O Caminho Certo
Capítulo 15 · Consegui me virar por dois meses. Não…
Consegui me virar por dois meses. Não vivi, mas pelo menos tentei com todas as minhas forças e foi mais do que vinha fazendo.
Durante esse tempo aprendi a comandar uma casa, mesmo que Fernando insistisse que não era minha obrigação. Como poderia não querer fazer aquilo? Amava mandar nas pessoas! Ele insistia que eu não deveria mandar os empregados fazer algo, e sim realizar a tarefa no lugar deles... No entanto, se fizesse isso, para que eles serviriam?
Quando não estava mandando alguém fazer algo, estava passeando pela praia... Descobri que o horário menos agitado por lá era depois das oito da noite, então nessa hora eu sempre estava sentada na areia contemplando o mar, perdida em pensamentos. Às vezes podia imaginar minha mãe, sentada ao meu lado com os cabelos ao vento e um sorriso alegre no rosto.
Li mais algumas páginas do diário, mas todas falavam sobre como eu precisava ser independente. Pensar com a minha própria mente e não com a dos meus pais... E sobre como deveria ter as minhas próprias coisas, minhas conquistas. Parecia até que o Miguel havia lido o diário na última vez em que conversamos.
A cada dia que passava sentia que estava mais longe do caminho certo. Comandava uma casa que não havia sido comprada com meu próprio dinheiro, comprava coisas com um cartão sem limites que era reiniciado a cada semana... mas não tinha nada meu. Olhei ao redor do quarto da minha mãe, ou melhor, do nosso quarto... Nada ali me pertencia.
Minha mente dizia "foda-se, dinheiro é dinheiro, não importa quem o ganhou. Se está em suas mãos, é seu", mas meu coração insistia "você deve encontrar o seu caminho. Seja independente". Por que não podia ser independente usando o dinheiro do meu pai? Nada me impedia disso... Na verdade, era muito mais fácil, já que não precisava me matar para trabalhar oito horas por dia e receber um salário que não pagaria nem a conta de luz da casa.
O dilema continuou. É isso que o tédio causa na vida das pessoas. Estou cada vez mais entediada dentro da casa... Sempre as mesmas coisas para fazer, as mesmas fotos da família perfeita que pensei que tinha. As lembranças surgiam e eu ansiava pelo cair da noite, onde me livrava de tudo e saía, sentia a brisa do mar no rosto, respirava o ar puro e verdadeiro; as únicas coisas verdadeiras na minha vida durante esses meses.
Até o dia em que cheguei a casa e encontrei um carro diferente estacionado na garagem; o carro do meu pai.
Não sabia se entrava correndo e pulava nos seus braços ou se dava meia volta e fugia para qualquer outro lugar, o mais longe possível dele. Senti a sua falta... muito. Mas também descobri coisas horríveis sobre o seu passado. Não posso dizer o presente, pois ainda não cheguei nem na metade do diário da mamãe. Mas com certeza existem mais traições naquelas páginas.
Contudo, não tinha para onde ir. Queira ou não aquela era a minha casa. A única que poderia entrar com a minha própria chave, sentar na cama e tomar um copo d'água. Pois é, deveria ter comprado uma casa enquanto ele estava longe, assim teria um lugar para fugir.
Entrei silenciosamente, esperando que estivesse dormindo. Facilitaria muito a minha vida. Simplesmente deitaria na cama e acordaria bem cedo no outro dia, evitando o contato. Por sorte, ele não ficaria mais de dois dias aqui. Nunca ficava.
Minhas esperanças foram por água abaixo quando vi a luz da cozinha acesa e a imagem impecável do meu pai apoiado na porta, observando cada movimento meu, com um copo de uísque na mão. Precisava admitir que ele é lindo. Não é fácil achar uma pessoa que você odeia, linda. Mas ele era. Seus olhos, por mais que fossem castanhos, eram capazes de prender qualquer pessoa por vários segundos.
Ou talvez seja tudo apenas uma imagem. Ele é um ótimo empresário, deve ter treinado muito para isso, e agora usa o talento que adquiriu até em sua casa, com sua filha, onde na verdade deveria ser verdadeiro, real. Naquele momento, real era a última coisa que ele parecia.
– Você voltou. – Falei baixinho.
A insegurança tomou conta do meu corpo e odiava me sentir assim. Jamais fui insegura com algum homem, por que precisava ser justo com ele? Não, não deixaria sua presença ter esse efeito sobre mim.
Tentei reformular a frase.
– Por que você voltou? – Perguntei, colocando um pouco de firmeza na voz.
Isso, assim que se faz. Ele traiu a minha mãe, me machucou e me abandonou no momento em que mais precisei do seu carinho... Não merecia nem um pingo da saudade que senti durante esses meses.
– Voltei porque aqui é a minha casa. – Disse como se fosse a resposta mais simples do mundo.
Mas não era. Não era uma resposta simples e esta nunca fora a sua casa. No papel poderia ser... Mas uma casa é onde você dorme toda noite e passa os finais de semana, certo? Pois ele raramente fazia isso.
E esperei que nunca mais voltasse.
– Não é mais a sua casa. – Falei, confrontando-o.
– É e sempre vai ser. Vim para colocar as coisas em ordem.
– O que quer dizer com isso?
– Muitas coisas ficaram fora do lugar quando fui embora. – Falou misterioso mais uma vez.
– A única coisa fora do lugar aqui é você! – Falei, chegando mais perto de onde continuava parado, calmo como sempre. – Não te quero aqui, não te quero na minha vida.
– Com quem você pensa que está falando, mocinha?
– Com a pessoa que foi embora dois meses atrás. – Não sabia de onde surgia tanta coragem, mas falei tudo olhando no fundo dos seus olhos.
– Eu sou seu pai, não se esqueça disso. E você não decide se estarei ou não na sua vida. – Falou autoritário.
– Você não estava presente no momento em que mais precisei, por que quer estar agora? – Me sentia mais fraca a cada palavra que falava, sabendo que minhas forças estavam se esvaindo e que, em breve estaria aos seus pés, obedecendo as suas ordens. Sempre foi assim.
– Deixe de ser mimada. Estou aqui agora, é isso que importa. E você está destruindo a nossa imagem agindo desse jeito, saindo toda noite... As pessoas veem, as pessoas falam! – Falou, erguendo os braços, perdendo um pouco da compostura que sempre teve.
– Não me importo com o que elas falam! – Falei, jogando os braços para cima como ele. – É a minha vida, deixe que falem. Você não tem nada a ver com isso.
Ele olhou além de mim, respirou fundo e retomou a calma.
– Você viveu por dois meses fazendo tudo o que quis. Está na hora de criar algum limite. – Falou, com a voz grossa, me dando mais medo do que se tivesse gritado.
– Tenho dezoito anos, não preciso obedecer as suas ordens. – Retruquei, ouvindo a voz falhar no meio da frase. Minha insegurança surgia novamente, e não demoraria muito para ele perceber isso. Se já não tivesse percebido.
– Você vive sob o meu teto, com o MEU dinheiro. – Disse ele, aproximando-se mais. – E, enquanto viver assim terá que seguir as minhas regras. Entendeu?
Senti uma lágrima caindo pelo rosto e não pensei em limpá-la. Apenas observei o homem que sempre me deu amor, carinho, presentes... O homem que, uma vez ou outra, deitou no sofá comigo e assistiu algum seriado bobo, agiu como um pai. O homem que, neste momento, eu nem pensaria em chamar de pai.
O homem que acabou de me ameaçar e me fazer perceber que sim, tinha total controle sobre mim. E eu não poderia fazer nada contra isso. Ainda não. Capítulo 16
– Tudo bem. – Falei, derrotada, e dei as costas a ele. Subi as escadas e me enfiei no quarto que antes compartilhava com a minha mãe, trancando a porta rapidamente. Ele não dormiria ali. Podia tirar toda a liberdade que eu tinha, mas não tiraria aquele meu único canto de conforto na casa.
Peguei o diário da minha mãe. Não era uma boa hora para lê-lo, não com a visão tão embaçada pelas lágrimas e a ferida que havia começado o processo de cicatrização, exposta novamente, mas precisava senti-la ali, ouvir sua voz em minha mente e me acalmar.
Abri na página que havia parado e li o dia seguinte.
“Terás alegria ou terás poder, disse Deus; mas não terás ambos.” – Ralph
Waldo Emerson.
Minha – não mais – criança, Paloma.
Hoje é seu aniversário de dez anos, e isto me fez perceber como o tempo passa rápido. Rápido demais para aproveitar os pequenos momentos da vida. Rápido demais para entender o significado de cada ato, cada palavra e cada sentimento das pessoas que amamos.
Não consigo mais te entender. Na verdade, acho que não conheço mais a filha que criei. Você sempre foi ambiciosa, teimosa... sempre pegou tudo de ruim que seu pai tem e colocou em sua personalidade. Por que, meu amor? Não sou um bom exemplo para você?
Neste momento você está na casa de uma amiga tendo uma festa cheia de palhaços e muito chique. Seu pai sugeriu isso para que ele pudesse conhecer mais gente, se relacionar com mais pessoas e, assim, ter mais influência sobre tudo. Mas você não sabia disso, não é? Imagino que não... Ele conseguiu te manipular para fazer essa festa, te fazendo esquecer o nosso plano original... Teríamos uma festa no abrigo para animais, onde tentaríamos tirar alguns animais daquele lugar e encontrar-lhes novos lares... Você se lembra?
Os palhaços e as comidas chiques – que depois iriam para o lixo – foram mais importantes. Foram "a escolha certa", como seu pai disse. E a nossa ideia ficou lá no fundo do baú, abandonada junto com aqueles pobres animais.
Espero que quando estiver lendo esta carta já tenha mudado. Já consiga pensar no mundo fora da cabeça do seu pai. Ele vive em um mundo paralelo, meu anjo. Ele procura pelo poder e fará de tudo para encontrá-lo. Quando digo tudo, quero dizer tudo mesmo. Qualquer coisa.
Ele te ama demais... Mas usará você da mesma maneira que me usou muitas vezes, apenas para conseguir o que quer. E você, como eu, cederá a ele, pois você também o ama demais.
Não deixe que ele tenha este poder sobre você, meu amor. Não deixe que ninguém tenha qualquer poder sobre você. Ouça o seu coração e apenas ele. Eu sei que você consegue ser forte o suficiente para isto.
Da sua mãe, que não foi forte o suficiente, mas sempre te amou e te colocou
em primeiro lugar.
Oh mãe, como sabia que eu precisava ouvir exatamente isso?
Precisava de mudanças e a primeira primeira seria sair do comando dele. Dormiria e acordaria uma nova pessoa; alguém mais forte, pois precisava ser forte por mim e pela minha mãe. Devia isso a ela.
Meu pai não teria mais direitos sobre mim. Não sabia como faria isto, mas conseguiria. Não tinha mais uma família, e o faria perceber que ele também não. Sentirá o que sinto neste momento. Jamais estará sozinho, mas não terá mais a sua doce e sociável filha para apresentar ao mundo.
Realmente precisava de algumas mudanças.