O Caminho Certo
Capítulo 24 · Nunca me senti tão frustrada em toda…
Nunca me senti tão frustrada em toda a minha vida. Havia dormido com apenas uma blusa que encontrei do Ricardo e a minha
calcinha. Precisava urgentemente de roupas novas, já que só tinha o vestido preto da noite anterior. Não foi de todo mal dormir com uma blusa que já esteve naquele corpo sedutor... Poderia até adotá-la como meu novo pijama. Mas, quando a vesti, jamais imaginei que acordaria com seu dono enroscado em mim.
O calor do quarto me despertou. Meu corpo suado, a pele grudando na dele e... na dele? Havia um corpo ao meu lado, ou melhor, embaixo de mim. Minha perna estava em cima da sua coxa e podia sentir o tecido da cueca com o joelho.
Antes de abrir os olhos aproveitei um pouco mais o carinho que recebia. Já sabia que o corpo pertencia ao Ricardo e que a mão subindo até o meu rosto era a mesma que eu havia curado mais cedo. A mesma capaz de me arrepiar com apenas um toque.
Não sabia se estava realmente acordada. Sabe quando você sonha com algo e acorda no meio do sonho achando que foi tudo real? Que aconteceu de verdade? Como quando acordava depois de sonhar que estava tomando sorvete e sentia o gelado na boca. Era assim que me sentia agora. Sentia as carícias dele, sua respiração próxima e seu peito nu.
Mas quando estamos em um sonho, abrimos os olhos e percebemos que nada foi real. Não foi isso que aconteceu. Abri calmamente e, de certa maneira, me senti feliz por ele continuar ali. Não era um sonho, realmente havia dormido com ele usando apenas uma cueca. Estava ali me encarando como se fosse sua inspiração. Ou seu desejo.
Foi então que percebi que ele estava ali. Tipo, de verdade.
Tentei me livrar o mais rápido possível do seu corpo quente. Era isto que me causava tanto calor! Isto e o sol entrando pela janela. Aproveitei a mão em seu peito para empurrá-lo, o que só fez com que fosse jogada para trás. Não consegui movê-lo, mas pelo menos consegui a distância que precisava.
Este era o motivo da minha frustração. Enquanto tomava banho, com raiva por ter sido abusada daquela maneira, não conseguia pensar em outra forma de descrever o que sentia. Frustração por não ter acordado no momento em que se deitou na cama. Por não lembrar o sonho que falou que estava tendo. Por não aproveitar as horas em que ficamos juntos na mesma cama e, acima de tudo, por querer ter aproveitado.
Nunca estive na cama com outro garoto. Não sabia se me sentiria daquela maneira com todos, mas quando senti seu corpo no meu soube que poderia ficar assim para sempre. E ele era o último garoto com quem deveria me deitar na mesma cama.
Saí do banheiro com a toalha enrolada no corpo. Não queria colocar o mesmo vestido da festa para ir trabalhar, mas não poderia sair de casa vestindo apenas a toalha. Teria que arranjar um jeito.
Entrei no quarto do Ricardo e o encontrei de volta à cama, da mesma maneira que estava da outra vez: os braços acima da cabeça, os olhos azuis colados em mim e o sorriso safado no rosto. O sorriso que se tornou ainda mais obsceno ao ver como eu estava vestida.
Parei na porta segurando firme a toalha para que nenhum acidente acontecesse.
– O que está fazendo aqui? – Perguntei, sem ânimo para iniciar mais uma briga.
– É o meu quarto – Respondeu, sorrindo largamente.
– Preciso me trocar. – Falei, indicando a porta e saindo da frente para que pudesse sair.
Ele não moveu um dedo sequer. Apenas me olhou de cima em baixo, capturando tudo que a pequena toalha deixava de fora.
– Sinta-se à vontade. – Falou, sem sair do lugar.
Estava de brincadeira comigo, né?
– Você não vai ficar aqui enquanto eu me troco!
– Me obrigue – Falou, piscando.
Não era obrigada a aguentar aquilo. Saí bufando do quarto, direto para o do Miguel, torcendo para ele não ter chegado.
Quando entrei, o quarto estava escuro. Ótimo. Acendi a luz e notei que o quarto dele era muito parecido com o do irmão, apenas a cama diferenciava os dois cômodos. Esta era de solteiro e não havia um cara atraente e atrevido em cima. Muito melhor.
Sentei na cama sem saber o que faria. Colocar o vestido estava fora de cogitação. Colocar uma roupa dos garotos também não daria. Não com o corpo forte que tinham... A calça não pararia em mim nem com um cinto.
Então lembrei o tutorial que vi no Youtube alguns anos atrás quando estava cansada das roupas de sempre e as lojas não traziam nenhuma novidade. Tudo o que precisava era de uma camisa social masculina e teria o vestido perfeito!
Levantei com esperança de sair decente da casa e abri o guarda-roupa à procura da blusa perfeita. Dez minutos depois, as esperanças escorriam por mim assim como os últimos pingos do cabelo lavado. Miguel não tinha nenhuma blusa que não fosse de bandas, seriados, jogos. Nada social. Nem próximo do social. Nada para salvar a minha vida.
Ótimo, só tinha uma opção e envolvia pedir um favor ao Ricardo.
Ontem foi maravilhoso ao seu lado. Parecia outro cara... desde o momento em que chegou em casa e mandou que cuidasse dele até o jogo de truco, onde rimos e trocamos olhares confidentes. Transformou-se em um cara agradável, fácil de lidar. Hoje era completamente o oposto.
Rezando para que não soltasse nada obsceno ou tocasse no assunto da nossa noite juntos, saí do quarto e abri a porta do dele, sem esperar por um convite. Não era assim que ele fazia?
Continuava deitado na cama como alguns minutos atrás. Quando me viu um sorriso triunfal surgiu em seu rosto como se já soubesse que ia voltar pedindo ajuda. Idiota.
Engoli o orgulho e fiz a melhor cara de carente que conseguia.
– Preciso de uma blusa sua. – Falei, esperando que minha expressão o deixasse com compaixão.
– Gostou de dormir com a outra? – Seu sorriso se alargou.
– Odiei. – Resmunguei, mentindo. Havia amado.
– Tenho certeza que sim. – Ironizou.
– Vai me emprestar uma blusa ou não?
– O que fará com ela? – Perguntou, já sabendo a resposta, pois a maldita toalha continuava enrolada em meu corpo.
– O que quer que eu diga? – Perguntei, suspirando.
– Se prometer que não fará nenhuma macumba com ela, eu posso pensar em te emprestar.
– Pelo visto não preciso de macumba nenhuma para fazer você dormir comigo. – Soltei.
Ele sorriu largamente como se concordasse comigo e levantou para pegar a blusa. Ótimo.
– Que blusa precisa?
– Alguma social de manga longa. – Falei, tentando ver as opções através do seu ombro, mas seu corpo impedia que visse mais do que o começo dos cabides.
Ele estendeu uma camisa social branca de manga longa, da maneira que tinha imaginado. Peguei da sua mão, evitando que pensasse melhor ou resolvesse fazer mais alguma gracinha. Estava para sair do quarto quando fiz uma das piores perguntas da minha vida.
– Ricardo... – Comecei, sem saber como perguntar, mas querendo saber a resposta. Resolvi ser direta. – Aconteceu algo entre nós esta noite?
Ele pareceu surpreso, até dar risada. Riu de uma maneira que se estivéssemos dentro de um desenho animado estaria jogado no chão enquanto chacoalhava os braços.
Não devia ter perguntado nada. Deveria ter mantido a maldita curiosidade comigo, deixado que me seguisse para o resto da vida ou ido até um ginecologista e pedido para ver se meu hímen continuava intacto. Qualquer coisa era melhor do que ouvi-lo rindo de mim.
Muito tempo depois, se acalmou e chegou mais perto. Perto demais, garoto. Perto demais. Dei um passo para trás, mas trombei com a lateral da porta. Se tivesse dado um passo para o lado poderia sair correndo, mas agora estava com o corpo contra a parede e o dele se aproximava cada vez mais.
Seus olhos queimavam os meus. Não havia um sinal da diversão que estava vivendo alguns segundos atrás. De repente até o ar do ambiente pareceu mudar, tornando-se mais pesado, mais... sensual. Infelizmente, sensual era a palavra certa.
Quando estava a menos de um centímetro, Ricardo segurou na minha nuca, prendendo algumas mechas do cabelo entre os seus dedos e fez com que erguesse a cabeça para olhá-lo. Meu corpo já estava completamente arrepiado e mais uma vez implorava por mais. Apenas mais.
– Minha doce e mimada Paloma... – Falou, sorrindo de lado.
Não consegui me mover. Nem para mais perto, nem mais longe. Havia me prendido com o olhar e ali permaneceria até o feitiço ser quebrado. No momento, não desejava estar em outro lugar que não fosse com sua mão puxando levemente meu cabelo daquela maneira tão experiente. Parecia que estava tocando minhas outras partes, quando tudo o que fazia era segurar a minha nuca.
– Se tivéssemos transado, você jamais se esqueceria. – Continuou com a voz rouca. Com a boca no meu pescoço, fez o trajeto do ombro até a minha orelha com os lábios. Apenas os seus lábios e eu já estava suspirando.
– Jamais esqueceria a melhor noite da sua vida. – Completou, puxando levemente o lóbulo da minha orelha, o que me fez erguer a mão para que se aproximasse ainda mais. Para que me desse mais.
Mas saiu do meu alcance antes que pudesse tocá-lo. Abri os olhos, que até então não tinha percebido que estavam fechados, e o encontrei há mais de meio metro de distância. O sorriso em seu rosto indicava que estava satisfeito por saber do que era capaz de causar em mim... E apenas continuei encostada na parede com a respiração irregular.
– Então a resposta é que não, não transamos. – Falou, aproximando-se mais uma vez, mas passou reto pela porta e entrou no banheiro sem olhar para trás.
Ele conseguiu me deixar suspirando com apenas alguns sussurros e toques inocentes. Ok, de inocente aqueles toques não tinham nada. Mas esse efeito não era novidade, era? Meu corpo estava mais do que ciente da atração que sentia por ele.
Era tudo uma questão de saber fazer. E o desgraçado sabia melhor do que qualquer um, enquanto eu era apenas uma boba que nunca transou.
Irritada, tranquei a porta do quarto e coloquei sua blusa no corpo. Não queria colocar a mesma calcinha, então fucei nas suas gavetas e coloquei uma cueca, também branca. Não me importei nem um pouco com o que ele acharia disso.
Meia hora depois estava pronta. O vestido ficou como me lembrava, e não estava curto demais para trabalhar. Já apareci por lá com roupas menores. Sentei na sala e esperei por Ricardo com a bolsa na mão, pronta para o trabalho e, de lá, seguiria o meu rumo.
– Vamos, estamos atrasados. – Saiu do quarto depressa, o cabelo ainda molhado do banho.
– Estou pronta faz tempo. – Me defendi.
– É, mas se arrumou no meu quarto, onde estavam as minhas roupas... – Falou.
– Poderia ter se trocado antes, quando insistiu em ficar no quarto que eu queria me trocar. – Disse, indignada.
– E eu sabia que você demoraria tanto para criar essa roupa aí? – Falou, apontando para a sua camisa enrolada no meu corpo.
– Não demorei por causa disso. Demorei porque precisava encontrar essa outra peça – falei, erguendo o vestido e mostrando a cueca que usava. – Até que deu certo. – Sorri, observando sua reação.
E esta foi fantástica. Melhor do que esperava. Seus olhos se arregalaram ao ver que estava com a sua roupa íntima, e outra coisa também aumentou. É claro que reparei em tudo.
– Você está fudendo comigo, garota. – Suspirou.
Queria responder que não, que ele que deveria fazer isso... Mas não podia.
– Não estávamos atrasados? – Perguntei, inocentemente.
– Cacete.
Saiu bufando pela porta do apartamento e o segui, aguardando enquanto trancava tudo.
– E o Miguel, não vai com a gente? – perguntei enquanto seguíamos para a praia no seu carro.
– Não, ele vai direto da casa da Marina. – Respondeu frustrado. Ainda?
Droga! Eu precisava me sentir tão mal por deixa-lo frustrado?
– Me desculpe. – Falei a contragosto, sentindo que era a coisa certa.
– Pelo que está se desculpando? – Perguntou, me olhando de lado.
– Por ter te provocado daquele jeito.
O sorriso que tanto amava surgiu em seu rosto novamente.
– Você me provoca sem nem perceber, Paloma.
Fiquei vermelha com o seu comentário e preferi deixar o assunto de lado.
– Não precisa se desculpar por isso. – Acrescentou.
No fundo, esperava mais do que isso. Queria que tivesse olhado nos meus olhos e pedido desculpas também, por ser tão... tão ele. Ou que, pelo menos, aceitasse as minhas desculpas. Mas não, ele tinha que ignorar.
Decidida a deixar o assunto de lado, olhei para o trajeto que estava fazendo. Não estávamos indo em direção à praia...
– Onde está me levando? – Perguntei, vendo as casas ficarem cada vez mais chiques, reconhecendo o caminho que seguíamos.
– Estamos chegando. – Respondeu.
Quando percebi o que fazia, não consegui conter a minha surpresa. E indignação.
– Você está me levando para casa! Por que está fazendo isso? Ricardo, eu não quero ir para casa – Ficava mais desesperada quanto mais se aproximava do portão de casa. O portão que não queria ver nunca mais. – Pare o carro! Pare a droga do carro! – Gritei.
Cada vez mais perto. Mais perto.
Sabia que havia sido ingrata e mal agradecida quando fiquei na sua casa, mas jamais esperei que se vingasse daquela maneira! Jogando-me nas mãos do inimigo como se fosse uma das garotas que ele nem ligava no dia seguinte.
– Não consigo acreditar nisso! Pare este carro, não quero entrar lá. Não quero ver ele. Ricardo me escuta! Não pode fazer isso comigo. Não é justo! – Gritei com lágrimas nos olhos, enquanto o carro era estacionado na frente da porta de casa.
Ele finalmente me deu atenção e quando olhei, parecia chocado. Até um pouco desesperado, mas não tanto quanto eu. Quanto mais pensava que teria que viver novamente sob o mesmo teto que aquele homem, mais queria abrir a porta e sair correndo sem me importar com nada. Só queria estar longe dali.
– Calma, calma, Paloma. Calma! – Falou, segurando meu queixo, fazendo com que olhasse nos seus olhos.
Não queria que me olhasse daquela maneira que parecia enxergar minha alma. Não queria que lesse meus pensamentos; afinal eles eram escuros demais para deixar alguém entrar. Levantei a cabeça sem conseguir lutar contra sua mão, mas mantive os olhos fechados, as lágrimas caindo sem parar.
– Cacete! Você nunca me deixa explicar! – Falou desesperado. – Paloma, deixe as suas fantasias de lado por um segundo e escute a verdade. Pare de imaginar o pior!
Respirei fundo, tentando fazer o que mandou. Sem sucesso. Não tinha como pensar em outra coisa. Deveria me achar burra demais se achava que não descobriria o motivo de estarmos ali no instante que visse a casa.
– Não vou te deixar aí, ok? Dá para parar de chorar? Não sei o que fazer quando chora assim! – Parecia estar no limite e nunca o vi dessa maneira. Quando abri os olhos, parecia perdido em pensamentos com uma feição de súplica que me fez manter os olhos abertos e ouvir o que tinha para falar.
Ao perceber que eu finalmente prestava atenção, virou-se para mim, olhando nos meus olhos como se quisesse que absorvesse cada palavra dita.
– Não vou te deixar aí. Não sei que monstro você pensa que sou, mas jamais te deixaria na mesma casa que este homem. Estamos aqui para pegar suas coisas. Só isso, está entendendo? – Esperou que eu assentisse; o que foi difícil já que mantinha a pressão no meu queixo. – Nós vamos entrar em sua casa, pegar algumas roupas e o que mais você precisar e sair. Tá bom?
Dessa vez foi mais fácil respirar fundo e me acalmar. Ricardo esperou pacientemente enquanto secava as lágrimas e absorvia a nova realidade: não estava sendo abandonada. Na verdade, tudo o que fazia era me ajudar mais uma vez. E mais uma vez estraguei tudo com o meu jeito desesperado.
– Está melhor? – Perguntou.
– Sim, estou. Desculpe. – Falei, envergonhada.
– Não precisa se desculpar. – Disse, abrindo a porta do carro e se apressando para abrir a minha.
Enquanto saía do carro, observando cada detalhe da casa onde morei a maior parte da vida, Ricardo manteve a porta aberta.
– Você deveria saber que não vou deixar que saia tão cedo de casa. – Disse, sorrindo de lado.
No fundo, estava feliz com a notícia. A última coisa que queria era sair da sua casa.