O Caminho Certo

Ana Martines · Capítulo 8 de 44

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O Caminho Certo

Capítulo 9 · Estava destruída quando cheguei em casa.

Como um simples cara seria capaz de acabar ainda mais com o meu dia? Como se já não tivesse sido difícil aguentar o padre falando sobre minha mãe e sobre como a morte pode nos ensinar muitas coisas, durante uma hora inteira, ainda precisei ouvir aquilo do garoto em seguida.

Já tinha virado costume entrar em casa sem falar com ninguém, sem reparar em nada. Há quanto tempo não sentava na sala e ligava a televisão? Não sabia nem se o sofá continuava no mesmo lugar. Não sabia mais nada sobre aquela casa. A verdade era que não me sentia mais em casa. O único cômodo capaz de me deixar um pouco confortável era o quarto da minha mãe.

Um quarto que não era meu. Talvez eu não fosse boa o suficiente para ele também, já que não era para ninguém...

Deitei na cama e deixei que as lágrimas molhassem o travesseiro. Mais uma coisa que havia virado rotina.

Acordei mais tarde com o barulho de campainha, mas isso não me tirou da cama. Não era para mim. Ninguém me visitou nestes sete dias, por que viria agora? Virei para o lado e voltei a dormir. Muito mais fácil.

Acordei novamente com um barulho na porta, e logo em seguida a voz do Fernando.

– Paloma, tem um rapaz aqui querendo falar com você. – Disse receoso.

A primeira pessoa a surgir na minha mente foi meu pai, simplesmente por ser do sexo masculino. No entanto, jamais seria ele. Ele nunca pediria para ser anunciado na própria casa e, com certeza, não voltaria tão cedo. Isso se voltasse.

– Eu sei que você está acordada, menina. Levante-se, jogue uma água no corpo e desça antes que ele faça um buraco no piso da sala. – Mandou, saindo do quarto. Autoritário como sempre.

Resmungando, levantei para impedir que a cena do chuveiro se repetisse. Meu cabelo estava todo bagunçado, mas demoraria horas para deixá-lo apresentável. Pelo que Fernando disse, o rapaz estava ansioso. Quem poderia ser?

Tirei o vestido preto da minha mãe e coloquei uma saia preta que estava no guarda-roupa. Reparei que aquela saia era minha, mas não a havia colocado ali. Outras roupas minhas estavam penduradas ao seu redor. Talvez as empregadas perceberam que eu ficaria ali e resolveram deixar tudo mais fácil.

Precisava achar a responsável por isto e agradecê-la.

Achei uma blusa preta da minha mãe de cetim e manga longa. Não ia sair, mas precisava atender as visitas como uma dama. Foi isso que meu pai sempre me ensinou. "Esteja sempre vestida para um casamento. Não quero filha minha aparecendo em fotos de calça rasgada e tênis All Star". Pois é papai, joguei fora meu tênis All Star preferido quando completei quinze anos. Satisfeito?

Fiz um coque no cabelo enquanto me olhava no espelho. Podia ver os ossos da cintura e nem precisava me curvar para os dos ombros ficarem visíveis. Estava horrível. Consequência de uma semana comendo apenas uma vez por dia. Nunca tive costume de ir para a academia ou me importar com a minha alimentação, mas nunca pareci um esqueleto.

Dei as costas para o espelho. Foda-se. Meu pai não estava ali para julgar se eu estava decente ou não.

Descalça, desci as escadas, ainda me perguntando quem poderia estar ali àquela hora da noite sem avisar previamente. Talvez algum dos meus “ficantes”... Não, eles não sabiam onde eu morava. Fazia questão de nunca contar-lhes, e sempre voltar para casa com o motorista. Não precisava de ninguém me perturbando na minha própria casa, ou ficando comigo pelo simples fato de haver uma piscina maior do que o seu apartamento no meu quintal.

Parei no último degrau quando vi quem estava em pé na sala, andando de um lado para o outro. Então foi isso que Fernando quis dizer com o buraco no piso! Pelo jeito que ele andava, parecia realmente ansioso... Talvez até um pouco nervoso. Ele, nervoso? Jamais imaginei que veria essa cena.

Ele veio aqui para me machucar um pouco mais?

Estava decidida a subir as escadas e voltar para o quarto como se nada tivesse acontecido, quando Ricardo notou minha presença. Droga, fuga interrompida. A única saída era enfrentar, escutar tudo o que tinha para falar e aceitar a dor que viria com cada frase. Das duas vezes que nos encontramos foi assim, então por que agora seria diferente?

Parecia que cada palavra que saía da sua boca era capaz de aumentar o buraco em meu peito.

Só que dessa vez seria diferente porque eu estava preparada para o que ele tinha para falar. Todos os muros estavam erguidos e ele jamais seria capaz de atravessá-los.

Andei até onde estava parado, sem desconectar meu olhar com o seu. Notei que ele ainda usava o short que da praia, mas agora estava de blusa. Era a primeira vez que o via com uma. Hum, posso afirmar que prefiro da outra maneira.

– Oi, Paloma. – Cumprimentou sem sair do lugar.

De tanto olhá-lo nos olhos, reparei quão azuis eram. Como pude não perceber isso antes? Era evidente. Parecia que o mar estava ali, na minha frente, me incitando a dar um mergulho. Isso me fez perceber que nunca havia reparado nele por inteiro, não a ponto de decorar cada detalhe da sua fisionomia. Da mesma maneira que não reparei na sua tatuagem em nosso primeiro encontro.

Talvez o motivo seja porque sempre que nos encontramos; ele me surpreende. E a surpresa nunca é boa.

Muros erguidos, Paloma. Muros erguidos.

Ignorei seu cumprimento, indo direto ao que interessava.

– Seu recado está dado. Não vou me aproximar do Miguel, nem tentar me matar no mar. Vou evitar ao máximo a área onde fica o seu quiosque na praia. Entendi cada palavra que você falou hoje, não havia necessidade de ter vindo aqui. – Completei, me aproximando. Podia sentir seu cheiro. Ele cheirava a mar e calmaria.

Ótimo. O garoto que conseguia me fazer chorar com apenas uma frase também conseguia me acalmar com apenas... O que? Sua presença? Seu cheiro? Não. Nada disso. Muros erguidos.

Ele pareceu um pouco desnorteado, mas a expressão durou pouco.

– Não estou aqui para falar isso.

Esperei por alguma explicação, mas tudo o que fez foi me encarar.

– Então por que veio?

– Para me desculpar. – Falou, suavizando um pouco a voz sempre tão grossa.

Foi o fim do meu controle.

– Se desculpar? Por que, exatamente? Por ter me tirado dois momentos importantes? Por ter se intrometido na minha vida duas vezes? Ou agora, por estar se intrometendo na minha intimidade, invadindo minha casa? – perguntei, aumentando o tom de voz.

Os muros estavam por um triz.

– Por tudo. – Disse simplesmente.

– Ótimo pedido de desculpas – ironizei. – Agora já pode ir.

Ele sacudiu a cabeça, parecendo indignado com si mesmo. Até eu estaria. Que pedido foi aquele? "Ei, desculpa aí, tá? Firmeza então". Uma desculpa dessa não muda nada. Na verdade, seria melhor que não tivesse vindo.

Depois de um tempo encarando o nada, voltou o olhar para mim, determinado.

– Também vim para te devolver isto. – Disse, pegando no sofá a minha bolsa que estava perdida desde o dia em que dormi na praia.

– Você roubou isto de mim? – Perguntei, querendo colocar um tom de afirmação na minha voz, sem sucesso.

– Você estava desmaiada quando guardei isto. Imaginei que não se lembraria de pegar, bêbada daquele jeito – seu tom mudou para acusatório, mas seu olhar continuava calmo. – E não foi atrás durante a semana inteira, então eu trouxe.

Ele havia vindo aqui para devolver as minhas coisas e tudo o que fiz foi acusá-lo sem sentido. Nunca me senti tão constrangida.

– Não precisava se preocupar. – Disse, suavizando a voz. Sua vinda era um gesto um tanto... Estranho. Mas, ao mesmo tempo, fofo. Não, fofo não era uma palavra aplicável a ele. Precisava pesquisar no dicionário algo mais másculo só que com o mesmo significado.

– Os sapatos também estão ali. – Indicou com o braço onde estavam os meus saltos, na frente do sofá.

Pensei que nunca mais veria aqueles sapatos. Na verdade, nem havia me lembrado deles durante esses dias. Eles eram os meus favoritos... Como poderia não importar? Sentei no chão ao lado do par, analisando-o sem realmente tocá-lo, tentando entender o motivo de não sentir nada por aquele calçado que me acompanhou em tantas noites.

Assustei ao ouvir Ricardo sentando ao meu lado. Tinha me esquecido da sua presença por um momento, o que era um verdadeiro milagre. Ele se comportava de um modo que ninguém seria capaz de não prestar atenção por sequer um segundo.

Tentei me sentir insultada, brava ou qualquer outra coisa negativa por ele estar sentado no chão da minha sala, mas não consegui. Ele tinha me machucado, isto era fato, mas a culpa não era sua. Eu havia pedido por cada ferida causada.

Mereci tudo o que ele já me disse.

Novamente as lágrimas. Malditas lágrimas. Cadê as porras dos muros, Paloma?

– O que aconteceu? – Perguntou, sem se aproximar mais do que já havia feito.

– Nada. – Disse, passando as mãos nos olhos, tentando fingir que elas não haviam aparecido.

– Escuta, começamos com o pé esquerdo. Mas podemos tentar de novo? – Perguntou, me encarando.

Tive vontade de rir da ironia daquele momento. Pé esquerdo? Começamos plantando bananeira com uma mão só. Seria fácil se fosse apenas com o pé esquerdo.

– Não sou a melhor pessoa para você. – Joguei suas palavras de volta, querendo machucá-lo, mas na verdade tudo o que fiz foi me machucar ainda mais.

Esperei qualquer coisa, menos ouvir a sua risada. Olhou para longe, parecendo um pouco perdido em pensamentos, com um sorriso no rosto. Cedo demais, seus olhos já estavam de volta nos meus.

– Eu não te conheço, você não me conhece. Já pedi desculpas. – Disse, como se isso resolvesse tudo.

– Sim, você pediu. – Afirmei, ainda sem acreditar nelas.

– Quero te conhecer. – Disse a voz um pouco mais rouca. Ou seja, mais sedutora do que nunca.

Precisei desviar o olhar. Como o momento havia passado de tão triste para tão... Quente? Não, quente não. Não precisava disso agora, afinal eu estava de luto e não merecia um garoto para me distrair desta minha dor.

– Não tem nada para conhecer. – Tentei reerguer os muros, mas parecia mais difícil do que nunca.

– Parece haver muito para conhecer. – Sorriu de lado.

Ele sorriu de lado. Ele, simplesmente, sorriu de lado. Se estivesse nos meus dias normais, do jeito que costumava ser, uma hora dessas estaria montada em seu colo, arrancando aquele sorriso delicioso dos seus lábios... Ok, muros, onde vocês estão?

– Tudo bem, eu começo. Meu nome é Ricardo e trabalho no quiosque que você conhece. Tenho vinte e um anos e moro com meu irmão Miguel, que você também já conhece. Isto é tudo. – Afirmou ele, sorrindo novamente, esperando por alguma reação.

Aquilo não chegava nem perto de ser “tudo”. Queria saber muito mais sobre ele, sobre sua vida, namoradas, parentes e hobbies... Qualquer coisa que desse a sensação de conhecê-lo melhor. Queria saber tudo.

Respirei fundo, pensando sobre o que poderia contar a ele.

– Sou Paloma. Acabei de completar dezoito anos e moro sozinha. – Falei, sem encontrar mais nada de interessante para dizer. Uma semana atrás diria "e sou solteira". Hoje, o “moro sozinha” poderia muito bem ser substituído por um “sou sozinha”.

– Então quem era o cara que quase não me deixou entrar?

– Você deve estar falando do Fernando. Ele é um... amigo da família. – Disse, sem encontrar uma definição melhor para ele.

– Ele agiu como seu pai ou namorado, mas não acho que você ficaria com alguém tão velho. – Disse, piscando um olho.

– Não, sou mais seletiva. – Afirmei, entrando no seu jogo.

Não me pergunte o porquê de ter feito isso. Eu apenas... Fiz. E não me arrependi em nenhum momento.

– Seletiva? O que um cara teria que fazer para passar nessa seleção então? – Perguntou, se aproximando mais.

Prendi a respiração por um momento e quase soltei um “ser você” sem pensar. Milagrosamente, meu cérebro voltou a funcionar a tempo de impedir o desastre.

– Precisa merecer. Ser educado, carinhoso e ter uma boa pegada. – Respondi no lugar, querendo que entendesse que o cara precisava ser tudo o que ele não era.

– Pelo menos uma das coisas eu garanto.

– Não adianta garantir apenas uma delas.

– Imaginei. – Falou, mudando a feição. Em um piscar de olhos, ele se levantou. – Foi ótimo saber um pouco mais sobre você, Paloma. – Sorriu como se não estivéssemos flertando até agora.

Fiz que sim, ainda sem entender a mudança do clima. Uma hora ele estava ali, quase se atirando para cima de mim – uma coisa que acho que não negaria... Só acho – e na outra estava se afastando, indo embora por onde havia entrado, sem nem ao menos se despedir direito.

No fundo fiquei aliviada por não sair chorando dessa vez. Apenas subi as escadas, com a bolsa em uma mão e os saltos na outra, e me joguei na cama como de costume.

No entanto, desta vez demorei um pouco mais para pegar no sono. Seus olhos azuis não saíam da minha mente. E o sorriso de lado...? Tentei desvendá-lo, entendê-lo, mas jamais seria capaz. Era misterioso demais para a minha sanidade e ficar perdendo tempo com hipóteses não ajudava em nada.

Talvez amanhã, com a cabeça mais fria e sem este calor inédito que sua presença havia deixado em meu corpo, serei capaz de pensar com mais clareza. Entender tudo o que aconteceu naqueles minutos em que ele sentou no chão da sala como se pertencesse àquele lugar.

Garoto atrevido e idiota. Uma bela definição. Ricardo, o garoto idiota. Idiota e incrivelmente atraente.

Sorri antes de pegar no sono. Há tanto tempo não sorria...