O Caminho Certo
Capítulo 3 · – Garota, você não pode dormir aqui.…
– Garota, você não pode dormir aqui. – Disse uma voz no meio do sonho, rouca e um pouco irritada. Dei risada, pois era hilária parecida com a que meu pai usava sempre que ficava zangado.
– Legal, agora ela está rindo. Dá um jeito nisso. – Disse a voz, sumindo em seguida. Queria pedir para que não fosse embora. Era uma voz reconfortante, de certa maneira. Mas, claro, não passava de um sonho. Pelo menos nele alguém conseguia me confortar.
– Paloma. – Sussurrou outra voz, dessa vez mais delicada e, com certeza, mais calma. Gentil. – Paloma, você não pode ficar aqui, vai se queimar.
Senti uma mão no ombro, chacoalhando meu corpo levemente e foi assim que percebi que não estava mais sonhando. Não tinha sonhos tão reais assim e a areia quente queimava meu corpo, o que me acordou mais rápido ainda. Sentei assustada, tentando me situar, e tudo girou. Precisei deitar de novo para me estabilizar. Tudo ficou escuro por um momento, então achei que havia dormido novamente, mas o sol não demorou a deixar minha visão vermelha, e a realidade voltou ao normal.
Quando abri os olhos, um garoto me encarava assustado. O mesmo que me olhou com receio no outro dia. Como era mesmo o seu nome? Depois de revirar várias vezes minha mente em busca de memórias; desisti, pois não consegui formular nenhum pensamento racional.
Meu corpo inteiro doía, talvez por ter dormido na areia que antes parecera macia. Foi por pouco tempo, já que o sol não parecia muito diferente de como estava quando deitei. Mesmo assim, sempre que mexia algum membro do meu dolorido corpo, não conseguia esconder a careta de dor. Minha cabeça não estava muito melhor.
Olhei para as pernas ainda de calça jeans, mas toda suja de areia. Meus pés estavam descalços e não me lembrava de como havia tirado os saltos. Usei salto? Se alguém roubou algum dos meus sapatos que paguei uma fortuna, vai se ver comigo!
Passei a mão pelo cabelo, sempre liso, mas agora todo embaraçado e repleto de areia. Nenhuma parte de mim estava intacta. Podia sentir a areia por todo o meu corpo, até em minha língua, o que dava uma vontade enorme de vomitar.
O garoto ajoelhado ao meu lado ainda me encarava. Tentei sentar novamente, devagar dessa vez, não querendo que tudo girasse. Olhei de volta para ele e forcei um sorriso.
– Desculpe, eu cochilei.
– Não tem problema. Você está bem? – Perguntou, parecendo preocupado.
Minha cara deveria estar péssima.
Mas por que eu não estaria bem? Tenho tudo o que quero; dinheiro principalmente, e ele pode comprar qualquer coisa que eu sonhar. Tenho uma família comple... Não. Não tinha mais uma família completa. Não tinha mais tudo o que queria. Não tinha mais nada!
A vontade de chorar voltou com tudo, mas nunca chorei na frente de ninguém. Isso não mudaria hoje. Engoli o choro, exatamente como fiz a minha infância inteira quando me negavam algo – o que era bem raro – e coloquei o melhor sorriso falso no rosto, enquanto o menino esperava por uma resposta.
– Sim, estou bem. – Foi tudo o que consegui dizer. Desviei o olhar, não querendo que descobrisse que aquilo estava longe demais da verdade.
– Por que você dormiu aqui? – Perguntou curioso.
– Eu bebi.
Ele me encarou como se esperasse por mais, porém deve ter percebido que aquilo era tudo. Ou não. Naquele momento, a voz grossa do meu sonho voltou, parecendo distante, gritando:
– Miguel, mesa três. Pare de paquerar e venha trabalhar.
Oh, era isso. Miguel. Repeti três vezes na minha mente, convencendo-me de que não poderia esquecer de novo. Não consegui olhar para trás em tempo de conhecer o dono da voz e, quando ia olhar melhor, Miguel se levantou, esticando a mão para me ajudar a levantar.
– Obrigada. – Disse, pegando a sua mão e levantando em um impulso.
– Eu... Er preciso trabalhar. – Comentou, ficando vermelho como de costume.
Aquele garoto dava vontade de apertar. Jamais me imaginei assim, sem atração por algum rapaz, sem conseguir imaginar nós dois nos beijando e como seria o seu toque. Mas com ele era diferente. Ele me fazia querer apenas um abraço. O abraço que não tive ontem à noite. Seria ele o diferente? Ou eu que estava ferrada demais para sentir algo físico?
Não pensei antes de agir. Quando vi, estava com os braços em volta do seu pescoço, procurando o conforto que tanto precisava. Ele demorou demais para reagir, pois estava assustado com a minha atitude, mas seus braços envolveram as minhas costas, acariciando-a levemente, e aquele foi o fim. Estava desesperada.
Afastei-me, enxugando as lágrimas que insistiam em correr, tentando fingir que nada havia acontecido e que estava tudo bem, que eu era forte o bastante. No entanto, não tinha mais forças para fingir nada.
– Obrigada. – Agradeci novamente, sem saber se ele havia entendido que era pelo abraço. Não afastou nem ao menos um milésimo da dor sentida em meu coração, mas já era alguma coisa. Qualquer alívio era melhor que nada. – Não vou atrapalhar o seu trabalho. – Completei, tentando sorrir, mas fracassando mais uma vez.
– Tudo bem. – Parecia ainda mais envergonhado, mas não estava mais vermelho. Permaneceu um tempo me encarando, me deixando sem saber o que fazer.
– Pode ir, vou ficar bem. – Respondi secamente, almejando que parasse de me questionar com seu olhar.
– Tem certeza? – Perguntou indeciso, olhando para algo atrás de mim.
– Sim, tenho.
– Ok então. – E foi embora. Simples assim.
Não sei se me senti aliviada ou frustrada. Mais uma pessoa desistindo de mim. Uma pessoa completamente insignificante, mas desistindo mesmo assim.
O mar continuava lindo, com suas ondas fortes e destemidas chegando até o fim do horizonte. O sol criava um reflexo maravilhoso e encantador. Nunca parei para admirar o mar, por mais que já tenha vindo muitas vezes à praia com meus amigos. Nunca olhei para este paraíso com outros olhos...
Precisava entrar naquele oceano, não apenas para sentir a água que prometia lavar um pouco das feridas, mas também porque estava cheia de areia. Não me importei com minha roupa. Não me importei com nada, apenas dei um passo de cada vez, até sentir a água gelada bater em minhas canelas, coxas, umbigo e seios.
Parei. Não queria ir muito fundo, pois não sabia o quão perigoso poderia ser o meu gesto. No entanto, estava delicioso, o que fazia valer a pena correr o risco. A morte não me assustava mais, ela já havia levado tudo o que podia, e não tinha problema me levar junto também.
Só queria aproveitar a água que estava cada vez mais gostosa. Pouquíssimas pessoas estavam no mar e não havia ninguém ao meu redor. Eles não sabiam o que estavam perdendo. Poderia ficar a tarde inteira ali, apenas sentindo o calor do sol queimando meu rosto enquanto a água do mar esfriava meu corpo.
Fechei os olhos e boiei, me deixando levar. O mar estava calmo, pacífico, mas de uma hora para outra tudo ficou confuso. Uma onda forte me jogou para o lado, fazendo com que muita água entrasse em meu nariz. Procurei desesperadamente o chão, enquanto outra onda atrapalhava meu equilíbrio. O alívio só veio quando senti a areia em meus pés, quando os pulmões estavam quase sem ar. O que não consegui fazer foi pegar impulso para ir para a superfície novamente, pois antes que pudesse me preparar para isto, senti meu corpo sendo puxado por braços fortes e firmes.
O que estava acontecendo? Eu havia morrido e ido para o céu? Fechei os olhos, sentindo o pulmão queimando por causa da água salgada, mas respirando ar puro o máximo que conseguia. Aquilo não parecia nada com a morte. Sentia meu corpo sendo carregado por alguém e, quando tentei abrir os olhos novamente, a água salgada fez com que tudo ficasse vermelho pela dor. Não, não daria para abrir os olhos ainda.
Sentia um peito firme encostado no meu ombro, mas a pessoa estava muda. Não era o Miguel, pois ele não tinha um corpo forte como aquele. Não sei se seria capaz de me carregar daquela maneira por tanto tempo. Seria algum salva vidas? Não, não tinha visto nenhum quando entrei. Talvez algum banhista gatinho?
Frustrada por não conseguir abrir os olhos e não encontrar as palavras certas, apenas deixei que me carregasse, sentindo a raiva se acumulando em mim. Quem aquele cara pensava que era para me pegar no meio do mar, colar seu corpo no meu e me tirar de lá, sem mais nem menos? Tirando de mim um dos únicos momentos bons que tive nessas poucas horas depois de...
Deixei o sofrimento de lado e foquei na raiva. A raiva era melhor, doía menos. Aquele cara ia se arrepender de fazer isso. Espere só até eu ter os pés no chão e o corpo descolado deste peito tão convidativo.