O Caminho Certo
Capítulo 20 · Acordei confusa. A cama não tinha o…
Acordei confusa. A cama não tinha o mesmo cheiro de sempre, aquele que me transportava de volta para a minha antiga realidade. Este cheiro parecia me acalmar, pois lembrava o mar, a praia... definitivamente não estava na minha cama. Em um piscar de olhos, lembrei tudo o que havia acontecido e onde realmente estava: na cama do Ricardo.
Sentei, olhando ao redor. Não enxergava muito por causa da falta de luminosidade. A única luz vinha da lua que entrava pela janela aberta no outro canto do quarto. No breu, consegui identificar apenas o guarda-roupa marrom e a cômoda ao meu lado, com minha bolsa por cima.
Mais cedo na mesma noite, pensei milhares de vezes antes de ligar para o Miguel. Fiz o taxista dar várias voltas pelo centro e outras pela periferia da cidade. Queria ir para o cemitério, ficar ao lado da única pessoa que me amou um dia, mas não tive coragem. Não àquela hora da noite. Poderia ligar para o Fernando, mas o que faria além de me mandar de volta para casa? Ele morava perto demais da pessoa que nunca mais queria ver na frente.
Com isso, Miguel foi a única opção.
– Paloma? – Atendeu com a voz sonolenta. Havia olhado no celular antes de ligar e constatado que passara das três da manhã. É óbvio que ele estava dormindo.
– Oi Miguel. – Tentei esconder o choro na voz, sem sucesso.
– O que aconteceu? – Perguntou, preocupado como sempre.
– Muitas coisas. Preciso de um lugar para dormir. – Falei, não querendo pedir deliberadamente, mas sem outra saída.
– Vem para cá e a gente conversa. – Passou o endereço do seu apartamento, que repeti no mesmo instante para o taxista, temendo que a memória falhasse.
– Obrigada, Miguel. – Agradeci antes de desligar.
O taxista pareceu feliz ao ter um destino em mãos, tanto que chegou ao local indicado em menos de dez minutos. Miguel estava na portaria me esperando.
Não tive coragem de lhe contar tudo. Era muita coisa, muita bagagem. Ele já sabia que minha mãe havia morrido, então era o suficiente, não? Apenas expliquei que meu pai estava ultrapassando os limites e ele pareceu entender perfeitamente. No mesmo momento me ofereceu um lugar para dormir e até para morar, mesmo que tivesse prometido a mim mesma que não ficaria ali por mais de uma noite.
Talvez duas. Não fazia a menor ideia de qual caminho seguiria. Não tinha com quem contar e quem estava disposto a ajudar não merecia ter um fardo a mais na vida. Quando comecei a trabalhar, sabia que o objetivo era me virar sozinha, começar a juntar um dinheiro, me mudar e sair daquela casa. No entanto, nunca imaginei que a mudança aconteceria tão cedo.
Fiquei aliviada por não encontrar Ricardo no apartamento. Aliviada e irritada, de certo modo. Era ótimo ele não estar ali para fazer as suas gracinhas, ainda mais quando passaria a noite. Mas se não estava ali, estava em outro lugar e este tinha uma grande possibilidade de ser a cama de outra garota. Essa foi a parte que me deixou irritada. Muito irritada.
O local era menor do que imaginei que seria, mas não importava. Tudo o que precisava era de um teto. Poderia até dormir no chão se precisasse. Só não queria acabar deitada no banco de alguma praça ou na areia do mar novamente. Por isso, devia uma ao Miguel. Na verdade, lhe devia várias.
Aticei a audição e percebi o que havia me acordado: Ricardo estava na casa. E parecia furioso. Levantei da cama, ajeitando o vestido no corpo e abri a porta do quarto. O quarto que me recusei a dormir até o último segundo. No entanto, foi maravilhoso dormir com o seu cheiro ao meu redor, mesmo por poucas horas.
Tentei ouvir o que conversavam sem que percebessem a minha presença, e foi assim que Ricardo me machucou mais uma vez.
– Não quero vê-la aqui amanhã! Foda-se para onde irá, mas aqui não fica! – Não sei se havia falado algo antes, mas esta foi a frase que permaneceu no meu cérebro por mais tempo do que o necessário.
Miguel notou que eu estava ali ouvindo tudo e tentou avisar Ricardo com o olhar. Este não demorou a perceber que algo estava errado e se virou, olhando diretamente nos meus olhos.
No momento não pensei no quão ruim parecia estar. A raiva tomou conta do meu corpo. Ele havia me magoado mais uma vez e nem amigos éramos! Tudo o que fizemos foi trabalhar uma semana juntos e dançar magicamente na balada. Só. Coisas completamente insignificantes.
Não tinha o direito de me magoar novamente.
Mas aos poucos a raiva deu lugar à dor. Sabia que ele estava certo. Era o único que pensava racionalmente ali. Eu não poderia ficar ali, não seria justo com ninguém. Eles não mereciam dividir a casa com uma garota que passava a maior parte do tempo chorando.
Ricardo havia me machucado, mas suas palavras eram repletas de razão.
Engoli o choro uma vez mais, tentando me estabilizar, mas estava no limite do precipício. Não sabia por quanto tempo mais conseguiria aguentar. Apenas voltei o olhar para ele, dando o meu melhor para não desabar ali mesmo.
– Não se preocupe, vou embora assim que o dia clarear. – Falei com a voz chorosa.
Encarei-o por mais um tempo e quando percebi que não falaria mais nada que pudesse me machucar, dei as costas e voltei para o seu quarto.
Fechei a porta atrás de mim, me jogando na cama. Era o último lugar que deveria estar, mas o único que estava disponível no momento. Em poucas horas teria que dar um rumo à minha vida, e não fazia a menor ideia de qual seria.
Sentei na cama e peguei o diário esperando que pudesse me dar algum sinal, alguma pista sobre o caminho certo.
“Não enlouqueça buscando a perfeição. Alguns defeitos são importantes.” –
Paulo Coelho.
Minha geniosa Paloma,
Você completou quinze anos alguns meses atrás e já posso notar as mudanças em seu corpo. Minha menina cresceu, está quase me passando e sua personalidade também está mudando. Aos poucos tento ensiná-la que dinheiro não é tudo. Tento ensiná-la a ser humilde e a se importar com os outros... mas você só se importa com festas, milhares de amigos e roupas caras.
Nunca mais te vi com uma calça velha, uma roupa um pouco amassada ou com o cabelo fora do lugar. Nem mesmo nos dias que não sai de casa. Temo por você, meu amor. Temo, pois é exatamente isso que seu pai quer: uma filha para apresentar à sociedade. Espero que não esteja lendo isso cedo demais. Espero não estar manchando a imagem maravilhosa que tem do seu pai.
Ele também tem mudado. Não para mais em casa, suas desculpas estão cada vez piores, e não sei o que fazer para que tudo volte ao normal. Minha mente ansiosa diz que ele tem outra família e essa está exigindo mais atenção do que a nossa, mas sei que não é verdade. Quem desejaria outra família quando se tem uma filha tão perfeita como você?
Não importa. Não estou sentada na cama para escrever sobre ele, e sim sobre você. Tem algumas coisas que precisa ouvir, e acho que agora que já leu tudo o que escrevi antes dessa carta, finalmente absorverá as palavras que quero te dizer.
O fato é que você não é perfeita. Eu sei, dói saber disso, não dói? Mas ninguém é perfeito, minha pequena! Você é linda, ninguém pode negar. Seus cabelos loiros são brilhantes, seu corpo é esbelto mesmo sem se preocupar com isso. Tem uma beleza natural divina e pensa que sabe disso. Sim, pensa. Você acha que com maquiagens e roupas extravagantes está ficando mais bela, mas tudo o que faz é se esconder atrás delas. É triste ver o quão linda poderia ser se não fosse tão materialista.
A beleza não está na aparência, minha princesa, e sim na personalidade. Quando mais nova você era tão caridosa, tão amorosa... Hoje, parece cada vez mais chique e, ao mesmo tempo, mais ignorante. Não se importa com nada nem ninguém que não seja do seu interesse. E não tem noção do quanto dói ver essa mudança. Ver o que poderia ser, e o que está se tornando.
Digo isso para o seu bem, meu amor. Não digo para te mudar, a mudança já aconteceu. Essa não é sua essência, é apenas a influência do seu pai instalando-se em seu cérebro. Digo então para ser você mesma. Aquela que aproveitava os pequenos momentos da vida, que chorava ao ver um cachorro abandonado na rua e que conseguia sentir quando eu precisava de um pouco de carinho. Hoje, seus abraços são interesseiros, os cachorros são ignorados e os momentos... Imagino que nem se importe mais com eles.
Sei que é capaz de ser uma pessoa melhor, está no seu sangue. Não deixe que ninguém te mude. Espero que não seja tarde demais para reverter tais mudanças. Que ainda seja capaz de sorrir da maneira que sorria quando o cachorro de rua encontrava um novo lar. Há muito tempo não vejo esse sorriso em seu lindo rosto.
Além de tudo isso, eu te amo. Quero o melhor para você. E não, não me refiro às melhores roupas e móveis. Desejo-lhe os melhores sentimentos.
Da sua mãe que espera do fundo do coração que encontre o caminho de volta
e a felicidade plena.
Sequei os olhos assim que terminei a leitura, sem saber se a carta me ajudou ou não. Jamais imaginei que era tão materialista assim, mas pensando bem, tudo fazia sentido. Desejei trocar aquele vestido caro assim que deitei na cama pela primeira vez, mas não troquei por não haver nenhuma roupa minha ali. Queria voltar para casa, principalmente porque meu guarda-roupa estava lá. Meu cartão ilimitado estava lá.
Porém, como minha mãe disse: precisava encontrar o caminho de volta. Não podia mais viver sobre influência do meu pai nem de ninguém. Precisava ser independente e parar de me importar com as coisas materiais.
Parecia fácil falar, mas não acreditava que conseguiria mudar tão cedo.
Depois de meia hora sentada, apenas encarando o quarto e o sol que nascia lá fora, decidi que estava na hora de levantar, me recompor e partir. Para onde? Não sei. Esta era uma questão que o diário não havia ajudado em nada. Teria que resolver sozinha. Sempre sozinha.
Saí do quarto e não encontrei ninguém na sala, então apenas fui para o banheiro, pequeno demais para ser confortável e me tranquei lá.
Olhei no espelho. Estava uma desgraça. Destruída, para ser mais sincera. Mas decidida. Decidida a dar continuidade ao novo rumo que escolhi para a minha vida. A encontrar a felicidade. A seguir meu caminho, mesmo com todos os obstáculos. Era a única opção.
Saí do banho me sentindo um pouco menos derrotada. As imagens da noite anterior ainda passeavam pela minha mente. Meu pai e uma garota qualquer. Beijando. Entrando na casa da minha mãe, a mulher que não merecia ser substituída pela vagabunda de ontem.
Coloquei o vestido de volta, tentando ao máximo não me repudiar por isso. Se eu queria a mudança, precisava aceitá-la. E isso significava que não havia problema nenhum em colocar um vestido que cheirava à bebida, certo? Arrumei o cabelo em um rabo de cavalo e saí do banheiro, mais uma vez sem encontrar ninguém na sala.
Abri a porta do quarto de Ricardo para pegar a bolsa que havia deixado lá e quase gritei quando acendi a luz. Ele estava deitado na cama – na sua cama – com os braços apoiando a cabeça, completamente relaxado e com o olhar preso no meu.
Tomei coragem e entrei; ansiosa para dar um fim ao incômodo que estava sendo para os dois.
– Já estou saindo. – Falei, pegando a bolsa.
– Desculpa pelo o que disse antes. – Sentou na cama sem largar meu olhar por sequer um segundo.
– Você tinha razão.
– Não, não tinha. Fui um idiota.
Queria responder que isso era o que fazia de melhor. Mas precisava me lembrar de que continuava na sua casa, o mínimo que podia fazer era ser educada.
– O que aconteceu com você? – Seus olhos tornaram-se profundos, penetrantes.
Olhei para a minha roupa, me fazendo a mesma pergunta. O que havia acontecido comigo?
– Não tenho outra roupa. – Resmunguei.
– Está linda assim. – Piscou, sorrindo de lado. Oh porra! – Quero dizer, o que aconteceu com você ontem à noite?
Ponderei se contaria ou não a verdade. Não sei o que existe entre nós, mas algo me impediu de mudar de assunto. Algo desconhecido me fez sentar na sua frente e desabafar como nunca.
– Minha mãe morreu dois meses atrás, no dia do meu aniversário e encontrei seu corpo na banheira quando ninguém estava na casa. Um dia depois disso meu pai foi embora. Ele só... foi embora. – Falei, com as lágrimas rolando pelo rosto. – E agora ele voltou para infernizar a minha vida.
Comecei a soluçar, até eu sentir o corpo dele colar ao meu. Puxou-me para o seu colo, rodeada por seus braços, com minha cabeça na curva do seu pescoço. As lágrimas não paravam de rolar e, mesmo sendo um momento inesperado não conseguia pensar na importância dele. Só sentia a dor da ferida que parecia jamais cicatrizar.
Ricardo fazia alguns barulhos com a boca como se ninasse um bebê.
– Estou sozinha. Não tenho para onde ir. – Falei, sem me importar com nada. O carinho que ele fazia no meu cabelo mostrava que estava ali e que prestava atenção em tudo.
– Não pretendia incomodar vocês, mas não sabia o que fazer. Sinto falta da minha mãe, sinto falta... Só queria que ela estivesse aqui.
As palavras pareciam não fazer mais sentido, mas continuei repetindo baixinho o quão sozinha estava. Não para mim ou para ele... apenas... aceitando a condição imposta pela vida.
– Você não está sozinha. – Falou, separando o corpo do meu. Com a mão no meu rosto, fez com nossos olhos se encontrassem e os seus estavam cheios de... Carinho? Podia ser qualquer coisa. Apenas me senti aliviada por não ser nada parecido com pena.
Tentei controlar o choro, respirando fundo algumas vezes. Não importava o que tinha falado... Não sabia a verdade. Estava mais sozinha do que nunca.
– Quem te machucou assim? – Perguntou, me deixando confusa.
A vida havia me deixado assim. O destino, talvez? Tudo. O acúmulo de tudo o que aconteceu. No entanto, decidi contar o ato final. A última camada da bola de neve que me atropelou.
– Eu cheguei em casa e meu pai estava entrando com outra garota. Na casa que comprou com a minha mãe, para ela. Onde morou por mais de dezoito anos com ela, somente com ela. Onde ela deveria morar até hoje. – Falei, controlando para não soluçar.
Ricardo pareceu petrificado por um momento, perdido em pensamentos. Sua mão continuava em meu rosto e pude finalmente aproveitar aquele toque. Aproveitar a situação inesperada que parecia cada vez mais estranha.
– Seu pai fez isso com você. – Falou. Não foi uma pergunta, muito menos uma afirmação... Parecia considerar o que havia acontecido.
Encarei-o, reparando enquanto mudava do choque para a raiva em poucos segundos. Então se levantou e saiu da cama, indo embora do quarto. Quando pensei que fecharia a porta atrás de si, virou para mim com fúria nos olhos e um carinho lindo na voz.
– Não saia daqui. Esteja aqui quando eu voltar. – Falou e, sem esperar por uma resposta, foi embora de vez.