O Caminho Certo

Ana Martines · Capítulo 11 de 44

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O Caminho Certo

Capítulo 12 · Acordei sem saber onde estava.

Olhei para cima. Ok. Estava no meu quarto. Ao menos sabia alguma coisa... Mas, como havia chegado ali? Minha cabeça parecia prestes a explodir e as cortinas estavam mais uma vez abertas. O sol da manhã nunca feriu tanto meus olhos como agora.

A última coisa que lembrava era da balada... Não! Havia entrado no carro do Ricardo. Era isso. Ele me trouxe para casa. Algo me dava impressão de que também me colocou na cama, mas não sabia se estava misturando a realidade com os meus sonhos. Só esperava que não tivesse abusado de mim enquanto estava inconsciente.

Ótimo, passaria mais um dia na cama.

Virei para o lado, pronta para agarrar o travesseiro mais próximo, até ver Fernando sentado do meu lado, me encarando. Realmente me encarando. Sinto que nunca havia visto uma expressão tão brava em seu rosto.

Estava ferrada.

Não havia como fingir que continuava dormindo e esperar que fosse embora. Precisava aguentar o sermão que receberia dele. Não tinha escapatória.

Precisava lembrá-lo de que não tinha autoridade nenhuma para me deixar de castigo.

Sentei na cama, fazendo uma careta ao sentir o latejar na cabeça. O arrependimento de ter bebido tanto surgiu no mesmo instante. Valeu a pena enquanto durou, mas agora me sentia um lixo.

Fernando esticou um copo com água e um comprimido vermelho, sem deixar de me encarar. Peguei o comprimido da sua mão, virando o copo em seguida, surpreendendo-me com o quão seca minha boca estava.

– Obrigada. – Me sentia pior por ter saído sem avisar. Ele deve ter visto Ricardo entrando comigo, porque eu jamais conseguiria mostrar onde estava a chave ao garoto enquanto dormia. Deve ter aberto a porta.

Se estivesse certa, preferiria estar ferrada, pois a realidade era muito pior.

Não aguentava mais o silêncio do cômodo. Seu olhar machucava muito mais do que as duras palavras que ouviria cedo ou tarde.

– Quão encrencada estou? – Perguntei, querendo sair daquele clima tenso.

– Você tem noção do que poderia ter acontecido ontem à noite?

– Eu só... – Não me deixou completar.

– Se não fosse pelo seu amigo, você não estaria aqui.

– Ele não... – Tentei explicar que não era meu amigo, mas mais uma vez fui cortada.

– Você estaria jogada, sem vida, em um beco qualquer. Violentada. Teria sorte se estivesse morta, porque nunca mais iria querer viver depois de ser abusada e molestada como muitas jovens estão sendo hoje em dia.

– Eu não... – Tentei falar mais alto, mas seu tom autoritário me interrompeu novamente.

– Quem morreu foi a sua mãe, não você! Não pode jogar fora sua vida assim, depois de tudo o que ela fez por você! Depois de tudo que ela te deu!

Ele ficou quieto de repente e não tentei mais me explicar. Era exatamente por isso que havia saído ontem à noite: para esquecer que a minha mãe se matou. Para esquecer tudo o que fez.

As lágrimas voltaram. Não sei como ainda era capaz de chorar depois de uma longa semana fazendo isso o tempo todo. Teria um limite, não? Uma hora as lágrimas precisavam ter um fim.

Senti a mão de Fernando no braço. Quando olhei para seu rosto, não parecia mais tão nervoso. Seu olhar dizia que me entendia completamente. Como poderia?

– Você não está indo para a faculdade. Tudo bem. Não tem problema. Jamais obrigaria você a assistir aulas como se nada tivesse acontecido. – Disse, acariciando meu braço.

– Não consigo fazer nada como se nada tivesse acontecido. – Admiti, sentindo falta da garota que era antes. A garota que se divertia a noite inteira, que tinha milhares de histórias para contar e que todos queriam ter como amiga.

Hoje, meu telefone sequer tocava.

– Você sofreu seu luto por apenas uma semana, Paloma, mas foi uma semana muito intensa. Não pode viver assim para sempre. Você precisa reagir.

Reagir. De que maneira? Por qual motivo?

– Sinto tanta falta dela! – Solucei. Era a primeira vez que dizia isso em voz alta. Quanto mais chorava, mais dor sentia. Pensei que admitir faria a dor diminuir um pouco, mas só aumentava. Admitir só tornou tudo mais real.

– Eu sei, criança. Também sinto falta dela. – Revelou, me puxando para si.

Sem perceber, estava deitada com a cabeça no seu colo, soluçando sem parar. Ele acariciava meu cabelo, tentando me acalmar, mas o buraco em meu peito não parava de aumentar.

Um minuto ou uma eternidade depois – cada segundo parecia durar para sempre – consegui me controlar. Fernando ainda acariciava meu cabelo, mas era como não soubesse o que fazer. Voltei a sentar na cama, enxugando os olhos. Estava envergonhada pelo escândalo.

– Desculpa. – Falei sem olhar para o seu rosto.

Não sei se ouviu, pois estava quieto e, quando olhei, parecia perdido em pensamentos. Pensei em me levantar, mas algo indicava que a conversa não havia acabado.

– Sua mãe foi uma mulher muito importante na minha vida. – Falou depois de um tempo, voltando a me olhar.

– Você a conhecia? Quero dizer... Intimamente? – Perguntei curiosa.

– Mais ou menos. Olívia foi a melhor patroa e amiga que um homem pode desejar ter. – Soava como se também sofresse.

Foi estranho descobrir que não era a única sofrendo por sua morte. No fundo, me sentia aliviada. Ela merecia que eu não fosse a única.

– Queria saber mais sobre ela.

Fernando me olhou como se não entendesse o que queria dizer.

– Você é a filha dela, deve conhecê-la melhor do qualquer um.

– Não... Nós não conversávamos muito. Eu apenas sabia de alguma maneira que a amava e que podia contar com ela para qualquer coisa. Mas nunca fomos de compartilhar segredos. – Admiti, chateada comigo mesma. Tinha sido uma porcaria de filha.

Naquela época pensava que tudo era perfeito. Mal sabia que estava enganada.

– Sua mãe sempre foi muito reservada. – Concordou.

– Mas você a conhecia.

– Sim, conhecia. Vivi com ela por mais de vinte anos, não tinha como não conhecer. Seus pais me contrataram assim que eles se mudaram para cá. Fui me aproximando da sua mãe com o passar do tempo.

– Fale-me dela. – Pedi, querendo saber tudo sobre a mulher que me criou.

– Em que parte do diário você está? – Perguntou, me surpreendendo.

– Você sabe sobre o diário?

– Eu a via escrevendo todos os dias, até que me contou que era um diário para você e me deixou ler algumas páginas. – Falou, olhando para baixo novamente.

– Eu... Só li o primeiro dia, quando ela estava comigo na barriga. Ainda não tive coragem de ler o resto. – Admiti, cada vez mais derrotada. Olhei em direção ao local onde havia jogado o diário na manhã anterior, mas não sabia onde estava.

De repente, Fernando abriu a gaveta do criado-mudo e retirou o caderno de couro que tanto me apeguei.

– Você deveria continuar lendo.

– Não quero me machucar. – Admiti, mas peguei o diário da sua mão.

– Você já está machucada, o diário não aumentará a ferida. Precisa conhecer a mulher que sua mãe era – pareceu perdido em pensamentos novamente. – Ela era incrível.

Ele não falava dela como um melhor amigo falaria.

– Você... Você a amava? – Perguntei, já sabendo a resposta.

– Sim, amava Olívia mais do que minha própria vida. – Falou depois de um tempo, suspirando.

Era capaz de sentir a sua dor. Podia sentir o nosso sofrimento sendo compartilhado. Acho que nunca fui tão próxima de um estranho.

– Vocês tiveram algo? – A curiosidade me matava. Minha mãe havia traído meu pai? Torcia para que a resposta fosse positiva.

Fernando riu, mas não era um riso de alegria. Era amargurado, derrotado.

– Não, criança. Jamais faria algo que prejudicasse o casamento dos seus pais. Tentei conquistá-la, mas seu pai era o amor da vida dela e nunca deixaria de ser.

Não há uma descrição para o que senti com a revelação. Queria ouvir que ela havia passado noites ao lado de Fernando, enquanto meu pai mentia que estava trabalhando. Queria ouvir que viveram um romance escondido e perfeito e que, por muitos anos, foram felizes juntos.

Queria ouvir que a verdade era que Fernando era meu verdadeiro pai e não aquele idiota que não foi capaz de passar nem um dia comigo após a morte da sua mulher.

– Ela sabia dos seus sentimentos? – Perguntei, deixando a decepção de lado.

Ele assentiu enquanto uma lágrima escapava de seus olhos.

– Não houve um dia da minha vida que não fiz questão de olhá-la com todo o meu amor. De implorá-la para me dar uma chance, mesmo sem falar nada. Ela sabia.

– Você poderia ter falado. Poderia ter se declarado com palavras.

– Ah, minha doce Paloma... – Suspirou. – Um olhar vale mais do que mil palavras. E o olhar que eu me dirigia à sua mãe valia o dobro disso.

– O que você teria feito se ela dissesse que sim? – Perguntei.

– Nunca pensei sobre isso. Desde o começo soube que estava me apaixonando pela pessoa errada. Sabia que ela jamais abandonaria seu pai para ficar comigo.

– Eu sinto muito. – Falei. E realmente sentia. Fernando merecia ter vivido aquele amor e minha mãe merecia ainda mais. Merecia receber carinho de quem realmente queria o seu bem.

– Não sinta, criança. Por um lado foi bom. Ela teve você.

– Mas ela morreu. Talvez se não tivesse negado... – Falei, sem conseguir concluir a frase.

Talvez tudo tivesse sido diferente se ela tivesse vivido um amor de verdade. Talvez o motivo de ter se matado era este: falta de amor. Enquanto nós dois vivíamos nossa vida, uma garota que só olhava para o próprio nariz e um homem que sofria calado, ela se matou por falta de amor.

Fernando ao menos demonstrava o que sentia com olhares... E eu, o que havia feito? Havia jogado palavras nervosas em sua direção cada vez que entrava no meu quarto sem ser chamada. Apontado o dedo na sua cara, culpando-a de não sair para nada. Só isso.

– Não foi culpa sua. – Falou, voltando à sua feição normal.

Não sabia de quem era a culpa. Não sabia de nada!

– Agora você precisa levantar dessa cama e voltar à sua vida normal. Ou, ao menos, voltar a viver. – Falou, fingindo um sorriso.

– Não quero a minha vida normal de volta. – Admiti, surpresa pela revelação.

Minha vida anterior era perfeita, por que não a queria de volta? Ah, sim, porque era uma mentira. Tudo não passava de uma mentira.

– Então seja diferente. Seja uma pessoa melhor. Mas levante-se, criança. Você ainda tem muito a viver.

Jamais imaginaria que o motorista principal da casa era também o melhor amigo da minha mãe e o único a conseguir me consolar em tempos como este.

– Você já perdeu alguém? – Perguntei.

– Acabei de perder a sua mãe.

– Mais alguém? – Não sei por que perguntei. Ela já não era suficiente?

– Meus pais morreram em um acidente quando tinha dez anos. Morei com a empregada por muitos, muitos anos, até vir morar com seus pais. – Admitiu.

Saber disso me fez perceber que ele não tinha ninguém. Estava sozinho, muito mais do que eu. E estava de pé, vivendo os dias normalmente, trancando sua dor em algum lugar secreto.

– Como você superou? – Ansiava por alguma dica, alguma esperança de que tudo ficaria bem.

– Um dia após o outro, criança. Não existe uma fórmula secreta. Você precisa viver a dor, mas precisa viver e não apenas existir. Um dia a dor será suportável e, no outro, se lembrará da sua mãe com carinho. A dor sempre estará presente, ela agora faz parte de você. Mas, quando menos esperar, ela será superada pela felicidade.

Felicidade. Conhecia a verdadeira felicidade? Não me lembrava.

– Demora muito? – Perguntei manhosa.

– Um dia após o outro. – Repetiu, sorrindo. – Não seja apressada. Tudo o que pode fazer agora é levantar, tomar um banho gelado e fazer algo que te faça bem. Nem que seja por pouco tempo.

– Tudo bem. – Falei, me levantando.

– Mas você está de castigo. – Falou, antes que conseguisse colocar os pés no chão.

– Como é? – Não havia ouvido direito. Como me mandava encontrar a felicidade e me colocava de castigo em seguida?

– Pois é. Uma semana. Não quero você voltando depois da meia noite durante uma semana.

Ia começar a reclamar, falando o quão injusto aquilo era.

– E se der “piti” como dizem hoje em dia. – Disse, fazendo aspas com os dedos. – Serão duas.

Ótimo. Simplesmente ótimo.

Encarei Fernando, querendo que sentisse toda a minha raiva.

– Estou fazendo isso pelo seu próprio bem, criança. Não pense o contrário. – Disse me dando um beijo na testa e saindo do quarto como se nada tivesse acontecido.

Ele era apaixonado pela minha mãe. Eu estava de castigo. E ainda não eram nem dez horas da manhã. O que mais havia para acontecer naquele dia?

A cama parecia mais convidativa do que nunca, mas precisava resistir. Pensei nas palavras que acabei de ouvir. "Um dia após o outro". Vou começar este dia hoje. Quanto mais cedo começar, mais cedo esta dor irá embora.

E mais cedo poderei conhecer minha mãe de verdade. Talvez isto fosse o meu "um segundo de felicidade".