O Caminho Certo
Capítulo 6 · Ao ouvir a porta se abrir, meu…
Ao ouvir a porta se abrir, meu pai virou para onde eu continuava parada, mostrando o rosto pálido e os olhos vermelhos. Estava destruído de uma maneira que nunca vi antes.
Corri para os seus braços, ansiosa por um ombro familiar.
– Pai, você voltou! – Sorri em meio às lágrimas, apertando seu pescoço.
No início ele não retribuiu, mas logo senti seus braços nas minhas costas, me acariciando levemente. Cedo demais, colocou os mesmos braços nos meus ombros e me empurrou para longe.
– Você não passou a noite em casa. – Constatou a voz de séria que usava sempre que estava bravo ou quando queria algo. Ele sempre conseguia o que queria.
– Nem você. – Rebati.
– Você está fedendo, mocinha. Onde esteve? Quem te deixou passar a noite fora?
Tive vontade de rir da ironia daquela cena. Ele sumiu o dia inteiro e tudo o que tinha para falar era sobre quem eu deveria obedecer?
– Nem você, nem a mamãe estavam aqui para me dar ordens!– Respondi, deixando a cabeça cair ao perceber, mais uma vez, que ela não voltaria.
Isso o acalmou. Sempre o acalmava. Ver as pessoas sucumbirem às suas ordens era tudo o que ele precisava.
– Não, ela não estava.
– Você foi vê-la? Sabe o que está acontecendo? – Perguntei ansiosa por alguma notícia. Qualquer coisa.
– Ela está morta. É tudo o que sei. O Fernando está cuidando de tudo, converse com ele. – Respondeu friamente.
Fernando era o motorista, o mesmo que me levou para a balada ontem. Na verdade, era o mais gentil dos empregados e não fazia só a sua função. Quando minha mãe estava resfriada e não podia tomar conta da casa, era ele quem cuidava de tudo.
Mas não consigo acreditar que meu pai não teve a decência de cuidar dela neste momento. Do seu corpo, de tudo o que precisava ser feito. Duvido que sequer tenha passado no hospital. Ou no cemitério. Na verdade, nem eu havia passado. Não fazia a menor ideia de onde ela estaria numa hora dessas.
Olhei para o quarto, segurando as lágrimas de raiva – do meu pai – e decepção – de mim mesma. Parei quando vi a mala de couro perto da porta, por onde havia entrado alguns minutos atrás.
– Para onde você está indo? – Perguntei, tomando coragem para olhá-lo nos olhos novamente.
– Tenho uma viagem de negócios para fazer. – Respondeu, desviando o olhar.
Não era possível.
– Você tem uma viagem? Faz menos de vinte e quatro horas que a mamãe morreu, que a mulher que foi casada com você por tantos anos se foi e você vai viajar?– Explodi.
– Não vou abandonar o meu trabalho por uma coisa que já passou. – Disse, passando por mim e indo em direção à mala.
– Você não está abandonando o seu trabalho, mas está abandonando a mim! – Não era surpresa. Fui atrás dele enquanto descia as escadas sem olhar para trás.
Estava indo embora. Não podia fazer isso.
– Não pode me abandonar!
– Pare de ser criança, você já tem dezoito anos. Pode cuidar de si mesma. – Afirmou, parando na porta da sala.
– Não, não posso. Você é tudo o que me resta. Você é a única família que tenho. – Engoli o orgulho, tentando manter a única coisa que me restava por perto.
Neste momento, ele se virou para mim com os olhos mais vermelhos do que antes. Tentava manter a compostura, mas não parecia ter sucesso.
– Você não precisa de uma família. Tem tudo o que precisa aqui. Tem um cartão de crédito sem limites, pode gastar o quanto quiser sem problemas. Faça uma festa. Eu não ligo.
– E a reputação da nossa família que você tanto se importava? O que vão pensar quando souberem que abandonou sua filha para morar sozinha com os empregados? – Procurava qualquer desculpa que o fizesse pensar direito. Não poderia estar indo embora.
– A reputação dessa família acabou quando sua mãe se matou. – Afirmou, bravo. – E não estou te abandonando. Já disse que é uma viagem de negócios, não é para sempre.
– Você está me deixando na hora que eu mais preciso de você! – Deixei que todas as lágrimas caíssem, sem conseguir conter os soluços.
– Tenha um dia de compras que passa. – Disse, virando de costas e saindo pela porta da sala, em direção ao carro onde o motorista já esperava com o porta-malas aberto.
– Você é o pior pai do mundo! – Gritei indo atrás dele, mas parei na porta. Apoiei o corpo no batente, sentindo o mundo girar ao perceber que ele não ia voltar atrás na sua decisão.
– Eu te dou tudo o que você quer! – Gritou junto antes de entrar no carro. – Pare de ser tão dramática.
– E você, vai se foder!
Ele estacou quando ouviu o meu xingamento. Não era a forma que queria que eu agisse.
– Se for embora, não quero que volte nunca mais. – Tirei forças não sei de onde.
– Esta casa é minha, assim como tudo o que está nela. – Retrucou, com a voz grossa, mas calma. Era como demonstrava que estava muito furioso, mas que ninguém precisava saber. Era o tom que já o ouvi usando milhares de vezes com a minha mãe.
– Mais uma ameaça e tiro tudo o que já te dei. Sem mais cartões, sem mais mordomias. Aí sim você vai saber o que é o fim do mundo. – Disse, me olhando nos olhos por um momento apenas para saber se havia entendido.
E eu entendi. Não poderia viver na rua. Aqui pelo menos tinha o que já foi da minha mãe. Pelo menos tinha como me distrair. Não conseguiria viver por conta própria.
Então ele se foi. Acompanhei com o olhar o trajeto que o carro fez até sair da nossa rua. Esperava não vê-lo novamente.
Queria que ele estivesse aqui. Não. Queria que mamãe estivesse aqui. Queria que qualquer um estivesse aqui! Qualquer um que se importasse.
Estava completamente sozinha.
Voltei para casa, sem fechar a porta e sem enxergar o caminho que fazia, mais uma vez. Meu corpo deveria estar desidratado de tantas lágrimas que já caíram. Talvez morresse de desidratação. Até que não seria tão ruim. Não seria nem um pouco ruim. Tenho certeza de que ninguém sentiria a minha falta.
Deitei na cama da minha mãe, segurando o travesseiro apertado em meu corpo. Ele seria o meu único companheiro. O único que restara.
Meu próprio pai havia me abandonado. Aquele que sempre me deu um beijo de boa noite antes de sair da mesa de jantar. Aquele que sempre voltava das suas viagens cheio de presentes, um mais bonito – e caro – do que o outro. Aquele que dava a sua vida para nos sustentar.
Mas não dava a vida por mim. Não deu a vida pela mamãe. Tudo o que fazia, na verdade, era para viver bem. Para manter de fachada perante a sociedade. Foda-se a sociedade. Foda-se o que pensam de mim. Provavelmente eles nem estavam mais pensando em mim.
Apertei mais o travesseiro, buscando um pouco de carinho naquele objeto sem vida. Até que senti uma parte dura dentro dele, como se fosse uma caixa...
Tirei a fronha e encontrei o objeto misterioso. Era o livro da mamãe. Aquele com a capa de couro marrom que sempre a via escrevendo na cama. Aquele que ela nunca me deixou chegar perto, dizendo que era um projeto futuro, uma surpresa.
Estava em minhas mãos agora. Uma parte dela estava ali.
Quando abri, deparei com o seguinte texto na primeira página:
“Que ensinamentos transmitiríamos ao mundo se soubéssemos que se tratava
da nossa última oportunidade? Se deixássemos de existir amanhã, o que
desejaríamos deixar como herança?” – Randy Pausch
Minha pequena e doce Paloma,
Este é um diário escrito especialmente para você. Li em uma das quinhentas revistas que comprei sobre gravidez que dizia que nunca sabemos o que nos espera no futuro, mas que devemos sempre pensar no próximo antes de nós mesmos. Por isso, resolvi contar um pouco da minha vida e do meu dia a dia para você. Só lerá isto se eu não for capaz de te ensinar tudo o que pretendo antes de partir. Então, se está lendo isto cedo demais, me desculpe. Gostaria de poder te abraçar e te reconfortar pela perda, mas isso só o tempo será capaz de fazer.
Espero que você aprenda algo com este diário. Que cresça e amadureça lendo-o. Nele não há influência nenhuma do seu pai. Sou apenas eu, passando tudo o que aprendi para a pessoa que mais amo neste mundo.
Considere cada palavra e cada acontecimento. Deixe-me orgulhosa. Onde quer que esteja, estarei olhando por você. Você jamais estará sozinha.
Da sua mãe, que ainda não viu o seu pequeno rosto, mas que já te ama mais
do que tudo.
Não acreditei no que estava lendo.
Não tinha apenas encontrado uma parte dela, mas sim uma parte dela destinada a mim. Uma parte dela que sabia que iria embora cedo demais e que se preveniu caso isso acontecesse. Esta era a minha mãe: sempre prevenida. Nenhum imprevisto era problema.
Como sentia a sua falta.
Não tive coragem de ler o resto do diário. Aquele pequeno trecho havia feito a dor enorme no meu coração retornar, mas também me dera uma esperança a mais. Um sentimento de carinho extra. Ela estava comigo. Não em presença, mas estava em meu coração e pensamentos.
Abracei o diário e dormi, mesmo sabendo que ainda era cedo. Mesmo sabendo que dormir não mudaria nada, entretanto era o único modo de esquecer a dor por um tempo.
Capítulo 7
Passei uma semana sem sair do quarto da minha mãe. Seu cheiro não estava mais no travesseiro, mas consegui encontrar algumas roupas com o seu perfume e foram elas que me confortaram nesses dias sombrios.
O quarto, na verdade, era uma suíte. O que significa que não precisei sair de lá para nada. De vez em quando surgia um prato com comida na mesinha ao lado da cama, o único indício de que a casa continuava funcionando normalmente, mesmo que nada parecesse o mesmo.
Comia apenas para afugentar a dor no estômago e focar na existente em meu coração. Precisava daquilo. Não era justo continuar vivendo a vida normalmente enquanto ela não estava aqui. Enquanto ela sofreu muito para tomar a decisão de se suicidar.
Esta era uma pergunta que não saía da minha mente: o que fez com que cometesse o suicídio? A resposta estava ali em minhas mãos. Tenho certeza de que ela escreveu tudo no diário, cada pequena ação que a levou ao limite. O único problema é que não tive mais coragem de lê-lo.
Não queria descobrir que eu poderia ser a culpada de tudo.
As janelas permaneceram fechadas, misturando o dia com a noite. Só sabia que já havia passado sete dias porque Fernando entrou em meu quarto calmamente, pensando que eu estava dormindo e sentou-se ao meu lado.
– Vamos, meu anjo, você precisa reagir. – Sussurrou, acariciando levemente meus cabelos.
Mais uma vez, tive vontade de chorar. Há muito tempo não falava com alguém, não tocava em alguém e, principalmente, não era reconfortada por alguém. A única coisa que me acalmou nesses dias foi saber que minha mãe esteve ali, que passou a maior parte da sua vida naquele quarto e que talvez eu ainda fosse capaz de sentir a sua presença.
Mas não conseguia sentir nada além da dor.
Abri os olhos, tentando fingir que havia acabado de acordar, e olhei para Fernando. Como poderia me tratar com tanto carinho se nunca tínhamos nos falado?
– Oi. – Sussurrei, forçando a voz a sair.
– Bom dia, Paloma.
– O que está acontecendo? – Perguntei.
– Hoje é a missa de sétimo dia da sua mãe. Você deveria estar lá. – Foi assim que descobri que sete dias haviam se passado.
– Eu não quero. – Afirmei, apertando ainda mais o casaco dela contra o corpo.
– Ela gostaria muito que você fosse. Você não foi ao seu enterro, nem sabe onde está o caixão dela. Pense nisso.
Ótimo. Minha mãe estava morta e eu continuava decepcionando-a.
De repente, duas senhoras entraram no meu quarto e abriram todas as cortinas, me deixando cega por um momento. Quem elas pensavam que eram para invadir a minha privacidade desta maneira?
Enquanto uma foi para o banheiro, a outra se aproximou de nós dois.
– Nando, algum progresso? – Falava como se eu nem estivesse ali.
– Ela vai sair dessa cama. – Afirmou Fernando, também me ignorando.
– Eu estou aqui e não vou sair da cama. Vocês não podem me obrigar!
Virei de costas para eles e me enterrei mais no travesseiro. Ninguém me tiraria dali.
Mais rápido do que pude reagir, o travesseiro não estava mais embaixo de mim. Fui erguida da cama e levada até o banheiro, onde Fernando ligou o chuveiro gelado em cima da minha cabeça.
Gritei. Era tudo o que podia fazer. Nem o conhecia direito, e agora ele estava ali para abusar de mim. Tentei cobrir o corpo que ficava cada vez mais à mostra, enquanto o pijama colava na minha pele com a água gelada que me acordava. Agradeci por ter tirado o casaco da minha mãe no caminho.
Gelada!
– Me solta, seu idiota! – Xinguei, empurrando-o.
– Suas roupas limpas estão na pia. Estarei te esperando no quarto. E não ouse me desobedecer, mocinha. – Mandou, me deixando no chuveiro e saindo do banheiro. Mesmo com a voz firme pude sentir um tom carinhoso nas suas palavras. Isso, ou estava realmente muito carente.
O chuveiro aos poucos me acordou. O que estava fazendo com a minha vida? Não poderia acabar como a minha mãe, poderia? Ela sempre me dizia que queria me ver feliz, que faria de tudo para isso. Mesmo que não esteja mais aqui, não posso decepcioná-la.
Jamais serei feliz novamente, mas devo viver. Ou pelo menos existir. Nem isto fui capaz de fazer durante essa semana. Apenas ocupei um espaço no mundo que poderia muito bem ser preenchido de uma maneira melhor. Não deixaria isso acontecer.
Lavei o cabelo o mais rápido que pude. Este, não via Shampoo há exatos sete dias. Não sei se alguns nós conseguiriam ser desfeitos, mas não teria problema se precisasse cortá-lo.
Saí pronta do banheiro. As empregadas separaram um vestido preto da minha mãe e, mesmo ficando um pouco largo, me senti muito bem dentro dele. Era um pequeno pedaço dela que eu poderia levar para onde fosse.
– Está mais calma? – Perguntou Fernando, sentado na cama.
– Sim. Foi mal. – Disse.
– Não tem problema. A missa começará em dez minutos, precisamos sair logo. Pegou tudo o que precisava?
Olhei para o quarto. Minha bolsa ainda estava desaparecida, com todos os documentos dentro. Precisava me lembrar de passar na praia para ver se o Miguel havia encontrado alguma coisa... Já tinha problema demais para me preocupar, não queria correr atrás de novos documentos.
Peguei o diário da minha mãe. Este iria comigo, com certeza. Coloquei-o dentro de uma bolsa preta que encontrei em seu guarda-roupa e vesti o par de sapatos, também pretos, que tinham colocado ao lado da cama. Esta era a única peça minha que usava naquele momento.
– Tudo certo. – Afirmei, observando o quarto ao meu redor. Sentia-me mal por estar saindo dele, afinal era o meu único refúgio. Não queria encontrar a sociedade lá fora, pois não queria ninguém se intrometendo na minha vida. Mas isso era o que eles faziam de melhor e tudo o que precisava fazer seria ignorar.
"Coitadinha, perdeu a mãe e o pai". "Que dó, deve estar tão sozinha!". "Ninguém merece passar pelo que ela está passando".
Ignore Paloma. Apenas ignore. Eles não fazem ideia nem da metade da dor que estou sentindo e que senti nesses dias. Se soubessem, falariam muito mais.
A igreja não lotou. Fernando me disse que a missa não foi anunciada, portanto só os parentes e amigos mais próximos estavam presentes. E eu não conhecia ninguém de lá.
Enquanto saía do local com os olhos vermelhos por chorar por uma hora inteira, uma mulher me parou.
– Querida Paloma, como você cresceu! – Exclamou, com uma expressão vazia. Não fazia a menor ideia de quem era aquela mulher. Seus olhos eram azuis como os da minha mãe, mas isto não indicava nada. Seu cabelo era escondido por um lenço e ela estava vestida da mesma maneira que eu – completamente de preto.
O momento constrangedor surgiu com o meu silêncio. Não sabia quem era aquela mulher e não estava com ânimo para novas amizades. Muito menos para caridades.
– Você não deve se lembrar de mim, faz tanto tempo que não vou à sua casa! – Continuou, tentando disfarçar o clima tenso que pairava entre nós. – Sou Mariana, sua tia. Moro muito longe, então não consegui vir muito para ver o seu crescimento. Mas falava com a sua mãe quase todos os dias por mensagens.
Ela pareceu se entristecer ao lembrar o que nos trouxera naquele lugar.
– Não, não lembro. E minha mãe nunca mencionou nenhuma irmã próxima. – Afirmei, desconfiada.
– Sua mãe era muito reservada, menina. Mas tinha um coração enorme.
Observei melhor a mulher parada na minha frente. Ela aparentava ter seus cinquenta anos ou mais, mas pelo visto mantinha uma dieta saudável, com certeza. As rugas começavam a surgir e não sabia se elas sempre foram tão evidentes ou se aqueles dias foram tão pesados para ela como foram para mim. Provavelmente meu rosto apresentava as mesmas rugas.
– Sim, ela tinha. – Concordei.
Avistei Fernando acenando para mim, parado na frente do carro e me despedi da minha mais nova tia. Aquela que eu provavelmente nunca mais veria.
– Preciso ir. – Disse, saindo sem olhar para trás. Não queria que me abraçasse achando que isso curaria alguma coisa. Acho que nada mais seria capaz disso.
– Me leva para a praia? – Pedi ao chegar ao carro. Fernando me olhou como se esperasse mais detalhes, mas percebeu que era apenas isso. Eu só queria ir à praia.
Ao chegar, deixei os sapatos de salto no carro e desci.
– Não precisa ficar aqui. Eu encontro um jeito de voltar para casa.
– Tem certeza?
Eu assenti, ansiosa para sentir a areia sob meus pés. Ela estava deliciosa. Mais quente do que antes, provavelmente por causa do horário, mas igualmente atrativa.
O mar me hipnotizava. As ondas iam e voltavam... Iam e voltavam. Elas sempre voltavam. Por que minha mãe não voltava?
Andei sem prestar atenção para onde ia, segui a linha da beira do mar. Queria entrar, mas não estragaria o vestido da minha mãe. Era precioso demais para isto.
Estava distraída com o mar e a nuvem de fumaça que formava acima dele, tornando o ar muito melhor, quando trombei com um poste.
Desequilibrei para trás, mas o poste criou mãos e me segurou antes que caísse com a bunda na areia. Ótimo, o vestido da mamãe estava salvo. Olhei para cima, cerrando os olhos por causa do sol, e me deparei com o idiota que me raptara do mar sete dias atrás.
Com milhares de pessoas frequentando a praia, eu tinha que trombar justo com ele.
– Você deveria olhar por onde anda, linda. – Disse, com as mãos na minha cintura.
Segurei em seu peito, sem deixar de reparar o quão firme e definido era, e empurrei o seu corpo para longe de mim.
– E você deveria me respeitar, seu idiota! – Gritei, encarando-o. Por que ele sempre despertava esse meu lado briguento? Ah sim, por que sempre pedia por isto. Com seus olhos azuis e corpo charmoso, implorava por isto!
– Não precisa agradecer por salvar a sua vida. – Brincou, ainda com um sorriso de lado.
Percebi que tinha uma tatuagem. Ah, e isto aconteceu depois de notar que, mais uma vez, ele estava sem camisa. A tatuagem descia por todo o seu braço, mas não era apenas um desenho. Eram vários. Uma caveira, um símbolo desconhecido, algumas palavras... Tive vontade de explorar mais para ver todos os desenhos contidos ali.
Mas ele veio com essa frase novamente. Salvando a minha vida.
– Você não me salvou aquele dia e muito menos hoje. Vá encontrar outra garota para salvar, pois esta você não vai conseguir. – Falei, deixando-o estático na areia e seguindo para o quiosque onde esperava encontrar Miguel.
Quando estava quase chegando ao quiosque, senti a sua presença atrás de mim.
– Não tinha te reconhecido. – Revelou.
Não sabia se aceitava isso como um elogio ou um xingamento. Eu estava melhor naquele dia do que agora? Ou estou melhor agora do que naquele dia?
Não respondi. Apenas segui o meu caminho, odiando toda aquela praia comprida demais. Para que tanta areia?
– Preto não é uma boa cor para se usar na praia. – Comentou, claramente tentando puxar assunto. Ou zoar com a minha cara.
– Cuide da sua vida. – Respondi, avistando Miguel ao longe, o que me fez andar mais rápido.
De repente, Ricardo segurou meu braço e me fez virar para ele. Quase trombei com seu corpo novamente, mas dessa vez ele foi mais rápido e segurou meu outro ombro, me mantendo afastada. Afastada e parada no lugar, apenas olhando-o.
Parecia selvagem e, ao mesmo tempo, nervoso.
– Você. Fique longe do meu irmão. – Olhou por cima do meu ombro por um momento, enquanto eu continuava parada, sem conseguir reagir, apenas admirando a sua beleza exótica. – Estou falando sério. Ele merece coisa melhor. – Disse e me soltou.
Ele merece coisa melhor.
Uma semana atrás, eu era a garota que todos desejavam como namorada e que todas as mães desejavam como nora. Era a garota exemplar, que todo mundo queria ser amigo e tentar uma chance. Hoje, sou a garota que não deve se aproximar das pessoas para não arruinar suas vidas.
Sou a garota que, claramente, deve ficar longe. Eu sou o problema.
Olhei para o homem que continuava parado na minha frente como se analisasse minhas reações. As lágrimas vieram novamente. O encarei da mesma maneira que ele me encarava. Toda a dor que senti durante aquela semana voltou, fazendo com que toda a praia sumisse.
Só restava o homem que me machucou um pouco mais. Que reabriu a ferida momentaneamente cicatrizada.
– Você não me conhece. – Disse com a voz chorosa e saí da praia. Para longe de Miguel, que encarava a cena com a boca aberta. Para longe do lugar que, por alguns minutos, me deu um pouco de paz. Para longe do cara que tinha me tirado, mais uma vez, de um momento importante.
E, mais uma vez, apenas me observou ir embora. Afinal, eu não era coisa boa. Ele também merecia coisa melhor. Todos mereciam.
Todos eram melhores do que eu.