O Caminho Certo
Capítulo 26 · Os dias passaram mais depressa do que…
Os dias passaram mais depressa do que pensei que seria possível.
Ricardo continuava o mesmo garoto atrevido e garanhão de sempre. A cada momento estava conversando com uma menina diferente e posso jurar que o vi pegando vários telefones. Por qual outro motivo teria o celular em mãos enquanto atendia as mesas?
Queria poder dizer que não me importava, mas não seria verdade. Não deveria me importar. Ele que tivesse os seus encontros, se é assim que chamava aquelas noites quentes. Conhecesse quem quisesse, ficasse com quem bem entendesse e largasse do meu pé. No entanto, não queria que largasse do meu pé.
Minha vontade era de colocar o pé na frente das garotas que apareciam por lá apenas para paquerá-lo, fazendo-as passar um vexame enorme e nunca mais voltarem. Mas também morria de vontade de chegar nelas e avisar que não deveriam se aproximar. Que ele era aproveitador, metido e que duraria apenas uma noite. Jamais ligaria no dia seguinte, nem na semana seguinte ou sei lá quando.
Mas teria que deixar de fora a parte que, da sua maneira, se importava. Cuidava de quem precisava. Que era lindo de camisa e muito mais sem ela... E, é claro, jamais mencionaria saber que a noite ao seu lado seria inesquecível, mesmo nunca tendo vivenciado essa experiência. Ainda.
Ainda? Não existe ainda. As vadiazinhas que descobrissem isso, pois não quero saber se é verdade ou não. Não quero saber nada além do que já sei. A cada dia que passava ao seu lado, conhecia um pouco melhor seu jeito duro e irresistível. Ricardo faz de tudo para me irritar quando está de bom humor, e ainda mais quando eu não estou. Ele olha ternamente quando percebe que estou machucada, é um cara preocupado com o irmão mais do que qualquer coisa no mundo... e sorri. Ele simplesmente sorri. É neste instante que meu mundo desaba.
Eu estava há uma semana dormindo na sua cama. Nos primeiros dias ele dormiu na sala, mas ouvia seus passos pela casa durante a noite inteira, o que me impedia de dormir também. Não queria atrapalhá-lo, mesmo sabendo que já fazia. E sempre que tocava no assunto de ir embora, de deixá-lo em paz, dizia que não me deixaria ir. Não queria obedecê-lo, mas a maneira como falava... Fazia com que eu ficasse quieta e aceitasse a sua maravilhosa decisão.
Na terceira noite que deitei na cama, ouvindo os mesmos sons que ouvia toda noite – TV ligada, TV desligada; Banheiro; TV Ligada... – me surpreendi quando surgiu um barulho inédito: a porta do quarto sendo aberta. Virada para a parede não conseguia enxergar o que estava acontecendo, mas não me mexi. Fingi que dormia como um anjo enquanto sentia seu olhar em mim.
Agradeci por estar com o edredom cobrindo a metade de baixo do corpo. A de cima estava com a sua blusa que havia definitivamente virado meu pijama. Não sei se conseguiria dormir sem aquele tecido macio me envolvendo.
Subitamente, o edredom se moveu e um peso extra foi adicionado à cama. Ele estava se deitando comigo. Ou, melhor dizendo, havia pirado de vez! Se viesse com a desculpa de que gritei em meus sonhos novamente, ia se arrepen...
Perdi completamente a linha de raciocínio quando senti seu corpo me encoxando, sua mão na minha cintura roçando levemente até me abraçar por trás. Tudo o que queria era virar para trás e aproveitar o momento. Sentir melhor o seu corpo que provavelmente estava coberto apenas com uma cueca Boxer.
Oh Deus, onde estavam as minhas forças quando mais precisava delas?
A tentativa de fingir que dormia foi por água abaixo. Meu corpo tornou-se rígido pelo contato inesperado, por mais que a sensação fosse divina. O que mais ele seria capaz de fazer? Ou melhor... Que intenções tinha ao deitar-se comigo?
– Sei que está acordada. – Sussurrou com a voz lindamente rouca. Conseguia imaginar seus olhos tornando-se mais profundos, mais sedutores. Mesmo que já soubesse, queria continuar fingindo. Só assim poderia me fazer de besta no dia seguinte e falar que não sabia de nada.
Ricardo então desceu a mão da minha cintura para a coxa, deixando-a ali por um momento e fazendo o caminho de volta em seguida. Repetiu o movimento algumas vezes, me deixando louca com o seu toque. Havia sentido quão arrepiada me deixara... Impossível não sentir. De qualquer maneira só queria continuar fingindo que não estava ali. Assim, a culpa será completamente dele na manhã seguinte.
– Não consigo dormir fora da minha cama, então vai ter que dividi-la comigo. – Sussurrou mais uma vez, tirando meu cabelo do rosto e deixando o meu pescoço livre.
Livre para passear com a sua boca. Mais uma vez apenas a boca. Sem dentes, sem línguas, sem beijos... Apenas aqueles lábios macios, capazes de me deixar ainda mais arrepiada. Ainda mais ansiosa para o que viria em seguida.
Foi difícil conter o suspiro.
– Mas não sei se a cama é o verdadeiro motivo de ter ficado acordado todas as noites. – Disse tão próximo do meu ouvido que consegui ouvir a sua respiração. – Acho que o problema é o corpo que tem ocupado o meu lugar nesses dias.
Ele esperava por uma reação. Qualquer reação. Se me virasse e o chutasse da cama, sairia com um sorriso safado no rosto, gabando-se por ter me prendido por tanto tempo. Se me aconchegasse mais nele, sentindo melhor aquele volume na minha coxa, ele não pensaria duas vezes antes de ir mais fundo. Não hesitaria em me prender de vez.
De qualquer maneira, era eu quem sairia perdendo. Perderia ele se seguisse a primeira opção e perderia minha virgindade se seguisse a segunda. No momento, não queria nenhuma das duas coisas, então apenas me fingi de morta. Sim, morta, pois ninguém conseguiria dormir ouvindo uma voz tão sensual falar aquelas coisas.
– Se não me quiser aqui é só falar, Paloma. – Sussurrou, e foi mais difícil ainda conter o suspiro. Nunca haviam pronunciado o meu nome de maneira tão sexy, tão desejosa... Chegava a ser vulgar o modo como dizia um simples nome.
Tudo o que precisava fazer era falar. Um simples "não" bastaria. Ele entenderia e sairia do quarto, mas eu não queria que ele saísse. Este nunca pareceu tão confortável como estava naquele momento. Nunca havia me sentido tão em casa quanto me sentia com seus braços ao meu redor.
A indecisão ficou e quando percebi, já era tarde demais para voltar atrás.
– Que bom que não quer que eu vá. – Falou, beijando meu pescoço e se aconchegando melhor na cama. – Eu sei que desejou isso todas as noites.
Sim, Ricardo, havia desejado seu corpo mais do que apenas nessas noites.
Perdi um bom tempo sentindo cada pedaço das nossas peles que se encontravam. Quando percebi, sua respiração tornara-se regular, calma. Já estava dormindo. Tomei a melhor decisão, certo? Ele dormiu com o corpo colado ao meu... Mas pelo menos dormiu. Era melhor do que se tivesse ido embora.
Esta foi uma das noites mais calmas – e perfeitas – da minha vida.
No dia seguinte fingimos que nada havia acontecido. Quando acordei, ele não estava mais no quarto. O que me deixou aliviada e irritada ao mesmo tempo. Evitou a conversa constrangedora que teríamos quando despertássemos juntos... Mas me fez sentir como uma das suas garotas, aquelas que não mereciam uma ligação no dia seguinte. No meu caso, não merecia um bom dia na cama.
Isso se repetiu pelas próximas noites. Ele simplesmente entrava no quarto quando ficava tarde, garantindo que Miguel estivesse dormindo – pois sabia que eu nunca estava – e deitava na cama, puxando o meu corpo para si. Não falava nada... Apenas me dava um beijo no ombro ou no cabelo e relaxava enquanto me abraçava. No dia seguinte nada havia acontecido.
Tinha me acostumado tão bem com seu corpo na cama que só conseguia pegar no sono quando ouvia a sua respiração pesada atrás de mim. Não sabia o que faria quando tivesse que ir embora.
Ou melhor, quando chegasse à noite de hoje. A noite de sábado, mais conhecida como a noite das suas conquistas. Ontem Miguel dormiu com Marina, então ele ficou em casa, preocupado que algo acontecesse comigo – por mais que insistisse no fato de que sabia me virar sozinha.
Tenho certeza que ele só ficou porque Miguel pediu, já que permaneceu emburrado o tempo inteiro e não deitou na cama comigo. Esperei por horas e ele simplesmente não apareceu. Era por isso que hoje estava com uma olheira enorme na cara.
No entanto, sabia que esta noite não seria igual. Miguel me avisara sobre algumas noites serem complicadas... E, por complicadas, entendi perfeitamente que Ricardo trazia as suas conquistas para casa. Para a sua cama. A cama onde dormimos juntos por três noites seguidas.
Tentei não pensar muito no assunto. Não foi tão difícil já que me concentrei em limpar a casa. Ou, melhor, não quebra-la. Lavar a louça estava se tornando uma tarefa não tão impossível, mas guardar os copos ainda era arriscado demais para fazer sem cem por cento de concentração. Por mais que odiasse as tarefas domésticas, me serviam como uma ótima distração.
Só parei quando o relógio marcou seis horas. Miguel estava na sala assistindo TV enquanto Ricardo continuava trancado no quarto.
– Tem certeza que não quer vir dormir com a gente? – Perguntou pela milésima vez. Ia dormir de novo na casa da amiga e insistiu que eu não ficasse sozinha aquela noite.
Por que ninguém entendia que eu já sabia me virar sozinha?
– Tenho. – Falei, indo para o banheiro. – Deixe de tanta preocupação.
– Não tem como não me preocupar. – Falou, levantando-se do sofá e andando até onde eu estava.
– Eu sei, garoto. – Falei, sorrindo. – Mas é besteira.
– Não diga que é besteira.
– Você está sendo paranoico, isso sim.
– Paloma, você não sabe o que é isso... As coisas podem ficar bem feias por aqui. – Falou, indicando a porta do quarto do Ricardo, que não estava muito longe de onde conversávamos.
Sorri para ele tentando confortá-lo e, ao mesmo tempo, querendo que toda aquela confiança de que daria tudo certo servisse para mim também.
– Miguel, você se lembra da segunda vez em que nos vimos? – Perguntei.
– Na aula de Integral? – Perguntou confuso.
É claro que havia me visto primeiro. Naquela época não sabia quão bem um garoto excluído na sala poderia me fazer. Que idiota que era.
– Não... A segunda vez que eu te vi. – Disse, rindo.
Ele sabia que não o notava antes de tudo acontecer, mas também sabia que muitas coisas haviam mudado.
– Sim, estava bêbada e desmaiada na praia.
– Exatamente. Sabe por quê? – Perguntei, esperando que percebesse onde eu queria chegar.
– Porque sua mãe havia morrido? – Perguntou confuso, mas cauteloso com a resposta.
Ignorei a dor que surgiu no peito ao ouvir a sua frase. A dor estava sempre presente, mas em alguns momentos era mais fácil ignorá-la do que outros.
– Também. – Respondi. – Mas o fato é que aquela não foi a primeira vez que bebi a noite inteira. Eu saía todo fim de semana, cada dia com um garoto diferente... Conheço a realidade do seu irmão e posso garantir que não há nada nela que me surpreenda.
– Eu não... Só não consigo te imaginar assim, Paloma. – Falou, preocupado da mesma maneira. Meu doce e amável Miguel.
– Isso é porque você vê o bem em todo mundo. – Sorri. – Não sou a garota meiga que pensa que sou.
– Sim, você é. – Afirmou com tanta certeza que até senti um pouco que sim, era. – Vejo você como realmente é e tenho medo que os acontecimentos nessa casa te corrompam.
Ri ao ouvir a sua frase, mas não deixei de abraçá-lo, tamanha a preocupação que sentia em seu olhar.
– Não vai acontecer nada, Miguel. Não serei corrompida.
Ele me abraçou de volta, mas logo se afastou para me olhar nos olhos.
– Promete que me liga se precisar de algo? Qualquer coisa?
– Prometo. – Sorri, confortando-o.
– Melhor assim. – Disse, voltando para o sofá.
Quando estava prestes a abrir a porta do banheiro e tomar o tão esperado banho, chamou a minha atenção novamente.
– Por que deixou de sair nos finais de semana? – Perguntou.
Nunca havia me perguntado isso. Na verdade, só não havia saído neste fim de semana, mas não tinha a menor vontade disso. Elaborei uma resposta curta e mentirosa e, antes que pudesse soltá-la, seu celular tocou.
– A Marina está aqui. – Falou, levantando-se. – Você prometeu, hein? – Falou, antes de sair.
Assenti, assistindo enquanto saía pela porta em poucos segundos.
Durante o banho a resposta verdadeira chegou até mim: não saía mais porque não queria esquecer. No começo ia para as baladas com Lorel para encontrar algo que não sabia o que era... E nem sabia que procurava. Algum vazio dentro de mim que nunca era preenchido, mas era tão superficial que não percebia isso. Era feliz e pronto.
Depois da morte da minha mãe, só saía para beber e para esquecer toda a dor que havia dentro de mim. Esquecer que perdi a mãe, o pai, a família inteira. Esquecer que estava sozinha e que, na verdade, sempre estive. Esquecer que desperdicei a vida inteira olhando apenas para o meu nariz enquanto a minha mãe sofria calada até não aguentar mais.
Hoje fico em casa porque não quero esquecer. Quero ter consciência de quem fui e quem eu sou. Saber o que realmente importa. Não quero esquecer meus erros e pecados... eles precisam ser lembrados para que sejam sentidos e concertados. No fundo, sei que mereço sentir a dor todos os dias, mas também sei que preciso superá-la. E esquecer não é o melhor caminho.
O vazio ainda existe. A sensação de que algo está faltando... Só não o sinto quando Ricardo está por perto. Quando passa os braços ao meu redor na cama ou sorri para mim. Qualquer sorriso... até aquele silencioso. Aquele que não chega até a sua boca, mas que é transmitido pelo olhar, dizendo que tudo vai ficar bem. Ele faz com que me esqueça do vazio... Tampá-lo? Não. Esquecê-lo e, neste caso, o esquecimento é a única coisa viável.
Ainda no banho, escuto Ricardo bater na porta duas vezes antes de abri-la.
– Idiota! – Grito, tampando o máximo que posso do corpo com as mãos, mesmo sabendo que o Box é fosco e que tudo o que vê é a minha silhueta.
– Vai ficar aí o dia inteiro? – Perguntou ríspido.
– Já estou saindo. – Respondi, irritada pelo seu tom de voz e atrevimento.
– É. Eu também. – Falou e fechou a porta novamente.
Fechei o chuveiro e no mesmo momento outra porta foi fechada. Ele se foi. Esta é a melhor parte. Agora só me resta rezar e esperar ele não trazer nenhuma garota para casa. Por mais que diga a mim mesma que estou preparada, sei que não é verdade. Sei que jamais estarei.