O Caminho Certo
Capítulo 33 · Ricardo
Venho preparando o encontro desde o momento em que ouvi o "sim"
disfarçado no "pode ser" de Paloma. No começo tinha muitas ideias, mas não sabia como elaborá-las. Precisava fazer algo digno da garota. Algo que ficasse em sua mente para sempre, fazendo com que quando a perguntassem "Qual foi o melhor encontro da sua vida?" se lembrasse de mim. Ah, e como lembraria.
Mas o que estaria na altura da garota que sempre teve tudo o que quis?
Então uma frase que minha mãe vivia dizendo surgiu na minha cabeça: "Simplicidade é tudo, meu filho. Se puder escolher entre o detalhado e o simples, fique com o simples. Este abrirá mais portas.". Descobriria essa noite se ela tinha ou não razão. Paloma nunca teve o simples e sim o melhor de tudo. Talvez o simples seja o que realmente precisa.
E qualquer coisa que ela precisar quero ser capaz dar para ela.
Estava tudo pronto quando saí do quiosque, dez pras oito. Eu, que tinha mandado a garota não atrasar, acabei perdendo noção da hora. Mas era impossível não me atrasar com tantas dúvidas. Social ou simples? Simples, minha mãe dissera. Mas e se misturasse os dois? Pois ela era assim: uma mistura do que fora – rica, chique e mesquinha – com o que se tornara – humilde, carinhosa e, incrivelmente, simples. Pois então que seja: uma mistura dos dois.
Fiquei ridículo com os chinelos, mas era a única parte de mim que parecia natural. Que poderiam falar "isso o Ricardo usaria". Porque o resto estava exagerado demais.
Mas tudo para a garota que havia me tirado dos pesadelos noturnos. Tudo para aquela que se importava comigo e insistia em me conhecer, mesmo depois de tantas respostas negativas. Aquela que me fez acreditar que posso não ter sido o culpado pela morte da minha mãe. Só por isso ela já merecia o mundo.
Foi pensando nisso que não resisti e parei no caminho para comprar uma rosa. Uma já era o suficiente. Nada, seria simples demais, mas um buquê seria exagerado. Esta noite estava sendo baseada na mistura dos dois. Na mistura de nós dois: o garoto simples e a garota mimada.
Toquei a campainha do apartamento e respirei fundo, ajeitando a gola da camisa. Por um momento me questionei o que fazia ali. Minha intenção não era jamais me apegar? Jamais deixar que alguém me distraísse novamente? Se fosse assim, por que fazia exatamente o contrário?
Todas as perguntas foram respondidas quando vi a garota mais linda parada na minha frente. Seu vestido vermelho era indescritível. Delicioso. A mistura da menina inocente usando mangas longas, com a menina safada que havia dentro dela, com o comprimento beirando ao indecente – e muito sexy – da peça. Isso fazia com que muitas cenas inadequadas surgissem em minha mente.
Também fez com que percebesse o motivo de estar fazendo aquilo. Não havia mais como fugir. A garota me tinha na palma da mão, e tudo o que podia fazer era trazê-la para a minha também. E depois do seu ato maravilhoso no dia anterior, não precisava ter mais nenhuma dúvida: ela não seria a destruição. Poderia ser a minha salvação.
Só precisava fazer com que fosse minha.
Aproximei para entregar a rosa, mas no ato, consegui sentir melhor o seu perfume, o que fez com que meu cérebro desligasse por um momento, deixando apenas o corpo e o coração em ação. Tudo o que queria era levá-la para aquele quarto, perto demais para ser verdade e trancá-la por dois dias ou mais. Dar a opção de ser minha por vontade própria e obrigá-la, caso negasse. Só queria tirar aquele vestido e esquecer o mundo lá fora.
Mas meu querido irmão precisava nos atrapalhar, fazendo com que o cérebro voltasse a funcionar, não é? De qualquer modo tinha que agradecer ao pirralho, pois um segundo a mais com aqueles pensamentos e toda a noite estaria perdida. Toda preparação seria em vão.
– Está pronta? – Perguntei, voltando ao plano inicial: levá-la para a cama. Não, porra, este não. O plano ideal: fazer com que se apaixonasse por mim.
– Sim, estou pronta. – Disse como se estivesse se referindo não apenas ao encontro, mas a todas as dúvidas que existiam entre nós. Parecia estar pronta para o que desse e viesse.
E o brilho em seu olhar mostrava que ela estava pronta para mim.
Oh, garota.
– Então vamos logo. – Falei, tirando os pensamentos impróprios da mente e acenando para Miguel antes de sair.
– Você está muito elegante. – Falou quando liguei o carro, e eu podia sentir seu olhar me perfurando.
– Precisava chegar aos seus pés. – Respondi, olhando-a brevemente antes de voltar minha atenção para a rua.
Minha visão periférica captava as suas coxas e somente elas. Nuas, implorando para serem tocadas. Beijadas. Não posso fazer isso... Mas não consegui resistir a esticar a mão e senti-la, tentando parecer que apenas descansava a mão na sua coxa.
Paloma não reclamou, o que me deixou aliviado. Precisava controlar a vontade que sentia dela, mas seria muito mais fácil se tivesse vindo com uma roupa de freira, completamente coberta. Ou, pensando melhor, não seria. Posso imaginar o quão quente seria tirá-la daquela roupa, revelando o que ficou escondido por tanto tempo.
Ótimo, estávamos em nosso primeiro encontro, sem nenhuma indicação de haver algo mais do que beijos, e eu já estava duro.
Fiz o caminho mais longo até a praia, pensando em coisas aleatórias e torcendo para que Paloma não percebesse o efeito que tinha sobre mim. Ela deveria perceber em algum momento, mas não neste. Caso contrário, acharia que a noite fora planejada apenas para comê-la e não para amá-la mais tarde, da maneira certa.
– Você está estranho. – Falou, interrompendo o silêncio do ambiente.
– Como assim?
– Não sei... Está quieto, não está fazendo insinuações idiotas nem tentando outras coisas...
– E você quer que eu faça isso?
– Talvez... – Falou, ficando vermelha. Mas logo se corrigiu. – Não é isso. É que é estranho.
Estacionei o carro na frente da praia e desci, indo até a sua porta e abrindo-a antes que tivesse a oportunidade de fazer isso sozinha.
– Mude a palavra estranho para diferente. Ou melhor, especial. – Falei ao vê-la saindo do carro. Estávamos próximos demais para evitar que minha voz saísse em um sussurro. – Esta noite será especial.
Aproveitei a nossa proximidade para acariciar seu rosto, mantendo a mão na curva do seu pescoço, esperando pela sua reação. Sempre tão receptiva, não demorou a fechar os olhos e apoiar a cabeça na minha mão.
Era como se implorasse para beijá-la. E porra, como queria beijar aquela boca doce e viciante. Desde o primeiro e último beijo, venho sonhando com a segunda dose. Mas não, ainda não era a hora.
Afastei o rosto do seu, recebendo um olhar surpreso e decepcionado. Não está ajudando, garota. Não está ajudando.
Segurei sua mão e a levei para caminhar pela praia, entrelaçando nossos dedos aos poucos, me adaptando à sensação. Há cinco anos não entrelaçava meus dedos aos de alguém e esperava que parecesse estranho. Inadequado. Mas tudo o que senti foi o choque que sempre me atingia quando nos encostávamos. E quanto mais nós andávamos, mais certo parecia. Não queria soltá-la nunca mais.
– Conte algo sobre você que eu ainda não saiba. – Pedi enquanto caminhávamos.
– O que é isso? Está tentando puxar assunto? – Perguntou, rindo.
– Não, só quero te conhecer melhor. Vamos lá, não estrague a brincadeira.
– Ok. Vou pensar. – Falou com o olhar perdido.
Depois de um tempo pensando, finalmente respondeu:
– Não tenho nenhuma cicatriz no corpo.
Olhei para o seu rosto, incrédulo, mas tudo que encontrei foi pura verdade.
– Espero ter a chance de conferir isso. – Falei, não perdendo a oportunidade de deixá-la corada. E funcionou.
– Talvez. – Sussurrou, falando consigo mesma. – Sua vez.
O que falar? Hm... “Nunca me senti tão atraído por alguém como me sinto por você” seria verdade, mas a faria virar as costas e ir embora, tenho certeza. "Estou apaixonado por você" seria pior ainda. Por mais que tentasse, nenhum pensamento que não envolvesse ela e o amor ou ela e uma cama passou pela minha mente.
– Nunca quis tanto estar em um encontro com uma garota, como com você, hoje. – Admiti por fim, esperando que não parecesse clichê, grudento ou apaixonado demais.
Paloma sorriu por um momento, mas ficou em silêncio, guardando seus pensamentos. E então voltamos a caminhar em silêncio.
– Nós só vamos ficar aqui, caminhando? – Perguntou depois de um tempo, com um tom irônico na voz.
Ri enquanto acariciava sua mão levemente.
– Tem algum outro compromisso? – Perguntei, rindo.
– Na verdade tenho sim, um encontro com um cara charmoso, interessante e atrevido. – Falou, me encarando.
– Cara de sorte.
– Ah, vai se danar, Ricardo! – Falou sorrindo enquanto me dava um tapa no braço.
Parei na sua frente, interrompendo a caminhada.
– Relaxa aí, garota. – Falei. – Desculpa se ainda não te joguei na areia e te fiz minha aqui na frente de todos. – Seu olhar tornou-se intenso enquanto ouvia a frase. – Estou deixando o melhor para o final.
– Não... Não... – Falou, sem conseguir completar sua frase.
– Não é isso que você quer? – Sorri, piscando. – Ou não é isso que queria dizer? Pois bem. Desculpa se o encontro está sendo entediante... Mas pensei que por algumas horas poderia me dedicar inteiramente a te conhecer, a ser gentil... – Tirei uma mecha de cabelo do seu rosto. – Porque mais tarde te conhecerei de outra maneira. E não pretendo ser gentil.
Paloma me olhou com surpresa e excitação. Não deveria ter falado aquilo? Fora longe demais? No entanto, seu olhar de “quero você” só fez com que quisesse falar muito mais... Apenas para ver aquele desejo em seu olhar novamente.
– Também quero te conhecer. – Sussurrou sua doce voz. – Não está entediante... Está perfeito. – Sorriu.
– Olhe para cima.
Paloma olhou para o céu estrelado, procurando algo que achava que deveria estar ali.
– Não, Paloma, não para o céu. – Ri, acompanhando o seu olhar. – Para a sua esquerda.
– Uau. – Agora havia finalmente olhado para o lugar certo.
Quando coloquei as luzes no quiosque, ele não pareceu tão bonito, pois ainda estava claro. Agora de noite, era como se fosse o único ponto de luz no meio da escuridão infinita. E o melhor de tudo era que; ao fechar a tenda que agora possibilitava ver as luzes de onde nós estávamos, aquele lugar seria só nosso. Nossa luz particular.
– Você fez isso? – Perguntou enquanto andávamos até o quiosque.
– Sim, não achava que eu era capaz? – Perguntei, imitando a sua pergunta sobre o emprego.
– Não, na verdade, não. – Ela riu, entrando no quiosque e observando cada canto iluminado com velas. Agradeci aos céus por não estar ventando.
Enquanto se distraia com a decoração, fechei a tenda, tornando o ambiente muito mais íntimo e particular. De fora tudo o que veriam seriam as tendas fechadas, como se não tivesse ninguém dentro. Estávamos invisíveis e completamente sozinhos.
Este pensamento criou milhares de cenas impróprias na minha mente.
– Disse que estava perfeito? Errei. Agora sim está perfeito. – Falou, aproximando-se da única mesa que havia no local.
Puxei uma das cadeiras para que sentasse.
– Você é exigente. – Sorri. – Sente-se, vou servi-la esta noite. – Empurrei a cadeira após sentar.
Paloma riu. Era uma risada tão pura e sincera que foi dos meus ouvidos direto para o meu coração. Queria ouvir aquele som o tempo todo.
– Ok então. – Falou, com vestígios do sorriso na voz.
Fui até a cozinha e voltei com o vinho que havia separado, já aberto. As taças estavam na mesa ao lado de mais duas velas, prontas para serem servidas. Não havia um detalhe que não fora pensado e planejado.
Servi nossas taças e puxei a minha cadeira para o seu lado, querendo ficar o mais próximo possível da garota que seria minha pelo resto da noite e, se tivesse sorte, por muito mais tempo.
– Já disse que você está linda demais? – Perguntei sorrindo de lado, sem desviar os olhos dos castanhos que me encaravam com tanta adoração.
– Acho que não. – Brincou, sorrindo de volta.
Peguei sua mão, sentindo a maciez da pele e a levei até a boca, depositando um beijo na mesma. Queria sentir toda a sua pele, não apenas a da sua mão. Queria tê-la sob mim, somente para mim, para poder apreciar e beijar o seu corpo inteiro. Mas isso teria que bastar por hora.
– Então direi, quantas vezes forem necessárias. – Falei, sem desgrudar a boca da sua pele, percebendo quão arrepiada havia ficado.
Oh, minha doce e receptiva Paloma.
Querendo que aquele arrepio durasse, aproximei o rosto do seu pescoço, colocando seu cabelo para trás da orelha e depositei alguns beijos, sentindo mais uma vez seu irresistível perfume.
– Vai com calma. – Sussurrou como se fizesse um esforço enorme para dizer aquelas palavras.
Eu me afastei, olhando em seus olhos, agora muito mais profundos do que antes. Ela sentia, só não queria se entregar. Por que resistir tanto, Paloma? Se me deseja tanto quanto eu, por que se esquivar o tempo todo?
O problema era que eu sabia que havia uma atração entre nós. Sabia que ela me desejava. Mas também sabia que estava apaixonado por ela, ao tempo que não fazia a menor noção do que ela sentia. Fazer com que me desejasse era a parte fácil... Mas como atingir o seu coração?
– Desculpa. – Falei sorrindo novamente, querendo que visse que estava realmente arrependido. Bom, não cem por cento... Mas uma parte de mim queria ter mais controle ao seu redor.
– Não tem problema. – Sorriu como se admitisse que ela também era culpada. E nem sabia quão culpada era!
Dei-lhe o espaço necessário. Teria que aproveitar agora, pois mais tarde não teria espaço nenhum. Por mais que pedisse para ir com calma, para parar, para não fazer nada...
Não sairia deste encontro sem o seu gosto na minha boca mais uma vez.