O Caminho Certo

Ana Martines · Capítulo 29 de 44

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O Caminho Certo

Capítulo 31 · Acordei com o corpo quente de Ricardo…

Acordei com o corpo quente de Ricardo enrolado no meu. E quando digo

enrolado, quero dizer que seus braços enroscavam na minha cintura como se eu fosse a única boia em um oceano infinito. A única capaz de salvá-lo ou talvez a única que desejava naquele momento. Na verdade só me abraçava como se não quisesse soltar nunca, mas as outras suposições vieram apenas da esperança de que ele tivesse mudado em apenas uma noite.

Sua cabeça repousava no meu peito, ficando tão próximo que era possível sentir o movimento da sua respiração. Inspira, expira. Inspira, expira. Calmamente, profundamente de tal maneira que tirou toda coragem de acordá-lo para poder sair da cama. Isso ou o fato de senti-lo próximo agora que entendia a complexidade dos meus sentimentos por ele. Mais uma vez: como deixei isso acontecer?

Todos os tipos de pensamentos passavam por minha mente enquanto eu encarava o teto do quarto, que precisava urgentemente de uma nova pintura. As pequenas rachaduras começavam a aparecer e acredito que uma tinta branca seria capaz de cobrir aquilo. Nunca precisei saber disso, não seria agora que tentaria aprender alguma coisa. Só procurava meios de me distrair, já que voltar a dormir parecia impossível e pensar no que aconteceria quando ele acordasse me aterrorizava.

Nunca acordei antes dele... Isso deve ser um bom sinal, não? Se acordasse nervoso e saísse sem falar nada, provavelmente acabaria passando a tarde trancada no quarto, abraçada com o edredom e me odiando por ter deixado aquilo ir tão longe. Por outro lado, se acordasse e fosse para cima de mim todo amoroso e charmoso – como sempre – não conseguiria resistir e o momento seria perfeito. Mas só estaríamos adiando o "depois".

Porque não importa quando virá esse "depois", pois não consigo imaginar um final feliz com ele.

Interrompi os milhares de pensamentos ao sentir a sua respiração alterar. Ele havia acordado. Saber disso me deixou paralisada, ansiosa para o que aconteceria em seguida.

Logo após, levantou a cabeça, sem soltar a minha cintura e olhou diretamente para os meus olhos.

Foi como se tirasse um peso das costas ou do pulmão. Expirei todo ar que prendia, sem realmente prestar atenção nisso. Tudo o que conseguia notar era o olhar carinhoso que estava sendo dirigido a mim – e somente a mim. Seus olhos azuis estavam mais claros do que nunca, mas não menos intensos.

Nunca vi aquele olhar em sua feição. Na verdade, não conseguia colocar as lembranças em ordem para saber se já havia visto ou não, mas tenho certeza que não esqueceria caso tivesse. Nossos olhares prenderam-se como se conversássemos por telepatia. "Eu te amo", eu diria. "Eu sei", ele responderia. E então: "Eu te amo mais". Um sorriso seria trocado com formato de imagem, ao tempo em que todos de fora só veriam dois estranhos se encarando.

Seria um mundo perfeito. Um mundo onde ninguém saberia de nós, e poderíamos nos falar a todo segundo e nos amar o tempo todo... Mas, mais uma vez, é tudo criação da minha mente. Ele estava me encarando intensamente, com um significado por trás do olhar... Mas este significado jamais seria uma declaração. Provavelmente seria um "eu quero te comer" ou algo do tipo.

Custava a acreditar nisso. Parecia ser um momento tão perfeito, tão “Não-Ricardo.” Mas exatamente por isso sabia que estava deixando meus sentimentos expostos demais, a esperança evidente. Talvez só estivesse me olhando daquela maneira por ter notado o que se passava pela minha mente e tenha ficado com pena. "Oh, pobre garota, se apaixonou por um rapaz impossível de se ter um relacionamento sério".

Quebrei o nosso olhar, voltando a encarar o teto do quarto com a intenção de sair daquele momento que beirava o constrangedor. Ainda assim, podia sentir seus olhos perfurando o meu rosto da mesma maneira que suas mãos pareciam queimar a minha cintura, mostrando que permaneciam ali. Como ele não havia percebido? Conseguia sentir cada pequena parte do meu corpo próxima a ele, cada mínimo nervo que emitia um choque pelo simples contato de pele. Enquanto ele parecia não sentir nada.

Sabia que ele não era capaz de sentir nada.

– Você nunca acorda tão tarde. – Falei, procurando distrações dos pensamentos insanos.

– Há tempos não dormia tão bem. – Admitiu, com a voz rouca por ter acabado de acordar.

– Pois é.

Não sabia o que dizer. "Eu nunca dormi tão bem na minha vida" seria a verdade, mas idiotice falar isso. O melhor que podia fazer era ser indiferente como sempre. Por que com ele era tão difícil?

– Então, você ganhou a aposta. – Disse, puxando o braço que estava atrás da minha cintura para poder apoiar a cabeça.

Voltei a olhar para ele, reparando o quão próximo estava... Não. Pela última vez, não.

– Sim, ganhei. – Falei vitoriosamente. – Não acreditou que eu ganharia?

– Na verdade, sabia que iria. Só esperava que o seu pedido fosse um pouco melhor do que este... – Disse, usando a mão para traçar pequenos círculos pela minha barriga. Pequenos círculos que me arrepiavam mais do que imaginei ser possível.

– Sei o que você está fazendo. – Falei, encarando-o.

– O que? Isso? – Perguntou, olhando para os trajetos dos seus dedos.

– Não, não estou falando disso. – Segurei sua mão para que parasse com aquilo, querendo focar no que importava. – Estou falando da sua distração.

– Não sei o que você quer dizer.

– Sim, sabe muito bem o que quero dizer. Está usando o seu charme para me fazer com que eu me esqueça de ontem.

Ele dirigiu o melhor sorriso sedutor para mim, aproximando seu rosto do meu.

– E está funcionando? – Sussurrou.

– N... Não. Não está. – Falei, amaldiçoando a voz por ter falhado.

Ricardo riu, sabendo exatamente o efeito que seus toques, suas palavras e até seus olhares tinham sobre mim.

– Que bom que não está.

– Ricardo, eu estou falando sério. – Falei, colocando a mão no seu peito para me afastar do seu jeito conquistador. Precisava ficar longe se quisesse alguma resposta do que aconteceu ontem.

Ele percebeu que eu queria um espaço, mas relutou em me dar. Até que se afastou levemente, descolando o corpo do meu, mas segurou minha mão em seu peito, impedindo que perdêssemos o contato completamente. E, neste momento, tive uma vontade enorme de agradecê-lo por isto.

– Então fale sério.

– Você precisa me contar o que houve ontem... Estava tão... Tão devastado – Ricardo olhou nos meus olhos quando ouviu a palavra, mas isso não impediu que outras saíssem da minha boca. – Não estava sendo você mesmo. Entendo que estamos nos evitando... Mas ontem não tinha a ver com a gente, tinha a ver com você, e quero saber o que te feriu tanto. Quero fazer alguma coisa.

Precisava realmente aprender a fechar a boca na hora certa. Ricardo me olhava com uma ternura estranha como se não soubesse o que falar. Ótimo, eu falava demais e ele não tinha o que falar. Muito justo.

– Você já fez. – Falou com a voz mais doce que já ouvi.

Ficamos nos encarando por mais tempo do que o normal. Na verdade, nos encarar parecia ser o objetivo do dia, pois era o que mais fazíamos. Não tinha a menor ideia de como sair daquela situação, do que falar... Dessa vez quem estava sem palavras era eu.

– Valeu por ter me obrigado a dormir com você ontem à noite.

Ricardo colocou tanto sentimento no agradecimento que não pude deixar de ficar comovida. Parecia que eu havia feito algo bom ao pedir aquilo. Ou, como disse: obrigá-lo. Só não sabia o porquê dele precisar tanto...

– Eu... – Comecei a falar, mas parei ao ver seus olhos mais uma vez. Eles estavam ao mesmo tempo tristes e carinhosos. Era incrível a maneira como conseguia se expressar com um olhar, ou como eu era capaz de entender cada sentimento ao ver aquele azul mudando de cor.

Soltei minha mão da dele e a levei até o seu rosto, acariciando-o. Por mais que tenha feito isso ontem à noite, agora era diferente. Queria confortá-lo, mas acima de tudo, queria entendê-lo. Conhecê-lo.

– O que aconteceu com você? – Perguntei, sentindo a minha dor misturando-se com a dele, pairando no ar ao nosso redor como uma única bolha, somente nossa.

Pensei que não contaria nada de novo. Pensei que ficaria na curiosidade e sofreria mais um dia sem saber o motivo de estar sofrendo. Mas então ele começou a falar e não parou mais.

Contou. Contou tudo. Contou sobre a garota que conheci ontem, Raissa, e revelou que foi a sua primeira e única namorada. Mais um motivo para odiá-la.

Contou sobre a sua vida com a mãe e o irmão e como tudo era perfeito. Como só queria sair do colegial para ficar logo com ela. A garota que jurava ser para o resto da vida. Por mais egoísta que pareça, queria que ele parasse de falar. Por um momento me arrependi de ter sido tão curiosa. Poderia ouvir de tudo... Menos sobre o amor dele por outra pessoa. O amor que hoje não é capaz de sentir por ninguém.

Mas quando estava chegando ao limite de romantismo do dia, a história mudou. Sua expressão também havia mudado. O que parecia dor, agora parecia agonia misturada com arrependimento e saudade. Então começou a contar sobre a traição, o momento que percebeu que ela não sentia o mesmo e esqueceu todo o resto. E aí a sua mãe morreu bem na sua frente.

Após terminar a história, Ricardo ficou repetindo que era tudo sua culpa. Depois de ouvir três vezes a frase que mais parecia uma súplica por ajuda, voltei a me aproximar e envolvi seu pescoço da melhor maneira que pude na posição que estávamos e o apertei contra mim.

– Não é culpa sua. – Falei, sabendo exatamente o que ele sentia.

– Você não sabe o que está dizendo. – Falou com dor na voz, me surpreendendo por não ter um traço de choro na mesma.

Olhei em seus olhos, sem me afastar do seu corpo.

– Você sabe a minha história. Sabe que sei exatamente o que está sentindo. No dia em que minha mãe morreu... – Falei, engolindo o caroço que se instalava na garganta toda vez que começava a falar ou pensar sobre isso. – Eu não me importei. Não falei com ela e não sei qual foi a última conversa que tivemos. Ela estava péssima e eu vivia sob o mesmo teto e não sabia de nada. Não percebia nada.

Ricardo me olhou, compreendendo o que eu queria dizer.

– Não foi culpa sua. – Falou, passando a mão pelo meu rosto.

Fechei os olhos por um momento, agradecida pelo carinho tão raro.

– Assim como não foi culpa sua.

Quando abri os olhos, ele me encarava como se fosse o objeto mais raro e caro do mundo. Havia um brilho diferente em seu olhar e, mesmo com a bolha de dor ainda ao nosso redor, podia sentir um pingo de esperança se instalando nele.

Aproximei o rosto do dele, querendo absorver sua dor e superar aquele momento. Quebrar a bolha e aproveitar a cama ao nosso dispor. Seu olhar admirado causara essa vontade louca de beijá-lo, de tê-lo para mim e, principalmente, de mostrar que não estava mais sozinho.

Mas quando estávamos próximos demais, Ricardo colocou a mão no meu rosto, impedindo que avançasse um centímetro sequer. Abri os olhos, surpresa, tentando decifrar o que acontecia. Ele, parando? É mais raro do que receber algum amor em seus atos.

– Nós não podemos. – Falou, fechando os olhos como se usasse todas as forças para dizer isso.

Então a realidade caiu sobre mim. Nada havia mudado, ele ainda não podia se relacionar com ninguém e, mesmo que agora soubesse o motivo para esta precaução, sua decepção não se tornava mais fraca.

– Não desse jeito. Quero fazer direito com você. Eu... Não quero estragar tudo novamente. – Falou me tirando dos pensamentos obscuros e me surpreendendo mais uma vez em questão de segundos.

– O que quer dizer com isso? – Perguntei confusa com a mudança repentina de sentimentos.

– O que acha de dar uma volta na praia amanhã à noite? – perguntou, sorrindo de lado.

Com isso, a bolha se rompeu. Todo sofrimento, dor, arrependimento e agonia ficaram exatamente onde deveriam estar: no passado. Um novo ar nos rondava... Um ar de esperança. Ou, ao menos, era assim que me sentia.

– Está me convidando para um encontro? – Retruquei, encarando-o.

– Só se você aceitar. Se não, podemos sair como amigos. O Miguel e a Marina fazem isso sempre.

– Eles não são um bom exemplo de amigos. – Ri.

– Não mesmo. Mas e aí, topa? – Perguntou, sorrindo mais amplamente. O sorriso de felicidade. Que falta fizera...

– Pode ser. – Sorri, tentando usar as mesmas palavras indelicadas que ele, como se não fosse nada importante, embora nossos sorrisos dissessem outra coisa.

E agora sabia que não era apenas uma criação da minha mente. O sorriso estampado em seu rosto não poderia significar nada além de pura e completa alegria. E se ele estava feliz em sair comigo, eu estava duplamente feliz por ir neste encontro.

Talvez não fosse tão sem sentimentos assim...