O Caminho Certo
Capítulo 19 · Ricardo
A noite havia sido satisfatória, porém repetitiva. Estava cansado das mesmas
garotas superficiais, das mesmas palavras quentes sussurradas na cama e da mesma transa sem significado.
Não, não procurava alguém para "fazer amor". Aliás, que porra é essa? Enfim, o problema não era este. O problema era que não fazia ideia de qual era o problema.
Pensei que a noite, a qual imaginei ser Paloma no lugar da outra garota nunca mais se repetiria. A noite que uma menina insignificante ganhou uma nova fisionomia, me levando à loucura em poucos minutos, diferente do que acontecia com seu rosto e corpo normal. No entanto, nada saiu como planejado. Tentava evitar ao máximo pensar em Paloma e, com o tempo, ficava cada vez mais fácil. Ela havia sumido. Parecia até que estava tentando me ajudar a seguir em frente.
Tudo mudou no dia em que apareceu no quiosque, pronta para trabalhar por lá. No meu trabalho, o local onde passo a maior parte do dia. Já fazia uma semana que precisava olhar para o seu rosto, para o seu irresistível corpo e me segurar para não prensá-la na parede mais próxima e fazer tudo o que a minha imaginação – e meu amigo aqui de baixo – queriam. Foi então que precisei, mais uma vez, substituir o rosto das garotas pelo dela.
Isso estava se tornando uma tarefa cada vez mais difícil. Em que porra estava pensando quando fiz pela primeira vez?
Talvez estivesse pensando que jamais a veria novamente, que não teria problema nenhum fazer isso. Quem nunca se imaginou transando com a Pamela Anderson, ou com a Scarlett? Posso dizer que nunca me imaginei com nenhuma das duas e muito menos com outras famosas. A única capaz de entrar na minha mente desta maneira era a Paloma.
E a vi novamente. Por uma semana a vi todos os dias, por mais tempo do que poderia imaginar que veria. Quando soube que trabalharia ali meu primeiro pensamento foi "foda-se, não vai durar nem duas horas". Confesso que fiz de tudo para que não durasse mesmo. Mas a garota é forte, teimosa e já estava há uma semana, aguentando todas as reclamações dos clientes e suportando o calor infernal que é a praia quando não podemos entrar no mar.
Parecia cada vez mais distante da garota mimada que achei que fosse. E me sentia cada vez mais instigado em conhecê-la profundamente, no bom sentido e no melhor ainda.
No momento, com a bebida ainda no organismo, o sentido mais malicioso era o que prevalecia.
Entrei em casa tentando fazer silêncio, pois sabia que era tarde demais. Ou cedo demais. Tanto faz. O fato é que Miguel com certeza estava dormindo e, mesmo que o chão parecesse um pouco fora de lugar, daria o meu melhor para não acordá-lo.
Fui direto para o meu quarto, sem olhar ao redor do pequeno apartamento, pronto para tirar a roupa e me jogar na cama. Dormir as quatro horas de sempre.
Acendi a luz do quarto e comecei a tirar a camisa, quando vi um volume estranho na cama. Não, não apenas um volume. Uma garota loira estava desmaiada na minha cama, com a cabeça virada para a parede, impossibilitando que visse seu rosto. Mas o cabelo e o corpo, um pouco à mostra demais por causa do vestido curto, eram inconfundíveis: Paloma estava deitada na minha cama.
A garota que há pouco tempo estava deitada em outra cama, gemendo meu nome, deitava na minha cama. A verdadeira garota.
Que porra estava acontecendo?
Olhei ao redor sem saber o que fazer. Podia acordá-la e perguntar o que estava fazendo àquela hora, deitada no último lugar que imaginei que estaria. Ou melhor, que realmente estaria… pois minha imaginação fértil já a havia colocado várias vezes naquele lugar. Mas não, não a acordaria. Ela que dormisse, já que estava ali.
Outra pessoa precisava ser acordada. O Miguel ia se ver comigo.
Saí do quarto em direção ao quarto do Miguel, quando vi a luz da sala acesa. Não estava acesa quando entrei, mas meu irmão agora ocupava o sofá como se estivesse ali o tempo todo.
Sabia o quão furioso eu estava.
– Posso explicar, Ricardo. – Falou assim que nossos olhos se encontraram; estavam vermelhos, indicando que havia chorado. Muitas coisas precisavam ser explicadas.
– É bom ter uma puta de uma explicação para isso! – Exclamei morrendo de vontade de socar algo. Qualquer coisa. Cruzei os braços para que não criassem vida própria e apoiei o corpo na parede, tonto por causa da bebida. Porcaria de bebida.
– Senta aqui, mano. – Falou, indo para o canto do sofá.
– Não vou me sentar, Miguel. Pare de enrolar e comece a explicar o motivo de ter uma garota na minha cama.
– Ela não tinha para onde ir. – Disse, abaixando o olhar.
– Foda-se! Você já arranjou um emprego para ela, agora vai trazê-la para casa?
– Não vai ficar por muito tempo. Senta aqui mano, me deixa explicar. – Pediu mais uma vez.
– Cacete Miguel! Já levei alguma garota para a sua cama? Fala, já fiz isso? Então porra, leve-a para a sua. Não quero chegar aqui em casa e encontrar suas paqueras dormindo no meu quarto!
– Não é nada disso que está pensando. – Continuava calmo. Tão diferente de mim...
– Puta merda, garoto! – Resmunguei, sem conseguir colocar os pensamentos em ordem.
– Me escuta só por um momento, Rick. Por favor.
Respirei fundo. Mais uma vez.
– Estou ouvindo. – Falei.
– Ela teve uma briga com o pai. Sua mãe não está mais aqui… Não tinha para onde ir... Ligou no meu celular chorando, perguntando se poderia dormir aqui só essa noite. Ela prometeu que seria apenas uma noite, mas não sei o que vai fazer depois disso. – Explicou me deixando mais confuso do que nunca.
– Uma simples briga é motivo para a mimadinha sair de casa?
– Você não entende. Não a conhece. Já te disse, ela passou por muita coisa. Está mudando.
Sim, realmente estava. Podia ver no modo como se portava no quiosque… Se comparasse o seu primeiro dia de trabalho com o de hoje podia ver claramente a diferença. Suas roupas, seu olhar, sua postura. Parecia cada vez mais decidida.
– Ela não tem nenhuma amiga? Por que justo aqui? Justo você? – Falei, sentindo o ciúme inusitado que odiava com todas minhas forças.
– Não sei. Não conversamos muito quando ela chegou aqui. Só disse que não sabia o que faria se eu não tivesse atendido ao telefone, e prometeu que não incomodaria. Queria dormir no sofá, mas não deixei. Achei que você chegaria mais tarde, então mandei que fosse para seu quarto.
Passei as duas mãos no cabelo, bagunçando-o, frustrado. A garota estava perdida e procurou meu irmão para isso. Queria ter sido eu a salvar a sua noite. Quem procurou ajuda.
Mas não, nunca seria o salvador de alguém.
– Ela não pode ficar aqui. – Falei, simplesmente.
Já era difícil conviver com a vontade que sentia dela no trabalho. Em casa, seria um inferno.
– Ela não tem para onde ir. – Insistiu.
– Não me importo. – Teimei, sabendo que no fundo me importava sim, e muito. Mas não poderia. Não deveria.
– Mas Rick… – Começou.
Levantei novamente, bravo com Miguel por estar teimando e ainda mais comigo, por não conseguir me convencer de que mandá-la embora seria o certo a fazer.
– Não me importo, Miguel! Ela tem a casa dela, ela que vá viver sua vida. Não quero vê-la aqui amanha. Foda-se para onde irá, mas aqui não fica. – Falei, erguendo o tom, querendo me convencer de que acreditava em tudo que estava falando.
Queria como o inferno que ela ficasse. Queria chegar todos os dias em casa e encontra-la dormindo na minha cama. Mas não podia querer nada disso.
Quando olhei novamente para Miguel, seus olhos estavam em alerta, olhando além de mim. E então a ficha caiu.
Havia fudido tudo mais uma vez.
Virei o corpo, sabendo o que me esperava, mas me surpreendendo da mesma maneira. Paloma parecia derrotada, destruída. Seus cabelos despenteados e a maquiagem espalhada pioravam a sua aparência. Mas o que machucou não foi isso, e sim ver o olhar de decepção em seu rosto mais uma vez.
Doeu muito mais do que a primeira vez. Mais até do que a segunda. Esta era a terceira? Ou já havíamos chegado na quarta?
Encarou por um tempo, baixando o olhar em seguida como se não aguentasse mais aquilo. Por um momento pareceu disposta a argumentar comigo, a ser a garota mimada e teimosa que eu tanto amava atormentar. Mas, meio segundo depois, se rendeu. Desistiu como se aquilo fosse um sacrifício muito grande.
– Não se preocupe, vou embora assim que o dia clarear. – Disse, baixo demais.
Não me importava em ser sua ruína, mas não deixaria que mais ninguém a ferisse tanto. Sabia que não era o culpado por aquela aparência e faria de tudo para descobrir o que aconteceu. A pessoa pagaria. Ah, porra, a pessoa que fez aquela garota chorar pagaria muito, muito caro.