O Caminho Certo

Ana Martines · Capítulo 17 de 44

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O Caminho Certo

Capítulo 18 · A primeira semana foi a pior; não…

A primeira semana foi a pior; não a pior da minha vida – nenhuma se compara àquela em que a minha mãe morreu – mas foi no limite do suportável. Ou seja, foi infernal. Não conseguia me adaptar a nada. O horário sempre torcia pelo meu fracasso e, quando conseguia acordar na hora certa, milhares de outros imprevistos surgiam.

Meu pai esteve presente apenas durante a noite e por poucas horas. No começo tentei chegar o mais tarde possível, sempre rezando para que já estivesse dormindo. No entanto, sempre estava sentado na sala com o copo de uísque na mão, me esperando apenas para mais um dos seus inúmeros discursos. Depois ele saía, e só o via na noite seguinte, quando a cena se repetia.

Ele insistia que estava na hora de eu acordar para a vida. Marcou uma psicóloga que subornei para dizer que fiquei lá durante uma hora inteira – quando, na verdade, passeei pela praia com o atestado nas mãos, livre também do trabalho daquela tarde. Percebendo que não teve o efeito esperado – queria que eu mudasse da noite para o dia –, passou a tomar medidas drásticas. E por medidas drásticas me refiro a ele trancando a porta do lado de dentro uma vez, obrigando-me a pedir abrigo para o Fernando e, quando descobriu, ameaçou todos os funcionários da casa, querendo saber com quem eu havia dormido.

É claro que não soube a verdade. Ninguém naquela casa gostava dele, mesmo ele sendo quem pagava os salários.

Isso tudo foi dentro de casa. Fora, as coisas não estavam melhores. Não conseguia decidir se me trancava no quarto e suportava as palavras duras daquele que um dia eu amei, ou se saía de casa e aturava as provocações daquele que um dia me seduziu em uma balada, mas que já me machucou diversas vezes. No final, ir para o trabalho continuava sendo a melhor opção.

Miguel estava se tornando cada vez mais um perfeito companheiro. Sua namorada estava para vir, e ele não parava de falar sobre a garota. Por mais que pareça cansativo, amava ouvi-lo falando sobre como se conheceram, como foi o primeiro beijo e o tamanho da saudade que sentia dos abraços inesperados que trocavam. Podia viver o meu conto de fadas através da sua vida, já que demoraria muito para encontrar alguém que realizaria o meu. Não, não demoraria muito. Demoraria a vida inteira. Não queria encontrar ninguém.

O amor verdadeiro existe, mas nunca para ambos os lados. Os dois nunca amam igualmente. Aprendia isso a cada carta que lia da minha mãe. Ela amava meu pai, sempre amou, e acredito que sempre amará... mas eu era cega por este amor.

Neste momento, estava lendo mais uma das cartas que provavam que o amor nunca vale a pena.

“Cada qual sabe amar a seu modo; o modo, pouco importa; o essencial é que

saiba amar.” – Machado de Assis.

Minha linda e adorável Paloma,

Você acabou de pegar no sono ao meu lado. Como sabia que eu precisava da sua presença? Foi como se tivesse te chamado em meus pensamentos e, de repente, lá estava você na frente da porta com o bichinho de pelúcia nos braços, implorando para deitar-se comigo. E é claro que deixei.

Você dorme como um anjo. Não consigo parar de te olhar... É impossível. Sua fisionomia lembra tanto o seu pai, e sinto uma falta enorme dele. Faz uma semana que ele não vem para casa. Sim, mais uma viagem de trabalho. Sei que está fazendo isso para o nosso bem, meu amor, mas é difícil ficar sem ele aqui, ainda mais quando estes pensamentos invadem minha mente.

Você deve se perguntar que pensamentos são estes... Respondo-te, minha pequena: são pensamentos que espero nunca chegarem perto da sua mente. Como sabe, perdi meus pais quando ainda era muito jovem. Não conheci minha mãe, e meu pai casou-se um ano após a sua morte – que foi durante o meu nascimento. Um ano! Como um amor pode ser substituído após um ano?

Um amor verdadeiro não pode ser substituído jamais, minha linda. Tenha sempre isso em mente. Nunca conheci minha mãe e é por isso que escrevo estas cartas a você... Não sei até quando estarei aqui. Tudo pode acontecer, não é mesmo? Não quero que viva sem saber quem sua mãe seria assim como eu. É uma sensação horrível! Imagine... Durante todos os dias das mães, na escolinha, a professora pedia para desenharmos nossos pais juntos. Da maneira como os víamos. Nunca me senti confortável para desenhar minha madrasta, e não sabia desenhar a minha mãe.

Uma coisa é você ter em mente a imagem de uma pessoa, outra coisa completamente diferente é você conhecer a pessoa por dentro. Já assistiu ao filme "O Amor é Cego"? É exatamente isso que quero dizer. As pessoas podem ser lindas por dentro, mas você nunca saberá se não as conhecer melhor. Se não dedicar um tempo da sua vida para conhecer alguém.

É maravilhoso conhecer alguém, meu amor! Quanto mais você convive com uma pessoa, mais você a conhece. Mas você é capaz de interpretar cada olhar, cada toque... Eu amo a maneira como conheço seu pai. A maneira como sei que teve um dia cansativo apenas pelo copo de uísque nas mãos. A maneira como percebo que precisa de mim apenas com um olhar e então já estou ao seu lado. A maneira como pensa que eu não sei que está mentindo, mas, no fundo, sei de tudo.

Não, este é apenas meu lado sombrio falando mais alto. Seu pai jamais mentiria para mim, muito menos para você, pequena. Ele nos ama mais do que tudo. E agora, enquanto escrevo esta carta, ele está dormindo no hotel do outro lado do mundo, contando os segundos para voltar para casa. Para a nossa casa.

Para o lugar onde pertence. O lugar onde sempre volta. Agradeço por você não sentir tanta falta dele como eu sinto, pois assim não preciso te dar mais explicações. A única coisa que preciso falar é que seu pai voltará para a casa, meu amor. Sempre volta e sempre vai voltar. É só isso que importa.

Da sua mãe que te ama infinitamente e que espera que encontre um amor,

assim como encontrei seu pai.

Não mãe. Espero jamais encontrar um amor como o meu pai. Durante esta noite, ele provavelmente estava na casa de alguma vagabunda, curtindo a semana enquanto minha mãe cuidava de tudo, fingindo que não sabia o que acontecia. No fundo ela sabia. Imagino que a dor era grande demais para admitir para si mesma.

Fecho o diário e vou para o banho. É mais um sábado, mais um dia cansativo de trabalho e mais um final de semana para aproveitar. Isso é tudo o que quero fazer: aproveitar. Durante a semana penso em tudo o que aconteceu nos últimos meses, em como as coisas mudaram e em como a saudade da minha mãe só cresce. Mas, aos finais de semana, quero esquecer. Esquecer sempre é melhor. Por mais que a dor seja pior no dia seguinte, os momentos de alívio valem a pena.

Passo mais uma tarde no quiosque. Posso dizer que faço tudo no automático. Os "olá, em que posso ajudar?" saem cada vez mais naturais. Não, não segui o conselho do Ricardo. Ser eu mesma? Não duraria nem meio dia se fizesse isso. Precisava ser a melhor imagem de mim. A imagem que todos queriam ver: a garota perfeita que só está trabalhando para conseguir uma grana extra. Era melhor deixar de lado toda a bagagem que levava comigo.

– Já está indo embora? – Perguntou Ricardo enquanto eu tirava o avental.

Estava divino, como sempre. Seu cabelo, curto e bagunçado para cima e parecia estar deixando a barba crescer. Não deveria fazer isso, mas do jeito que estava hoje, ainda muito irregular, só deixava o garoto atrevido ainda mais sexy.

– Já deu a minha hora. – Respondi, desviando o olhar.

– Vai sair hoje? – Perguntou, se aproximando.

– Vou. – Disse, secamente, e saí de perto. Toda vez que se aproximava, parava de pensar racionalmente.

– Aproveite a sua noite então. – Falou e, quando olhei, sorria de lado com os olhos em chamas.

Senti que só aproveitaria mesmo se ele estivesse lá e pudesse reviver a noite que tivemos. A noite que durou pouquíssimo e que já estava ficando nublada em minha mente. Talvez estivesse na hora de clarear um pouco os pensamentos, criar novas imagens, sensações...

Não. Essa hora jamais chegaria.

– Você também. – Falei, saindo o mais rápido do local e indo até onde Fernando me esperava.

Troquei de roupa no carro, evitando ir para casa àquela hora. Passei perfume e fiquei pronta para esquecer. Não iria com a Lorel. Na verdade, fazia um bom tempo que não nos víamos ou falávamos.

No fundo não sentia falta. No meu coração não havia mais espaço para o sentimento de saudade, além do que a minha mãe ocupava. E, esta noite, ia esquecer que ela estava neste espaço. Pretendia esquecer até que tinha um coração.

Um. Dois. Três. Quatro. Cinco copos. Depois, eu já estava na pista, rodeada por dois garotos, aproveitando ao máximo a minha noite. Os garotos eram fortes, tornando difícil a decisão de com quem ficar. Poderiam ser os dois? Se os homens faziam isso, por que as mulheres não podiam também?

Abracei-os pela cintura, um braço em cada um e me senti muito melhor. Sim, também podemos. Podemos qualquer coisa. Tenho o que quero, faço o que quero e fico com quem quero. Não há ninguém para me falar que não posso ficar com os dois ao mesmo tempo. Na verdade, até eles pareciam aceitar a condição.

Meia hora depois, não podia mais. Tudo girava, mas o efeito dos copos virados estava sumindo, dando lugar à dor de cabeça e à minha realidade. Não tinha tudo o que queria, não fazia o que queria e, no fundo, não ficava com quem queria, pois fazer isso só me machucaria mais.

Ótimo, agora comecei a pensar demais. Chega. Hora de ir para casa, deitar na cama e lamentar por ter bebido demais. Meia hora de esquecimento era tudo o que conseguiria. Não era o suficiente, mas continuava sendo melhor do que nada.

Pedi desculpas aos garotos, que pareceram frustrados, mas logo desviaram a atenção para duas meninas que se esfregavam na pista. Pelo menos teriam a noite que esperavam ter. Eu não. Não sei por que sempre esperava que a noite fosse diferente, que durasse mais... Nunca durava.

Dei o endereço de casa para o taxista, me negando a ligar para o Fernando. Não o incomodaria numa hora dessas, ainda mais em pleno sábado. Conseguia me virar sozinha. É tudo o que fiz neste último mês: estar sozinha. Fazer as coisas sozinhas. Conversar sozinha. Chorar sozinha. Morar sozinha. Não, isso não era mais verdade. Infelizmente.

Cheguei a casa junto com o carro do meu pai. Teria que aguentar mais alguns minutos de seu sermão. De tanto passar por isso estava ficando prática em fingir que ouvia alguma coisa que falava. Era sempre a mesma coisa. Apenas precisava acenar, fazer cara de triste e, no final, soltar um "me desculpe". Pronto.

Estava prestes a abrir a porta do taxi quando ele desceu do carro e, logo após, uma loira muito magra, desceu atrás.

Sorriam com as mãos entrelaçadas. Ele fodidamente sorria. Não percebeu que eu estava ali, próxima demais, capaz de ouvir cada palavra suja que saía da sua boca e ver o sorriso sexy que a garota lhe lançava. Não percebeu nada ao seu redor, apenas entrou na casa, guiando a vagabunda e fechando a porta sem olhar para trás.

Ele esqueceu. Simplesmente esqueceu. Conseguiu partir para outra em pouco mais de um mês. E agora estava na casa que um dia dormiu com a minha mãe, com uma garota qualquer.

Provavelmente estava na cama que compartilhou com ela por tantos anos com aquela loira falsa. Como foi capaz?

Peguei o celular e mandei o motorista dar uma volta pela cidade. Jamais dormiria naquela casa, ouvindo os ruídos de traição que sempre existiram, mas que agora estavam evidentes demais para serem negados.

Não seria capaz de olhar na cara daquele que um dia disse que me amava. Que amava a minha mãe, milhares e milhares de vezes. Isso não é amor. "Um amor verdadeiro não pode ser substituído jamais". Jamais, pai, está entendendo? Jamais não significa quarenta dias. Não significa algumas lágrimas. Jamais dura para sempre.

A minha mãe o amou de uma maneira que jamais mereceu ter sido amado.

Olhei para o celular sem a menor ideia do que fazer, enquanto o motorista rodava pela cidade sem rumo. Enquanto meu pai se esquecia da mulher e desonrava sua imagem. Enquanto minha visão se tornava cada vez mais nublada com as lágrimas.

Enquanto só queria voltar a esquecer.