O Caminho Certo

Ana Martines · Capítulo 13 de 44

Páginas do PDF

O Caminho Certo

Capítulo 14 · Eles se conheciam. Pela cara de Lorel…

Eles se conheciam. Pela cara de Lorel eles se conheciam muito bem.

Agora tudo fazia sentido. O “é ele” e o desespero dela ao vê-lo. Ele era o cara que havia lhe dado o melhor sexo da vida. Havia focado toda a atenção nela, com suas mãos grandes – que eu já conhecia – e a outra coisa grande.

Na noite passada ele me deixou em casa, na minha cama, para ir comer outra garota. E esta garota tinha que ser a Lorel. Graças a isso, sabia exatamente como era a experiência de transar com ele. Uma experiência que seria minha se não tivesse fugido de seus braços naquela noite.

Ricardo parou na frente da mesa e nos encarou.

– Então, como posso servi-las? – Sorriu. Aquele sorriso de lado que me fascinava tanto. Tinha vontade de pegar a primeira faca que surgisse na minha frente e cortar o maldito sorriso da sua cara.

Idiota. Sempre foi um idiota e mais uma vez eu tinha a prova disso.

– De diversas maneiras. – Lorel usava seu tom de paquera.

Fiquei quieta, apenas alternando meu olhar entre eles. Lorel parecia encantada, entusiasmada e um pouco excitada. Já Ricardo... não consegui decifrar sua expressão... Arrependimento? Jamais, Lorel era linda demais para se arrepender.

Talvez estivesse arrependido de ter ficado com ela, já que agora ela estava no seu pé. Certamente era o tipo de cara que ficava com uma garota diferente por noite. Sem repetições. Mas Lorel também era assim, então se dariam muito bem neste quesito.

– Vão fazer algum pedido? – Perguntou, ignorando o seu tom sugestivo.

– Você está no cardápio? Eu ia adorar uma segunda dose – Falou, se inclinando para frente, mostrando o seu melhor atrativo. Sim, a garota sabia conquistar.

Nunca a vi tão atirada... Pelo menos, não sem uma bebida no organismo. Ela havia bebido? Não, acredito que não. A única opção era estar realmente determinada. E isso significa que ele é tão bom quanto havia descrito.

Claro que ele sabia o que fazia, já que pegava uma por noite. Deveria ter muita experiência.

– Não, ainda não. – Respondeu, parecendo confuso. Talvez não se lembrasse dela. Isso seria muito engraçado. Agora ficaria até o final para saber o que aconteceria.

– Vocês também fazem serviço de entrega, né? – Perguntei, encarando-o. Queria saber se ao menos se lembrava de ter me deixado em casa.

E se algo tivesse acontecido entre nós e nenhum dos dois se lembrasse?

– Na verdade, não. – Falou, alargando um pouco mais o sorriso. – Só em casos especiais.

– E quando faz... o pedido chega sem nenhum estrago? – Perguntei, sabendo que entenderia o que queria dizer.

Ele entendeu. Pela cara que fez, entendeu. Mas não me daria o gosto da vitória.

– O pedido estará em boas mãos. – Piscou.

Em ótimas mãos, pensei comigo mesma. E odiei Ricardo um pouco mais por causa da piscada. Atrevido.

Era o tipo de cara que teria uma chance comigo em uma noite e seria ignorado nas seguintes. Alto, musculoso – mas não de um jeito exagerado – com olhos azuis irresistíveis e um sorriso marcante. O tipo de cara que eu aproveitaria durante a noite toda, beijaria cada canto do rosto, dançaria o máximo possível e esfregaria na cara das garotas invejosas.

Mas também era totalmente o cara que eu deveria me manter o mais distante possível. O que não ligaria no dia seguinte, muito menos na semana seguinte. Que apareceria muitas vezes na minha vida apenas para me magoar um pouco mais – porque isso é tudo o que fez até hoje. O cara que marcaria, mas me faria questionar se foi tudo um sonho ou se realmente aconteceu.

Não estava disposta a ser uma das suas conquistas noturnas. Por mais que parecesse valer a pena, sei que me arrependeria logo depois.

– Hum, ainda estamos falando dos pedidos? Por que eu definitivamente quero fazer o meu, se ele vier em boas mãos. – Interferiu Lorel, fazendo Ricardo voltar sua atenção para ela.

– É só pedir. – Falou, olhando para as mesas que enchiam cada vez mais.

– Você poderia me passar seu telefone. – Falou Lorel, mais direta do que nunca.

Ricardo parecia esperar por este pedido, pois sua resposta foi rápida e automática.

– Não tenho celular. – Falou, desviando o olhar para o bloco de notas. Reparei que olhava para todos os cantos, menos para a nossa mesa.

– Um telefone fixo? Facebook? E-mail? – Insistiu, me deixando envergonhada por ela. Se tivesse uma placa na testa dizendo: "Estou desesperada para fazer sexo com você novamente", estaria sendo menos óbvia.

– Nada. – Negou mais uma vez. Depois de muito tempo tive vontade de rir. Realmente tive. Nunca vi a Lorel ser dispensada assim, tão diretamente... Sentia pena, mas internamente, me senti vingada por todas as vezes que fui obrigada a ouvir sobre as suas noites infinitas. Obrigada, Ricardo, te devo uma!

Na verdade, se for contar todas as vezes que ele me fez chorar. Não, não devo porra nenhuma.

Lorel voltou a ficar sem graça e o clima se tornou tenso. Ok. Agora chega de judiar da garota, né?

– Eu quero um suco de laranja. Com gelo, muito gelo e sem açúcar. – Pedi, observando enquanto anotava o meu pedido. Ao terminar, voltou sua atenção para Lorel, esperando que pedisse algo que não envolvesse seu corpo.

– Não vou querer nada. – Falou emburrada. – Não posso ficar. Foi mal, Pa, mas acabei de ver um gatinho e você sabe como é, né? A fila corre!

Com isso, se levantou da mesa, passou roçando em Ricardo e voltou para a praia em busca do tal "gatinho" que na minha opinião, era apenas uma invenção para se vingar do chute na bunda que acabou de levar. Quanta imaturidade, Lorel.

Do jeito que Ricardo parecia indiferente, seu plano não deu muito certo.

– Bela amiga que você tem. – Comentou, sentando-se onde ela estava.

– Você sabe melhor do que eu. – Reclamei.

Ele me olhou como se não entendesse o que eu quis dizer, mas não saiu do meu lado.

– Você não tem trabalho para fazer? – Perguntei, ocupando a mente com qualquer coisa que não fosse suas mãos passeando pelo meu corpo há menos de vinte quatro horas. Sem sucesso.

– Está me dispensando? – Perguntou sorrindo. Oh, aquele sorriso.

– Não tenho celular. – Falei com a voz mais grossa, tentando imitá-lo. Ele acabou rindo da minha imitação fracassada e não pude resistir a rir com ele.

Fazia tempo que não ria, mas durou pouco demais.

– Olho por olho, dente por dente, certo? – Perguntou, sorrindo.

– Depende; você tem algum amigo gostoso para ficarmos quites? – Perguntei.

O sorriso insistia em ficar em meu rosto. Era até estranho, depois de tanto tempo sem a sua presença.

– Não, não tenho. – Falou sério, indicando que a brincadeira havia acabado. Isso me fez rir mais ainda.

Agora estávamos quase quites.

– Ainda quero o suco, tá? Ou vou precisar reclamar com o gerente sobre o atendimento precário deste lugar? – Perguntei tão séria quanto ele.

Então ele se levantou e guardou o bloco de notas no bolso, parando mais uma vez na frente da mesa.

– O atendimento é sempre agradável, você só precisa merecer. – Falou.

Ok lembranças, fiquem longe de mim. Não quero lembrar o que aconteceu – ou o que não aconteceu – na noite passada.

Sentei de frente para o mar, observando-o. Talvez ainda pudesse ter o momento que tanto ansiava...

O mar estava lindo, mas cheio. Isso me deixou irritada, de certa maneira. Eram tantas pessoas observando a mesma paisagem. Tantas pessoas estragando aquele momento, que não havia como me concentrar apenas nele. Não tinha como ignorar as crianças chorando na beira da água, carregadas pelos pais, implorando para ficarem mais um pouco. Impossível não notar os casais se beijando como se não houvesse amanhã, voltando rindo depois de serem derrubados por alguma onda traiçoeira. Tantas vidas diferentes, tantos sentimentos misturados...

Não, eu precisava vir quando não tivesse tanta gente. Quando pudesse olhar para o mar e sentir apenas nós dois. Sem interferências nem distrações.

– Você sumiu. – Miguel sentou-se ao meu lado, me assustando, com um sorriso no rosto. – Desculpa, tentei te chamar antes, mas parecia em outro mundo.

Sorri para ele, sentindo o carinho que havia sentido no carro quando disse que podia contar com ele para qualquer coisa.

– Muita coisa na mente. – Falei, voltando a olhar o mar, mas concentrando a atenção na minha vida, não na dos outros.

Eu poderia estar ferrada, na pior situação possível, mas não podia deixar de viver a vida por causa disso. As palavras da minha mãe ainda corriam pela minha mente. "Tenha um objetivo em mente e corra atrás dele". Meu objetivo era ser feliz. Era? Sim, claro que era. Queria chegar o mais perto possível da felicidade.

– Sempre temos. – Concordou, observando o mar comigo. – Você não está mais indo para a faculdade.

Olhei para ele. Estava afirmando, não perguntado. Sabia que havia algo de errado, mas era gentil demais para perguntar diretamente.

– Não sei se vou mais. – Falei, sem pensar muito sobre o assunto.

Não tinha parado para pensar nisso, só sabia que não queria mais frequentar as aulas. Não queria estudar cálculos e não seria uma empresária. Queria ser alguém diferente; alguém real, pois tudo o que era antes parecia superficial demais.

Entrei no curso por causa do meu pai. Estava na hora de tomar minhas próprias decisões.

– É. Você não combina com Exatas. – Concordou.

– Por que diz isso?

– Não sei. – Falou, dando de ombros. – Apenas sinto que não combina.

Sorri. Como ele poderia saber uma coisa que nem eu sabia, sendo que nem nos conhecíamos direito?

– E você, está firme lá? – Perguntei mais uma vez querendo saber se ele não era novo demais para estar na faculdade.

– Eu só faço uma aula lá porque meu tio é amigo do professor. Vou tentar entrar no ano que vem. – Falou, respondendo minhas dúvidas.

– Você não estuda?

– Preciso ajudar o Ricardo aqui. – Falou como se fosse simples. Ele precisava ajudar porque precisavam do dinheiro. Uma coisa que nunca precisei batalhar para ter.

– Entendi.

– E você, o que vai fazer agora que não vai mais para a faculdade? – Perguntou curioso. Será que ele era sempre assim?

– Não sei, Miguel. Não faço a menor ideia. – Suspirei, sendo o mais sincera possível. Não sabia o que faria com a minha vida a partir de hoje.

Tudo mudou há uma semana, mas só hoje resolvi que minha vida não se resumiria à cama e banheiro. Estava tudo tão fácil, mas precisava seguir os conselhos da minha mãe e fazer algo útil.

– Por que não arranja um trabalho? – Perguntou inocente.

Tive vontade de rir mais uma vez.

– Sou rica, Miguel – falei naturalmente. Todos sabiam disso. – Não preciso trabalhar.

Ele ficou pensativo por um tempo, mas logo falou o que tinha na mente.

– O dinheiro que você tem não é seu, é? – perguntou e, sem esperar pela resposta, continuou. – Imagino que não. Você deveria fazer algo para conquistar as suas próprias coisas.

Suas palavras me surpreenderam. Não havia pensado sobre isso... Mas ele tinha completa razão. Nada do que tinha era meu.

– O suco tão esperado para a cliente mais exigente do quiosque. – Interrompeu Ricardo, me impedindo de pensar mais sobre o que havia acabado de ouvir.

Virei no banquinho, de frente para a mesa e observei o suco com mais de cinco pedras de gelo boiando no copo. Ótimo.

– Obrigada. – Falei, experimentando-o.

– Miguel, precisamos de você nas mesas. – Falou, saindo sem olhar para mim.

Miguel assentiu e se levantou, ajeitando a camisa.

– Foi bom te ver novamente, Paloma. – Falou com um sorriso adorável no rosto.

– Digo o mesmo, Miguel. Vou tentar não sumir mais. – Sorri de volta, querendo cumprir o que havia dito.

Ele assentiu uma última vez e se foi.

É suco, somos apenas nós dessa vez. Observei as pedras de gelo boiando no copo como se não decidissem se queriam ficar dentro da água ou não. Elas conseguiam o meio termo. Será que eu também conseguiria?

Eu sequer sabia quais eram as minhas opções. Não sabia o que queria para a vida ou o que faria com a mesma. Estava mais perdida do que nunca e desejei ter um muro para subir. Quando você está em cima do muro, tem dois lados para cair. Duas opções para seguir, logo ali, na sua frente, te esperando para tomar a decisão. No momento, me sentia enterrada junto com minha mãe e não tinha para onde ir; a saída não era visível.

Precisava achar uma lanterna e me virar no escuro. Encontrar a saída e chegar próxima ao muro. Isso era apenas o começo.