O Caminho Certo

Ana Martines · Capítulo 2 de 44

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O Caminho Certo

Capítulo 2 · Não sei quanto tempo passou.

Ouvi meu celular tocar, mas estava presa demais em pensamentos para me preocupar com isso ou com qualquer outra coisa. O corpo que ainda abraçava estava frio, sem vida e sem respiração. O corpo da pessoa que mais amei em toda a minha vida. O corpo da única pessoa que me deu amor. O que me restava agora? O que seria de mim?

Minutos ou horas depois, me puxaram para trás e levaram a minha mãe embora. Simples assim. Entraram correndo no banheiro, colocaram seu corpo em cima da maca, o cobriram e partiram. Pessoas sem rosto levaram minha mãe para longe de mim e tudo o que pude fazer foi observar. Com braços fortes ao meu redor, vi minha felicidade indo embora. Agora era definitivo; ela havia me abandonado.

Os mesmos braços fortes me ergueram quando perceberam que eu não andaria. Não queria ser levada dali, só queria que me deixassem em paz. Por mim, deitaria onde seu corpo estava jogado alguns minutos atrás, usaria a mesma faca que usou e encontraria a minha mãe novamente. Só que não tinha controle de mais nada. Fui deixada na cama, como se eu também não passasse de outro corpo sem vida.

Ao meu lado estava Jim, o tigre de pelúcia que ganhei dela quando tinha quatro anos. Lembro o dia em que fiquei admirando-o na loja, implorando para que ela comprasse. Mas tudo o que respondia era: "você não pode ter tudo o que quer na vida. Nós já compramos muita coisa hoje". Sim, eu podia ter tudo o que queria. Ganhei aquele tigre assim que chegamos em casa, provando que seu coração era imenso, já que tinha comprado quando me distraí no parque.

Podia ter tudo o que eu queria. Queria que ela estivesse aqui, por que não posso ter isso também? Como ela foi capaz de fazer isso consigo mesma?

Meu celular voltou a tocar e percebi que ele agora estava no quarto, do meu lado na cama. O relógio dizia que passaram apenas seis horas do instante em que tudo mudou. Só isso? Parecia uma vida inteira.

Levantei meio cambaleante e peguei o celular insistente. Nove chamadas perdidas. Duas da Lorel, que provavelmente estava me esperando para sair. Sem muito pensar, apaguei suas ligações sem retorná-las.

As outras sete chamadas eram de um número desconhecido, que voltou a ligar enquanto verificava se havia alguma mensagem. Deveria ser o meu pai. Só poderia ser ele, já que ainda não havia aparecido para ver como eu estava. Aposto que estava lidando com todo o processo do hospital e o que mais é preciso quando isso acontece. Eu não entendia dessas coisas, o máximo que já perdi na vida foi um peixe, que pulou do aquário dois dias após ter sido colocado lá. Matou-se, exatamente como ela havia feito.

– Alo? – Atendi esperançosa.

– Er... Oi, Paloma? – Perguntou uma voz desconhecida.

– Sou eu. – Respondi, sentindo a esperança escorrer de mim pela segunda vez no dia.

Não era meu pai. Ele ainda não havia aparecido.

– Eu liguei para conversar... Você sabe. Nós combinamos, mas você não atendeu, então fiquei preocupado. Eu sei que está tarde demais, mas eu fiquei preocupado, pois você não deve ir dormir cedo, então imaginei que tivesse acontecido algo...

Parei de prestar atenção no que a voz falava alguns segundos depois de começar a gaguejar.

– Eu preciso desligar. – Respondi, cortando-o. – Desculpa. – Acrescentei, apenas por costume.

Só uma coisa conseguia ocupar a minha mente.

Saí do quarto à procura do meu pai. Eram duas da manhã e a casa estava completamente escura. Foi a primeira vez que percebi que não gostava do escuro. Não existem coisas boas nele, pelo menos não enquanto estava sozinha. Acendi a luz por cada cômodo que passei, evitando ao máximo olhar na direção do banheiro. Não sei se conseguiria entrar lá novamente.

Liguei para o celular do meu pai após perceber que seu carro não estava na garagem. Três tentativas e todas caíram na caixa postal. Sozinha, cada segundo demorava uma eternidade para passar, e eu ainda desejava que tudo aquilo fosse um sonho. Apenas um péssimo pesadelo, pois não era nada justo.

Na quarta tentativa, meu pai finalmente atendeu.

– Estou ocupado, Paloma. – Disse a voz grossa e autoritária de sempre.

– Onde você está? – Perguntei manhosa.

Neste momento, só precisava de alguém para me abraçar. Ele era a única pessoa que me restou. Minha única família.

– No trabalho. Não posso falar.

Percebi que estava para desligar, então gritei, desesperada.

– Não acredito que está no trabalho!

– E onde mais você queria que eu estivesse? – Perguntou um pouco mais baixo, mas não menos aterrorizante.

– Comigo! – Chorei. Não podia evitar as lágrimas. – Ou, ao menos, cuidando das coisas da mamãe.

– A sua mãe sabe cuidar das próprias coisas. – Respondeu, perdendo a paciência de vez e desligando o telefone.

Fiquei alguns minutos encarando o nada com o celular no ouvido, apenas escutando o 'tu tu' que insistia em tocar. Não queria ouvir aquilo, e sim a sua voz. Queria ouvir que tudo ia ficar bem. Porra! Não queria ouvir que ele não estava vindo para casa.

– Minha mãe não pode mais cuidar das próprias coisas, pai. – Murmurei, sentindo-me mais sozinha do que nunca.

Os empregados não ficavam na casa, só apareciam de tarde para fazer a faxina geral. Moravam em uma casinha construída colada na nossa, onde podiam estar à nossa disposição a qualquer momento. Eram as pessoas mais próximas de mim agora, mas não queria ser consolada por alguém que não me conhecesse a fundo.

Estava completamente e terrivelmente sozinha. Morrendo de medo do escuro e do silêncio, sentada no sofá da casa que era o último lugar que queria estar no momento. Pensei em ir para algum lugar, mas não tinha para onde ir. Lembrei da única amiga que tinha: Lorel. Mandei uma mensagem de texto para ela;

"Onde é a festa?"

Ela não demorou mais de dois minutos para responder; o tempo que levei para trocar de blusa e pegar a minha bolsa. Já estava na porta de casa quando recebi o endereço.

"Você está atrasada! Vem logo, tá bombando"

O motorista, que já estava no carro, me olhou de lado quando entrei, como se soubesse o que havia acontecido. Provavelmente sabia, quem mais teria me segurado enquanto a levavam de mime me colocado na cama? Não quero pensar. Vou esquecer, pelo menos por esta noite.

Eu sei, é tudo muito recente. Geralmente nas histórias a pessoa fica dois ou três dias de luto, mas eu não podia suportar tudo aquilo. Seis horas foram o suficiente para mim. Já tive meu luto. Na verdade, teria o luto real agora: o esquecimento. A bebida poderia ter este efeito por algumas horas.

O problema era que jamais esqueceria a minha mãe.

– Vai ficar tudo bem. – Falou o motorista, antes que saísse do carro.

– O que você quer dizer? – Assustei que tivesse se manifestado.

– Já cuidei de tudo. Seu pai... Estava indisponível. Mas vai dar tudo certo. – Repetiu por fim.

– Obrigada. – Agradeci. Ele, desconhecido, havia cuidado das coisas da minha mãe. Ele, e não o marido dela.

Desci do carro sem olhar para trás. Precisava esquecer tudo aquilo, só isso.

– Palomaaaaa. – Gritou Lorel quando me viu, bêbada.

– E aí. – Respondi, pegando o primeiro copo que vi na frente. O dono do copo virou para me xingar, mas desistiu assim que viu quem o havia roubado. Apenas piscou e saiu como se nada tivesse acontecido. Ótimo.

–Você chegou na melhor parte da festa! – Gritou novamente, tentando ser ouvida acima da música que estourava meus tímpanos.

Gesticulei que sim com a cabeça e virei o copo. Mais três vezes e todos os pensamentos permaneciam intactos. Mais três garotos que talvez tenham até se sentido importantes por terem o copo roubado por Paloma: a garota perfeita que tem tudo o que quer na vida. Ou tinha.

Estava sozinha. Lorel queria dançar e conquistar os garotos da noite, mas eu ainda não me sentia tão bêbada assim para isso. Não estava nem perto disso. Com isso, ela pegou o primeiro menino bonito que viu na frente e me deixou ali, sem se importar.

Não teria porque se importar. Afinal, ela não sabia de nada, e se dependesse de mim, continuaria assim. Ninguém precisa saber de nada.

Depois de mais cinco copos virados – contendo coisas que não conseguia identificar, mas que me ajudaram no meu propósito – agora eu também não sabia de nada. Pude finalmente dançar. Ser livre, da maneira que me senti assim que acordei e percebi que tinha dezoito anos. Livre, feliz, completa!

A sensação durou pouco demais.

Saí da festa sem me importar com onde estava indo. Apenas andei, sem rumo, sem destino. Depois de alguns minutos – ou horas – caminhando com os sapatos nas mãos, cheguei à praia. Talvez aqui seja o meu destino, afinal. Meus pés me trouxeram para cá e não fazia a menor ideia do porquê. Não tinha cabeça para isso agora, ela estava rodando demais para pensamentos tão difíceis.

Senti a areia quente nos pés, afundando-os mais ainda em busca do calor. O dia já amanhecia e minha caminhada sem rumo continuava. Foi o primeiro dia que vi o nascer do sol, e quão lindo era. O nascer de um novo dia, de uma nova vida.

A única coisa errada no belo cenário era eu. A garota destruída no meio do paraíso. Sim, o álcool não tinha mais o efeito desejado. Agora, ele só me causava dor de cabeça e sono. Muito, muito sono.

Que mal teria em ficar aqui para sempre? Ninguém ligaria. Meu pai estava no serviço, provavelmente não iria para casa. Meu celular já não tinha mais bateria. Alguém poderia me acordar mais tarde, dizendo que dormi por mais de vinte e quatro horas e que tudo não passou de um sonho.

Mesmo sabendo que isso não aconteceria, tive esperança de que o sono diminuísse a dor. Que a levasse para longe por mais algumas horas. Cada minuto que passava ali, sabendo que nunca mais veria o sorriso da minha mãe, era insuportável. Eu precisava daquelas horas de paz.

Foi assim, calma e instantaneamente, que meus olhos se fecharam, me levando ao mundo onde nada existia. Onde tudo poderia existir. Onde eu gostaria de ficar para sempre.