O Caminho Certo

Ana Martines · Capítulo 40 de 44

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O Caminho Certo

Capítulo 42 · Ricardo

– Tem certeza disso? – Perguntei mais uma vez, esperando que a resposta

fosse diferente das anteriores.

– Mano, já falei que sim. Nunca tive tanta certeza em toda a minha vida. – Respondeu ele com um sorriso esperançoso no rosto.

Estávamos entrando no aeroporto com as malas nas mãos e um medo enorme no coração. O que será de Miguel quando estiver longe daqui? Ou melhor, o que será de mim quando ele não estiver mais aqui? Afinal, nunca passei mais de dois dias longe dele... Não fazia a menor ideia de como seria daqui para frente.

Meu único instinto era fazê-lo desistir da viagem.

Parei em sua frente, assustado por estarmos tão longe. Se fosse desistir, precisava ser agora.

– Está com dinheiro?

– Sim.

– O suficiente?

– Mais do que isso.

– Onde vai morar?

– Vou encontrar a minha namorada, depois eu penso nisso.

– E se não encontrá-la?

– Vou encontrar.

Percebendo que nada do que eu falava estava funcionando, resolvi usar a última arma:

– E a Marina?

– O que tem? – Perguntou ele finalmente prestando atenção em nossa conversa.

– Como ela vai ficar?

– Nós já conversamos. Ela não queria que eu fosse, pois não acredita que vai valer a pena.

– Ela está certa. – Jamais me imaginei concordando com aquela pirralha.

– Não, não está. Mas já resolvemos isso.

Isso significava que eles haviam brigado.

– Você vai embora sem se despedir?

– Já saquei a sua intenção e não vai funcionar, irmão. – Sorriu vitorioso. – Estou indo atrás da minha felicidade e faço o que for para consegui-la. Se ela não me apoia... Isso só significa que não era minha amiga de verdade.

Ri quando ouvi Miguel reclamando da amizade.

– Não, não era, porque na verdade ela é apaixonada por você, assim como você é por ela. – Falei uma frase que eu estava acostumado a usar anos atrás, mas que desejei que tivesse um efeito melhor neste momento.

– Você está se intrometendo na minha vida amorosa porque a sua está um fracasso. Não adianta tentar me convencer a ficar, mano... Daqui a pouco meu voo sai, nós temos apenas... – Miguel parou para olhar o relógio no seu pulso e quando voltou a me olhar, seus olhos estavam arregalados. – Um minuto para ir embora. Preciso ir!

Queria segurar seu braço e impedir que fosse, fazê-lo se atrasar e deixá-lo de castigo em casa pelo resto da vida, mas quando vi já era tarde demais. Ele estava correndo para onde entraria no avião, longe demais... Cada vez mais longe, sem nem se despedir.

Quando pensei em ir embora, sabendo que era o melhor naquele momento, Miguel virou para mim com um sorriso no rosto e gritou, sem parar de correr:

– Corra atrás da sua felicidade! – E sumiu até eu perder meu irmão de vista, pois além do aeroporto ser grande, estava lotado.

Esta foi a despedida que nós tivemos. "corra atrás da sua felicidade" foi a última coisa que ele me disse. Era exatamente o que ele estava fazendo naquele exato momento ... Literalmente. Valeria a pena? Se Miguel acreditava tanto nisto, por que eu não era capaz de acreditar?

Mais do que nunca, eu estava sozinho. Começou a escurecer no caminho para casa, e tudo o que eu queria era deitar na cama e lamentar a minha vida.

Até que um caminhão apareceu em minha e do lado onde ele não deveria estar, aproximando-se cada vez mais. Usei todos os reflexos possíveis para jogar o carro para o lado, entrando com tudo no mato que havia dos dois lados da pista, enquanto o caminhão bêbado passava raspando na traseira do carro, seguindo a sua viagem maluca.

Tudo isso aconteceu em poucos segundos. Pouquíssimos. Mas pareceram horas... Tudo em câmera lenta. Cada pensamento, cada imagem do que poderia ter acontecido... Enquanto apoiava a cabeça no volante para tentar normalizar a respiração, me dei conta da única imagem que tive na mente durante todo o acidente: Paloma.

Paloma sorrindo, se divertindo em casa em nossas tardes de domingo. Paloma me observando, pensando que não estava sendo vista, por mais tempo do que o necessário. Paloma transmitindo todo o seu amor em apenas um olhar, me fazendo querer abraçá-la por toda a eternidade. Paloma gemendo o meu nome, suada enquanto lhe dava todo prazer que conseguia. E, por fim, Paloma chorando. Chorando por todas as perdas que já teve e deixando cair todas as lágrimas que eu queria impedir de qualquer jeito que surgissem.

Mais uma vez, me perguntei o que estaria fazendo neste momento. E se algo acontecesse com ela e comigo alguns momentos atrás? Pensar nisso me fez perceber que realmente fiz a maior burrada da vida ao deixá-la ir embora. Perto, ela poderia sofrer um acidente. Mas longe, poderia sofrer esse mesmo acidente e morrer sem saber o quanto eu a amava e a desejava só para mim.

A três palavras há muito tempo não ditas surgiram na minha boca, junto com uma vontade enorme de soltá-las. O mais alto possível e para todo mundo ouvir. Mas precisava dizer para a pessoa que mais importava. Para aquela que me fez pensar no amor novamente.

"Estou sentindo a sua falta... Mais do que pode imaginar. Não sei como está a sua vida, mas estou louco para saber. Quero saber tudo sobre você. Vamos nos encontrar?". Enviei a mensagem depois de pensar mil vezes sobre isso e fazer mais alterações do que poderia contar. Não podia ser sentimental demais... E se estivesse feliz com outra pessoa? Não estragaria isso, mas também não podia guardar meus sentimentos. Queria demonstrar tudo o que sentia por ela, seja por mensagem, por telefone ou pessoalmente. Eu só queria que ela soubesse...

Meia hora depois, não recebi resposta nenhuma. Eu continuava com o carro fora da pista, sem me importar com nada... Só queria ter alguma notícia ou resposta. Minha ansiedade fez com que eu ligasse para ela.

Tocou uma vez e meu coração perdeu uma batida. Tocou a segunda vez e a esperança de que atendesse neste momento foi enorme. Tocou a terceira, a quarta, a quinta e, enquanto o tempo passava, a esperança se esvaía do meu corpo. Ela não me atenderia, tinha partido para outra e não queria mais saber de mim. Quando eu já estava pronto para desligar, parei assim que ouvi a sua voz.

"Aqui é a Paloma... Você já deve saber disso. Se for importante, ligue de novo. Não vou ficar ouvindo mensagem nenhuma. Se não for importante, não deveria nem ter ligado. Se não estou te atendendo é porque não quero falar com você ou não estou com o celular em mãos. Ah, e se você for meu pai... Bem, ouvirá muitas vezes essa mensagem." Logo em seguida veio o sinal para deixar a mensagem e com isso desliguei. Estava com ela quando gravou isto e sabia que não faria diferença nenhuma falar alguma coisa... Ela nunca ouviria.

Depois de mais cinco tentativas fracassadas, achei o número do Fernando salvo em meus contatos. Como estava salvo ali? Paloma havia ligado alguma vez do meu celular para ele? Foda-se. O importante é que agora tinha um meio de contato com a garota que me ignorava com o meu coração nas mãos.

O telefone tocou mais cinco vezes e me xinguei por ter tido mais esperanças à toa. Até ouvir a voz do Fernando do outro lado da linha.

– Alô? – Atendeu.

– Fernando? – Perguntei, temendo ser a pessoa errada. Mas tudo indicava que não era... Era a mesma voz do homem bravo que me deu uma dura quando fui à sua casa, mas que sempre esteve ao lado de Paloma.

– Quem está falando? – Perguntou, desconfiado.

– Sou eu, Ricardo. – Suspirei, aliviado por estar no caminho certo.

– Me dê um bom motivo para não desligar neste exato momento, garoto. – Sua voz se tornou ríspida quando soube com quem conversava. Ótimo.

– Eu... Eu preciso falar com a Paloma. – Já esperava ouvir o som do telefone sendo desligado.

– Então ligue para ela.

– Ela não me atende!

– Isso é um sinal, não é? – Falou irônico.

– Fernando, por favor, você precisa me deixar falar com ela! – Implorei.

– Ela é minha menina, e veio para casa muito machucada por sua causa. O que te faz pensar que deixaria que você a encontrasse?

Respirei fundo antes de me declarar para a pessoa errada, mas sabendo que era necessário.

– Eu a amo. Amo mais do que tudo e estou completamente arrependido do que fiz. Eu a amo, Fernando. – Exclamei mais uma vez, adorando a sensação das palavras em minha boca. – Você precisa me deixar falar isto para ela.

Ele demorou a responder, tanto que pensei que havia desligado na minha cara, mas o celular mostrava que a chamada ainda estava ativa.

– Ela não está atendendo ao telefone. – Falou depois de muito tempo.

– Oi?

– Liguei para ela, criança. Ela não me atende também. Você vai ter que vir aqui e falar pessoalmente.

– Eu... Eu... – Pela primeira vez, fiquei sem palavras. Queria ser capaz de me teleportar para onde ela estava neste exato momento. Só de pensar que veria o seu sorriso em vez de só ouvir sua voz... – Sim. Eu vou. – Falei, por fim.

– Anote o endereço. – Falou, enquanto passava o endereço da sua casa em uma cidade a quatro horas de distância. Três, contando que já estava na pista.

– Não sei como te agradecer. – Respondi quando terminou de me passar o endereço.

– Faça ela feliz. Isso é tudo. – E desligou em seguida, enquanto eu já tirava o carro do acostamento e voltava para a pista com apenas um destino em mente: a minha felicidade.

Estava correndo atrás da felicidade e se soubesse que a sensação seria tão boa, teria feito isto há muito tempo. De qualquer maneira, havia chegado a hora de me redimir com a garota dos meus sonhos. Estava na hora de mostrar o quanto me arrependi de tudo o que fiz e o quanto queria ficar ao seu lado.

Para a vida inteira.

Capítulo 43

Ricardo

Foi as três horas mais demoradas da minha vida. Quatro na verdade, pois

precisei parar numa loja específica antes de ir para o destino final. No entanto, esta última hora valeu a pena e só deixou a ansiedade aumentar, o que fez com que o tempo demorasse mais a passar. Como se fosse possível.

Quando finalmente encontrei a casa que Fernando descreveu, pude jurar que todas as pessoas daquele quarteirão ouviam as batidas do meu coração de tão altas e rápidas que estavam. Parado na frente da sua porta, eu repassei tudo o que vim ensaiando durante a viagem. Tudo o que precisava dizer a ela. Não podia esquecer nada, mas algumas coisas começavam a sumir da minha mente. Coisas importantes...

A única coisa que eu não esqueceria era a frase que mais queria lhe falar: as três palavrinhas mágicas. Fazia tanto tempo que não lhe falava as mesmas...

E se ela não me perdoasse? E se estivesse com outro homem? E se... Não. Sem pensamentos negativos. Tocaria a campainha, ela abriria a porta e me abraçaria no mesmo instante, sentindo tanta falta quanto eu e tudo ficará bem. O final feliz que toda história romântica merece.

Depois de apertar a campainha inúmeras vezes e não receber nenhuma resposta, eu me dei conta de que a vida não era uma história romântica e muito menos a minha. Seria muito fácil se ela estivesse em casa e tudo acontecesse como planejei, não? Fácil demais. E se não existisse final feliz?

Decidi então tocar campainha da casa ao lado, a do Fernando. Ele deveria saber onde ela estava... Ou pelo menos me deixaria entrar para esperá-la. Afinal, eu não sairia dali sem ver o seu sorriso, seus olhos brilhantes e seu corpo sedutor, nem se tivesse que esperar a vida inteira. Estaria ali por ela.

– Está de brincadeira comigo. – Soltei, andando de um lado para o outro depois de quase quebrar a campainha de tanto apertá-la, pois eu continuava sem respostas.

A rua parecia morta, iluminada apenas por alguns postes de luz que não estavam queimados. Onde eles estariam numa hora dessas? Ou melhor, onde a minha Paloma estaria? Na casa de outra pessoa, soltando suspiros que deveriam ser só meus?

– Onde está a Paloma? – Perguntei assim que Fernando atendeu o seu celular, sem controlar minha raiva.

– Com quem você pensa que está falando, menino? – Respondeu calmo.

Foda-se a minha educação. Tudo o que importava era descobrir onde ela estava. E, mais ainda, saber que este lugar não era a cama de outro homem.

– Estou na frente da sua casa. Onde ela está? – Perguntei novamente.

– Eu não sei. Não estou em casa.

– Isso eu já percebi. – A raiva crescia cada vez mais.

– Já tentou tocar a campainha da casa dela? – Perguntou, com toda paciência do mundo.

Uma paciência que queria para mim neste momento.

– Não, Fernando. Eu estou te ligando para que venha aqui e toque para mim, pois estou com medo de levar um choque. – Usei o melhor tom de ironia que pude, querendo desligar o telefone na sua cara já que a conversa não levava a lugar algum.

– Escuta aqui, não sou obrigado a ouvir isso. – Falou seriamente.

Limpei o suor que escorria pela testa enquanto esperava que falasse algo útil. Minhas pernas não conseguiam ficar paradas e, se andasse um pouco mais, cavaria um buraco no chão com a força dos meus passos. E tudo isso não levava a nada.

– Fernando, eu só quero saber onde ela está. – Falei, tentando me acalmar, mas soando muito mais desesperado.

– Ela continua sem me atender... Nesse horário geralmente está em casa. Fique aí enquanto vou procurá-la na praia. Se tiver algum sinal, te ligo.

– Não vou fic... – Queria falar que não ficaria ali esperando nem fudendo, mas ele desligou na minha cara antes que pudesse completar a frase.

Se ele pensa que eu ficaria encarando a porta, esperando que fosse aberta por algum poder do além, ou que Paloma aparecesse com seu novo namorado em um carro três vezes mais caro que o meu... Não me conhecia nem um pouco. Queria encontrar Paloma e faria isto.

Tateei pela porta e embaixo do tapete à procura de uma chave reserva, torcendo para que a sorte estivesse do meu lado pelo menos dessa vez. Só desta vez, é tudo o que peço.

Não sabia a quem agradecer quando encontrei a chave desejada na planta ao lado da porta, enterrada. Seria um sinal de que tudo daria certo e de que só precisava ser um pouco mais persistente? Seja o que for, não parei para pensar a respeito. Entrei na casa escura e fechei a porta atrás de mim, em busca de alguma pista de onde ela poderia estar.

Poderia ser acusado de invasão domiciliar e ir para a cadeia por fazer isto... Mas nada importava. Sabia que, quando encontrasse Paloma, ela riria da história do seu sumiço, contando que foi apenas mais um mal entendido. Assim como foi com Miguel. Este pensamento me deixava mais calmo, com um pingo a mais de esperança.

No final daria tudo certo.

Acreditei perfeitamente quando abri uma das portas do corredor e encontrei um quarto com a luz acessa, decorado apenas com uma escrivaninha, onde estava seu celular, um computador, um guarda-roupa e uma cama, onde seu corpo descansava como se estivesse em um sono profundo.

Tudo estava dando certo.

Todo o peso foi retirado das minhas costas quando entrei no quarto e fechei a porta. Senti a raiva se esvaindo do meu corpo ao pensar que não, não estava na cama com outro cara. Não estava sumida... Só havia dormido. Só isso.

No entanto, quão profundamente uma pessoa precisa dormir para não ouvir o celular tocando ou a campainha da casa?

Talvez nem tudo desse certo.

Dei uma olhada ao redor do quarto, evitando movimentos bruscos para que não a acordasse, mesmo sabendo que não acordaria, já que não havia feito antes. Seu computador estava fechado e em cima dele havia uma folha branca dobrada, com apenas uma palavra escrita na parte de cima.

Um nome. O meu nome. Em sua perfeita caligrafia, meu nome estava escrito naquele papel branco como se fosse um bilhete especialmente para mim. O que estava acontecendo?

Antes de abrir o bilhete, reparei que em cima da escrivaninha também havia dois potes de comprimidos, daqueles manipulados que não permitem que um desconhecido saiba a substância. Um estava vazio, e o outro com pouquíssimas cápsulas dentro.

Nada daria certo.

Como um quebra-cabeça, tudo se encaixou ao mesmo tempo em que meu mundo desmoronou de verdade. A dor que pensei ser insuportável não chegava aos pés da que tomou conta do meu coração quando percebi o que realmente havia acontecido. Como pude ser tão inocente e esperançoso?

O corpo de Paloma não descansava profundamente, mas sim eternamente, largado no meio da cama. Os comprimidos estavam revirados, os potes abertos, sem identificação... A carta.

A carta na minha mão parecia pegar fogo. A carta escrita especialmente para mim... A carta que a sua mãe escreveu para ela antes de morrer... Na verdade, durante a sua vida inteira. Paloma não poderia ter feito o mesmo, certo?

Bem lá no fundo ainda existia um pingo de esperança de que tudo ficaria bem. De que era apenas mais um mal entendido. Não... Não podia ser o que estava pensando. Qual a probabilidade de um homem perder para o suicídio, as duas mulheres que mais amou na vida? Nenhuma. Zero. Tinha que ser zero.

Respirei fundo e abri a carta, rezando para ser de amor que enviaria assim que acordasse. Uma carta dizendo que me perdoava e que sentia a minha falta. Apenas isso.

Por favor, Deus, que seja apenas isso.