O Caminho Certo
Capítulo 21 · Passei meia hora só andando pela casa.…
Passei meia hora só andando pela casa. Provavelmente dei mais de cinquenta
voltas, já que era minúscula e parecia menor a cada passo que dava. Miguel não estava em lugar algum, e Ricardo não voltava nunca. Sentia-me cada vez mais encurralada, presa em um lugar onde não pertencia.
Não poderia sair de lá. E se algo acontecesse com o Ricardo? Ele pediu para que esperasse por ele. Se bem que aquilo poderia ser considerado uma ordem, não um pedido... De qualquer maneira, ficaria e esperaria por notícias.
Mais meia hora e nada.
Sentei no sofá, cansada de andar de um lado para o outro e de não ter nada para fazer. Poderia lavar a louça acumulada, mas nunca havia feito isso, não arriscaria quebrar algo por ali. Poderia dormir, mas sono era a última coisa que tinha. Quanto mais esperava, mais o silêncio tornava-se insuportável, e o tempo demorou para passar.
Pulei do sofá quando ouvi o som do meu celular tocando, alto demais para quem ficou meia hora em puro silêncio.
– Alô? – Atendi.
– Paloma? – Perguntou Fernando do outro lado da linha.
Fiquei aliviada por ouvir uma voz familiar. Amada, de certo modo. Sentia uma esperança extra de que tudo daria certo, de que nada havia acontecido...
– Oi Fernando. – Falei, voltando para o sofá que não parecia mais tão desconfortável.
– Onde você está? Por que não voltou para casa? – Perguntou, preocupado.
– Eu... – Ponderei se contaria ou não a verdade. – Não quero voltar para casa, Fernando. – Admiti.
– O que aconteceu, criança?
Ouvir o carinho em sua voz era tudo o que eu precisava para desabafar. Contei o que havia acontecido na noite anterior, mais uma vez sem conseguir segurar as lágrimas.
Fernando ouviu cada palavra, cada sentimento. Além das lágrimas, a dor de cabeça também estava presente. Havia se tornado uma nova constante na minha vida. A da ressaca misturada com a do choro. Tudo para tornar o meu interior mais insuportável.
– Vem para casa, vou cuidar de você. – Falou quando terminei de desabafar.
– Não posso, Fernando. Não quero vê-lo novamente. – Disse me referindo ao monstro que um dia chamei de pai. – Ele saberá onde estou se for morar com você.
– Então o que pretende fazer? – Ele pareceu entender meu desejo.
– Não faço a menor ideia. – Suspirei, xingando-me por ter passado uma hora sem fazer nada e não ter encontrado nenhuma solução para o meu mais novo problema.
– Você sabe que pode contar comigo para o que precisar, não sabe? – Perguntou, carinhosamente. Era como se estivesse ali me confortando.
– Eu sei, Fernando. Obrigada. – Agradeci, sabendo que as palavras não chegavam nem perto do que merecia por tudo o que havia feito até hoje por mim.
– Quero o seu bem, menina.
Tentei engolir as lágrimas que ameaçavam cair. Desta vez eram lágrimas diferentes, de emoção. Tristes, em certa parte, mas a maior parte era de agradecimento.
– Vou ficar bem. – Falei, confortando a ele e a mim. Precisava acreditar nisso.
– Eu sei que vai.
Neste momento, outro telefone começou a tocar, e não fazia a menor ideia de onde vinha o barulho. Olhei ao redor da sala, identificando o telefone fixo e percebendo que estava apagado. O som não vinha dele.
– Fernando, eu preciso desligar. – Falei, me levantando para achar o responsável pelo som irritante.
– Mande notícias, ok? – Pediu antes de se despedir.
– Você também. – Me despedi.
Joguei o celular no sofá e corri para a cozinha, de onde parecia vir o som. E realmente era de lá. O interfone estava tocando e, por mais que tenha me sentido um tanto intrusa ao atendê-lo, não pude ignorá-lo.
– Alô? – Atendi confusa. Era assim que se atendia um interfone?
– Miguel? – Perguntou uma voz masculina.
– Ele não está.
– A senhora é do apartamento 102?
A pergunta me pegou desprevenida. Não fazia a menor ideia do número do apartamento, mas se o cara havia perguntado pelo Miguel, tinha que ter ligado no certo, né?
– Acho que sim.
– Vou precisar de uma ajuda aqui em baixo, senhora. – Falou, desligando na minha cara. Ouvi o som da chamada desligada, sem saber o que fazer.
Quem precisava da minha ajuda?
Abri a porta do apartamento que, maravilhosamente, estava destrancada e desci correndo as escadas. Não havia elevador no prédio, então tive que descer o mais depressa possível os lances que mesmo sabendo serem poucos, pareciam infinitos. Meus pés descalços ficaram machucados, mas a ansiedade era maior do que qualquer dor.
Quando cheguei à portaria não encontrei ninguém. Ótimo, havia sido um trote. Eles realmente fazem isso nos prédios? Queria xingar o responsável por aquilo, fazê-lo pagar. Talvez o síndico... Ele poderia punir esses moleques que ficam infernizando a vida dos outros, não poderia?
Quando virei para subir as escadas notei um movimento no banco do outro lado do salão da entrada. Olhei atentamente e vi que havia duas figuras: um homem com uma blusa social e calça jeans, e um cara sem camisa, segurando algo vermelho na testa.
O cara sem camisa tinha a mesma tatuagem que Ricardo.
Corri até onde estavam, esperando pelo pior. Um pensamento pior que o outro. Agora entendia o que a minha mãe queria dizer quando se referia a ter uma mente de escritora e criativa. Mesmo não sendo uma, minha mente foi capaz de criar imagens horríveis. O que a dela havia criado?
Quanto mais me aproximava, mais captava alguns pedaços da conversa dos dois.
– Estou bem, Geraldo. Já disse que estou bem. – Falou, ainda escondendo o rosto com o pano vermelho, que percebi ser sua camisa repleta de sangue.
O porteiro ergueu a cabeça quando me viu aproximando e levantou, aliviado.
– Oh, que bom que a senhora apareceu. Ele apareceu assim, todo machucado.
Pelo visto não era a única pessoa desesperada ali.
– O que aconteceu? – Perguntei, querendo ver melhor o rosto que continuava escondido.
Ao ouvir minha voz, Ricardo levantou a cabeça, revelando um olho tornando-se roxo, uma boca cortada e o causador de tanto sangue na camisa: um corte que começava na sobrancelha e ia até a bochecha, desviando do outro olho que parecia um pouco melhor.
Levei uma mão à boca, chocada com a imagem, com vontade de chorar pela dor que deveria estar sentindo e, ao mesmo tempo, desejando matar o responsável por aquele dano. Mas naquele momento nada importava. Precisava se cuidar.
– Oh meu Deus! Você precisa ir para o hospital, Ricardo! – Falei com desespero, me aproximando.
– Não preciso de hospital nenhum. Só de alguns curativos. – Teimou.
– Curativos? Você está todo machucado, com um corte enorme! Como acha que um curativo pode resolver? – Minha voz tornava-se cada vez mais alta.
Ele levantou com um pouco de dificuldade e se aproximou de mim, olhando em meus olhos. Seu olho roxo começava a inchar e algo me dizia que ia ficar muito pior do que já estava.
– Paloma, sei do que estou falando. Não preciso ir para porra nenhuma de hospital!
Olhei para o porteiro que segurava um telefone, preparado para ligar para a emergência, a polícia ou qualquer um que pudesse ajudar. Pois é, também me sentia assim, mas decidi confiar na palavra de Ricardo, por mais que parecesse loucura.
– Vamos subir então. – Falei, contra todos os instintos. Por mim, estaria deitado numa maca pronto para receber os devidos cuidados. Mas não, queria fazer tudo do seu jeito. Que seja.
Virei de costas esperando que me seguisse, mas assim que deu o primeiro passo uma careta de dor surgiu em seu rosto.
– Você não está em condições de andar. – Falei, encarando-o, querendo que aceitasse a bronca e fosse para o hospital.
– Só preciso de apoio. Vem cá. – Ele teimou mais uma vez, se aproximando e apoiando o braço no meu ombro.
Resmunguei por ter perdido a batalha. Ele conseguia ser mais teimoso que eu. Só queria vê-lo bem. O mais rápido possível. Ficar discutindo lá em baixo não ajudava em nada.
Passei o braço por sua cintura, evitando apertá-lo muito para não machucá-lo mais, e auxiliei a sua demorada subida até o terceiro andar, onde ficava o apartamento.
Abri a porta enquanto sustentava um pouco do seu peso e puxei uma cadeira da cozinha para perto assim que entramos. Ricardo sentou sem objetar. Apenas voltou a camisa manchada para o corte.
Fechei a porta e parei na sua frente. Retirei a camisa da sua mão, tentando controlar o desespero ao ver tanto sangue, lembrando-me da última vez que havia visto sangue... Da vez que mudou completamente a minha vida.
Coloquei estes pensamentos no fundo da mente e me concentrei em achar um jeito de ajudá-lo.
– Tem um kit de emergência na primeira porta do meu guarda-roupa. Tá dentro de uma caixa azul. – Falou, me olhando intensamente.
Certo, já era um começo. Corri para o quarto, abrindo todas as portas do guarda-roupa. Disse que estava na primeira, mas não falou qual era esta! Aquilo estava uma bagunça, com roupas jogadas, caixas empilhadas...
Abri a primeira que encontrei na frente e me arrependi no mesmo instante.
Era uma caixa cheia de camisinhas. Claro, a caixa era pequena demais para ter um kit de emergência, mas não pensei sobre aquilo antes de abri-la. Agora pensamentos maravilhosos e horríveis me invadiam.
Ricardo com outras mulheres na cama. Usando as camisinhas, uma por noite. O estoque era grande, deveria realmente precisar daquilo. Ricardo comigo na cama, fazendo um uso muito melhor delas. E, por fim, Ricardo sangrando na sala. Era aquele pensamento que precisava manter. Só aquele.
Guardei a caixa como se nunca a tivesse visto e voltei à procura. Encontrei outra e temi o seu conteúdo. E se tivesse coisa pior que as camisinhas? Receosa, abri a caixa. Nela estavam gases, álcool, remédios e outros líquidos que não fazia a menor ideia do que eram. Mas pelo menos não era nada pornográfico.
Voltei para a sala e encontrei o garoto na mesma posição: sentado na cadeira, sem camisa, olhando para o nada. Não parecia triste... Estranhamente, sua fisionomia beirava à vitória, por mais que os machucados dificultassem a leitura.
– Encontrei. – Falei, chamando a sua atenção. Deixei a caixa aberta na mesa ao lado de onde estava.
– Você não vai me ajudar? – Perguntou ao olhar a caixa abandonada.
– Por que você não faz isso? – Acredito que tinha uma prática muito maior nisso do que eu. Nunca me machuquei, nunca precisei sequer usar um curativo.
– Porque dói quando levanto o braço, e não consigo enxergar o local certo para limpar. Além do mais, vai ser bom ter você cuidando um pouco de mim. – Tentou piscar, sem sucesso. Ótimo, pelo menos os machucados serviram para algo.
– Não sei... – E se o machucasse mais?
– Vamos lá, não é tão difícil. – Pareceu perceber a indecisão em mim, mas insistiu do mesmo jeito.
– Tudo bem. Preciso que me guie.
Respirei fundo e peguei a gaze na caixa, espirrando o líquido como indicou para fazer.
– Vai arder? – Perguntei temerosa.
– Se arder será em mim. – Sorriu de lado. Droga, isso ele ainda conseguia fazer, e tão charmosamente como sempre.
Olhei para o seu rosto sem saber por onde começar. Estava repleto de sangue, mas já estava seco e a maioria vinha do machucado maior. Então começaria por este. Passei a gaze no corte tentando observar as suas reações, mas parecia não sentir nada.
Depois de alguns minutos em silêncio, apenas limpando-o, resolvi perguntar mais uma vez, temendo a resposta.
– O que aconteceu com você?
Quando me olhou, parecia perdido em pensamentos. Ele não ia responder, então segurei firme seu queixo, o lugar que tinha certeza de que não havia sido machucado, e fiz com que me escutasse.
– Ricardo, o que aconteceu? – Insisti.
Ele fez uma careta e virou o rosto. Pensei em segurá-lo mais uma vez, mas finalmente começou a falar.
– Você me contou sua história. Não poderia ficar sem fazer nada.
– O que quer dizer com isso?
– Continue seu trabalho que continuo a falar. – Ele sorriu e me entregou outro pedaço de gaze. Nem havia percebido que não estava mais o limpando.
Esperei por mais informações enquanto continuava “o meu trabalho”.
– Precisei fazer isso, Paloma. Não fique chateada comigo.
– Não ficarei. O que precisou fazer? – Me concentrei em passar a gaze em seu rosto.
– Promete?
– Prometo o que? – Perguntei confusa.
– Promete que não ficará zangada comigo?
O que teria feito para me deixar zangada?
– Prometo. – Respondi rápido, apenas para fazer com que falasse logo. No fundo, não podia prometer nada.
Ele suspirou antes de falar.
– Fui atrás dele. Fui atrás do seu pai.
– Você O QUE? – Gritei me afastando surpresa e, ao mesmo tempo, nervosa por seu ato tão irresponsável.
– Você prometeu. – Falou, me encarando.
– Mas... – Indignada, virei de costas para organizar meus pensamentos. Não ajudava nada olhá-lo tão destruído e saber que meu pai havia feito aquilo. Meu pai.
– Paloma. – Me chamou.
– Não estou zangada com você. – Falei sem virar para ele. – Minha fúria é com ele. Como pôde?
– Vem aqui, termina o que você estava fazendo que eu termino de te contar.
Virei de volta, sugando toda dor que provavelmente sentia. Queria que meu pai tivesse batido em mim, não nele.
Ricardo me encarou, indicando que não falaria mais se eu não voltasse ao trabalho. Bufei, andei até ele e tentei me concentrar em não machucá-lo enquanto passava o tecido no seu rosto. Agora tinha mais cuidado ainda, sabendo que estava assim por minha causa.
– Posso garantir que ele saiu muito pior. – Disse, sorrindo largamente. Era por isso que seu olhar tinha um traço de vitória. Ele estava feliz pelo que havia feito.
– Você é um idiota! – Falei, querendo bater nele.
– Não podia deixar que fizesse aquilo com você e saísse ileso, Paloma. – Falou ele, como se fosse a coisa mais óbvia do mundo.
– Então decidiu ir lá e arriscar a vida por causa disso?
Riu com desgosto.
– Não arrisquei a minha vida. Apenas ensinei uma lição a ele.
– E ganhou um olho roxo e uma cara ensanguentada. – Falei nervosa
– Por você, valeu a pena. – Respondeu, colocando a mão na minha cintura e me puxando para perto. Perto demais. Segurei em seus ombros para não cair no seu colo, surpresa com a aproximação.
Notei o fogo em seu olhar, e por pouco não o agarrei ali mesmo. Podia ver a grandeza do seu ato. Vingou-se por mim. Da maneira errada, completamente errada, mas mesmo assim. Havia se importado comigo.
– Ricardo, eu agradeço pelo que fez, mas não pode assumir os meus problemas. –Falei, olhando-o nos olhos, querendo que entendesse. – Meu pai é um problema que preciso resolver sozinha e não quero você envolvido nisso.
– Vai falar que não ficou toda caidinha pelo meu ato de heroísmo? – Disse, com um sorriso delicioso nos lábios.
Sorri com ele, mesmo sem querer, mas dei um tapa de leve em seu ombro.
– Estou falando sério. Não se meta nos meus problemas. – Falei um pouco mais séria.
– Não posso prometer nada. – Teimou, e mais uma vez soube que seria inútil teimar de volta.
– Você é muito irresponsável.
Ele colocou a mão em meus lábios, sinalizando para que ficasse quieta.
– E você tem muito trabalho para fazer. – Falou, fechando os olhos, indicando para que continuasse o que fazia antes de me intimidar.
Quando terminei o rosto, peguei sua mão, que também estava machucada, mas com sangue que não era seu. O sangue que corria em minhas veias. Suspirei, sem saber se seu ato me ajudou ou não naquela situação.
Ele me olhou intensamente enquanto passava a gaze em seus dedos, sentindo sua mão grande e máscula, a mesma que havia passeado pelo meu corpo milhares de anos atrás. Pelo menos era assim que parecia.
– Só para avisar, não estou fazendo isso como forma de agradecimento. – Disse, encarando-o. – Jamais vou agradecer por uma atitude tão estúpida.
Fez que sim com a cabeça, sem retirar os olhos de mim.
– Vou encontrar outras maneiras para você agradecer. – Sorriu novamente, me fazendo sacudir a cabeça e desviar o olhar. Estava começando a me acostumar com as provocações, mas isso não significava que não sentia um arrepio delicioso pelo corpo cada vez que saíam da sua boca.
Não deveria sentir nada.
Capítulo 22
Saí de perto dele antes que a eletricidade pulsando entre nós virasse algo mais
sério. Nunca havia sentido aqueles arrepios pelo corpo, aquela necessidade intensa. Apenas o som da voz de Ricardo me causava sensações indescritíveis. Se ele era capaz disto com pequenos atos, o que aconteceria quando nossos lábios se encontrassem?
Não. Quando não; se. Se eles se encontrassem. E isso não aconteceria.
Ele levantou, desequilibrando-se novamente. No susto, voltei para onde estava e passei o braço por sua cintura, sustentando seu peso com o meu corpo – ou parte dele.
Não foi a melhor ideia que tive na vida. Ele aproveitou a aproximação, mantendo nossos corpos colados ao segurar na minha cintura. Aquele corpo... continuava sem blusa, já que estava cheia de sangue. Com a mão em seu peito, tentei afastá-lo, mas ela ficou lá por vontade própria, sem forças para empurrá-lo.
Subi o olhar até a sua boca com o corte vermelho no canto, mas convidativa como sempre. Minha intenção era olhar em seus olhos e criar coragem para sair de perto, mas não cheguei tão longe.
Ele também não se mexeu. Quando fez, foi para se aproximar ainda mais. Cada vez mais. Mais perto do que nunca... finalmente provaria seu beijo, descobriria o efeito que tem em mim.
Até que o barulho da chave sendo colocada na porta nos despertou. Foi como um alarme dizendo "o que pensa que está fazendo, Paloma?" diversas vezes. Dei um passo para trás, me afastando do seu corpo o mais rápido possível. Ele também parecia confuso, mas nem um pouco constrangido.
– Ei, você continua aqui! – Cumprimentou Miguel entrando na casa. – E que porcaria aconteceu com você? – Se dirigiu ao irmão.
– Andei salvando algumas vidas e destruindo outras... o de sempre. – Brincou Ricardo.
Miguel então olhou de mim para ele e percebeu que havia algo estranho entre nós. Abriu a boca para comentar, mas a garota atrás dele o interrompeu.
– É a primeira vez que vejo uma garota com mais de uma peça de roupa nessa casa. – Falou, ficando ao seu lado e me olhando dos pés à cabeça. – E também é a primeira vez que te vejo mais feio do que o normal. – Falou para o Ricardo.
A garota parecia ter seus dezesseis, dezessete anos, mas com uma atitude que lhe dava um ar de mais velha. Tinha os cabelos ruivos, não daquela maneira que dói a vista, mas tão atrevida quanto. Aproveitei que me secava e fiz o mesmo. Afinal, ela parecia frequentar muito aquela casa.
Seus cabelos terminavam um pouco abaixo do ombro, onde começava o belo corpo. Sim, realmente pensei isso. Era difícil admirar o corpo de uma garota, ainda mais quando gostava tanto do meu. Sempre que olhava para elas, pensava: "sou melhor". Mas, com esta, fiquei indecisa sobre quem ganharia. Ela era... peculiar. Isso, peculiar era a palavra certa.
– Olha se não é o casal M&M! – Disse Ricardo sentando-se na cadeira.
– Você vai me contar que muro caiu em cima de você, por bem ou por mal. – Falou Miguel, voltando sua atenção para o irmão e me deixando com a garota desconhecida.
Ela não parecia nem um pouco desconfortável em me encarar. Na verdade, parecia querer me desvendar e não tinha vergonha nenhuma de ser descoberta durante essa investigação.
Ao contrário dela, me sentia mais constrangida a cada segundo que passava me encarando, com medo de que conseguisse desvendar os meus segredos, minhas bagagens... Ela não gostaria do que encontraria ali.
– Eu sou a Paloma e posso garantir que não tenho nada em comum com as outras garotas que mencionou. – Falei, esticando a mão em sua direção.
Não parei para pensar no que ela quis dizer com aquela frase. Na verdade, pensei por alguns segundos e a raiva que tomou conta do meu corpo fez com que deixasse isso para lá. Quantas garotas Ricardo havia levado para aquela casa? Quantas mais ele levaria para usar todas aquelas camisinhas guardadas em seu guarda-roupa?
Não me interessa. Podia ficar com quem quisesse, com quantas quisesse. Não tenho nada a ver com isso. Nada. E não tenho direito nenhum de ficar brava.
Com isso, voltei a olhar a garota que ainda me encarava, deixando minha mão estendida no ar. Parecia um tanto surpresa, e logo um sorriso surgiu em seu rosto. Veio para cima de mim e, quando achei que seria atacada por alguma namorada raivosa do garoto, senti seus braços me envolvendo em um abraço amigável.
Amigável? Acabei de conhecê-la e nem sabia o seu nome! Forcei os braços a correspondê-la, nem um pouco acostumados com carinhos inesperados. De qualquer maneira, o abraço não parecia falso, diferente do que acontecia quando as amigas de Lorel me conheciam e fingiam que eram minhas melhores amigas também.
– Oh, não acredito que você é a tão famosa Paloma! É maravilhoso finalmente conhecer a garota que tem participado de várias das nossas conversas. – Disse ao me soltar, olhando para os garotos que estavam lado a lado observando o que acontecia.
Encarei Miguel por um momento, querendo que entendesse a confusão que minha mente havia se tornado. Participando das conversas? Famosa? O que tinham falado sobre mim? O que aquela garota sabia? Ele apenas ergueu os ombros, sorrindo levemente como se pedisse desculpas. Ótimo, achei o culpado.
Mas, quando olhei para Ricardo, este desviou o olhar.
Não sabia quem realmente havia falado sobre mim para aquela menina, mas acreditava que os dois tinham culpa no cartório.
– Sim, acho que sou. – Falei me perguntando o que de tão interessante tinham para contar.
– Você não precisava comentar isso com ela, né? – Falou Miguel, próximo da garota, achando que só ela ouviria o comentário.
– Ah, deixa disso – respondeu, sorrindo. – Ficaria feliz em saber que as pessoas andam falando sobre mim por aí.
– O que vocês falaram de mim? – Perguntei, encarando os dois.
– Nada, Paloma. Eles não falaram nada. – Intrometeu-se Ricardo, me surpreendendo por estar tão perto. Quando olhei para o lado, lá estava ele apoiado na mesa. – E, já que não vão se apresentar, faço as honras. Este é o casal M&M. – Completou, apontando para Miguel, que deu risada, e para a garota, que mostrou a língua.
– Ah, você é a namorada do Miguel? Ele me falou muito sobre você também! – Sorri, me sentindo melhor por saber um pouco sobre a garota. Como pude não perceber? Eles chegaram juntos, trocavam olhares confidentes, sorriam um para o outro...
Estava no ar! Talvez por nunca sentir um amor tão forte não tenha sido capaz de identificar quando ele está por perto.
Mas logo após o meu comentário todos caíram na risada. Miguel olhou para a garota e riu, passando o braço por seu ombro. Ela olhou de volta e tirou o braço de perto, sem parar de rir. Ricardo ria como se apreciasse uma piada interna. Na verdade, todos tinham algo internamente, eu era a única sobrando e não fazia a menor ideia do porquê de tanta alegria.
– Não, não sou a namorada dele – disse, parando de rir aos poucos como se fosse uma tarefa muito difícil. – Ela continua no exterior, e eu continuo tendo que ouvir a cada minuto o quanto o apaixonadinho aqui sente falta dela. – Completou, cutucando Miguel.
Ok, não tinha experiência nenhuma nessas coisas.
– Então... – Falei sem paciência e um tanto curiosa para saber quem era a garota que parecia tão íntima da família. Uma irmã perdida?
– Eu sou a Marina, a melhor amiga – disse, sorrindo. – E digo isso para você saber que o cargo já está ocupado. – Piscou ao terminar de falar, tornando a frase que poderia ser assustadora em uma frase quase amigável. Pude sentir a seriedade por trás do sorriso que dava.
– Eles são como almas gêmeas. – Sussurrou Ricardo, perto demais do meu ouvido, me causando mais arrepios.
Olhei para ele sem entender o que queria dizer, mas Miguel começou a falar.
– Marina cresceu com a gente – disse, sorrindo para ela e logo voltando sua atenção para mim. – Ela é como uma irmã para nós.
– Fale por você mesmo. – Disse Ricardo, cruzando os braços na frente do peito nu.
– Sou como uma irmã para Miguel, que é o bonzinho da família. – Manifestou-se. – Para Ricardo... Vamos dizer que sou seu carma. – Riu com ele encarando-a.
– Certo, as apresentações foram feitas. – Reclamou, colocando os braços de volta na mesa, usando para apoiar o corpo. – Vamos ver o que temos para hoje. – esticou o braço para Miguel, que lhe entregou uma caixa retangular.
– O que é isso? – Perguntei curiosa.
– Você verá, princesa. – Disse, abrindo a caixa em cima da mesa.
De repente, minúsculas peças de quebra-cabeça encheram-na. Quando deixou a caixa de lado, peguei para ver melhor. Eram mil e quinhentas peças! Impossível montar em menos de uma semana. Felizmente era um desenho muito bonito de uma paisagem, com um lago e o sol nascendo. Mas, mesmo assim, era pura loucura.
– Vocês realmente pretendem montar isso? – Perguntei, olhando para cada rosto em volta da mesa, ansiosos para começar.
– Sim, é a nossa diversão de todo domingo. Não vai dizer que não sabe montar um quebra-cabeça, né? – Riu Ricardo, debochando da minha cara.
– Na verdade, eu sei o que é diversão. – Retruquei.
– Talvez ela tenha razão... Por que não aproveitamos que estamos em número par e jogamos Truco? – Interrompeu Marina, pegando um baralho da bolsa.
Sim, Truco parecia muito mais divertido do que um monte de peças iguais.
Ricardo encarou o irmão, mas logo voltou sua atenção para mim.
– Os dois vão querer ficar juntos. É bom você saber jogar, garota, se não te tiro do meu time. – Falou, sério demais para um simples jogo.
– Se me tirar do time ficará sem parceiro. – Sorri.
– É melhor do que ter uma garota atrapalhando.
Bufei e o encarei.
– Vou te fazer engolir essas palavras.
Ele sorriu de lado, me olhando nos olhos.
– Era isso que eu queria ouvir. – Falou, revelando que disse tudo aquilo para me deixar mais competitiva. O desgraçado já conhecia minha fixação pela vitória. – Estamos prontos, vocês já terminaram de namorar ai?
Miguel e Marina estavam em uma conversa cheia de risadas, mas encararam Ricardo ao ouvir o comentário. Estranhamente, não responderam nada sobre ele. Acho que já estavam acostumados com o jeito irritante do garoto.
– Arruma a mesa que vou fazer um suco, Ricardo. – Falou Marina, indo até a cozinha.
– Você tinha que ter dado a ideia depois de que espalhei tudo, não é? – Reclamou, começando a juntar as peças.
– Sempre tentando melhorar a sua vida, querido. – Respondeu, abrindo a geladeira.
– Não quero suco. Tem Vodka no armário e energético na geladeira. Faz algo que preste aí.
Fui para a cozinha, deixando Miguel ajudar Ricardo, e observei Marina pegar o que Ricardo pediu.
– Todo domingo é assim? – Perguntei, puxando conversa.
– Sim, terá que se acostumar com isso. – Respondeu, sorrindo.
– Não... eu não pretendo ficar.
Marina parou o que fazia e me olhou, parecendo me desvendar mais uma vez. Se fosse um cachorro estaria com a cabeça virada e as orelhas erguidas neste momento. Mas conseguia ser óbvia mesmo sem estes recursos.
– Você não pode ir embora. – Falou um pouco triste.
– Vocês encontram outra garota para jogar truco. – Sorri.
– Pouco me importo com isso. Estou falando sério... Não pode ir embora.
Foi então que percebi que Miguel havia contado tudo sobre mim. Sobre ontem à noite, sobre minha mãe e meu pai... Tudo. Não sabia se ficava brava com ele por compartilhar um segredo que não era seu, ou envergonhada pela garota saber demais sobre mim.
– Não posso ficar. – Falei, dando de ombros.
– Por que não?
Ri ironicamente. Estava mais do que óbvio o porquê de não poder continuar ali.
– A casa não é minha. Os garotos nem me conhecem direito. Não tenho como pagar pela moradia... Precisa de mais motivos? – Perguntei, olhando-a.
– Você está errada. E sim, precisa. Pensa nos motivos que tem para ficar. Verá que são bem maiores do que os que você acabou de citar. – Falou, voltando para a sala.
Quais motivos eu tinha para ficar? Além de não ter para onde ir, com quem contar e conversar? Além de estar completamente sozinha. Talvez ela estivesse certa.
Sacudi a cabeça, querendo que com o movimento os pensamentos fossem embora. Não podia pensar assim, eu não podia ficar ali e pronto. Precisava parar de pensar só em mim mesma e considerar o quanto a vida deles mudaria se eu ficasse. Não mereciam essa mudança.
– Paloma, já vai desistir? – Chamou Miguel, me tirando dos devaneios.
Coloquei um sorriso falso no rosto e voltei para a mesa onde todos estavam sentados e Ricardo embaralhava as cartas. Sentei de frente para ele e tomei um gole da bebida que Marina havia preparado. Vodka. Esquecer... Não. Infelizmente, esta não era uma noite para ser esquecida.
– Estão prontos para perder? – Perguntou Marina, piscando para Miguel que sorriu de volta.
– Jamais, querida! Perder é com você. – Rebateu Ricardo encarando-a, e assim o jogo começou.
Confesso que até “o oito a dois” para nós estava confiante de que ganharíamos. Mas então o “casal M&M”, como Ricardo chamava, virou o jogo e foi com tudo. E com uma sincronia e conhecimento que me surpreenderam. Parecia que haviam ensaiado ou, ao menos, treinado muito. Miguel sabia quando a parceira tinha cartas boas nas mãos, mesmo que não tivesse lhe passado sinal nenhum. Eu sabia, pois ficava observando os dois o tempo todo.
Eles realmente se conheciam.
E, com isso, nossa derrota de doze a nove foi triste. Sim, triste porque Marina ficou rindo da cara de Ricardo que olhava para mim como se dissesse “o que você fez?”. Miguel tentou conter a amiga, mas ela parecia ser tão fanática pela vitória quanto eu. E sei que se tivesse ganhado estaria agindo da mesma maneira.
Dois copos de Vodka e duas vitórias depois, Marina e eu ansiávamos pela última partida, querendo descobrir se teríamos uma vitória – minha e do Ricardo, que parecia cada vez menos concentrado no jogo por causa da bebida – ou um empate. Qualquer coisa, para ela, seria melhor do que a nossa vitória. Mas antes de começar a partida Miguel levantou da mesa.
– Teremos que decidir isso no próximo domingo. Está tarde, amanhã temos que trabalhar. – Disse e constatei que tinha razão. O relógio marcava onze horas da noite. O tempo havia passado rápido demais.
– Mano, amanhã nós entramos à tarde, dá tempo de jogar mais uma, senta aí. – Reclamou Ricardo.
– O Miguel tem razão. Mais um copo disso aí e ele não conseguirá dirigir. É melhor terminar a noite por aqui. – Disse Marina, levantando-se junto.
Dirigir? Para onde Miguel iria?
Levantei com eles, sabendo que deveria ir embora, mas sem noção nenhuma de para onde iria.
Acompanhei os dois até a porta com Ricardo atrás de mim se apoiando na parede.
– Foi ótimo te conhecer! – Disse Marina, me abraçando uma última vez. Dessa vez foi mais fácil erguer os braços e apertá-la de volta. – Não deixe que esses dois te deixem louca. – Riu.
E assim eles se foram. Miguel foi levar Marina até a sua casa, então estava mais uma vez sozinha com Ricardo. Era hora de ir embora.
– Onde pensa que vai? – Perguntou quando me virei para o quarto, pronta para pegar minhas coisas.
– Preciso ir embora também, está tarde. – Respondi.
– Não faça isso, Paloma. – Reclamou, parecendo cansado e ao mesmo tempo leve demais por causa da bebida.
– Preciso ir. – Repeti, tentando convencer a mim mesma também.
– Eu estive lá. Conheci aquele homem. Você não pode voltar para a casa dele. – Falou determinado como se me desse uma ordem.
– Não vou para lá.
– Você não tem para onde ir!
Fiquei apenas encarando-o, brava por ter dito aquilo. Sabia muito bem que não tinha para onde ir e não precisava de ninguém jogando isso na minha cara. Ele percebeu a minha mágoa, pois se aproximou mais, passando a mão pelo meu cabelo.
– Fique aqui. Não vou deixar você ficar vagando na rua sem destino. – Disse, segurando uma mecha entre seus dedos.
Próximo demais.
– Ricardo... – Comecei a negar novamente.
– Não estou pedindo – interrompeu. – Estou implorando. Fique comigo esta noite, Paloma.
Ficar com ele esta noite? Estava maluco ou o quê?
– Não sou assim. – Falei brava.
– Não nesse sentido. Só durma aqui esta noite. Amanhã decidimos o que fazer. – Sorriu sem se abalar.
Apenas uma noite. Só mais uma... Que mal teria?
– Tudo bem. – Cedi, suspirando.
– Que bom então. – Sorriu e se afastou. Havia usado minha fraqueza por sua presença para me convencer. Cretino.
Sentei no sofá, perdida em pensamentos enquanto ouvia Ricardo ligar e desligar o chuveiro.
Ele conseguia ser muito persuasivo quando queria. Era só isso que era: persuasivo. Não era fofo, romântico e muito menos carinhoso. Só agia daquela maneira para conseguir o que desejava. Provavelmente agia assim com todas as garotas que levava para a cama, dando-lhes a melhor noite de transa para dispensá-las no dia seguinte.
Não havia transado com ele – e nem iria – e não havia recebido o carinho que parecia ser capaz de dar... mas eu sentia como se já estivesse presa. Ficava mal ao pensar que no dia seguinte, não estaria dormindo na mesma casa que ele. Agora o desespero de Lorel fazia sentido... Se ele era capaz de me deixar assim apenas com palavras sussurradas e toques inesperados – e inocentes -, na cama deveria ser perfeito e devastador. Destruidor.
Continuei sentada na sala, esperando pelo retorno de Miguel, esperando pelo sono que parecia longe demais... Esperando para saber aonde dormiria, quando ouvi Ricardo destrancar a porta do banheiro e parar ali, ao lado do sofá, com apenas uma toalha enrolada na cintura. O cabelo molhado pingava em seu corpo, tornando-o ainda mais irresistível.
– O que você está fazendo aí? – Perguntou confuso, mas sabendo a reação que sua visão de seminu causava em mim.
– E... Estou esperando o Miguel voltar – Gaguejei.
– Ele não vai voltar hoje. Vai dormir na casa da Marina. Vá para a cama. – Falou, indo para o quarto sem fechar a porta enquanto se trocava.
Fixei o olhar na TV, usando todas as forças para não olhar para trás, onde estava seu corpo nu, e então colocava a cueca... Podia imaginar tudo perfeitamente. E agora éramos apenas nós dois na casa, pelo resto da noite.
Teria que ser mais forte do que isso.