O Caminho Certo
Acordei determinada a dar um novo rumo…
Acordei determinada a dar um novo rumo à minha vida. O único problema era que não fazia a menor ideia de por onde começar.
Troquei de roupa, colocando pela primeira vez em dois meses um vestido florido – bem longe do preto que usava diariamente – peguei minha bolsa e saí de casa, feliz por não encontrar ninguém no caminho. O carro do meu pai não estava na garagem, mas tinha uma nota colada na porta da frente que dizia "Fui trabalhar. Volto de noite”. Ele nunca foi de deixar bilhetes e nunca deu satisfações... Aposto que queria que eu soubesse que voltaria e não achasse que havia ido embora novamente.
E que ainda estava ali para mandar em mim.
– Bom dia, Paloma. – Cumprimentou Fernando, encostado no carro.
– Bom dia – respondi, sorrindo. – Me leva à praia?
– Novamente? – Perguntou – O que há de tão interessante por lá?
– O mar. – Suspirei ao responder.
– Tem certeza de que é só isso? – Perguntou, desconfiado.
Ricardo veio à mente no mesmo momento: o garoto que não via há dois meses. Muito tempo. Evitava passar perto do seu quiosque, mas não podia negar que sentia uma saudade estranha do seu sorriso de lado e de suas tatuagens...
– Sim, Fernando, é só isso. – Respondi brava comigo mesma por estar com o rosto vermelho e por sentir falta dele.
Ele não significava nada para mim. Por que sentia saudades?
Esperava que o mar fosse capaz de ajudar novamente. Pelo horário, a praia estaria lotada, ainda mais sendo sexta-feira. Mas não me importava. Neste momento isso tinha que servir.
– Como você está, criança? – Perguntou após alguns minutos de silêncio, dirigindo para a praia.
– Não sei Fernando. Não sei. – Respondi sincera.
Realmente não sabia como estava. Sabia que sentia uma raiva enorme do meu pai por ter voltado, da minha mãe por ter me abandonado e de mim mesma por ser insuficiente para tudo e todos... Por não ter uma vida própria e não conseguir ser independente.
Mas, fora a raiva, estava em uma eterna confusão.
– Não deixe que a volta do doutor Maurício te abale. – Falou, me olhando pelo retrovisor.
– Você também o conhecia mais profundamente? – Perguntei, lembrando a história dele com a minha mãe.
– Não, criança. Seu pai sempre foi muito fechado... Nossa relação é restrita ao papel de motorista e patrão.
– Então como você sabe que a volta dele pode me abalar?
– Eu te conheço desde quando estava na barriga da sua mãe. Consigo ver em seus olhos que está perdida. – Falou, olhando em meus olhos pelo espelho. Parecia que conseguia ver a minha alma.
Suas palavras me surpreenderam mais uma vez e me reconfortaram. Ao menos alguém me conhecia. Realmente conhecia. Talvez me conhecesse melhor do que eu mesma!
– O que devo fazer então? – Perguntei, me aproximando do banco da frente, ansiosa por alguma dica, algum conselho...
– Isso só você saberá, criança. Espero que o mar te ajude. – Falou ao estacionar em frente à praia.
Suspirei. Ótimo, sem respostas. Teria que procurar por elas sozinha.
– Obrigada mesmo assim. – Falei emburrada.
– Não fique brava comigo. Você viveu a vida inteira atrás da opinião dos outros... Tá na hora de pensar com a própria cabeça. – Falou, sorrindo para mim.
Tentei retornar o sorriso, sem sucesso.
– Não sei se ela continua sã. – Respondi, saindo do carro.
Precisava de um começo. Um novo começo, uma nova esperança de que tudo daria certo... Não sabia o que fazer! Não sabia o que seria da minha vida.
Andei pela praia até sentir o suor escorrer pela testa. Estava calor e, mesmo com a água do mar batendo nos pés, não conseguia me refrescar. O mar não estava ajudando... Mais uma vez, muitas distrações.
Vi casais se beijando e pensei que talvez fosse melhor arranjar um namorado rico que pudesse me sustentar e me tirar daquela casa. Opção riscada. Se fizesse isso me tornaria exatamente o que não queria: a minha mãe.
Vi garotas correndo e pensei que poderia morar sozinha... Pegar meu cartão de crédito, comprar uma casa em outra cidade e sumir. Mas uma hora ou outra o dinheiro acabaria e duvidava que meu pai continuasse recarregando o cartão a cada semana. Não, ele me deserdaria no momento em que pisasse fora de casa.
Olhei para o mar e pensei em simplesmente desaparecer. Seria tão simples, tão fácil... doloroso, mas não duraria por muito tempo. E então encararia o desconhecido. O que estaria me esperando do outro lado? Minha mãe, de braços abertos, feliz pela decisão que tomei? Uma eternidade na escuridão de castigo pelo suicídio? Ou o vazio...? Poderia não haver nada. Poderia simplesmente ser o fim e pronto... Acabou.
Não estava pronta para dizer adeus a tudo. Ainda não. Esperava que nunca estivesse.
Olhei para os quiosques e vi que estava na reta do que o Miguel e o Ricardo trabalhavam. Talvez pudessem me ajudar... Não, eles não. O Ricardo não faria nada além de me encarar com aquele sorriso conquistador e jogar indiretas. Já o Miguel poderia ser capaz de falar alguma coisa útil.
Andei pela areia até o quiosque e sentei na primeira mesa livre, o que foi um milagre. O local estava cheio e a praia estava lotada com as mesas, nenhuma desocupada. Eles estavam tendo um dia infernal.
Avistei Miguel no caixa e acenei, chamando a sua atenção. Fazia dois meses que não nos falávamos, não sabia o que esperar. Se ele havia ficado chateado depois de uma semana que desapareci... imagine depois de tanto tempo.
– Paloma, que surpresa maravilhosa! – Sorriu ao se aproximar, sentando-se ao meu lado. – Como você está?
Olhei para o seu rosto e senti um carinho enorme por aquele garoto... Admirava-o como... um irmão. Um irmão mais novo, daqueles carinhosos que quando estão com medo vão para a cama de sua irmã pedir ajuda. Mas no caso, quem sempre pedia ajuda era eu.
– Estou aqui, Miguel. – Sorri de volta – E você?
– Não aceito isso como resposta. – Falou, me encarando.
– Quem tá vivo sempre aparece, né? – Ricardo se aproximou, parecendo que ia se sentar, até ser chamado por outro funcionário. Então piscou para mim e saiu para servir as outras mesas.
Por mais rápido que tivesse passado, não pude deixar de reparar na blusa azul que usava. Ela lhe deu um tom maravilhoso aos olhos. Aquele garoto... Fiquei encarando por um tempo o local onde havia sumido entre as mesas, até que Miguel chamou a minha atenção.
– O que você tem feito? – Perguntou.
– Nada... – Suspirei, desanimada. – Estou perdida, Miguel. Por isso mesmo que vim aqui.
– O que precisar, Paloma. Estarei feliz em ajudar. – Sorriu amigável como sempre.
– Não sei o que preciso – Ri tristemente.
Era a minha realidade. Precisava de algo, mas não sabia exatamente do que.
– Quer me contar o que está acontecendo?
– Eu... Não quero te incomodar. – Falei, olhando para as mesas lotadas.
– Não será incômodo nenhum. – Ele sorriu me passando a dose extra de coragem que precisava para contar sobre o desastre que era a minha vida.
– É uma longa história. – Avisei.
– Estou ouvindo.
– Ok. Então... dois meses atrás... – Comecei, sem saber exatamente como começar.
– Quando você desapareceu novamente. – Disse, sorrindo.
– Mais precisamente uma semana antes disso. Quando parei de ir à faculdade. – Falei
– Certo. – Falou, colocando a mão no rosto e focando toda a atenção em mim.
– Minha mãe morreu neste dia; no dia do meu aniversário. – Falei, respirando fundo para não começar a chorar. Miguel percebeu que eu estava me esforçando, pois não se intrometeu mais. Até agora não tinha contado para ninguém sobre isso. Todos com quem falava já sabiam. Ou seja, Fernando e meu pai.
– E meu pai foi embora no dia seguinte. – Continuei, um pouco mais calma, feliz por ter conseguido não derramar nenhuma lágrima. Mas isso não diminuía a dor que sentia por dentro. – Agora ele voltou.
Esperei que Miguel tivesse alguma reação além de ficar me encarando, mas nada aconteceu. Nenhum olhar de pena, nenhum abraço carinhoso, nenhum pedido por mais explicações...
– É isso. – Falei, deixando claro que isso era tudo.
– Sinto muito por sua mãe. – Foi a primeira coisa que disse.
– Eu também. – Concordei.
– Por que a volta do seu pai é uma coisa ruim? – Perguntou, envolvido na história.
– Porque ele é autoritário demais e quer me colocar debaixo das suas asas. Não quero isso. Não quero mais obedecê-lo. – Falei, expondo toda a frustração que senti quando vi seu carro na garagem.
– É só não obedecer.
Infelizmente, não era tão simples.
– Se fizer isso ele tira meu cartão de crédito. – Suspirei.
– Então comece a ganhar o seu próprio dinheiro. – mais uma vez, usava o tom de como se estivesse falando uma coisa muito óbvia que eu era a única a não enxergar.
O problema era que tinha pensado sobre isso a noite inteira. Queria ganhar meu próprio dinheiro, mas não sabia fazer nada. Se dar dicas de moda for considerada uma profissão, posso sair de casa hoje mesmo.
– Não é tão simples, Miguel. – Falei, apoiando a cabeça nas mãos.
Cada vez mais frustrada. Meu mundo não era trabalhar! Nasci para fazer uma faculdade e seguir os negócios da família... Como poderia seguir isso se não queria ver meu pai na frente?
– O que está acontecendo? – Perguntou Ricardo, ressurgindo do nada e sentando-se na minha frente. Não olhei para ele para descobrir isso, mas senti suas pernas trombando com as minhas quando sentou.
Por um momento pensei ter sentido uma eletricidade vibrando entre nós quando isso aconteceu. E a noite da dança voltou com toda força à minha memória. Suas mãos, seu corpo, seu ritmo...
Ótimo, não poderia me sentir mais frustrada. Abaixei a cabeça, puxando de leve os meus cabelos.
– A Paloma precisa de um emprego. – Falou Miguel, como se eu não estivesse ali. E assim começaram a conversar como se eu realmente não estivesse sentada na mesma mesa.
– O que ela sabe fazer? – Perguntou Ricardo.
– Ela fez um semestre inteiro de cálculo e outras matérias que podem envolver matemática e administração... – Citou Miguel.
– Ela pode trabalhar em alguma empresa com a família. – Sugeriu.
– Não dá, ela precisa ficar longe do pai. – Respondeu Miguel.
– Pois é; todos precisamos. – Concordou Ricardo.
– Ela poderia trabalhar aqui, o tio falou que estava precisando de mais gente. – Sugeriu Miguel, entusiasmado.
– Será engraçado vê-la servindo uma mesa. – Zombou, rindo.
Para mim, foi o fim. Levantei a cabeça e encarei os dois que continuavam alienados na discussão.
– Escuta aqui vocês dois. – Falei, chamando a atenção deles. – Estou ouvindo tudo.
Olhei para Ricardo e apontei um dedo na sua cara.
– Se quiser saber o que sei fazer, pergunte para mim. Se quiser saber por que preciso trabalhar, pergunte para mim! – Falei, levantando os braços. – E sim, eu saberia servir uma mesa. Sei fazer coisas que você nem imagina. – Terminei, transferindo toda a raiva para ele em apenas um olhar.
Mas, mais uma vez, o sorriso safado surgiu em seu rosto.
– Hum, eu poderia imaginar sim. – Disse, me encarando. Ótimo, a raiva não havia chegado até ele.
Bufei, voltando a atenção para Miguel, pedindo com o olhar que me tirasse daquela situação.
– Ela poderia tentar... – Falou Miguel, olhando para Ricardo novamente.
– Vou ver com o tio. – Respondeu Ricardo, levantando-se da mesa.
– Do que você está falando? – Perguntei, observando enquanto Ricardo sumia dentro do quiosque.
– Você precisa de um trabalho. Meu tio precisa de novos funcionários. Problema resolvido. – Falou, sorrindo novamente.
– Não, Miguel, eu não sei fazer isso... – Admiti.
– Mas você disse... – Pareceu um pouco decepcionado por um momento.
– Eu sei o que disse, mas nunca fiz isso! Nunca trabalhei, nunca lavei um copo, nunca limpei uma mesa! – E toda frustração estava de volta.
– Sempre tem uma primeira vez para tudo, Paloma. – Respondeu, pegando a minha mão e fazendo com que olhasse para ele. – Você precisa tentar. É um começo... O salário não é grande coisa, mas dá para se virar.
– Eu não sei... – Respondi ainda confusa, mas começando a ver um ponto de luz no fim do túnel.
Com certeza não era a melhor ideia de todas. Na verdade, poderia ser considerada uma das piores... Eu, trabalhando em um quiosque, servindo mesas, ao lado do Ricardo? Não poderia ser pior. Não poderia ser melhor. Mas ao menos era um começo. Nunca saberia se não tentasse.
– Um mês. – Falou Ricardo, voltando para a mesa.
– O que? – Perguntei confusa.
– Você tem um mês para se adaptar. Se for bem, está contratada e recebe o salário do mês trabalhado. Se for mal, já era. Foi o que consegui.
Miguel pareceu feliz, só faltava dar pulos na cadeira, mas escondeu o sorriso quando viu meu olhar perdido.
– Paloma, vai dar tudo certo. É só um mês... Você pode tentar, não pode? – Perguntou, me olhando.
– Ela não vai sobreviver nem um dia por aqui. – Disse Ricardo, rindo.
Encarei-o com ódio. Raiva era um sentimento muito fraco perto do que tinha.
– Você que pensa. – Falei
– Eu duvido. – Retrucou, apoiando os braços na mesa e aproximando-se de mim.
– Quer apostar? – Desafiei, deixando o lado orgulhoso falar mais alto.
– O que você quiser, princesa. – Falou, piscando.
– Quem ganhar decide. Eu vou sobreviver ao mês inteiro. – Falei, esticando o braço, esperando que apertasse minha mão.
– Se sobreviver metade disso, já poderá ter o seu prêmio. – Falou, me encarando, e apertou a minha mão.
Mais uma vez aquele choque. A mão... a mesma que passeou pelo meu corpo... Que desejei que explorasse lugares inexplorados e que senti tanta falta.
Retirei a mão da dele o mais rápido que pude, expulsando aqueles pensamentos da mente.
– Combinado então. Quando começo?
– Amanhã, sete e meia da madrugada. – Falou ele ainda me olhando desafiador.
Nunca fui capaz de fugir de um desafio.
Levantei, me despedi do Miguel e encarei Ricardo novamente.
– Nos vemos amanhã então.
– Estarei ansioso por isso. – Piscou novamente. Urgh.
Um desafio sempre me atraiu. Sempre. Nunca neguei e também nunca perdi nenhum. Mas não sabia exatamente no que estava me metendo ao aceitar este. Só rezava para estar no caminho certo.