O Caminho Certo

Ana Martines · Capítulo 42 de 44

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O Caminho Certo

Capítulo 45 · Ricardo

 

“A recordação da felicidade já não é felicidade; A recordação da dor ainda é dor.”

– George Lord Byron

Cada palavra que li cavou um buraco mais fundo em meu coração. Ao terminar a carta, só pude sentar ao seu lado e observá-la, sem conseguir enxergar direito por causa das lágrimas, mas querendo absorver completamente a sua imagem – que ainda parecia viva tamanha a esperança de que realmente tivesse.

Pude imaginar a sua risada, assim como fez enquanto escrevia a carta. Podia até imaginá-la teimando comigo, com aquele olhar de vitoriosa sempre que conseguia o que queria. A única coisa que não conseguia imaginar era a sua reação, caso falasse que ainda a amo. O que faria? Sorriria para mim? Pularia em meus braços? Ou me daria um tapa e me mandaria embora, alegando que era tarde demais?

Afinal, era tarde demais. Não consegui me desculpar. Mais uma vez, cheguei tarde demais. No entanto, suas palavras entraram em minha mente. A vida era uma verdadeira filha da puta e feita somente para os fortes.

Não dava a mínima para quem era o culpado daquele acontecimento. Só não deveria ter acontecido. Não... Não conseguia acreditar que era verdade. Que o corpo esticado na minha frente não estava mais respirando e nunca mais sorriria, choraria ou presenciaria algo bonito.

Ela não foi capaz de viver sem mim, e agora eu posso entender o que quis dizer com isso. Não sou capaz de viver sem ela... Não posso viver em um mundo sabendo que seu corpo está enterrado e que sua alma está sabe-se lá onde. Não posso suportar esta dor.

Inclinei sobre o seu corpo e a abracei querendo que nada daquilo tivesse acontecido. As lágrimas escorriam pelos meus olhos, lágrimas que ficaram guardadas por anos. Desde a morte da minha mãe, nunca mais havia chorado. Por que a dor parecia dez vezes pior agora?

Porque havia perdido a mulher que amava; a dona do meu coração.

Ela se fora e me levara junto. Se não foi forte o suficiente, o que indicava que eu seria e a vida?

Sem ela, nada valeria a pena.

Capítulo 46

Alguém chorava em meus sonhos, só não sabia onde. Sentia que estava acordando, mas eu queria desesperadamente continuar ali, para confortar a pessoa que sofria, mesmo sem saber quem era ela. Quanto mais voltava à vida real, mais lamentava por não ter conseguido ajudar uma pessoa em meu próprio sonho. Se me pertence, por que não sou capaz de manipulá-lo?

Mas então o choro não sumiu, pelo contrário, tornou-se cada vez mais alto, mais próximo. Aos poucos fui tomando consciência do meu corpo e do corpo que me esmagava. O que estava acontecendo?

Minha primeira reação teria sido empurrar a pessoa para longe e arranjar algo afiado para me defender. Não sabia se aquela cidade era perigosa ou não, mas do jeito que eu não me sentia em casa por ali, não podia confiar em nada. No entanto, quando prestei atenção no choro, não consegui ter reação nenhuma. A pessoa em cima de mim era Ricardo e, mesmo que nunca o tenha visto chorar, não havia dúvidas de que era ele.

Que porra estava acontecendo?

Abri os olhos para tentar entender melhor a situação, no mesmo instante em que levantei o braço para acariciar o seu cabelo, querendo confortá-lo. Não me importava com a dor que me causou... Só queria que parasse de sofrer. Tomaria seu sofrimento para mim se fosse possível.

– Ah, até consigo imaginar o seu carinho. – Falou, chorando mais ainda e apertando o meu corpo.

– Você não tem uma imaginação muito criativa. – Falei, sem nem saber por onde começar a desvendar o que acontecia.

Quando ouviu a minha voz, Ricardo paralisou. Seu corpo inteiro virou uma rocha, deixando apenas o coração batendo cada vez mais rápido. Então se afastou um pouco de mim, permitindo que respirasse melhor – e ao mesmo tempo desejasse que não tivesse feito isso e me olhou nos olhos, parecendo mais assustado do que nunca.

Aqueles olhos que pensei que nunca mais veria, me encaravam tristemente, como se tivesse acabado de perder algo muito importante. E, mesmo assim, continuava impecavelmente lindo.

O que havia acontecido? Algo com Miguel? Com Fernando? Ricardo estava tão branco que me fez pensar na palavra "morte" e apenas nisso. Alguém havia se machucado, só pode... E eu estava dormindo enquanto isso acontecia! Como pude?

– Você... Você... – Parecia não conseguir terminar a frase e sua expressão de espanto mudou para confusão em um piscar de olhos. Imagino que a minha expressão não estava tão diferente.

– O que aconteceu? – Perguntei, levando a mão até o seu rosto para enxugar as lágrimas que haviam parado de cair.

Tocá-lo me fez suspirar, mesmo estando em um momento tão... Indescritível. Senti tanta falta da sua pele, seu toque, seu olhar apaixonado... Quantas vezes desejei poder ter um segundo a mais ao seu lado, apenas mais um momento para poder senti-lo uma última vez. Agora podia e a sensação não poderia ser mais incrível.

– Paloma. – Falou, em uma mistura de surpresa e alívio.

Então seu corpo estava de volta sobre o meu, me amassando na cama. Dessa vez estava mais consciente de tudo, então pude aproveitar melhor o momento. Rodeei seu corpo com meus braços, querendo que não se afastasse jamais e que o tempo parasse... Ou, ao menos, que nunca mais ficasse sem ele em minha vida e pude sentir seu cheiro masculino misturado com a brisa do mar que sempre amei.

Sabia que havia sentido a sua falta, mas não sabia que tinha sido tanto assim.

Depois de um momento apenas nos abraçando, a curiosidade tornou-se maior do que a vontade de ficar com ele sem ligar para nada.

– Ricardo, o que aconteceu? – Perguntei, temendo a resposta.

Então ele se afastou, mas não muito. Manteve os braços ao meu redor, me erguendo para ficar sentada na cama e não os tirou dali. Era como se ele quisesse aproveitar cada segundo que tínhamos da mesma maneira que eu queria.

– Pensei que tivesse te perdido. – Falou tão baixo que pensei ter ouvido errado.

– Na verdade, foi você quem me mandou embora. – Reclamei sem olhá-lo.

– Eu sei e foi o maior erro da minha vida. Voltei e... Pensei que fosse tarde demais. – Parecia estar prestes a voltar a chorar.

– Como assim?

– Não posso viver sem você, Paloma. Não posso. – Nunca ouvi tanto desespero em sua voz como naquele momento.

Apertei meu corpo no dele mais uma vez, voltando a mão para o seu cabelo que estava mais comprido do que da última vez que o havia tocado, mas não menos macio. Faria de tudo para que não voltasse a chorar... Aquele havia sido o pior som que já ouvi na minha vida.

– Shh, eu estou aqui. – Falei, querendo confortá-lo.

– Está mesmo? – Perguntou, ganhando distância para olhar nos meus olhos.

– Claro que estou Ricardo. – Sorri pela primeira vez em semanas.

– Promete que sempre estará comigo?

Oi? Se dependesse de mim, essa promessa seria feita logo após o nosso primeiro beijo e jamais seria quebrada. Mas pelo que eu lembro as coisas não acabaram por minha causa... A promessa deveria ser feita por ele, não por mim.

– Ricardo, você não está fazendo sentido. Foi você quem me tirou da sua vida. – Falei, tentando manter a calma para que ele não sofresse mais.

– Você não sabe o quanto me arrependo disso. Não... Não vou pedir para me perdoar ainda. Só preciso que prometa que não viverei em um mundo onde você não exista. – Uma última lágrima escorreu pelo seu rosto, quebrando mais um pedacinho do meu coração.

Ele parecia arrependido e muito, muito machucado. Faria qualquer coisa para não vê-lo sofrer novamente.

– Eu prometo. – Falei ainda confusa. Até que olhei para a escrivaninha, me lembrando da carta que havia escrito e rezei mentalmente para que ele não tivesse lido.

A carta não estava em cima da mesa, então provavelmente eu tinha guardado em algum lugar seguro a fim de queimar depois. Escrevi no calor do momento e por mais que tivesse pensado mil vezes em me matar, não tive coragem. Não faria aquilo comigo mesma... Estava ruim atualmente, mas poderia melhorar um dia.

A vida era valiosa demais para ser jogada fora dessa maneira.

Na verdade, já havia melhorado. Mas quando observei melhor a escrivaninha, notei os dois potes de remédios em cima dela. E todo desespero do Ricardo fez sentido.

– Você entendeu tudo errado. – Falei, segurando seu rosto para que olhasse para mim, desesperada para explicar a história e deixá-lo melhor. – Eu não tentei me matar e nem tentarei.

O olhar perdido voltou, mostrando o quão confuso estava.

– Mas... E os remédios? – Falou, apontando para os potes.

– Um já estava vazio, eu me esqueci de jogar fora... O outro é para dormir... Faz algumas noites que não consigo dormir bem. – Expliquei, sem querer falar que desde que ele saiu da minha vida, não havia dormido mais do que algumas horas por noite.

A verdade é que havia pensado em me matar, mas desisti no momento em que recebi a sua mensagem dizendo que sentia a minha falta. Foi isso que me deu esperanças de que tudo ficaria bem, cedo ou tarde.

Imagino o que teria acontecido se não tivesse recebido a sua mensagem naquele momento. Agora, me arrependo até de ter pensado no assunto.

– E isso? – Perguntou, erguendo a carta.

A carta que desejei que não tivesse lido.

– Isso não... Não vai acontecer. Não vou fazer nada. – Falei sem saber como explicar tudo o que havia escrito.

Porque era tudo verdade. Só que era uma verdade que ele não precisava saber...

Ricardo me abraçou novamente, suspirando de alívio. O que aquilo queria dizer? Ele estava pedindo que eu voltasse? Ou apenas se sentia culpado por tudo o que aconteceu?

– O que te fez desistir? – Perguntou quando me soltou.

– Você. – Falei, sorrindo novamente.

– Como assim?

– Você me mandou uma mensagem falando que sentia a minha falta... – Expliquei, mantendo o sorriso no rosto ao ver que também sorria. – Você me salvou.

– Eu te destruí. – Falou depois de um tempo, culpando a si mesmo.

– Você me salvou. – Teimei, abraçando-o novamente.

Ele conseguiu me apertar mais do que a primeira vez, e queria que fosse capaz de apertar mais ainda. Apertar até nossos corpos se fundirem, tornando-se um só, impossível de serem separados.

– Eu te amo. – Falou, olhando em meus olhos sem me soltar, o que implicou que sua boca ficasse muito próxima da minha.

Ele me ama. Ele acabou de dizer que me ama? Sim, ele disse que me ama! O que isso significava? Que viveríamos para sempre juntos? Que não me deixaria sozinha? Foda-se! Significa que ele ainda me ama! Nada mais importa.

Não consegui responder, tamanha a emoção que senti ao ouvir aquelas palavras saírem da sua boca. Palavras que imaginei que nunca mais ouviria e agora, quando menos esperava, ali estavam... Tudo o que pude fazer foi aproximar as nossas bocas até que estávamos em um beijo arrepiante e avassalador. Um beijo desesperado e ao mesmo tempo; calmo.

Um beijo cheio de amor acima de tudo. E era assim que meu coração se sentia. Cheio de amor e esperança novamente.

– Eu te amo. – Falei, quando separamos nossos lábios, ofegantes.

Ricardo me olhou com tanto amor que me fez querer tirar uma foto só para eternizar aquele sentimento. Mas a foto não seria capaz de transmitir tudo o que transitava entre nós. Amor, saudade, perdão, desejo... Tudo em apenas um olhar.

– E você é um idiota. – Falei dando um tapa no seu braço.

– Eu sei. – Concordou.

– Um idiota egoísta e retardado.

Assentiu ao me ouvir.

– Você é capaz de me perdoar algum dia? – Perguntou, acariciando o meu rosto.

Foi então que notei uma mancha em seu pulso. Quebrei nossos olhares e puxei sua mão para ver o que significava aquilo e todo o meu mundo desabou. Não, não um desabar ruim... Foi fantástico. Um sentimento inexplicável surgiu no meu coração, maior do que qualquer um que já tenha existido.

– O que significa isso?

Ricardo olhou para o seu pulso onde havia uma tatuagem com o meu nome em uma letra maravilhosa. O meu nome, simples assim... Mas estaria para sempre na sua pele.

– Você gostou? – Perguntou com um brilho no olhar.

– Não sei se gostar descreve... – Sorri amplamente.

– Tem mais uma. – Falou, subindo a manga da sua camisa e mostrando as mudanças que havia na sua antiga tatuagem.

A caveira estava completamente quebrada. Como conseguiu fazer isso? O tatuador deveria ser muito bom... Não importa. A caveira estava destruída enquanto pedaços do coração ressurgiam.

– O seu amor curou o meu coração. O seu amor me salvou... Eu preciso que fique comigo, Paloma. Só assim, eu serei feliz. Com você ao meu lado, consigo imaginar meu futuro.

As lágrimas surgiram em meus olhos novamente, mas desta vez eram de felicidade e pura emoção. Jamais imaginei que me sentiria tão feliz... Não após tudo o que aconteceu.

– Eu não sei o que te dizer... – Falei, limpando as lágrimas.

– Só diga que me aceita de volta. – Implorou.

– É claro que sim. Eu te aceito de volta. Eu te aceito quantas vezes for preciso.

– Prometo que esta será a única. – Sorriu amplamente, voltando a me beijar.

Quando me dei conta, nós estávamos deitados na cama, com ele por cima de mim e me beijando em todos os lugares possíveis. Estranhamente não havia tentado tirar a minha roupa. Parecia querer aproveitar ao máximo o momento antes de se entregar mais ainda.

Mas a única coisa que queria agora era seu corpo no meu e de todas as maneiras possíveis.

– Farei de tudo para que me perdoe. – Falou, alternando beijos em todo o meu pescoço. – Para que esqueça tudo o que aconteceu e que seja feliz novamente.

– Esteja comigo para sempre e estará perdoado. – Falei entre suspiros.

Quando nossos olhares se cruzaram, não tive dúvida nenhuma de que ele não me largaria de novo. Ele me olhava como se eu fosse o centro do seu mundo e só quisesse ficar comigo onde quer que seja. E isso era tudo o que eu precisava para ser feliz e para viver.

– Farei mais do que isso. – Sorriu, colando nossas bocas mais uma vez. – Vou te fazer a mulher mais feliz do mundo. A minha mulher.

Agradeci aos céus por ter recebido aquela mensagem a tempo. Caso contrário, não estaria vivendo isto agora... Não sei onde estaria, mas sei que em qualquer lugar que não fosse os braços de Ricardo pareceria o inferno para mim.

A segunda chance finalmente valia a pena.