O Caminho Certo

Ana Martines · Capítulo 4 de 44

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O Caminho Certo

Capítulo 4 · Quando finalmente fui colocada no chão –…

Quando finalmente fui colocada no chão – isso se ser jogada como um saco de

batata pode ser considerado assim – me esforcei para ficar em pé, passei as mãos nos olhos e finalmente consegui abri-los para encarar o meu sequestrador.

Dei de cara com o peito definido que eu estava apoiada alguns segundos atrás. Sim, era realmente definido. Não que eu nunca tenha tocado em um desses antes, mas este era extremamente convidativo. Subi o olhar por seu maravilhoso corpo, até encontrar a sua carranca me encarando.

Simples assim, toda a raiva voltou.

– Quem você pensa que é para fazer isso? Quem te deu esse direito? Seu abusado, eu vou te denunciar! – Gritei, apontando o dedo na sua cara. Nunca fui de arranjar briga, mas tudo vinha com muito fervor. Não pude me controlar.

– Você deveria me agradecer! – Falou com a voz rouca. Percebi que estava de cara com o dono daquela voz que tinha ouvido em meu – quase – sonho. Grande coisa, não adiantava ser absurdamente lindo, se era tão idiota e abusado.

– Agradecendo pelo que? Por ter me pegado no colo sem mais nem menos? Desculpa aí, senhor "corpo perfeito todas querem ser pegas por mim", eu não sou uma dessas! – Fiz aspas no ar enquanto falava, usando meu melhor tom irônico.

Ele apenas me encarou com uma expressão entre a raiva e o choque. Não dava para definir enquanto me olhava com aqueles olhos tão azuis.

Pude ver pelo canto do olho que Miguel estava se aproximando, mas o homem na minha frente fez um sinal para não se envolver. Ok, ele achava que poderia lidar com isso, que eu era apenas uma mocinha indefesa que poderia ser moldada por qualquer um, mas o fato é que não sabia o quão enganado estava.

– Vai ficar calado? Seu idiota, sem noção! Não pedi para ser tirada de lá.

Aos poucos as pessoas foram nos cercando como se esperassem alguma briga. Não me importava com isso, só não conseguia mais segurar as palavras dentro da boca.

– Você me tirou um momento especial, para quê? Para me pegar no colo? Ou agora é proibido entrar no mar? A praia é pública, eu entro no mar na hora que eu quiser. Se quiser entrar lá e nunca mais sair, problema meu! – Falei, sentindo as lágrimas indesejadas escorrerem pelo meu rosto. – Posso fazer o que eu quiser, ninguém manda em mim.

Seu rosto se contorceu com as palavras, finalmente mostrando alguma reação ao meu escândalo.

– Você é apenas uma garota mimada que não sabe de nada. Eu te salvei e você deveria me agradecer.

Agora quem estava estática era eu. Ele havia se aproximado com o olhar raivoso, me fazendo erguer a cabeça para manter o contato entre nossos olhos. Tentava me intimidar, mas tudo o que eu conseguia sentir era raiva. Não desviaria o olhar, não demonstraria qualquer fraqueza.

– Mimada? – Esbravejei depois de alguns segundos de choque, enquanto me aproximava ainda mais. Não me intimidava. – Mimada é a sua mãe que não soube te educar! Você não me salvou de nada, você só fez o que queria, na hora que queria. Não preciso ser salva! – Ressaltei a última frase, abrindo os braços com indignação.

– Mimada. – Repetiu, sem se alterar. – Você não sabe o que é perder alguém. Sua mãe jamais teria orgulho do que estava fazendo.

Ele tinha conseguido me ferir ainda mais. Minha mãe não estava mais aqui para sentir orgulho de mim. Eu sabia perfeitamente como era perder alguém. Queria não saber... Mas sabia.

Ele não tinha direito nenhum de abrir ainda mais a ferida.

Sem pensar, ergui a mão e lhe dei um tapa com o máximo de força que consegui reunir. Seu rosto virou para o lado com o impacto e, quando voltou a me olhar, tudo o que seus olhos demonstravam era surpresa.

Achei que o tapa aliviaria um pouco a minha raiva, como naqueles filmes com lutadores, mas nada havia mudado.

– Você não sabe nada sobre mim, e não tem o direito de falar do que não sabe. Cale a porra da sua boca! – Gritei por fim.

Nunca fui de xingar e muito menos de brigar, chorar e tampouco me arrepender de meus atos. Entretanto, tudo era novo para mim neste momento. Por que tudo não poderia voltar como era antes?

Sem esperar pela reação do cara, saí da praia o mais rápido possível, pisando com força na areia. A cada passo que dava um pouco da raiva era substituída pela dor. Não queria que aquilo acontecesse, pois sentir raiva era muito melhor.

Quando estava na rua tentando encontrar o caminho de casa, Miguel me alcançou.

– Ei, desculpa por isso, Paloma. – Parecia realmente arrependido. – Ele é assim às vezes, não liga não.

– Não tem que se desculpar por ele. – Respondi, ainda olhando para a rua. Precisava encontrar algum táxi.

– Alguém precisa fazer. – Falou tão baixo que achei que ouvia coisas.

– Você conhece aquele rapaz? – Perguntei com a minha curiosidade falando mais alto do que o bom senso.

– Conheço. É o Ricardo, meu irmão mais velho. – Esclareceu.

Ricardo? Contra todas as minhas vontades, percebi o quão bom seu nome soava em meus pensamentos. Ricardo.

– Ah. Ele tem muita coisa para aprender com você, então. – Falei, querendo ofender aquele idiota de todas as maneiras possíveis.

– Ele tem os seus motivos. – Respondeu, mas com um tom que dizia claramente que Miguel não discordava de mim em momento nenhum. Melhor assim.

Quando percebeu que eu não falaria mais nada, se aproximou, chamando minha atenção.

– Está indo para a sua casa?

Fiz que sim com a cabeça, avistando um táxi há duas quadras de onde estava. Ergui o braço para pegar minha bolsa, mas ela não estava lá. Que ótimo, eu tinha perdido a bolsa também, com carteira, agenda, maquiagem! Era o fim.

– Quer uma carona? – Perguntou, me assustando. Por um segundo, havia me esquecido da sua presença. A única coisa que importava era que estava perdendo tudo o que amava. Tudo.

Sobre a carona... Não podia aceitar, certo? Não podia lhe dar mais esperanças de ficar comigo. Já havia dado muita bola para aquele garoto.

No entanto, não encontrei outra saída. Nem o meu celular estava comigo.

Quando olhei para ele, senti que estava mais solto, mais à vontade. O mais relaxado que já ficou ao meu redor. Isso tinha que ser um bom sinal, não?

– Se não for te incomodar. Você tem que trabalhar... – Tentei ser educada. Mas, no fundo, esperava que não desistisse.

– Que nada. Vamos lá. – Sorriu, andando até alguns carros estacionados na calçada e parou perto de um simples Gol preto. Acho que o carro mais simples que já entrei.

Agradeci quando abriu a porta pra mim e esperei que entrasse, pensando apenas em acabar logo com aquilo. Sentia que estava lhe dando esperanças demais, e ter esperanças não era bom. Eu odiava ter esperanças.

– Miguel... – Comecei depois de algum tempo em silêncio no carro, enquanto ele dirigia para o endereço que passei. Não tinha certeza se deveria continuar.

Ele me olhou de lado, voltando sua atenção para o trânsito. Precisava falar logo, mas as palavras não saíam. Estava tão machucada, que estranhei até mesmo o quanto me importava por ferir alguém. Ele jamais sentiria metade da dor que estou sentindo, só por ser rejeitado por mim.

– Não quero te iludir. – Soltei, fechando os olhos em seguida. Continuei sem saber o porquê daquele sentimento. – Não sou garota para você. Não vou ficar com você. Estou adorando a atenção que está me dando... Na verdade, é a única que tenho no momento. Mas isso não muda nada. Eu não... Não sou boa.

Miguel me olhou surpreso, até que seus olhos mudaram para algo estranho e sua boca se comprimiu como se tivesse segurando uma risada. Por que riria em um momento desses?

Foi quando tirou a carteira do bolso que minha ficha caiu. Com uma mão ainda no volante, abriu-a e me entregou uma foto. Uma foto dele com uma garota que parecia ser um pouco mais nova do que ele, mas muito bonita.

– Esta é a minha namorada. Está fazendo intercâmbio e hoje faz dois meses que não nos vemos. Você é incrível, mas já sou comprometido. – Respondeu como se fosse a melhor explicação para tudo; a solução de todos os problemas.

E realmente era. Mas muitas perguntas ainda gritavam em minha mente.

– Então por que você se aproximou de mim? E por que fica tão nervoso perto de mim?

– Eu te acho linda, não tem como não achar. – Sorriu, ficando com o rosto vermelho novamente. – Me aproximei porque era o seu aniversário. Queria te conhecer.

– Está dizendo que em nenhum momento pensou em trair a sua namorada? – Perguntei, encarando-o.

Ele riu. Uma risada gostosa e verdadeira. Queria rir também, só não era mais capaz disso.

– Isso aí. Só queria te conhecer, saber como era a garota por trás da fachada de famosinha da universidade. – Sorriu.

– E... – Instiguei-o a continuar. Queria saber mais. O que havia descoberto?

– Foi bom conversar um pouco com você, por mais que agora pareça diferente. – Me olhou nos olhos, mas logo voltou a olhar para a rua, se aproximando de casa. – Até que você me abraçou.

Isso não explicava nada.

– E daí? – Perguntei, sentindo-me perdida. O que um abraço poderia revelar?

– E daí que você provou que sempre estive certo. Você não é nada como aquela garota que observei.

Não sei por que, mas meus olhos se encheram de lágrimas. Malditas lágrimas.

– Você está errado. – Falei, tentando me conter.

De súbito, ele parou o carro na frente de casa e colocou a mão na minha bochecha, acariciando-a.

– Não, não estou. Não precisa chorar.

Abaixei a cabeça, fugindo do seu olhar que parecia me conhecer melhor do que eu mesma.

– Não se preocupe. Estou passando por muita coisa, só isso. – Tentei explicar. – Essa Paloma que você está vendo não é a verdadeira. A verdadeira está de férias por uns dias, mas logo estará de volta.

– Não deixe que ela volte. – Disse olhando no fundo dos meus olhos.

Suas palavras transformaram a minha brincadeira em uma coisa muito séria. Parecia que realmente queria dizer aquilo, mesmo não sabendo nada sobre mim.

Ou sabia?

Seja o que for, não merecia a sua preocupação. Talvez fosse isso... Talvez nunca tenha merecido aquela vida, então a coisa que mais amava foi tirada de mim. Nunca dei valor ao que tinha, tampouco agradeci e jamais senti dor alguma em minha vida. Porra, não tinha nenhuma cicatriz na pele! Talvez por isso toda aquela dor precisa ser sentida, então ela veio de uma vez só.

Ainda assim, não era nada justo.

Miguel ainda me encarava como se quisesse me convencer de algo. Mal sabia que nada do que dissesse poderia mudar algo.

– Obrigada pela carona. – Agradeci, segurando a maçaneta.

– Paloma – chamou, me fazendo virar para ele. – Não sei o que aconteceu com você, mas sei que é algo muito grave. Você está horrível. – Riu, tentando me fazer sorrir. Foi quase, Miguel. Foi quase.

Encarei-o, esperando que tivesse algo mais para falar. Ele tinha.

– Eu sei que nos falamos pela primeira vez ontem e nem foi uma conversa. – Riu novamente. Percebi que o que mais fazia era rir e queria que fosse contagiante. – Mas me sinto mal, pois eu me preocupo com você.

Petrifiquei ao ouvir suas últimas palavras. Ninguém se preocupava comigo. Não mais.

– Eu... Só quero dizer que você pode contar comigo. – Continuou ele, um pouco mais tímido. – Eu conheço a dor. Se você precisar de qualquer coisa, me liga. Qualquer coisa.

Mais uma vez, as malditas lágrimas vieram. Precisava começar a andar com lenços grudados nos olhos para impedir que elas caíssem o tempo todo.

Ele havia me emocionado com suas palavras. E ainda mais com seu olhar, que dizia que realmente se importava comigo e que estava ali para qualquer coisa. Mas eu não podia aceitar isso. Não podia deixar alguém entrar assim na minha vida sem mais nem menos, prometendo deixar tudo nos eixos. Tudo normal.

Nada mais será normal e ninguém pode mudar isso.

– Obrigada, Miguel. – Respondi, sem deixar que suas palavras me tocassem. Peguei a maçaneta e saí do carro o mais rápido que pude, sem olhar para trás.

Não precisava de ajuda. Se precisasse, poderia contar com meu pai.

Ainda tinha esperanças de que ele aparecesse e me abraçasse dizendo que iria cuidar de mim. Que agora éramos somente nós dois contra o mundo. Tinha esperança que a perda fizesse com que ele mudasse e se tornasse mais presente.

Entrei na casa sem reparar em nada. Só queria me sentir um pouco reconfortada por alguém que realmente me conhecia. No entanto, a única capaz de fazer isso era a mamãe, mas ela não estava mais aqui.

Entrei no seu quarto disposta a abraçar o travesseiro que provavelmente ainda continha o seu doce cheiro e dormir. Mesmo com a roupa toda molhada da água do mar, o cabelo começando a ficar duro e um gosto horrível na boca, tudo o que queria fazer era dormir.

Mas percebi que não seria possível naquela hora. Sentado na cama, de costas para mim, estava meu pai. Finalmente havia aparecido.