O Caminho Certo
Capítulo 38 · Ricardo
Acordei com o barulho de Paloma se trocando de costas para mim. O dia
ainda estava amanhecendo, e ela estranhamente estava acordada, o que me impediu de observá-la dormindo por alguns minutos. Minutos que deixavam o meu dia ainda mais perfeito.
Mas algo parecia errado naquela manhã.
– Onde você está indo? – Perguntei, surpreendendo-a.
– Não queria te acordar, desculpa. – Disse, aproximando-se para me dar um beijo.
– Ia sair sem me avisar? – Senti sua boca na minha e aguardei pela resposta.
Paloma pareceu embaraçada por um momento, mas logo sentou ao meu lado com uma expressão até então desconhecida.
– Não, não ia. Mas não queria te perturbar tão cedo.
Sentei para ficar da sua altura e acariciei o seu rosto, maravilhado com a eterna maciez de sua pele.
– O que está acontecendo?
Ela apoiou a cabeça na minha mão e suspirou, me deixando ainda mais preocupado. Algo incomodava a garota que mais amava no mundo, e eu queria poder ajudá-la com o que precisasse.
– Eu... Eu preciso me despedir.
Ao ouvir suas palavras, meu mundo parou. Repentinamente, imagens de tudo o que vivemos juntos passaram pela minha cabeça, todos os beijos, abraços, carinhos, confortos, discussões... Os momentos mais importantes foram relembrados em segundos.
Ela ia terminar comigo. Precisava se despedir de mim. Era essa a questão, então? Ia simplesmente sair de fininho como se nada tivesse acontecido entre nós e partir para outra? Eu deveria esperar algo assim... Não dizem que o vilão nunca tem um final feliz? Pois é, o vilão neste caso sou eu. E jamais teria a heroína da história.
Não sei como pude acreditar que tudo ficaria bem. Que seria para sempre.
– Ricardo, Ricardo, olha para mim! – Gritou, me fazendo voltar à realidade. Suas mãos estavam nos meus ombros e ela estava mais próxima do que antes. – Para onde você foi?
Onde havia ido? Bem, estava na realidade paralela em que o final feliz não pertence apenas aos mocinhos. Ou, pelo menos em um mundo onde pudesse ser o cara perfeito para ela. O cara que a merecesse. Um mundo dos sonhos.
– Você está pensando que... – Balançou a cabeça, rindo. Ela estava rindo! Puta que pariu. – Eu vou me despedir da minha mãe, Ricardo. DA MINHA MÃE. – Enfatizou cada palavra, aumentando o tom ao dizer "mãe". Isso ou meu cérebro resolveu me livrar do sofrimento adiantado.
Eu, que nunca sofri por uma garota. Que sempre usei e dispensei logo no dia seguinte, sem me importar com seus sentimentos, que nunca mais acreditei no "para sempre" depois daquela noite. Agora sofria ao pensar que Paloma terminaria comigo e eu sentia a dor por achar que nosso relacionamento não seria eterno.
Cacete, a garota havia me prendido de vez!
– Não, não estava pensando nada. – Tentei disfarçar sem sucesso.
– Você jamais conseguirá se livrar de mim. – Sorriu me dando um selinho carinhoso e, simples assim, toda a dor precipitada foi embora.
– Não quero mesmo. – Sorri após sentir a sua boca na minha mais uma vez. – Mas... Por que decidiu se despedir dela agora?
Paloma voltou a sentar do meu lado, brincando com os meus dedos, perdida em pensamentos.
– Está na hora. – Pensei que havia falado tudo, quando depois de um tempo, continuou. – Está tudo perfeito na minha vida. – Sorriu, me olhando nos olhos. – Só isso que não. Preciso resolver.
– Eu vou com você. – Falei pronto para me levantar e trocar de roupa, quando ela colocou a mão no meu peito, me mantendo onde estava.
– Não, não vai. Preciso fazer isso sozinha.
– Não posso te deixar sozinha numa situação dessas!
– Preciso desse último momento com ela, Ricardo. Não sei o que vou descobrir, não sei como será... Preciso estar sozinha. Se coloque em meu lugar. – Falou ela docemente, o mesmo tom que sempre usava quando queria me convencer de algo.
Então eu me coloquei em seu lugar. Se tivesse um diário que contasse o motivo da minha mãe ter se matado, com certeza já teria lido e relido milhares de vezes. Teria decorado cada palavra, cada momento... E, acima de tudo, me sentiria aliviado por saber o verdadeiro motivo de tudo. Paloma era sortuda por ter essa resposta em suas mãos.
– Tudo bem. – Desisti. – Mas você jamais estará sozinha, entendeu? – Completei, apertando a sua mão. – Nunca mais.
Trocamos um olhar com mil declarações de amor, sem falar nada. Era assim que sabia que se importava comigo e tentava fazer com que soubesse disso também. Ela precisava saber o quanto eu a amava. O tempo todo.
– Obrigada. – Sorriu, desconectando nossos olhares após alguns minutos e voltando para o guarda-roupa. – Avisa seu tio que não sei que horas vou trabalhar hoje, tá? Tentarei ir, mas... Não sei.
– Não se preocupe. Tire o dia de folga. – Tentei tranquilizá-la.
Ela então virou de costas para mim e tirou a camiseta – a minha camiseta – mostrando suas maravilhosas costas nuas e tornando impossível que resistisse. Lentamente, me aproximei por trás até ter o seu corpo colado no meu, com os braços enrolados na sua barriga.
– Ricardo. – Falou, docemente.
– Promete voltar logo para mim? – Perguntei, sussurrando no seu ouvido.
Segurei em sua cintura, fazendo com que virasse para mim e a empurrei até a cama. Quando deitei meu corpo por cima do seu, pude sentir seus seios no meu peito nu, o que fez com que meu desejo por ela só aumentasse. Eu nunca conseguia ficar totalmente satisfeito com ela, pois sempre queria mais.
– Ricardo, eu não posso ficar aqui. – Suspirou enquanto descia minha boca por seu ombro até ficar entre seus seios, sem realmente tocá-los.
Sua boca dizia não, mas todo o resto dizia sim. "Vá, continue, não quero que pare nunca mais". Essas outras vozes aniquilaram a única que negava e a minha boca finalmente encontrou um de seus seios, sentindo o sabor que tanto amava.
Ouvir o seu gemido só fez com que minha vontade aumentasse mais e meu cuidado fosse ignorado. Com a boca em um dos seus seios, meus dedos acariciavam o outro, deixando-o ainda mais duro do que já estava. Só não tão duro quanto eu.
Quando movi minha boca para dar atenção ao outro seio, Paloma segurou meus cabelos e, em vez de me puxar, me empurrou para continuar. Ela ainda queria mais.
– Oh, meu amor. – Suspirou, me trazendo de volta à realidade.
Precisava parar de atacá-la em qualquer canto. Estava pronto para comê-la ali, com o Miguel em algum lugar da casa e provavelmente atrasado para o trabalho.
De repente, parei o que fazia e deitei ao seu lado, encarando o teto, tentando com todas as minhas forças silenciar a voz que dizia para continuar o que havia começado.
– Depois disso, prometo voltar o mais rápido possível. – Suspirou com um sorriso no rosto e saiu do meu lado.
Adequadamente vestida, mas não menos desejável, Paloma se aproximou e me deu um beijo, um beijo que começou lento, mas que inesperadamente tornou-se intenso e difícil de parar.
Quando conseguimos resistir, estávamos sem ar.
– Sentirei saudades. – Suspirou, sorrindo.
– Eu sei. – Sorri de volta enquanto ela ia embora.
Por que algo me dizia que não veria aquele sorriso no seu rosto novamente?
De qualquer maneira, fui trabalhar ansioso para o fim do dia, quando estaria novamente com a garota dos meus sonhos. Pensar nela me fazia sorrir... Pensar em tudo o que já vivemos juntos me fazia suspirar. Até reparar no homem sentado em uma das poucas mesas ocupadas do quiosque. Não era possível.
– O que esse canalha está fazendo aqui? – Perguntei para o Evandro ao chegar ao caixa, com os punhos fechados e querendo loucamente bater em algo.
Toda a raiva cobria a minha visão e a imagem de uma noite perfeita ao lado de Paloma foi substituída pela imagem da pior noite da minha vida.
– Olha como você fala garoto! Ele ainda é o meu irmão. – Repreendeu, sem tirar os olhos da tela do computador, já sabendo a quem me referia.
– Foda-se. – Soltei.
Recebi uma encarada do meu tio que dizia que, se falasse mais algo do tipo, me arrependeria eternamente. Ameaça que jamais cumpriria.
– Ele está aqui para falar com você.
Abri a boca para soltar mais um xingamento, mas fui interrompido.
– Seu ódio é por ele, não por mim. Se tiver algo para falar, fale com ele. Não sou homem de recado para ficar transmitindo suas mensagens, muito menos saco de pancada para extravasar sua raiva. Então amadureça e encare os seus problemas. – Disse, encarando-me com um tom firme que nunca tinha ouvido sair da sua boca.
Agora entendia como conseguia manter um negócio tão bem. Quando era preciso, ele sabia ser duro.
Tive que me aproximar da mesa onde meu pai estava sentado e sentar ao seu lado, por mais que cada pequena parte de mim quisesse estar o mais longe possível daquele homem. Como meu tio dissera, estava na hora de amadurecer e, se isso significava conversar com a pessoa que me abandonou com uma criança para cuidar, que seja.
Fiquei encarando-o, reparando em como havia envelhecido nesses cinco anos sem dar notícias. Deixara a barba crescer e o cabelo apresentava alguns fios brancos. A aparência de cansado só o ajudava a aumentar dez anos em sua verdadeira idade, que já não era pouca. Mas o mesmo olhar de decepção estava presente em seu rosto. "Você é o culpado", dizia. Era tudo o que eu conseguia dizer.
– Olá filho. – Disse depois de me encarar da mesma maneira por alguns minutos.
– O que você quer? – Perguntei, cortando qualquer aproximação.
– Conversar. – Não aparentou estar surpreso pela pergunta rude. Na verdade, não demonstrou sentimento algum.
Parecia um grande saco vazio.
– Fale, então. – Me apoiei na cadeira, ouvindo-o. Não podia me importar menos com o que tinha para dizer.
– Você está... Diferente. – Começou, aproximando-se mais para continuar a inspeção.
Seus olhos se prenderam nos meus e, por um segundo, senti que era analisado por dentro. Até desviar o olhar para me livrar daquela sensação. Não queria aquele homem perto de mim, muito menos dentro da minha vida.
– Há um brilho em seu olhar. Um brilho que pensei que nunca mais veria. – Falou, emocionado.
"Foda-se", queria responder. "Você não me conhece mais" também caberia muito bem. Mas tudo mostraria que no fundo, eu me importava. Fazia diferença o que ele achava ou dizia, quando o ideal era não me importar com nada que viesse daquele homem.
– Você veio aqui para falar sobre os meus sentimentos? – Perguntei, tentando não me importar. Ele não merecia.
– Não, não vim. Desculpe-me.
Quem é você e o que fez com o homem orgulhoso que sempre me culpou pela morte da minha mãe? Ele jamais pediria desculpas. Tentei inutilmente esconder a surpresa.
– Vim para falar sobre o seu irmão. Ele me procurou hoje.
– O Miguel? – Perguntei pronto para chamá-lo à mesa para confirmar a história, quando percebi que não estava em lugar algum. E também não estava em casa quando saí.
Como não havia percebido? O garoto não estava em casa hoje de manhã, onde sempre esteve me esperando para vir trabalhar. Fiquei tão distraído com Paloma que esqueci a pessoa que mais precisava de mim.
– Ele pediu dinheiro, mas eu neguei. Envio dinheiro para vocês todos os meses, não posso ficar dando tanto assim. Era uma quantia grande e... Não tenho tudo isso.
Nada do que dizia fazia sentido. Miguel, procurando-o? Pedindo dinheiro? Fora de casa? Meu cérebro girava com milhares de pensamentos enquanto tentava me concentrar nas informações que poderia tirar do homem que havia o visto pela última vez.
– E então? – Perguntei, esperando que respondesse que o deixou em casa ou em algum clube e está tudo bem.
– Então ele pediu informações sobre seu pai biológico.
Esperava ouvir qualquer resposta, menos aquela.
– Você está mentindo. Ele nunca quis conhecer o pai. – Falei incrédulo.
– Por que mentiria sobre isso? – Perguntou, mais uma vez sem emoções.
– Foda-se! – Soltei, socando a mesa. Inclinei sobre ela, ficando próximo do homem que mais odiava nesse mundo, transferindo toda a raiva para ele. – O que você falou para ele?
Ele não demonstrou nenhum sinal de medo, apenas continuou sentado como se nada estivesse acontecendo, enquanto ameaçava-o com o olhar.
– Falei que não sabia de nada, mas ele insistiu. No fim, precisei dar-lhe um nome. – Deu de ombros, como se fosse mais uma situação comum.
Miguel sabia o nome do pai. O que significava que poderia estar em qualquer lugar, procurando pela família perdida, descobrindo coisas dolorosas e precisando de mim mais do que nunca.
Eu desabei sobre a cadeira mais uma vez, passando as mãos pelo cabelo, sem conseguir colocar os pensamentos em ordem.
– Merda.
– Não pude fazer nada. – Falou, me assustando. Queria que não estivesse mais ali.
– Não? Não poderia tê-lo mandado para casa? Não poderia ter mentido? Cacete, você poderia ter feito muitas coisas, mas não pensou sobre isso! Só se importou com o seu bem estar, só queria se livrar dele da mesma maneira que fez cinco anos atrás, não é? Pois foda-se! – Levantei, sem controlar o tom de voz. – Volte para o lugar de onde saiu e não nos perturbe mais. Continue fugindo dos seus problemas enquanto tomo conta de tudo. Não precisei de você nesses anos, então não preciso agora.
Eu esperei por alguma reação dele, alguma palavra, qualquer coisa... Mas ele continuou me olhando sem demonstrar nada, o que só fez a raiva aumentar.
– Vai para o inferno! – Gritei, chamando a atenção de alguns clientes próximos. – Você já destruiu demais a nossa vida.
Virei de costas sem esperar por respostas e fui embora, mantendo minha cabeça onde realmente deveria estar: encontrar o Miguel. Sem distrações.
No fundo, sabia que meu pai não havia destruído a nossa vida. O culpado era eu. E agora estava destruindo tudo mais uma vez.
Miguel não estava em casa, não atendia o celular, não respondia minhas mensagens... E eu não fazia a menor ideia de por onde começar. Conhecia tanto o meu irmão que não sabia sobre os lugares que frequentava e muito menos as pessoas com quem ele falava – Marina não atendia o celular também – e as coisas que planejava. Como pude ser tão ignorante?
Quando entrei em seu quarto para procurar alguma pista, odiei o mundo por estar me surpreendendo tanto em apenas um dia.
O quarto estava vazio. Sem travesseiro na cama, sem roupas jogadas... O guarda-roupa mais vazio ainda. Poucas roupas penduradas, algumas que nunca o vi usando. Sem sapatos, cuecas e nem meias... Não havia nada ali.
Ele havia ido embora. Como... Embora?
Com um último fio de esperança, corri para o meu quarto rezando para encontrar suas roupas ali e descobrir que apenas queria mudar de quarto e essa era a sua manifestação. Mas, mais uma vez minhas esperanças foram em vão. O quarto estava exatamente como havia deixado mais cedo, com roupas da Paloma jogadas pela cama e algumas minhas no chão... Não havia nada além daquilo.
Sentei na cama e apoiei a cabeça nas mãos, querendo que aquele dia fosse apenas um péssimo pesadelo. Nada fazia sentido. Por que Miguel iria embora sem falar nada e muito menos dar satisfações? Por que ele iria atrás da pessoa que o abandonou há anos?
Abandonado. Era isso. Estava se sentindo sozinho. Eu só conseguia pensar na Paloma, falar dela e ficar com ela. Raramente via o meu irmão e isso nos afastou. Deveria estar passando por alguma coisa e não conseguiu me falar porque a minha cabeça estava em outro lugar.
Não consegui ajudá-lo, então foi buscar ajuda na pessoa que causou tanto sofrimento nas nossas vidas. E agora, meu irmão não fazia a menor ideia com quem poderia contar. Quem mais seria capaz de ajudá-lo?
Era tudo culpa minha. Mais uma vez, havia me distraído. Mais uma vez, havia entregado o coração na mão de uma pessoa e, mais uma vez, isso causou uma destruição em minha família. Passei tanto tempo fugindo de relacionamentos e de distrações...
Quando penso que tudo ficará bem, percebo que nunca ficará.
Deveria ter aprendido que o amor não foi feito para mim. Que todos que eu amo acabam se machucando de alguma maneira.
Fiz a única coisa que podia fazer enquanto não tinha notícias de Miguel: afastei a única pessoa que ainda não havia sido gravemente ferida por minha culpa. Fiz as suas malas, dobrando roupa por roupa, cheirando cada uma como se fosse a minha despedida. Era tudo o que eu teria. No fim, coloquei minha blusa que ela sempre dormia dentro e acrescentei o meu coração, sabendo que não poderia tê-lo de volta.
Jamais me perdoaria se algo acontecesse à Paloma por minha causa e era por isso que eu queria que ela ficasse o mais longe de mim. Já havia perdido a minha mãe e agora não sabia onde estava o meu irmão... Não havia outra explicação: eu era o problema. Longe de mim, ela estará longe de problemas.
Além disso, precisava me manter focado no Miguel. Não deveria ter deixado isso acontecer... No momento em que ela entrou em casa, deveria tê-la mandado embora. Se tivesse feito isso, Miguel estaria aqui, seguro e com um sorriso no rosto. Se Paloma continuasse ao redor, o erro continuaria sendo cometido.
Estava jogando a minha felicidade no lixo para manter vivos aqueles que pertenciam o meu coração.
Mas para isso, precisei ser o mais duro e frio que pude com Paloma. Não foi fácil ver a surpresa, seguida pela decepção e logo após, o sofrimento em seu olhar. Só queria abraçá-la e dizer o quanto a amava e que eu queria passar a eternidade ao seu lado... Mas eu não podia ficar com ela porque não conseguia manter ninguém que amava por perto.
Nunca fui tão falso e nem senti tanta dor como aquela vez. Mas repeti em minha mente que fazia isso para o seu bem, por mais que estivesse sofrendo... Poderia ser muito pior no futuro. Pensei nela e no meu irmão, ainda desaparecido. Ela tinha o Fernando, dinheiro e com quem contar... Mas Miguel estava sozinho. Ele precisava mais de mim do que ela neste momento.
Ao vê-la bater a porta do apartamento, não pude fazer outra coisa senão apoiar na mesma e deslizar até o chão, sem forças para ficar em pé. Havia acabado de magoar a pessoa que mais me fez feliz nesse mundo... A pessoa que mais amei em toda a minha vida. Observei enquanto chorava, enquanto me odiava e ignorei. Não cumpri a minha promessa.
Paloma tinha toda razão em me odiar para o resto de sua vida, mas pelo menos isso a manteria afastada de mim. Decerto ela encontraria a felicidade em outro lugar... Em um lugar mais provável. Comigo ela só teria arrependimentos e decepções.
E por um momento, eu me perguntei se havia feito a escolha certa. A dor espalhada pelo meu corpo dizia claramente que não, que havia cometido o maior erro de todos, que eu era um canalha estúpido e merecia sentir todo aquele sofrimento.
Enquanto uma única lágrima escorria pelo meu rosto, aquela que não surgiu desde quando minha mãe morreu, me permiti abraçar a dor e vivenciá-la. Era o que eu merecia no final de tudo. Merecia ter morrido no lugar dela, estar sozinho no lugar de Miguel e passar por tudo o que Paloma passou. Merecia as três coisas ao mesmo tempo.
E saber disso tudo não amenizava a dor. Pelo contrário, só a tornava mais insuportável.