O Caminho Certo

Ana Martines · Capítulo 37 de 44

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O Caminho Certo

Capítulo 39 · Pensei que a dor passaria depois de…

Pensei que a dor passaria depois de algumas horas, mas já fazia um dia que

tudo havia desmoronado – mais uma vez – e ela só aumentava. O buraco existente dentro de mim parecia conter um objeto que não parava de se mexer, impossibilitando a cicatrização e aumentando ainda mais a infecção.

Essas vinte e quatro horas passaram como um borrão. Não lembro o que fiz, por onde eu andei ou com quem falei ou pensei. Tudo o que existiu foi essa dor dilacerando meu coração quando penso em Ricardo, e quando não penso também.

A dor e a viagem até a casa de Fernando numa cidadezinha não muito distante, na tentativa de encontrar um refúgio ou uma escapatória daquele inferno.

Agora o sofá da sala parecia um ótimo lugar para me encolher e esquecer tudo. A xícara de chá que Fernando preparou queimava a minha mão, mas a dor era suportável. Na verdade, era um alívio me concentrar na dor física que não chegava aos pés da dor existente em meu interior. E enquanto tentava me concentrar em uma dor para não sentir a outra, Fernando me olhava atentamente com uma expressão preocupada no rosto.

– Você já pode me falar o que aconteceu, criança. – Pediu, colocando a mão no meu joelho.

Ele era tudo o que me sobrara. Minha mãe se foi, abandonando-me para fugir da dor. Meu pai não pensa em nada além de sua própria imagem para a sociedade. Meu namorado... Bom, meu namorado me mandou embora. O dono do meu coração me dispensou sem explicações, cansado de todas as minhas besteiras. Todos que já amei me abandonaram.

Só sobrou aquele que amou a minha mãe e cuidava de mim por pena.

– Eu... – O choro voltou a fazer parte da minha vida e eu já sei o que vem em seguida: a parte da negação e a dor contida. Depois chega a hora em que penso que tudo ficará perfeito. Que está perfeito, mas tudo desmorona novamente.

Só que não existe mais nada neste mundo que me faça acreditar que ficarei bem. Nada.

– Eu li a última carta da minha mãe. – Falei entre soluços, sem saber se conseguiu entender algo. Mas o olhar em seu rosto mostrou que ele entendeu perfeitamente, pois já leu aquela página e sabe que ela se matou para fugir dos seus demônios.

– Não é só isso, é? – Perguntou, apertando levemente o meu joelho.

Eu poderia ficar surpresa com a sua percepção, mas não conseguia. Tudo o que sentia era aquela dor. Não havia espaço para outra emoção.

– Não. O Ricardo me expulsou de casa... Quer dizer, nós terminamos... Nós... Nós... – Sem conseguir explicar o que havia acontecido, só sobrou espaço para o choro que aumentou ainda mais quando falei seu nome em voz alta. Era a primeira vez que eu falava a respeito e eu senti como se mais um objeto estranho fosse enfiado em meu coração, juntando-se aos movimentos de outro, em uma missão de me machucar da pior maneira possível.

– Calma criança. – Aconselhou puxando a minha cabeça para o seu ombro, deixando que as lágrimas ensopassem a sua camiseta. Ainda havia algum líquido ali?

Um minuto ou duas horas depois, Fernando me soltou para pegar um envelope pardo que estava em cima da mesinha em nossa frente.

– Você sabe que pode contar comigo, não sabe? – Perguntou.

Fiz que sim com a cabeça, mesmo sabendo que não deveria contar com ele, pois assim teria mais uma pessoa que poderia me machucar futuramente. Então conclui que eu deveria contar com ninguém.

– Quero que fique aqui comigo e saiba que você não está sozinha.

Olhei para ele, sem conseguir achar as palavras certas para explicar o que eu queria.

A verdade era que eu estava sozinha, fiquei assim quando minha mãe morreu e quando Ricardo terminou comigo. Não havia mais ninguém... E por mais que não quisesse ficar sozinha novamente, queria menos ainda começar a contar com alguém. Porque cedo ou tarde, essa pessoa também partiria e toda a dor voltaria e eu não queria sentir essa dor nunca mais.

Mas tudo o que sentia era que ela jamais passaria.

– Não posso ficar. – Falei sem olhar nos seus olhos.

Procurava nele um ombro amigo, alguém para desabafar, para me dar um beliscão e me acordar desse pesadelo sem fim. Mas percebi que ir ali havia sido um erro enorme, porque esse pesadelo jamais acabaria.

– Você deve.

– Não, eu não... – Teimei, mas fui cortada.

– O que vai fazer então?

Milhares de coisas passaram pela minha cabeça: poderia deitar na praia e ficar ali para sempre, observando o nascer e o pôr do sol. Poderia voltar para casa e ser a filha que meu pai sempre quis... Ou então poderia seguir o caminho mais fácil e terminar como a minha mãe.

Mas não teria coragem de fazer nada disso.

– Não sei. – Respondi.

– Pois eu sei.

Olhei para Fernando, esperando que desse um jeito na minha vida. Ele havia encontrado a pílula do esquecimento ou uma máquina do tempo? Ou talvez... Até um poço dos desejos funcionaria. Qualquer coisa.

– Você deve ficar aqui, construir uma nova vida. Longe de tudo o que já conheceu... Você deve ser feliz novamente, Paloma.

Se tivesse forças, riria da sua cara. Feliz? Este sentimento não era mais para mim. Não fora feito para ser meu por muito tempo. Na verdade, só servia para destruir ainda mais a minha vida, chegando e indo embora rápido demais.

– Não vou te dar trabalho. – Citei um dos motivos para não ficar com ele, o menor deles... Mas não deixava de ser verdade.

– Você não precisa ficar aqui comigo. Isso é para você. – Me entregou o envelope pardo.

– O que é isso? – Perguntei com medo de abrir o envelope.

– É a sua segunda chance.

Olhei para o envelope atentamente, mas não havia nada indicando o que era. O que poderia ser?

– Já tive uma segunda chance. – Falei, ponderando entre abri-lo ou não.

– Então essa será a terceira. Que seja. É a luz no fim do túnel, criança. – Falou ele me lembrando da última carta da minha mãe que dizia que não havia luz no fim do túnel para ela. Haveria uma me esperando?

– Eu... – Sem palavras, encarei o envelope como se pudesse abri-lo com a força do olhar.

– Vou deixar que você saiba à respeito de seu último momento, Paloma. Qualquer coisa grite que virei correndo. – Falou, levantando-se e me dando um beijo na testa.

Meu último momento. O que queria dizer com aquilo? Haveria ali uma carta do Ricardo, pedindo perdão, dizendo que se arrependeu e que me queria de volta?

Este pingo de esperança me fez abrir o envelope mais rápido do que achei que era capaz, mas quando vi a caligrafia conhecida em um dos papeis escondidos dentro dele, a dor voltou com força total e mais um pouco. Seria possível que ela aumentasse?

Não era Ricardo pedindo perdão, nem se declarando ou me desejando um final feliz... Não havia nada dele ali. Tudo o que havia era mais uma carta da pessoa que me abandonou porque não era forte o suficiente. A pessoa que me obrigava a viver tudo isso. Se não fosse por ela, não estaria nessa situação. Ela deixou a sua dor para mim.

E eu esperava nunca mais ler nada do que tinha para dizer.

Por outro lado, ela havia me amado. Não o suficiente para aguentar a vida inteira, mas o bastante para suportar os meus dezoito anos. Era a única pessoa que me amou. E a minha curiosidade fez com que abrisse mais essa carta e começasse a ler as palavras que pensei que nunca mais leria.

Minha querida Paloma,

Não sei quando está recebendo essa carta... Não sei o que está acontecendo na sua vida... Mas espero que seja uma coisa boa, que seja uma ocasião especial e que esteja mais feliz do que nunca. Se este for o caso, parabéns, meu amor! Tudo o que sempre quis foi que você fosse feliz. Você merece toda felicidade do mundo. E, se este for o caso, a carta acabou aqui. Vá curtir a vida e lembre-se sempre da sua mãe que te amou mais do que tudo nesse mundo.

Mas, se a situação for outra... Se estiver sofrendo, sem rumo nem destino e se estiver sentindo que tudo acabou... Continue lendo. E por mais que eu queira que já tenha parado de ler, acredito que continuará porque a vida é assim: nunca é do jeito que queremos e nem é perfeita.

Você nunca soube... Na verdade, ninguém nunca soube, mas a partir do momento que percebi que não seria feliz, tive apenas um objetivo em mente para fazer antes de seguir para outra vida, outro mundo. E este objetivo é o conteúdo deste envelope, meu amor. O que me fez aguentar alguns anos a mais foi o desejo de te dar a opção que não tive.

Se tivesse alguém para me dar isso quando me encontrei destruída, não teria feito o que fiz. Não teria que cometer um ato tão desesperado. E estou te dando isso, meu anjo, para que não precise seguir o mesmo caminho que eu. Estou te dando uma segunda chance, uma segunda vida.

Por favor, aceite-a. Aceite-a e faça um ótimo uso. Viva tudo o que queria ter vivido antes, mas não conseguiu por medo ou falta de oportunidade. Corra atrás dos seus sonhos e, caso não os tenha mais, crie novos! Ame, lute, ria, aproveite as pequenas coisas da vida. Viva como se a sua vida fosse acabar amanhã e faça isso todos os dias. Aproveite a segunda chance o máximo que puder, só assim terei morrido em paz. Feliz até mesmo por saber que no fim, algo em minha vida deu certo.

Meu último pedido é que não desista do amor. Seja ele qual for... O amor pode doer, minha linda, e como... Mas cada dor é curada por um carinho, um gesto, algumas palavras ou até mesmo um simples sorriso. A vida não é válida sem amor, nem quando tudo se transforma em dor.

Faça deste presente o seu porto seguro, o seu recomeço. Estarei olhando e cuidando de você, onde quer que esteja.

Da sua mãe, que espera ter sofrido o suficiente para que seus filhos, netos e

bisnetos não passem por nenhum momento trágico. E que sofreria ainda mais se

fosse para garantir que isso acontecesse.

Dobro a carta e deixo em cima do sofá, as mãos livres para limpar o rosto das lágrimas que impediram que lesse a carta tão rápido quanto desejava.

Dentro do envelope ainda havia dois papeis: Um dizia coisas que eu não entendia, envolvendo imóvel e herança. Por fim, consegui concluir que havia uma casa, naquela mesma cidade, em meu nome. Minha mãe havia deixado uma casa para mim, este era o presente. O meu recomeço.

No segundo papel estava escrito que ela também havia criado uma conta no banco, com dinheiro o suficiente para me sustentar por meses... Dinheiro que, antes disso tudo, poderia ser gasto em uma tarde no shopping, mas que agora era mais um fio de esperança. A esperança de que tudo ficaria bem... Um dia, quem sabe.

Fernando voltou para a sala quando ouviu o meu celular tocando em cima da mesa. Não toquei nele... Não queria saber quem seria e o que queria, nem nada disso. Tinha tudo o que precisava bem ali na minha frente: o recomeço. A luz no fim do túnel.

– E então? – Perguntou, notando que havia aberto o envelope.

– Vou ficar. – Anunciei, imaginando um futuro feliz. Um futuro muito, muito distante... Mas feliz.

– Que bom, Paloma. Você fez a escolha certa. – Falou, se aproximando com um sorriso no rosto.

– Onde é esta casa?

– Você reparou que há uma casa ao lado igualzinha a esta? – Perguntou, dando a resposta que precisava.

Moraria ao lado do Fernando.

– Ela que te deu esta casa também? – Perguntei após algum tempo.

– Sim, foi ela. Eu... Não poderia negar. – Falou, se desculpando.

– Então você também fez a escolha certa. – Falei, tentando sorrir, mas percebi que era cedo demais. A felicidade continuava em um futuro quase inalcançável. Quase.

– Você vai gostar da cidade.

– Vou ficar, mas tem uma condição... – Falei, me levantando.

Fernando me olhou com um ar de desconfiança, esperando pela minha exigência.

– Você jantará todos os dias na minha casa. Ou eu na sua. Tanto faz... Só quero que jantemos juntos todos os dias. – Falei, guardando os papéis na bolsa.

Fernando riu, aliviado por não ser nada demais.

– Sim, criança, eu aceitarei a sua condição.

– Tem mais uma. – Falei, pensando de última hora.

– Você falou que era só uma. – Lembrou.

– Mas agora são duas. Quero que seja feliz. – Falei, olhando nos seus olhos. – Esta não é uma luz no fim do túnel apenas para mim... É para você também. Você merece ser feliz.

Fernando pareceu machucado por um momento, mas logo colocou um sorriso no rosto. Ele convivia com a dor há muito tempo... Havia aprendido a lidar com ela. Espero ser como ele um dia.

– Só se você também for.

– Eu... – Não consegui falar que seria. Não acreditava plenamente nisso e, se falasse em voz alta, sabia que a dor só aumentaria. Então confirmei com a cabeça e me aproximei mais dele, passando os braços por sua cintura e apoiando a cabeça no seu ombro.

Fernando acariciou meu cabelo, me confortando.

– Vá tomar um banho e começar a sua nova vida, menina. Você já sofreu demais para uma garota da sua idade.

Deixei que mais algumas lágrimas escorressem pelo rosto enquanto sentia o carinho dele e, quando percebi que não havia mais nada para aquele momento, me soltei dele, querendo sentir uma força inexistente. Uma força que me fizesse erguer a cabeça e seguir em frente... Mas tudo o que queria era deitar na cama e não levantar mais.

– Vou fazer isso. – Afirmei, pegando a mala em cima do sofá e a chave da casa ao lado, da minha casa, que Fernando havia deixado em cima da mesinha.

– Vai me ligar? – Perguntou antes que saísse pela porta da frente.

– Começaremos nossos jantares amanhã. – Falei, olhando uma última vez para ele antes de sair da sua casa.

Estava na hora de recomeçar e de esquecer. Tinha uma segunda chance e esta, não seria desperdiçada.

Entrei com o pé direito na casa, rezando para que isso fizesse com que a vida fosse boa daquele dia em diante. A única coisa que me impedia de acreditar verdadeiramente nisso era a dor, ainda presente em meu coração, tão forte quando como entrei na casa do Fernando, horas atrás.

Eu tinha a impressão de que a dor jamais sairia dali.