O Caminho Certo
Capítulo 34 · Umas cinco taças de vinho depois, nós…
Umas cinco taças de vinho depois, nós já havíamos conversado sobre tudo:
seus animais de infância, minhas músicas preferidas, o amor do irmão pela melhor amiga e sobre os filmes que ainda não assistimos... Tudo menos os assuntos dolorosos. Aquela noite seria aproveitada da melhor maneira, e isso incluía deixar de lado tudo o que havia acontecido de ruim nas nossas vidas. Pelo menos por uma noite.
– Acho que está na hora da sobremesa. – Falou ele, levantando-se e começando a recolher os pratos que usamos no jantar.
– Vou te ajudar. – Levantei e peguei os talheres que sobraram na mesa.
– Não precisa fazer isso, você deveria estar lá sentada na mesa, me esperando. – Reclamou quando me viu entrando na cozinha atrás dele.
– Pare de besteira, quero ajudar. – Retruquei, deixando os talheres na pia. Devo ter soltado no lugar errado, pois fizeram um barulho absurdo ao caírem.
Ricardo se abaixou para pegar os talheres que foram parar no chão, olhando para mim de lado.
– Sem mais bebidas para você. Pensei que fosse mais forte do que isso, Paloma. – Brincou.
Fiquei encarando-o enquanto se levantava do chão. Eu, bêbada? Tomando apenas vinho? Jamais. Precisava de muito mais para me deixar mal.
– Tá, o que tem de sobremesa? – Perguntei, deixando a discussão para mais tarde.
– Pegue os pratos naquele armário que vou pegar a sobremesa que tanto deseja. – Falou, piscando com um sorriso sacana.
Andei até o armário onde havia apontado e tive que me inclinar para alcançar a porta. Estava muito no alto e, enquanto erguia os braços, podia sentir o vestido subindo junto, chegando perto demais do limite. Perto demais.
E então surgiu um corpo colado no meu. Onde antes só havia ar gelado, agora estava uma calça social roçando em mim. Ricardo aproximou a boca da minha orelha, me deixando completamente arrepiada e mordeu levemente.
– Acho que mudei de ideia sobre a sobremesa. – Sussurrou sensualmente, me tirando suspiros.
Ele entendeu o barulho como se estivesse concordando com o que dizia e fez com que virasse de frente para o seu corpo, sem desgrudá-lo no meu.
– Esperei a noite inteira por esta sobremesa. – Falou com os olhos em um tom de azul escuro, fixados nos meus.
Não soube o que responder. Não havia nada para fazer além de concordar, afinal, havia esperado a noite inteira por aquilo também.
Ele me encarava como se esperasse uma resposta, uma confirmação ou talvez até uma permissão. O que poderia fazer além de puxá-lo pelo pescoço e beijá-lo da maneira que desejei fazer desde quando nosso primeiro beijo foi interrompido?
Nossas bocas finalmente se uniram. Seu gosto estava mais magnífico do que me lembrava, com um toque do vinho que bebemos durante a noite, deixando o gosto ainda mais irresistível. Ricardo não hesitou em momento algum. Dei a ele o que procurava: a confirmação de que também queria aquilo. Precisava daquilo. E agora, ele pegava o que queria de mim.
Com as mãos em seu cabelo, apreciei a maciez ao mesmo tempo em que o puxava entre os dedos. Todos os meus sentidos estavam aguçados. Olfato: o perfume incrível que usava, misturado com o seu cheiro masculino natural, capaz de deixar qualquer mulher aos seus pés. Paladar: o sabor do beijo, enquanto nossas línguas se entrelaçavam em uma dança eterna. Visão: mesmo com os olhos fechados, podia ver todas as cenas que envolviam Ricardo, eu e um lugar isolado. Audição: a cada gemido gutural que saía da sua garganta, meu corpo se arrepiava mais e eu queria fazê-lo gemer o meu nome.
E o mais forte de todos: o tato. Suas mãos passeavam pelo meu corpo, apreciando cada pequena curva, até que pararam na cintura e me ergueram levemente, fazendo com que sentasse no balcão atrás de mim. A altura ideal para tê-lo entre as pernas, ainda mais próximo, ainda mais desejável.
E então lembrei que eu estava usando um vestido. No momento, este se encontrava enrolado na minha cintura, deixando a calcinha vermelha de fora. Mas não foi isso que me fez perceber, e sim o prazer que surgiu quando Ricardo se aproximou mais, roçando a ereção aonde deveria haver uma calça jeans ou algum tecido a mais para me proteger. No entanto, todos eram finos demais e o atrito gerado por eles fez com que um gemido beirando ao constrangedor saísse da minha boca.
Isso só fez com que se aproximasse mais de mim, sem interromper o beijo – mesmo estando os dois sem fôlego – e pressionasse nossos sexos. Um ato tão inesperado e desconhecido que gerava choques elétricos por todo o meu corpo. Impossível segurar os gemidos, agora cada vez mais altos.
Até que sua mão desceu da minha cintura para a beirada da calcinha. Ele ia fazer aquilo. Ia tocar lá, onde nenhum outro havia tocado. Onde guardei para alguém especial, para um lugar especial... Não o balcão de um quiosque, certo?
Nenhuma bebida seria capaz de fazer com que eu deixasse aquilo acontecer.
Segurei sua mão gentilmente, colocando-a de volta na minha cintura. Ele parou de me beijar alguns minutos depois e me olhou profundamente nos olhos, procurando respostas para o que havia acabado de fazer.
Já eu, procurei em seu olhar algum traço de decepção. Não queria decepcioná-lo de jeito nenhum, mas ele estava ultrapassando os limites. Não faria aquilo ali... Com ele, tudo bem. Mas não ali.
Ele parecia excitado como eu, mas uma ruga de preocupação se formava em sua testa.
Ficamos nos encarando, tentando entender um ao outro, enquanto nossas respirações voltavam ao normal. Não se afastou, pelo menos não fisicamente. Já emocionalmente, o clima havia ido embora. A chama havia se apagado, e estávamos, mais uma vez, como apenas amigos.
– O que foi? – Perguntou, acariciando meu rosto corado pela cena de poucos segundos atrás.
– Eu... Não posso. – Falei, abaixando o olhar do dele.
Meu rosto então foi erguido por sua mão em meu queixo, me obrigando a olhar em seus olhos.
– Fale a verdade. Sei que você quer isso. Está nos seus olhos e, há pouco tempo, em seus gemidos. – Sorriu de lado, do jeito mais safado que já vi em seu rosto. – Por que nega tanto?
– Não é isso... Eu quero. – Falei, confirmando o que ele já sabia.
– Mas...? – Perguntou, se aproximando ainda mais, e pude notar que ainda estava excitado. Mais uma vez, ele roçou a sua vontade em mim, e fechei os olhos para aproveitar a sensação que durou pouco demais.
Quando voltei a olhá-lo, seus olhos estavam quentes, queimando de desejo. Imagino que os meus não estavam tão diferentes.
– Me fala porque não posso te dar prazer, Paloma. – Sussurrou com a voz rouca em meu ouvido.
Queria falar que sim, podia me dar todo prazer do mundo. Podia me dar prazer para sempre. Mas precisava me controlar para não estragar um dos momentos mais importantes da minha vida.
Ponderei entre falar a verdade ou não. Eu não poderia contar o real motivo. Certo? Ele riria, provavelmente não acreditaria e eu seria ignorada no exato segundo que contasse o motivo de não ceder a ele.
– Eu quero você. Quero sentir o seu gosto e sentir como é estar dentro de você. Quero fazer com que se lembre dessa noite para sempre. – Continuou ele a sussurrar, movendo as mãos pelo meu corpo.
Oh Ricardo! Se deixasse você fazer tudo isso, lembraria para sempre, mas também me arrependeria por todo este tempo.
– Me deixa te arruinar para os outros homens. Quero torná-la minha. – A sua voz estava ainda mais rouca, aproximando a boca do meu decote.
Eu não aguentaria a provocação dele por muito tempo.
– Eu sou virgem. – Soltei sem pensar.
Estava no limite, se não falasse logo, deixaria que fizesse tudo aquilo e amaria cada segundo. Precisava fazê-lo parar e a primeira coisa que veio foi minha confissão. Só deveria ter pensado duas vezes antes de falar.
Ricardo parou o que fazia em um piscar de olhos e se afastou de mim com o olhar perdido. O olhar que continuava em chamas, mas que não pensava mais em mim. O que estaria acontecendo em sua mente? Havia se arrependido, é claro.
Nenhum homem quer tirar a virgindade de uma mulher porque sabe que a terá em seu pé pelo resto da vida – ou quase isso. Se Ricardo queria apenas uma noite comigo, nunca seria capaz de fazer isso porque eu me tornaria um problema a mais para ele.
Enquanto me queria por apenas uma noite, eu queria que me abraçasse por todas.
– Deveria ter falado antes. Desculpa.
Poderia ter evitado tudo isso, não? Talvez até mesmo as provocações e insinuações. Talvez até a paixão que sinto por ele fosse evitada se tivesse falado antes.
Ele então pareceu voltar à realidade e me olhou com o único olhar que não queria encontrar em seu rosto naquela noite: decepcionado. Não tinha lhe dado o que queria e agora estava magoado comigo. Não deveria me sentir mal com isso, eu sei... Mas não pude evitar.
Passou as mãos pelo cabelo, bagunçando-o, enquanto soltava um suspiro frustrado. Ótimo. Causei mais alguma coisa? Qualquer coisa menos satisfação, certo? Até eu estaria brava se estivesse em seu lugar.
Alguns minutos depois, ele voltou a se aproximar, puxando a minha mão para que descesse do balcão. O vestido já estava no lugar e meu rosto provavelmente estava da mesma cor que o tecido.
– Me desculpa. – Falou, olhando intensamente para mim, mas com a decepção ainda evidente em sua feição. – Eu sou um idiota.
– Do que você está falando? – Perguntei surpresa com suas palavras. Esperava ouvir tudo, menos aquilo. Todos os tipos de xingamentos, menos um pedido de desculpas.
– Como fui capaz? Como pude não perceber? – Perguntou perdido em pensamentos. Não sabia se esperava que eu respondesse ou não... Afinal, nada fazia sentido.
– Ricardo, para. – Segurei seu braço, retomando a sua atenção. – Do que você tá falando?
– Você não percebe? – Perguntou, indignado. – Eu quase te comi agora há pouco! Você teria a sua primeira vez em cima de um balcão em um quiosque! E se fosse pensar em todas as vezes que quis fazer isso com você, em todos os lugares e posições indecentes que passaram pela minha mente...
Ricardo parecia cada vez mais frustrado e ainda assim, nada fazia sentido. Estava se sentindo culpado por me desejar? Era isso mesmo? Nem um pouquinho de raiva por eu não ter falado antes ou por não deixar com que fizesse o que queria?
– Tá, mas você não fez nada disso. – Interrompi suas divagações sobre as mil e uma coisas que queria fazer. – Eu não deixei.
Quando me olhou, não parecia nem um pouco o Ricardo que conhecia. O pegador que tinha transado com a Lorel e que ficava com uma garota diferente a cada final de semana e não ligava no dia seguinte. Que estava sempre em busca da satisfação, usando as mulheres como bem entendia. E, como Lorel dissera... Que sabia dar prazer.
Este novo Ricardo parecia ser o cara que pedia a garota em namoro para os pais, para só então iniciar as etapas da conquista: primeiro os peitos. Depois a bunda... Um lugar por semana. E um mês de pegação depois, o sexo tão esperado. Cuidadoso e calmo, sempre preocupado com o bem estar da amada. Sinceramente? Não queria que ele fosse assim. Não quero as etapas, muito menos o sexo calmo.
Eu quero ele do jeito intenso e irresponsável que sempre foi e o jeito que me deixou completamente apaixonada.
Eu estava louca de vontade para conhecer melhor o seu lado pegador.
– Mas eu quero. – Falei.
– O que você quer? – Perguntou surpreso.
– Quero você, Ricardo. Quero que faça tudo o que não deixei fazer até agora. Quero que me você beije, me morda, me possua... – Não pude terminar a frase.
– Você não sabe o que está falando.
– Sim, eu sei. Quero tudo isso com você.
– Eu... Eu não posso Paloma. Não posso fazer isso com você. – Falou mais frustrado ainda.
Então toda a minha confiança foi por água abaixo. Ele não queria tirar a minha virgindade. Era exatamente o que tinha pensado mais cedo. Ele me desejava, mas apenas por uma noite.
– Já entendi. – Falei, sem olhá-lo nos olhos. Inesperadamente, meus olhos se encheram de lágrimas, e lutei para contê-las.
– Eu sou um fudido do caralho! – Exclamou após perceber o meu estado.
De repente, meu corpo não estava mais no chão. Ricardo me ergueu e mais uma vez me colocou sentada no balcão como estávamos poucos minutos atrás. Parecia uma vida! Então abriu as minhas pernas, se posicionando entre elas e ficando o mais próximo possível de mim. Suas mãos nos dois lados do meu rosto fizeram com que nossos olhares se reencontrassem.
– Você não entende. Eu quero fazer isso com você. Não deveria, mas quero. Quero mais ainda agora, sabendo que nunca fez isso. Quero te tocar, sabendo que ninguém mais tocou... Quero ouvir você gemer o meu nome sabendo que nenhum outro nome saiu da sua boca da mesma maneira. – Falou, me olhando intensamente, enquanto uma das suas mãos descia pelo meu ombro.
Quanto mais falava, mais frustrado parecia, e mais excitada eu ficava. Queria que fizesse tudo aquilo. Queria que fosse o primeiro e único.
– Então Faç... – Não pude completar minha frase, mais uma vez.
– Mas não posso. Por mais que queira que você seja só minha, não posso. Não conseguiria ser gentil com você da maneira que merece. Eu arruinaria tudo, como quase fiz agora a pouco. Não consigo me controlar ao seu redor, Paloma. – Meu nome na sua boca nunca pareceu tão sensual. – E isso irá machucá-la.
– Não me importo.
– Mas eu sim. Jamais me perdoaria se te machucasse. – Seu olhar continha excitação e um pouco de paixão. Muito mais irresistível.
– Você não vai me machucar. Eu quero fazer isso com você. Não quero que seja com outra pessoa. – Falei, acariciando seu rosto, sentindo um alívio no ar.
Ele não estava se afastando por não querer um encosto em sua vida. Estava se afastando pelo meu bem. Mal sabia que a única coisa que me faria bem agora seria uma noite ao seu lado e da maneira certa.
– Você não está raciocinando direito.
Foi a minha vez de segurar o seu queixo e fazer com que olhasse para mim.
– Quero ter a minha primeira vez com você. Quero que seja o único a me tocar. Quero me lembrar para sempre da noite maravilhosa que sei que você é capaz de me dar. Quero que me coma com força, com carinho e de todas as outras maneiras que souber fazer isso. Quero te dar tudo de mim e receber tudo de você em troca.
Quero que você seja meu. Deixei esta parte de fora. Seus olhos transpareciam surpresa demais para apenas uma noite.
– Você é perfeita demais para ser verdade. – Falou, colando a boca na minha.
Ricardo me beijou como nunca havia beijado antes – com o mesmo fogo de sempre, mas em um ritmo diferente. Era como se saboreasse toda a minha boca, sem pressa para acabar e como se aquilo fosse a única coisa importante no mundo. Não fui capaz de não beijá-lo da mesma maneira que era beijada.
Ele já havia me estragado para todos os homens. Ninguém seria capaz de me beijar daquela maneira e de me arrepiar com apenas um toque.
– Você tem certeza disso? – Perguntou entre o beijo.
Fiz que sim com a cabeça sem interromper o beijo. Ricardo abriu os olhos no mesmo instante em que abri os meus, pedindo por uma confirmação verdadeira, ainda sem acreditar que fosse capaz de querer aquilo.
– Mas não aqui. Vou fazer com que seja especial. – Sussurrou após soltar meus lábios e me dar dois selinhos demorados, me puxando para o chão como se nada tivesse acontecido.
– Enquanto isso, o que faremos? – Perguntei ansiosa para saber quando seria a nossa noite especial. Onde seria e como seria... Queria todos os detalhes!
– Enquanto isso, podemos continuar assim. – Respondeu, sorrindo de lado e aproximando mais uma vez a boca da minha.
Passei os braços pelo seu pescoço e, antes que nossas bocas se encontrassem, sussurrei:
– Não seria uma má ideia. – Sorri com ele, iniciando mais um beijo inesquecível.
Poderia ficar ali a noite inteira. A semana inteira. A vida inteira. Era difícil revelar, mas a verdade era que queria ficar com Ricardo para sempre.