O Caminho Certo
Capítulo 11 · Ricardo
Ela havia dormido no meu carro. Cacete, ela dormiu!
Encarei a garota com a porta aberta e o carro parado na frente da sua casa enorme. Tentei acordá-la, é claro, mas tudo o que fez foi resmungar e voltar a dormir. Não sei quantos copos Paloma bebeu, mas tudo indicava que não acordaria hoje.
Isso significava que eu teria que encarar o guarda-costas novamente.
Respirei fundo. Entraria, colocaria seu corpo na cama e sairia. Pronto. Ninguém me veria. O plano perfeito. Peguei-a no colo da mesma maneira que havia feito quando a tirei do mar e fechei a porta do carro com o pé, caminhando até a porta da casa.
Não sei o motivo de ter me aproximado dela naquela noite. Só sei que a vi lá, dançando como se nada mais importasse... Como se estivesse no momento mais feliz de sua vida, e não pude deixar de admirá-la. Absurdamente linda, era a primeira vez que a via um pouco mais arrumada... Talvez até um pouco mais viva.
Quando vi um sujeito nojento encarando-a do outro lado da pista, precisei prestar mais atenção. No momento em que se levantou e começou a andar até onde Paloma dançava, não tive outra escolha a não ser protegê-la. Andei rápido e colei meu corpo ao dela, indicando que estava acompanhada. O cara me encarou como se fosse me esperar na saída da boate, mas jamais se arriscaria. Alguns daqui conheciam muito bem a minha fama.
Protegê-la, na verdade, foi a única coisa que não fiz. Ao sentir seu corpo meus pensamentos deixaram de ser racionais. Foda-se a menina indefesa que parecia ser. Foda-se o que falariam sobre ela no dia seguinte – mais uma conquista do Rick. Foda-se tudo. Só queria continuar passeando as mãos por seu irresistível corpo, aproveitar tudo o que podia dela.
Cacete, a garota era mais do que linda.
Não sei como deixou que eu me aproximasse tanto. A maneira que dançava como se estivesse pedindo por mais. E eu queria dar a ela muito mais. Queria dar o meu tudo. Tenho certeza de que ela não se esqueceria no dia seguinte, por mais bêbada que estivesse.
Mas seria apenas uma noite. Como sempre. Uma noite sem esperanças, sem telefonemas, sem envolvimentos. Apenas sexo e diversão. Existe coisa melhor?
Agora ela estava ali, aconchegada em meus braços com um sorriso muito atraente no rosto. Daria meu carro para saber o que estava sonhando. Seria com algum garoto da faculdade ou algum namorado?
Só de pensar em alguém a tocando da maneira que fiz esta noite, meu sangue começava a ferver.
– O que acha que está fazendo, moleque? – Perguntou Fernando com uma voz autoritária, parado na porta da casa. Claro que meu plano não deu certo. Quando foi que as coisas funcionaram como planejado com ela?
Ele estava mais irritado do que na noite em que apareci aqui, mas isto já era esperado. Óbvio que não havia gostado de mim logo de cara. Que pai em sã consciência aprovaria um garoto todo tatuado aparecendo na casa da filha naquele horário? Quase não consegui falar com ela aquele dia. Hoje, talvez saísse sem vida daquela casa.
Tentei me acalmar e passar a mesma calma para ele, mas continuava me encarando, esperando por uma resposta.
– Ela bebeu demais. Tudo o que fiz foi trazê-la em segurança para casa. – Achei melhor deixar de fora a parte em que, se ela não tivesse fugido de mim, não era nesta casa que estaríamos chegando agora.
– E por que eu deveria acreditar em você? – Perguntou furioso.
– Por que uma pessoa traria a garota que quer sequestrar e abusar para a sua casa? Ela dormiu no meu carro, não posso fazer nada. – Falei frustrado.
A noite realmente não havia saído como o planejado. A intenção era ir para a mesma balada de sempre, ter a sorte de conhecer alguma garota nova, levá-la para casa e me divertir um pouco. Uma típica sexta-feira. Mas não, estava segurando uma garota bêbada e apagada enquanto o segurança dela pensava em mil e uma maneiras de me matar.
– Me dê ela. – Falou, esticando os braços.
Ela estava tão aconchegada em mim, com a mão em meu peito como se ali fosse o seu lugar que nem pensei em soltá-la. Não, senhor, isso não vai acontecer.
– Eu vou levar ela para o quarto. – Falei me aproximando da porta.
– Não, não vai não.
– Senhor, com todo o respeito, você não vai me fazer mudar de ideia. Passei a noite inteira cuidando para que nenhum idiota chegasse perto dessa garota, tive que obrigá-la a entrar no carro e ela ainda por cima dormiu. Deveria agradecer por ter feito tudo isso, caso contrário, talvez nunca mais a visse. – Falei, olhando-o nos olhos.
Fernando pareceu entender e, por um momento, me dirigiu um olhar carinhoso, de agradecimento. Melhor assim.
Não esperei por sua autorização, apenas atravessei a porta e subi as escadas, onde imaginei que ficaria o quarto.
– Deixe-a na primeira porta à direita. – Gritou lá de baixo.
Entrei no quarto o mais silencioso que pude, mas precisei acender a luz para não trombar em nada. Isso revelou a decoração do ambiente que por sua vez não era nada parecida com o que eu esperava.
Pensei que encontraria um quarto rosa com um urso enorme no canto e uma cama de casal com aqueles mosquiteiros que só vi em filmes. Alguns pôsteres pelas paredes e muitas fotos de todas as suas saideiras. Mas não tinha nada disso.
O quarto era bege com um tom neutro, com apenas um guarda-roupa enorme branco que ocupava a parede inteira do cômodo e uma porta que deveria levar ao banheiro. A cama de casal não tinha um edredom fofinho nem nada, apenas mais uma cor neutra como se ela não soubesse qual é a sua cor favorita.
Havia um porta-retrato no criado-mudo com uma foto de um casal se abraçando. Eles pareciam apaixonados, como se estivessem em lua de mel. A mulher poderia ser a que estava em meu colo agora, mas com vinte anos a mais. Claro, este não era seu quarto e sim dos seus pais.
Mas eles não estavam aqui. O que havia acontecido com aquela garota?
Coloquei-a na cama gentilmente, pronto para me afastar, mas parei quando ouvi seu suspiro. Parecia... Quente. Estava corada, como se sonhasse com alguma coisa erótica. Sabia que não tinha nada de santa, mas vê-la daquele jeito, com um sorriso de lado no rosto... Cacete, já disse o quão linda ela era?
Não, linda não chegava nem aos seus pés.
Apoiei o corpo com os braços para não cair. Sim, havia bebido. Não tanto quanto ela, mas o suficiente para me desequilibrar de vez em quando. Se não tivesse bebido jamais teria chegado nela. No fundo, sabia que nunca deveria ter feito isso. Não estava certo.
Mas valeu a pena cada segundo.
Tirei uma mecha de cabelo que estava na frente dos seus olhos, tentando não acordá-la. Foi quando escutei.
– Ricardo. – Sussurrou, meio suspirando, meio... gemendo?
Meu nome em seus lábios, daquela maneira... Conseguia acabar comigo. Com toda a minha sanidade.
Voltei a ficar em pé, sentindo uma vontade enorme de despi-la e fazê-la suspirar meu nome novamente, dessa vez no mundo real e não em um sonho idiota. No entanto, somente o fato de estar sonhando comigo já me deixava... o que? Não, não me deixava nada.
Só deixava com um tesão enorme que não seria curado naquela cama.
Ela abriu os olhos e me encarou por um momento. Pensei que fosse fazer algo, dizer alguma coisa. Rezei para que agarrasse meu pescoço e não pensasse nas consequências, assim como eu não pensaria. Mas não, apenas virou para o outro lado e voltou a dormir.
Caralho. A garota me deixou com uma ereção apenas por sussurrar meu nome e agora dormia profundamente.
Desci as escadas correndo. Fernando continuava na porta, esperando que eu fosse embora e provavelmente se perguntando o porquê de ter passado tanto tempo lá em cima.
– Obrigado por cuidar dela. – Falou, abrindo a porta da frente.
Assenti e fui embora. Se ele soubesse tudo o que eu queria fazer com a sua amada Paloma, jamais me agradeceria. Se visse metade das cenas que passaram pela minha cabeça envolvendo ela e aquela cama, eu não estaria vivo neste momento.
Mas continuava frustrado. Não conseguiria dormir agora, mesmo que já fosse quatro horas da manhã. Tinha duas opções: voltar para a boate ou ir para a praia pensar na vida.
Não, não iria para a praia. Não queria pensar na minha mãe, nem em como arruinei tudo. Não queria pensar em nada. Queria tirar todas as mulheres da mente. Minha mãe principalmente. E Paloma. Precisava esquecer seu corpo sedutor e a maneira como rebolou ao sentir que estava atrás dela. Precisava esquecer o modo como sussurrou o meu nome durante seu sonho.
Podia transar com qualquer uma; menos com a causadora de todo aquele desespero.
Foi exatamente isso que fiz. Voltei para a balada e, em menos de meia hora, saí com uma garota que parecia não lembrar nem o próprio nome. Melhor assim, não correria atrás depois.
Não a levei para casa. Algumas iam quando estava bêbado demais para me importar. Mas Miguel não merecia ouvir tudo o que fazia nas minhas noites. Então peguei o caminho para o motel mais próximo e estacionei, enquanto ela beijava meu pescoço, me atiçando.
Demorou mais do que o normal para conseguir aliviar toda a tensão que sentia naquela noite. Podia ver que a garota estava cansada, muito bêbada, mas que não pararia até que eu quisesse. Foi então que tive a ideia mais estúpida e inconsciente da minha vida.
Enquanto sustentava meu peso com os braços para não esmagar a garota, imaginei que era Paloma ali, no seu lugar, gemendo palavras sem sentido e enlouquecendo comigo.
Era Paloma quem recebia todo aquele prazer.
O alívio veio mais rápido do que esperava e, antes mesmo de voltar para o quarto depois de jogar a camisinha no lixo, a garota já estava apagada. Aquela que não era a Paloma, mas que só dessa maneira me fizera gozar.
Que porra estava acontecendo comigo?