrou ser uma completa vadia. Sim, vadia. Não tinha costume de falar palavrões, mas porra! Não havia outra palavra para descrever o que aquela menina era.
Mentiu para mim. Disse que era virgem, que não podia fazer nada porque queria que sua primeira vez fosse especial. Ela me traiu. Ou melhor, me traiu na noite do nosso aniversário de namoro. No fundo, nunca dera a mínima para este relacionamento. Enquanto me entregava cada vez mais ao amor que sentia, ela transava com outros caras pelas minhas costas. Enquanto pensava que tinha encontrado a mulher perfeita, ela sorria por ter encontrado o idiota perfeito.
Levantei a cabeça do meio das pernas quando ouvi passos na minha frente. Não sabia que horas era e não me importei em saber. Uma mulher andava em direção ao mar, cada vez mais perto e distante demais de mim. Será que também havia sofrido uma decepção amorosa? Duvido que esteja sentindo tanta dor quanto eu.
Mas até que o mar não era uma má ideia... Fiquei olhando atentamente enquanto a mulher tinha as pernas cobertas pelo mar, e então as coxas, a cintura... Foi quando percebi: conhecia aquela mulher. Ela usava o mesmo vestido florido que dormia todas as noites e tinha os cabelos soltos da mesma cor que as mechas que havia visto mais cedo e estava cada vez mais distante.
Tomado pela dor existente em meu coração, só consegui me levantar e observar enquanto minha mãe entrava no mar, com ele já batendo em suas costas. As coisas não estavam calmas hoje, não era um bom dia para tomar um banho de mar... Ainda mais numa hora dessas. O que ela estava fazendo? Onde estava Miguel e meu pai?
Continuei observando-a, esperando que desse apenas um mergulho e saísse da água, para que eu pudesse deitar em seu ombro e chorar ainda mais. Ela me entenderia... Sempre me entendeu. Sempre me apoiou quando quis alguma coisa, mesmo quando esta coisa pareceu absurda. Ela me amava acima de tudo e, neste momento, precisava sentir um pouco deste amor.
Mas o mergulho demorou demais. Ela simplesmente afundou e não voltou mais... Comecei a procurar pela superfície, achando que havia nadado um pouco para os lados, mas não encontrei nada. Nem parecia que tinha entrado no mar poucos minutos atrás. Parecia que nada daquilo havia acontecido. Era como se ela nem existisse...
Eu deveria ter percebido mais cedo. Deveria ter sido menos egoísta e prestado atenção no que acontecia ao meu redor. Se tivesse feito isso, ela teria sobrevivido. Ela sequer teria tentado se matar.
Entretanto, quando tive seu corpo em meus braços, era tarde demais. Sua pele estava pálida e gelada, e tudo o que pude fazer foi gritar. Aos poucos vi algumas pessoas se aproximando, barulhos irritantes ao redor, mas nada conseguia prender mais a minha atenção do que o corpo da minha mãe esticado na areia, sem vida.
Joguei meu corpo por cima do dela, desejando que ela me levasse junto para onde quer que tivesse ido. Desejando que estivesse aqui para dizer que nada mudaria e que ficaria tudo bem, que ainda receberia seus abraços toda manhã... Mas não. Nada disso aconteceu. Ela continuou ali, sem respirar, sem se mexer, sem poder me dar o amor que precisava.
E era tudo culpa minha. O amor acabou em meu mundo porque não soube cuidar bem dele. Minha mãe se matou porque não consegui salvá-la. Meu irmão teria um futuro de merda porque não pude amadurecer quando foi necessário. A minha vida havia acabado. A vida da minha mãe havia acabado.
E era tudo culpa minha.