Obras Completas de Luis de Camões, Tomo III

Luís de Camões · Capítulo 1 de 93 · parte 1/2

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Obras Completas de Luis de Camões, Tomo III

Rimas.

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 2 partes.

1843

{6}

{7}

 

RIMAS.

 

{8}

{9}

 

RIMAS.

REDONDILHAS.

Sôbolos rios que vão

Por Babylonia, me achei,

Onde sentado chorei

As lembranças de Sião,

E quanto nella passei.

Alli o rio corrente

De meus olhos foi manado;

E tudo bem comparado,

Babylonia ao mal presente,

Sião ao tempo passado.

Alli lembranças contentes

N'alma se representárão;

E minhas cousas ausentes

Se fizerão tão presentes,

Como se nunca passárão.

Alli, despois d'acordado,

Co'o rosto banhado em ágoa,

Deste sonho imaginado,

Vi que todo o bem passado

Não he gôsto, mas he mágoa. {10}

E vi que todos os danos

Se causavão das mudanças,

E as mudanças dos anos;

Onde vi quantos enganos

Faz o tempo ás esperanças.

Alli vi o maior bem

Quão pouco espaço que dura;

O mal quão depressa vem;

E quão triste estado tem

Quem se fia da ventura.

Vi aquillo que mais val

Qu'então s'entende melhor,

Quando mais perdido for:

Vi ao bem succeder mal,

E ao mal muito peor.

E vi com muito trabalho

Comprar arrependimento:

Vi nenhum contentamento;

E vejo-me a mi, qu'espalho

Tristes palavras ao vento.

Bem são rios estas ágoas

Com que banho este papel:

Bem parece ser cruel

Variedade de mágoas,

E confusão de Babel.

Como homem, que por exemplo

Dos trances em que se achou,

Despois que a guerra deixou,

Pelas paredes do templo

Suas armas pendurou:

Assi, despois qu'assentei {11}

Que tudo o tempo gastava,

Da tristeza que tomei,

Nos salgueiros pendurei

Os orgãos com que cantava.

Aquelle instrumento ledo

Deixei da vida passada,

Dizendo: Musica amada,

Deixo-vos neste arvoredo

Á memoria consagrada.

Frauta minha, que tangendo

Os montes fazieis vir

Par'onde estaveis, correndo;

E as ágoas, que hião descendo,

Tornavão logo a subir;

Jamais vos não ouvirão

Os tigres, que s'amansavão;

E as ovelhas, que pastavão,

Das hervas se fartarão,

Que por vos ouvir deixavão.

Ja não fareis docemente

Em rosas tornar abrolhos

Na ribeira florecente;

Nem poreis freio á corrente,

E mais se for dos meus olhos.

Não movereis a espessura,

Nem podereis ja trazer

Atraz vós a fonte pura;

Pois não pudestes mover

Desconcertos da ventura.

Ficareis offerecida

Á Fama, que sempre vela, {12}

Frauta de mi tão querida;

Porque mudando-se a vida,

Se mudão os gostos della.

Acha a tenra mocidade

Prazeres accommodados;

E logo a maior idade

Ja sente por pouquidade

Aquelles gostos passados.

Hum gôsto, que hoje s'alcança,

Á manhãa ja o não vejo:

Assi nos traz a mudança

D'esperança em esperança,

E de desejo em desejo.

Mas em vida tão escassa

Qu'esperança será forte?

Fraqueza da humana sorte,

Que quanto da vida passa

Está recitando a morte!

Mas deixar nesta espessura

O canto da mocidade:

Não cuide a gente futura

Que será obra da idade

O que he fôrça da ventura.

Qu'idade, tempo, e espanto

De ver quão ligeiro passe,

Nunca em mi puderão tanto,

Que, postoque deixo o canto,

A causa delle deixasse.

Mas em tristezas e nojos,

Em gôsto e contentamento;

Por sol, por neve, por vento, {13}

Tendré presente á los ojos

Por quien muero tan contento.

Orgãos e frauta deixava,

Despôjo meu tão querido,

No salgueiro que alli'stava,

Que para tropheo ficava

De quem me tinha vencido.

Mas lembranças da affeição

Que alli captivo me tinha,

Me perguntárão então,

Qu'era da musica minha,

Que eu cantava em Sião?

Que foi daquelle cantar,

Das gentes tão celebrado?

Porque o deixava de usar,

Pois sempre ajuda a passar

Qualquer trabalho passado?

Canta o caminhante ledo

No caminho trabalhoso

Por entre o espêsso arvoredo;

E de noite o temeroso

Cantando refreia o medo.

Canta o preso docemente,

Os duros grilhões tocando;

Canta o segador contente;

E o trabalhador, cantando,

O trabalho menos sente.

Eu qu'estas cousas senti

N'alma de mágoas tão cheia,

Como dirá, respondi,

Quem alheio está de si {14}

Doce canto em terra alheia?

Como poderá cantar

Quem em chôro banha o peito?

Porque, se quem trabalhar

Canta por menos cansar,

Eu só descansos engeito.

Que não parece razão,

Nem sería cousa idonia,

Por abrandar a paixão

Que cantasse em Babylonia

As cantigas de Sião.

Que quando a muita graveza

De saudade quebrante

Esta vital fortaleza,

Antes morra de tristeza,

Que por abrandá-la cante.

Que se o fino pensamento

Só na tristeza consiste,

Não tenho medo ao tormento:

Que morrer de puro triste,

Que maior contentamento?

Nem na frauta cantarei

O que passo, e passei ja,

Nem menos o escreverei;

Porque a penna cansará,

E eu não descansarei.

Que se vida tão pequena

S'accrescenta em terra estranha;

E se Amor assi o ordena,

Razão he que canse a penna

D'escrever pena tamanha. {15}

Porém, se para assentar

O que sente o coração,

A penna ja me cansar,

Não canse para voar

A memoria em Sião.

Terra bem-aventurada,

Se por algum movimento

D'alma me fores tirada,

Minha penna seja dada

A perpétuo esquecimento.

A pena deste destêrro,

Qu'eu mais desejo esculpida

Em pedra, ou em duro ferro,

Essa nunca seja ouvida,

Em castigo de meu êrro.

E se eu cantar quizer

Em Babylonia sujeito,

Hierusalem, sem te ver,

A voz, quando a mover,

Se me congele no peito;

A minha lingua se apegue

Ás fauces, pois te perdi,

S'em quanto viver assi

Houver tempo, em que te negue,

Ou que m'esqueça de ti.

Mas ó tu, terra de glória.

S'eu nunca vi tua essencia,

Como me lembras na ausencia?

Não me lembras na memoria,

Senão na reminiscencia:

Que a alma he taboa rasa, {16}

Que com a escrita doutrina

Celeste tanto imagina,

Que vôa da propria casa,

E sobe á patria divina.

Não he logo a saudade

Das terras onde nasceo

A carne, mas he do Ceo,

Daquella santa Cidade,

Donde est'alma descendeo.

E aquella humana figura,

Que cá me póde alterar,

Não he quem se ha de buscar;

He raio da formosura,

Que só se deve d'amar.

Que os olhos, e a luz que ateia

O fogo que cá sujeita,

Não do sol, nem da candeia,

He sombra daquella ideia,

Qu'em Deos está mais perfeita.

E os que cá me captivárão,

São poderosos affeitos

Qu'os corações tẽe sujeitos;

Sophistas, que m'ensinárão

Maos caminhos por direitos.

Destes o mando tyrano

M'obriga com desatino

A cantar ao som do dano

Cantares d'amor profano,

Por versos d'amor divino.

Mas eu, lustrado co'o santo

Raio, na terra de dor, {17}

De confusões e d'espanto

Como hei de cantar o canto,

Que só se deve ao Senhor?

Tanto póde o beneficio

Da graça que dá saude,

Que ordena que a vida mude:

E o qu'eu tomei por vício,

Me faz grao para a virtude;

E faz qu'este natural

Amor, que tanto se préza,

Suba da sombra ao real,

Da particular belleza

Para a belleza geral.

Fique logo pendurada

A frauta com que tangi,

Ó Hierusalem sagrada,

E tome a lyra dourada

Para só cantar de ti;

Não captivo e ferrolhado

Na Babylonia infernal,

Mas dos vicios desatado,

E cá desta a ti levado,

Patria minha natural.

E s'eu mais der a cerviz

A mundanos accidentes,

Duros, tyrannos e urgentes,

Risque-se quanto ja fiz

Do grão livro dos viventes.

E, tomando ja na mão

A lyra santa e capaz

D'outra mais alta invenção, {18}

Calle-se esta confusão,

Cante-se a visão de paz.

Ouça-me o pastor e o rei,

Retumbe este accento santo,

Mova-se no mundo espanto;

Que do que ja mal cantei

A palinodia ja canto.

A vós só me quero ir,

Senhor, e grão Capitão

Da alta tôrre de Sião,

Á qual não posso subir,

Se me vós não dais a mão.

No grão dia singular,

Que na lyra em douto som

Hierusalem celebrar,

Lembrae-vos de castigar

Os ruins filhos de Edom.

Aquelles que tintos vão

No pobre sangue innocente,

Soberbos co'o poder vão,

Arrazá-los igualmente:

Conheção que humanos são.

E aquelle poder tão duro

Dos affectos com que venho,

Qu'encendem alma e engenho;

Que ja m'entrárão o muro

Do livre arbitrio que tenho;

Estes, que tão furiosos

Gritando vem a escalar-me,

Maos espiritos damnosos,

Que querem como forçosos {19}

Do alicerce derribar-me;

Derribae-os, fiquem sós,

De fôrças fracos, imbelles;

Porque não podemos nós,

Nem com elles ir a vós,

Nem sem vós tirar-nos delles.

Não basta minha fraqueza

Para me dar defensão,

Se vós, santo Capitão,

Nesta minha Fortaleza

Não puzerdes guarnição.

E tu, ó carne, qu'encantas,

Filha de Babel tão feia,

Toda de miseria cheia,

Que mil vezes te levantas

Contra quem te senhoreia;

Beato só póde ser

Quem co'a ajuda celeste

Contra ti prevalecer,

E te vier a fazer

O mal que lhe tu fizeste:

Quem com disciplina crua

Se fere mais que huma vez;

Cuja alma, de vicios nua,

Faz nodas na carne sua,

Que ja a carne n'alma fez.

E beato quem tomar

Seus pensamentos recentes,

E em nascendo os affogar,

Por não virem a parar

Em vicios graves e urgentes: {20}

Quem com elles logo der

Na pedra do furor santo,

E batendo os desfizer

Na Pedra, que veio a ser

Emfim cabeça do canto:

Quem logo, quando imagina

Nos vicios da carne má,

Os pensamentos declina

Áquella Carne divina,

Que na Cruz esteve ja.

Quem do vil contentamento

Cá deste mundo visibil,

Quanto ao homem for possibil,

Passar logo entendimento

Para o mundo intelligibil;

Alli achará alegria

Em tudo perfeita, e cheia

De tão suave harmonia,

Que nem por pouca recreia,

Nem por sobeja enfastia.

Alli verá tão profundo

Mysterio na summa Alteza,

Que, vencida a natureza,

Os mores faustos do mundo

Julgue por maior baixeza.

Ó tu, divino aposento,

Minha patria singular,

Se só com te imaginar,

Tanto sobe o entendimento,

Que fara se em ti se achar?

Ditoso quem se partir {21}

Para ti, terra excellente,

Tão justo e tão penitente,

Que despois de a ti subir,

Lá descanse eternamente!

—oOo—

 

CARTA A HUMA DAMA.

Querendo escrever hum dia

O mal, que tanto estimei;

Cuidando no que poria,

Vi Amor que me dizia:

Escreve, qu'eu notarei.

E como para se ler

Não era historia pequena

A que de mi quiz fazer,

Das azas tirou a penna

Com que me fez escrever.

E, logo como a tirou,

Me disse: Aviva os espritos;

Que pois em teu favor sou,

Esta penna, que te dou,

Fara voar teus escritos.

E dando-me a padecer

Tudo o que quiz que puzesse,

Pude emfim delle dizer,

Que me deo com qu'escrevesse

O que me deo a escrever.

Eu qu'este engano entendi,

Disse-lhe: Qu'escreverei?

Respondeo, dizendo assi:

Altos effeitos de mi. {22}

E daquella a quem te dei.

E ja que te manifesto

Todas minhas estranhezas,

Escreve, pois que te prézas,

Milagres d'hum claro gesto,

E de quem o vio, tristezas.

Ah Senhora, em quem se apura

A fé de meu pensamento!

Escutae e estae a tento,

Que com vossa formosura

Iguala Amor meu tormento.

E, postoque tão remota

Estejais de m'escutar

Por me não remediar,

Ouvi, que pois Amor nota,

Milagres se hão de notar.

Escrevem varios Authores,

Que junto da clara fonte

Do Ganges, os moradores

Vivem do cheiro das flores

Que nascem naquelle monte.

Se os sentidos podem dar

Mantimento ao viver,

Não he logo d'espantar,

S'estes vivem de cheirar,

Que viva eu só de vos ver.

Huma árvore se conhece,

Que na geral alegria

Ella tanto s'entristece,

Que, como he noite, florece,

E perde as flores de dia. {23}

Eu, qu'em ver-vos sinto o preço

Qu'em vossa vista consiste,

Em a vendo m'entristeço,

Porque sei que não mereço

A glória de ver-me triste.

Hum Rei de grande poder

Com veneno foi criado,

Porque, sendo costumado,

Não lhe pudesse empecer,

Se despois lhe fosse dado.

Eu, que criei de pequena

A vista a quanto padece,

Desta sorte m'acontece,

Que não me faz mal a pena,

Senão quando me fallece.

Quem da doença Real

De longe enfêrmo se sente,

Por segredo natural

Fica são vendo somente

Hum volatil animal.

Do mal, que Amor em mi cria,

Quando aquella Phenix vejo,

São de todo ficaria;

Mas fica-me hydropesia,

Que quanto mais, mais desejo.

Da vibora he verdadeiro,

Se a consorte vai buscar,

Qu'em se querendo juntar,

Deixa a peçonha primeiro,

Porque lh'impede o gerar.

Assi quando m'apresento {24}

Á vossa vista inhumana,

A peçonha do tormento

Deixo á parte, porque dana

Tamanho contentamento.

Querendo Amor sustentar-se,

Fez huma vontade esquiva

D'huma estatua namorar-se:

Despois, por manifestar-se,

Converteo-a em mulher viva.

De quem m'irei eu queixando,

Ou quem direi que m'engana

Se vou seguindo e buscando

Huma imagem, que d'humana

Em pedra se vai tornando?

D'huma fonte se sabía,

Da qual certo se provava

Que quem sôbre ella jurava,

Se falsidade dizia,

Dos olhos logo cegava.

Vós, que minha liberdade,

Senhora, tyrannizais,

Injustamente mandais,

Quando vos fallo verdade,

Que vos não possa ver mais.

Da palma s'escreve e canta

Ser tão dura e tão forçosa,

Que pêzo não a quebranta,

Mas antes, de presunçosa,

Com elle mais se levanta.

Co'o pêzo do mal que dais,

A constancia qu'em mi vejo, {25}

Não somente ma dobrais,

Mas dobra-se meu desejo,

Com qu'então vos quero mais.

Se alguem os olhos quizer

Ás andorinhas quebrar,

Logo a mãe, sem se deter,

Huma herva lhe vai buscar

Que lhes faz outros nascer.

Eu que os olhos tenho attento

Nos vossos, qu'estrellas são,

Cegão-se os do entendimento,

Mas nascem-me os da razão

De folgar com meu tormento.

Lá para onde o sol sahe,

Descobrimos, navegando,

Hum novo rio admirando,

Que o lenho que nelle cahe,

Em pedra se vai tornando.

Não s'espantem disto as gentes;

Mais razão será qu'espante

Hum coração tão possante,

Que com lagrimas ardentes

Se converte em diamante.

Póde hum mudo nadador

Na linha e cana influir

Tão venenoso vigor,

Que faz mais não se bulir

O braço do pescador.

Se começão de beber

Deste veneno excellente

Meus olhos, sem se deter, {26}

Não se sabem mais mover

A nada que se apresente.

Isto são claros sinais

Do muito qu'em mi podeis:

Nem podeis desejar mais;

Que se ver-vos desejais,

Em mi claro vos vereis.

E quereis ver a que fim

Em mi tanto bem se pôs?

Porque quiz Amor assim,

Que por vos verdes a vós,

Tambem me visseis a mim.

Dos males que m'ordenais,

Qu'inda tenho por pequenos,

Sabei, se mos escutais,

Que ja não sei dizer mais,

Nem vós podeis saber menos.

Mas ja que a tanto tormento

Não se acha quem resista,

Eu, Senhora, me contento

De terdes meu soffrimento

Por alvo de vossa vista.

Quantos contrarios consente

Amor, por mais padecer!

Que aquella vista excellente,

Que me faz viver contente,

Me faça tão triste ser!

Mas dou este entendimento

Ao mal, que tanto m'offende,

Como na vela s'entende,

Que se se apaga co'o vento, {27}

Co'o mesmo vento se accende.

Exprimentou-se algum'hora

D'ave, que chamão Camão,

Que se da casa, onde mora,

Vê adúltera senhora,

Morre de pura paixão.

A dor he tão sem medida,

Que remedio lhe não val.

Mas oh ditoso animal,

Que póde perder a vida,

Quando vê tamanho mal!

Nos gôstos de vos querer

Estava agora enlevado,

Se não fôra salteado

Das lembranças de temer

Ser por outrem desamado.

Estas suspeitas tão frias,

Com que o pensamento sonha,

São assi como as harpias,

Que as mais doces iguarias

Vão converter em peçonha.

Faz-me este mal infinito

Não poder ja mais dizer,

Por não vir a corromper

Os gostos que tenho escrito,

Co'os males qu'hei d'escrever.

Não quero que s'apregôe

Mal tanto para encobrir,

Porque em quanto aqui s'ouvir

Nenhuma outra cousa sôe,

Que a glória de vos servir. {28}

—oOo—

 

Á MESMA.

Dama d'estranho primor,

Se vos for

Pezada minha firmeza,

Olhae não me deis tristeza,

Porque a converto em amor.

E se cuidais

De me matar, quando usais

D'esquivança,

Irei tomar por vingança

Amar-vos cada vez mais.

Porém vosso pensamento,

Como isento,

Seguirá sua tenção,

Crendo qu'em tanta affeição

Não haja accrescentamento.

Não creais

Que desta arte vos façais

Invencibil;

Que Amor sôbre o impossibil

Amostra que póde mais.

Mas ja da tenção que sigo,

Me desdigo;

Que se ha tanto poder nelle,

Tambem vós podeis mais qu'elle

Neste mal que usais comigo.

Mas se for

O vosso poder maior

Entre nós,

Quem poderá mais que vós, {29}

Se vós podeis mais que Amor?

Despois que, Dama, vos vi,

Entendi,

Que perdêra Amor seu preço;

Pois o favor que lh'eu peço,

Vos pede elle para si.

Nem duvido

Que não póde, de sentido,

Resistir;

Pois em vez de vos ferir,

Ficou de vos ver ferido.

Mas pois vossa vista he tal

Em meu mal,

Que posso de vós querer?

Que mal poderei valer,

Onde o mesmo Amor não val.

Se attentar,

Nenhum bem posso esperar:

E oxalá

Que vos alembrasse ja,

Sequer para me matar.

Mas nem com isto creais

Que façais

Meus serviços mais pequenos;

Porqu'eu, quando espero menos,

Sabei qu'então quero mais.

Nada espero;

Mas de mi crede este fero,

Qu'em ser vosso,

Vos quero tudo o que posso,

E não posso quanto quero. {30}

Só por esta phantasia

Merecia

De meus males algum fruito;

E não era certo muito

Para o muito que queria.

De maneira,

Que não he, na derradeira,

Grande espanto,

Que quem, Dama, vos quer tanto,

Que outro tanto de vós queira.

—oOo—

 

A HUMAS SUSPEITAS.

Suspeitas, que me quereis?

Qu'eu vos quero dar lugar

Que de certas me mateis,

Se a causa, de que nasceis,

Vós quizesseis confessar.

Que de não lhe achar desculpa,

A grande mágoa passada

Me tẽe a alma tão cansada,

Que se me confessa a culpa,

Te-la-hei por desculpada.

Ora vêde que perigos

Tẽe cercado o coração,

Que no meio da oppressão

A seus proprios inimigos

Vai pedir a defensão!

Que, suspeitas, eu bem sei,

Como se claro vos visse,

Que he certo o que ja cuidei; {31}

Que nunca mal suspeitei,

Que certo me não sahisse.

Mas queria esta certeza

Daquella que me atormenta;

Porque em tamanha estreiteza

Ver que disso se contenta,

He descanso da tristeza.

Porque se esta só verdade

Me confessa limpa e nua

De cautela e falsidade,

Não póde a minha vontade

Desconforme ser da sua.

Por segredo namorado

He certo estar conhecido

Que o mal de ser engeitado

Mais atormenta sabido

Mil vezes, que suspeitado.

Mas eu só, em quem se ordena

Novo modo de querella,

De medo da dor pequena,

Venho a achar na maior pena

O refrigerio para ella.

Ja nas iras m'inflammei,

Nas vinganças, nos furores,

Que ja doudo imaginei;

E ja mais doudo jurei

De arrancar d'alma os amores.

Ja determinei mudar-me

Para outra parte com ira;

Despois vim a concertar-me

Que era bom certificar-me {32}

No que mostrava a mentira.

Mas despois ja de cansadas

As furias do imaginar,

Vinha emfim a rebentar

Em lagrimas magoadas,

E bem para magoar.

E deixando-se vencer

Os meus fingidos enganos

De tão claros desenganos,

Não posso menos fazer,

Que contentar-me co'os danos.

E pedir que me tirassem

Este mal de suspeitar

Que me vejo atormentar,

Indaque me confessassem

Quanto me póde matar.

Olhae bem se me trazeis,

Senhora, pôsto no fim;

Pois neste estado a que vim,

Para que vós confesseis,

Se dão os tratos a mim.

Mas para que tudo possa

Amor, que tudo encaminha,

Tal justiça lhe convinha;

Porque da culpa, qu'he vossa,

Venha a ser a morte minha.

Justiça tão mal olhada

Olhae com que côr se doura,

Que quero, ao fim da jornada,

Que vós sejais confessada,

Para qu'eu seja o que moura! {33}

Pois confessae-vos jagora,

Indaque tenho temor

Que nem nesta última hora

Me ha de perdoar Amor

Vossos peccados, Senhora.

E assi vou desesperado,

Porque estes são os costumes

D'amor que he mal empregado;

Do qual vou ja condemnado

Ao inferno de ciumes.

—oOo—

 

L [1] ABYRINTHO, QUEIXANDO-SE DO MUNDO .

Corre sem vela e sem leme

O tempo desordenado,

D'hum grande vento levado:

O que perigo não teme,

He de pouco exprimentado.

As redeas trazem na mão

Os que redeas não tiverão:

Vendo quanto mal fizerão

A cobiça e ambição,

Disfarçados se acolhêrão.

A nao, que se vai perder,

Destrue mil esperanças: {34}

Vejo o mao que vem a ter;

Vejo perigos correr

Quem não cuida que ha mudanças.

Os que nunca em sella andárão,

Na sella postos se vem:

De fazer mal não deixárão;

De demonio hábito tem

Os que o justo profanárão.

Que poderá vir a ser

O mal nunca refreado?

Anda, por certo, enganado

Aquelle que quer valer,

Levando o caminho errado.

He para os bons confusão,

Ver que os maos prevalecêrão;

Que, pôsto se detiverão

Com esta simulação,

Sempre castigos tiverão:

Não porque governe o leme

Em mar envolto e turbado,

Que tẽe seu rumo mudado,

Se perece grita e geme

Em tempo desordenado.

Terem justo galardão,

E dor dos que merecêrão,

Sempre castigos tiverão

Sem nenhuma redempção,

Postoque se detiverão.

Na tormenta, se vier,

Desespere na bonança,

Quem manhas não sabe ter: {35}

Sem que lhe valha gemer,

Verá falsar a balança.

Os que nunca trabalhárão,

Tendo o que lhe não convem,

Se ao innocente enganárão,

Perderão o eterno bem,

Se do mal não s'apartárão.

[1] Este Labyrintho, onde ninguem se entende, não parece obra do

poeta. Nelle não fazemos emenda alguma, porque a unica judiciosa seria passar-lhe um traço por cima: o que não ousamos fazer por andar em todas as edições.

Nota dos editores.

 

—oOo—

 

CONVITE QUE FEZ NA INDIA A CERTOS FIDALGOS.

A primeira iguaria foi posta a Vasco de Ataide, e dizia:

Se não quereis padecer

Huma, ou duas horas tristes,

Sabeis que haveis de fazer?

Volveros por dó venistes,

Que aqui não ha que comer.

E, postoque aqui leais

Trovinha que vos enleia,

Corrido não estejais;

Porque por mais que corrais,

Não heis de alcançar a ceia.

A segunda a D. Francisco de Almeida.

Heliogabalo zombava

Das pessoas convidadas;

E de sorte as enganava,

Que as iguarias que dava,

Vinhão nos pratos pintadas. {36}

Não temais tal travessura,

Pois ja não póde ser nova;

Porque a cêa está segura

De vos não vir em pintura;

Mas ha de vir toda em trova.

A terceira a Heitor da Silveira.

Cêa não a papareis:

Com tudo, porque não minta,

Para beber achareis,

Não Caparica, mas tinta,

E mil cousas que papeis.

E vós torceis o focinho

Com esta amphibologia?

Pois sabei que a Poesia

Vos dá aqui tinta por vinho,

E papéis por iguaria.

A quarta a João Lopes Leitão, a quem o Author fez huns versos, que

vão adiante, sôbre huma peça de cacha, que deo a huma Dama.

Porque os que vos convidárão

Vosso estomago não danem,

Por justa causa ordenárão,

Se trovas vos enganárão,

Que trovas vos desenganem.

Vós tereis isto por tacha,

Converter tudo em trovar;

Pois se me virdes zombar,

Não cuideis, Senhor, que he cacha,

Que aqui não ha que cachar. {37}

Responde João Lopes.

Pezar ora não de são,

Eu juro pelo Ceo bento,

Se de comer não me dão,

Qu'eu não sou camaleão,

Que m'hei de manter do vento.

Responde o Author.

Senhor, não vos agasteis,

Porque Deos vos proverá;

E se mais saber quereis,

Nas costas deste lereis

As iguarias que ha.

Virado o papel, dizia assi:

Tendes nem migalha assada;

Cousa nenhuma de môlho;

E nada feito em empada;

E vento de tigelada;

Picar no dente em remôlho:

De fumo tendes taçalhos;

Ave da pena que sente

Quem da fome anda doente;

Bocejar de vinho e d'alhos;

Manjar em branco excellente.

A derradeira a Francisco de Mello.

D'hum homem, que teve o scetro

Da vêa maravilhosa,

Não foi cousa duvidosa, {38}

Que se lhe tornava em metro

O qu'hia a dizer em prosa.

De mi vos quero affirmar

Que faça cousas mais novas,

De quanto podeis cuidar;

E esta cêa, que he manjar,

Vos faça na boca em trovas.

—oOo—

 

NA INDIA AO VISO-REI, COM O MOTE ADIANTE.

Conde, cujo illustre peito

Merece nome de Rei,

Do qual muito certo sei

Que lhe fica sendo estreito

O cargo de Viso-Rei;

Servirdes-vos d'occupar-me

Tanto contra meu Planeta,

Não foi senão azas dar-me,

Com as quaes vou a queimar-me,

Como o faz a borboleta.

E s'eu a penna tomar,

Que tão mal cortada tenho,

Será para celebrar

Vosso valor singular

Dino de mais alto engenho.

Que se o meu vos celebrasse,

Necessario me sería

Que os olhos d'aguia tomasse,

Só para que não cegasse

No sol de vossa valia.

Vossos feitos sublimados {39}

Nas armas, dignos de gloria,

São no mundo tão soados,

Qu'em vós de vossos passados

Se resuscita a memoria.

Pois aquelle ânimo estranho,

Prompto para todo effeito,

Espanta todo o conceito:

Como coração tamanho

Vos póde caber no peito?

A clemencia, que asserena

Coração tão singular,

S'eu nisso puzesse a penna,

Sería encerrar o mar

Em cova muito pequena.

Bem basta, Senhor, que agora

Vos sirvais de me occupar;

Que assi fareis aparar

A penna, com que algum'hora

Vos vereis ao ceo voar.

Assi vos irei louvando,

Vós a mi do chão erguendo,

Ambos o mundo espantando;

Vós com a espada cortando,

Eu com a penna escrevendo.

Mote que lhe mandou o Viso-Rei.

Muito sou meu inimigo,

Pois que não tiro de mi

Cuidados, com que nasci,

Que põe a vida em perigo.

Oxalá que fôra assi! {40}

Volta.

Viver eu, sendo mortal,

De cuidados rodeado,

Parece meu natural;

Que a peçonha não faz mal

A quem foi nella criado.

Tanto sou meu inimigo,

Que por não tirar de mi

Cuidados, com que nasci,

Porei a vida em perigo.

Oxalá que fôra assi!

Tanto vim a accrescentar

Cuidados, que nunca amansão

Em quanto a vida durar,

Que canso ja de cuidar

Como cuidados não cansão.

S'estes cuidados, que digo,

Dessem fim a mi e a si,

Farião pazes comigo;

Que pôr a vida em perigo,

O bom fôra para mi.

—oOo—

 

A HUMA DAMA, QUE LHE MANDOU PEDIR ALGUMAS OBRAS SUAS.

Senhora, s'eu alcançasse

No tempo que ler quereis,

Que a dita dos meus papéis

Pola minha se trocasse;

E por ver {41}

Tudo o que posso escrever

Em mais breve relação,

Indo eu onde elles vão,

Por mi só quizesseis ler;

Despois de ver hum cuidado

Tão contente de seu mal,

Verieis o natural

Do que aqui vêdes pintado;

Que o perfeito

Amor, de que sou sogeito,

Vereis aspero e cruel,

Aqui com tinta e papel,

Em mi com sangue no peito.

Que hum continuo imaginar

Naquillo que Amor ordena,

He pena, que emfim por penna

Se não póde declarar;

Que se eu levo

Dentro n'alma quanto devo

De trasladar em papéis,

Vêde que melhor lereis,

Se a mi, se aquillo qu'escrevo?

—oOo—

 

A HUMA SENHORA, A QUEM DERÃO HUM PEDAÇO DE SITIM AMARELLO.

Se derivais da verdade

Esta palavra Sitim,

Achareis sem falsidade,

Que apos o si tẽe o tim,

Que tine em toda a Cidade. {42}

Bem vejo que m'entendeis;

Mas porque não falle em vão,

Sabei que a esta Nação

Tanto que o si concedeis,

O tim logo está na mão.

E quem da fama s'arreda,

Que tudo vai descobrir,

Deve sempre de fugir

De sitins, porque da seda

Seu natural he rugir.

Mas panno fino e delgado,

Qual a raxa e outros assi,

Dura, aquenta, e he callado,

Amoroso, e dá de si

Mais que sitim, nem brocado.

Mas estes, que sedas são

Com quem s'enganão mil Damas,

Mais vos tomão, do que dão;

Promettem, mas não darão,

Senão nodoas para as famas.

E se não me quereis crer,

Ou tomais outro caminho,

Por exemplo o podeis ver,

Quando lá virdes arder

A casa d'algum vizinho.

Oh feminina simpreza,

Donde estão culpas a pares,

Que por hum Dom de nobreza,

Deixão dões da natureza,

Mais altos e singulares!

Hum Dom, que anda enxertado {43}

No nome, e nas obras não.

Fallo como exprimentado;

Que sitim desta feição

Eu tenho muito cortado.

Dizem-me qu'era amarello;

E quem assi o quiz dar,

Só para me Deos vingar,

Se vem á mão amarê-lo,

O qu'eu não posso cuidar.

Porque quem sabe viver

Por estas artes manhosas,

(Isto bem póde não ser)

Dá a meninas formosas,

Somente polas fazer.

Quem vos isto diz, Senhora,

Servio nas vossas armadas

Muito, mas anda ja fóra;

E póde ser qu'inda agora

Traz abertas as fréchadas.

E, postoque desfavores

O tirão de servidor,

Quer-vos ventura melhor;

Que dos antigos amores

Inda lhe fica este amor.

—oOo—

 

A HUMA SENHORA REZANDO POR HUMAS CONTAS.

Peço-vos que me digais

As orações que rezastes,

Se são polos que matastes,

Se por vós que assi matais? {44}

Se são por vós, são perdidas;

Que qual será a oração,

Que seja satisfação,

Senhora, de tantas vidas?

Que se vêdes quantos vem

A só vida vos pedir,

Como vos ha Deos de ouvir,

Se vós não ouvis ninguem?

Não podeis ser perdoada

Com mãos a matar tão prontas,

Que se n'huma trazeis contas,

Na outra trazeis espada.

Se dizeis que encommendando

Os que matastes andais;

Se rezais por quem matais,

Para que matais rezando?

Que se na fôrça do orar

Levantais as mãos aos Ceos,

Não as ergueis para Deos,

Erguei-las para matar.

E quando os olhos cerrais,

Toda enlevada na fé,

Cerrão-se os de quem vos vê,

Para nunca verem mais.

Pois se assi forem tratados

Os que vos vem quando orais,

Essas horas que rezais,

São as horas dos finados.

Pois logo, se sois servida

Que tantos mortos não sejão,

Não rezeis onde vos vejão, {45}

Ou vêde para dar vida.

Ou se quereis escusar

Estes males que causastes,

Resuscitae quem matastes,

Não tereis por quem rezar.

—oOo—

 

A HUMA DAMA QUE LHE DEO HUMA PENNA.

Se n'alma e no pensamento

Por vosso me manifesto,

Não me peza do que sento;

Que se não soffrer tormento,

Faço offensa a vosso gesto.

E, pois quanto Amor ordena,

E quanto est'alma deseja,

Tudo á morte me condena,

Não quero senão que seja

Tudo pena, pena, pena.

—oOo—

A HUMA DAMA QUE LHE CHAMOU CARA SEM OLHOS.

Sem olhos vi o mal claro,

Que dos olhos se seguio:

Pois cara sem olhos vio

Olhos, que lhe custão caro.

D'olhos não faço menção,

Pois quereis que olhos não sejão;

Vendo-vos, olhos sobejão,

Não vos vendo, olhos não são. {46}

—oOo—

 

DISPARATES NA INDIA.

Este mundo es el camino

Adó hay ducientos váos,

Ou por onde bons e maos,

Todos somos del merino.

Mas os maos são de teor,

Que desque mudão a côr,

Chamão logo a ElRei compadre;

E emfim dejadlos, mi madre,

Que sempre tẽe hum sabor

De quem torto nasce, tarde s'endireita.

Deixae a hum que se abone:

Diz logo de muito sengo,

Villas y castillos tengo,

Todos á mi mandar sone.

Então eu, qu'estou de môlho,

Com a lagrima no ôlho,

Polo virar do envés,

Digo-lhe: tu ex illis es,

E por isso não te ólho;

Pois honra e proveito não cabem n'hum saco.

Vereis huns, que no seu seio

Cuidão que trazem París,

E querem com dous ceitís,

Fender anca pelo meio.

Vereis mancebindo de arte,

Com espada em talabarte:

Não ha mais Italiano.

A este direis: Meu mano,

Vós sois galante que farte;

Mas pan y vino anda el camino, que no mozo garrido. {47}

Outros em cada theatro,

Por officio lhe ouvirês

Que se matarán con tres,

Y lo mismo haran con cuatro.

Prezão-se de dar respostas,

Com palavras bem compostas;

Mas se lhe meteis a mão,

Na paz mostrão coração,

Na guerra mostrão as costas;

Porque aqui torce a porca o rabo.

Outros vejo por ahi,

A que se acha mal o fundo,

Que andão emendando o mundo,

E não se emendão a si.

Estes respondem a quem

Delles não entende bem

El dolor que está secreto;

Mas porém quem for discreto,

Responder-lhe-ha muito bem:

Assi entrou o mundo, assi ha de sahir.

Achareis rafeiro velho,

Que se quer vender por galgo:

Diz que o dinheiro he fidalgo,

Que o sangue todo he vermelho.

Se elle mais alto o dissera,

Este pelote puzera:

Que o seu eco lhe responda;

Que su padre era de Ronda,

Y su madre de Antequera,

E quer cobrir o ceo co'huma joeira.

Fraldas largas, grave aspeito, {48}

Para Senador Romano.

Oh que grandissimo engano!

Que Momo lhe abrisse o peito!

Consciencia, que sobeja,

Siso, com que o mundo reja,

Mansidão outro que si;

Mas que lobo está em ti,

Metido em pelle de oveja!

E sabem-no poucos.

Guardae-vos de huns meus Senhores,

Que ainda comprão e vendem;

Huns, qu'he certo, que descendem

Da geração de pastores:

Mostrão-se-vos bons amigos;

Mas se vos vem em perigos,

Escarrão-vos nas paredes;

Que de fóra dormiredes,

Irmão, que he tempo de figos;

Porque de rabo de porco nunca bom virote.

Que direis d'huns, que as entranhas

Lh'estão ardendo em cobiça,

E se tẽe mando, a justiça

Fazem de teas de aranhas?

Com suas hypocrisias,

Que são de vossas espias:

Para os pequenos huns Neros,

Para os grandes tudo feros.

Pois tu, parvo, não sabías,

Que lá vão leis, onde querem cruzados?

Mas tornando a huns enfadonhos,

Cujas cousas são notorias; {49}

Huns, que contão mil histórias

Mais desmanchadas que sonhos;

Huns mais parvos que zamboas,

Qu'estudão palavras boas,

A que ignorancia os atiça:

Estes paguem por justiça,

Que tẽe morto mil pessoas,

Por vida de quanto quero.

Adonde tienen las mentes

Huns secretos trovadores,

Que fazem cartas d'amores,

De que ficão mui contentes?

Não querem sahir á praça;

Trazem trova por negaça;

E se lha gabais, qu'he boa,

Diz qu'he de certa pessoa.

Ora que quereis que faça,

Senão ir-me por esse mundo?

Ó tu, como me atarracas,

Escudeiro de Solia,

Com bocaes de fidalguia,

Trazido quasi com vacas;

Importuno a importunar,

Morto por desenterrar

Parentes, que cheirão ja!

Voto a tal, que me fara

Hum destes nunca fallar

Mais com viva alma.

Huns, que fallão muito, vi,

De que quizera fugir;

Huns que, emfim, sem se sentir, {50}

Andão fallando entre si;

Porfiosos sem razão;

E desque tomão a mão,

Fallão sem necessidade;

E se algum'hora he verdade,

Deve ser na confissão;

Porque quem não mente... Ja m'entendeis.

Oh vós, quem quer que me lerdes,

Qu'haveis de ser avisado,

Que dizeis ao namorado

Que caça vento com redes?

Jura por vida da Dama;

Falla comsigo na cama;

Passêa de noite e escarra;

Por falsete na guitarra

Põe sempre: Viva que ama,

Porque calça a seu proposito.

Mas deixemos, se quizerdes,

Por hum pouco as travessuras,

Porqu'entre quatro maduras

Leveis tambem cinco verdes.

Deitemos-nos mais ao mar;

E se algum se arrecear,

Passe tres ou quatro trovas.

E vós tomais côres novas?

Mas não he para espantar;

Que quem porcos ha menos,

Em cada mouta lhe roncão.

Ó vós, que sois Secretarios

Das consciencias Reais,

E que entre os homens estais {51}

Por Senhores ordinarios;

Porque não pondes hum freio

Ao roubar, que vai sem meio,

Debaixo de bom governo?

Pois hum pedaço de inferno

Por pouco dinheiro alheio

Se vende a Mouro e a Judeo.

Porque a mente, affeiçoada

Sempre á Real dignidade,

Vos faz julgar por bondade

A malicia desculpada.

Move a presença Real

Huma affeição natural,

Que logo inclina ao Juiz

A seu favor: e não diz

Hum rifão muito geral,

Que o Abbade donde canta, dahi janta?

E vós bailais a esse som:

Por isso, gentís pastores,

Vos chama a vós mercadores

Hum que só foi pastor bom.

—oOo—

 

A JOÃO LOPES LEITÃO,

SÔBRE HUMA PEÇA DE CACHA QUE MANDOU A HUMA DAMA, QUE SE LHE FAZIA

DONZELLA.

Mote.

Se vossa Dama vos dá

Tudo quanto vós quizestes,

Dizei-me: p'ra que lhe déstes

O que vos ella fez ja? {52}

Volta.

Sendo os restos envidados,

E vós de cachas mil contos

Sabeis com quão poucos pontos,

Que lhos achastes quebrados;

Se o que tẽe, isso vos dá,

Vós mui bem lho merecestes,

Porque se a cacha lhe déstes

Tinha-vo-la feita ja.

—oOo—

 

MOTE.

Menina formosa e crua,

Bem sei eu

Quem deixará de ser seu,

Se vós quizereis ser sua.

Voltas.

Menina mais que na idade,

Se para me querer bem

Vos não vejo ter vontade,

He porque outrem vo-la tem;

Tẽe-vo-la, e faz-vo-la crua.

Porém eu

Ja tomára não ser meu,

Se vós não foreis tão sua.

Nos olhos, e na feição

Vos vi, quando vos olhava,

Tanta graça, que vos dava

De graça este coração:

Não o quizestes de crua, {53}

Por ser meu:

Se outrem vos dera o seu,

Póde ser foreis mais sua.

Menina, tende maneira,

Que ainda não venha a ser,

Pois não quereis quem vos quer,

Que queirais quem vos não queira.

Olhae não me sejais crua,

Que pois eu

Quero ser vosso, e não meu,

Sêde vós minha, e não sua.

—oOo—

 

A HUMA DAMA DOENTE

Mote.

Da doença, em que ora ardeis,

Eu fôra vossa mézinha

Só com vós serdes a minha.

Voltas.

He muito para notar

Cura tão bem acertada,

Que podereis ser curada

Somente com me curar.

Se quereis, Dama, trocar,

Ambos temos a mézinha,

Eu a vossa, e vós a minha.

Olhae, que não quer Amor,

(Porque fiquemos iguais)

Pois meu ardor não curais,

Que se cure vosso ardor. {54}

Eu cá sinto vossa dor;

E se vós sentis a minha,

Dae e tomae a mézinha.

—oOo—

 

OUTRO

Deo, Senhora, por sentença

Amor, que fosseis doente,

Para fazerdes á gente

Doce e formosa a doença.

Voltas.

Não sabendo Amor curar,

Foi a doença fazer

Formosa para se ver,

Doce para se passar.

Então vendo a differença

Que ha de vós a toda a gente,

Mandou, que fôsseis doente,

Para glória da doença.

E digo-vos de verdade,

Que a saude anda invejosa,

Por ver estar tão formosa

Em vós essa enfermidade.

Não façais logo detença,

Senhora, em estar doente,

Porque adoecerá a gente,

Com desejos da doença.

Qu'eu por ter, formosa Dama,

A doença, qu'em vós vejo,

Vos confesso, que desejo {55}

De cahir comvosco em cama.

Se consentis, que me vença

Deste mal, não houve gente

Da saude tão contente,

Como eu serei da doença.

—oOo—

 

AO MESMO

Olhae que dura sentença

Foi amor dar contra mi!

Que porqu'em vós me perdi,

Em vós me busque a doença.

Claro está,

Que em vós só me achará;

Qu'em mi, se me vem buscar,

Não poderá mais achar,

Que a fórma do que foi ja.

Que s'em vós Amor se pôs,

Senhora, he forçado assi,

Que o mal, que me busca a mi,

Que vos faça mal a vós.

Sem mentir,

Amor me quiz destruir

Por modo nunca cuidado,

Pois ha de ser ja forçado

Pezar-vos de vos servir.

Mas sois tão desconhecida,

E são meus males de sorte,

Que vos ameaça a morte,

Porque me negais a vida.

Se por boa {56}

Tal justiça se pregoa;

Quando desta sorte for,

Havei vós perdão de Amor,

Que a parte ja vos perdoa.

Mas o que mais temo, emfim,

He que nesta differença,

Que se não torne a doença,

Se me não tornais a mim.

De verdade,

Que ja vossa humanidade

De que se queixe não tem;

Pois para as almas tambem

Fez Amor enfermidade.

—oOo—

 

A HUMA DAMA VESTIDA DE DÓ.

Mote.

De atormentado e perdido,

Ja vos não peço, senão

Que tenhais no coração

O que tendes no vestido.

Volta.

Se de dó vestida andais

Por quem ja vida não tem

Porque não o haveis de quem

Vós tantas vezes matais?

Que brado sem ser ouvido,

E nunca vejo senão

Cruezas no coração,

E grande dó no vestido. {57}

—oOo—

 

A DONA GUIOMAR DE BLASFÉ, QUEIMANDO-SE COM HUMA VÉLA NO ROSTO.

Mote.

Amor, que todos offende,

Teve, Senhora, por gôsto,

Que sentisse o vosso rosto

O que nas almas accende.

Volta.

Aquelle rosto que traz

O mundo todo abrazado,

Se foi da flamma tocado,

Foi porque sinta o que faz.

Bem sei que Amor se vos rende;

Porém o seu presupposto

Foi sentir o vosso rosto

O que nas almas accende.

—oOo—

 

A HUMA MULHER, AÇOUTADA POR HUM HOMEM, QUE CHAMAVÃO QUARESMA.

Mote.

Não estejais aggravada,

Senão se for de vós mesma;

Porqu'a mulher, que he errada,

Com razão pela Quaresma

Deve ser disciplinada.

Voltas.

Quererdes profano amor

Em Quaresma, he consciencia:

Açoutes e penitencia {58}

Vos está muito melhor.

Não fiqueis disto affrontada,

Pois a culpa he vossa mesma;

Que mulher, que he tão malvada,

He bem que pela Quaresma

Seja bem disciplinada.

Se a penitencia vos val,

Mui bem açoutada estais;

Pois por Quaresma pagais

Vossos vicios do carnal.

Não torneis a ser errada,

Nem condemneis a vós mesma,

Pois estais ja emendada;

E não sereis por Quaresma

Outra vez disciplinada.

—oOo—

 

A HUM FIDALGO, QUE LHE TARDAVA COM HUMA CAMISA, QUE LHE PROMETTEO.

Quem no mundo quizer ser

Havido por singular,

Para mais s'engrandecer,

Ha de trazer sempre o dar

Nas ancas do prometter.

E ja que vossa mercê,

Largueza tẽe por divisa,

Como o mundo todo vê,

Ha mister que tanto dê,

Que venha a dar a camisa. {59}

—oOo—

 

A HUMA DAMA, QUE LHE CHAMOU DIABO, POR NOME FOÃ DOS ANJOS

Mote.

Senhora, pois me chamais

Tão sem razão tão mão nome,

Inda o diabo vos tome.

Voltas.

Quem quer que vio, ou que leo,

Terá por novo e moderno,

Ter quem vive no inferno,

O pensamento no ceo.

Mas se a vós vos pareceo,

Que m'estava bem tal nome,

Esse diabo vos tome.

Perdido mais que ninguem

Confesso, Senhora, ser;

Mas o diabo não quer

Aos Anjos tamanho bem.

Pois logo não me convem,

Ou se me convem tal nome,

Será para que vos tome.

Se vos benzeis com cautella,

Como de Anjo, e não de luz,

Mal póde fugir da Cruz,

Quem vós tendes pôsto nella.

Mas ja que foi minha estrella

Ser diabo, e ter tal nome,

Guardae-vos, que vos não tome.

Ja que chegais tanto ao cabo,

Com as mãos, postas aos ceos

Vou sempre pedindo a Deos, {60}

Que vos leve este diabo.

Eu, Senhora, não me gabo;

Mas pois que me dais tal nome,

Tomo-o, para que vos tome.

—oOo—

 

A HUM AMIGO, QUE NÃO PODIA ENCONTRAR.

Mote.

Qual terá culpa de nós

Neste mal, que todo he meu?

Quando vindes, não vou eu,

Quando vou, não vindes vós.

Volta.

Reinando Amor em dous peitos,

Tece tantas falsidades,

Que de conformes vontades

Faz desconformes effeitos.

Igualmente vive em nós;

Mas por desconcêrto seu

Vos leva, se venho eu,

Me leva, se vindes vós.

—oOo—

 

MOTE SEU.

Descalça vai pela neve:

Assi faz quem Amor serve.

Voltas.

Os privilegios, que os Reis

Não pódem dar, póde amor, {61}

Que faz qualquer amador

Livre das humanas leis.

Mortes e guerras crueis,

Ferro, frio, fogo e neve,

Tudo soffre quem o serve.

Moça formosa despreza

Todo o frio, e toda a dor.

Olhae quanto póde Amor

Mais que a propria natureza.

Medo, nem delicadeza

Lh'impede que passe a neve.

Assi faz quem Amor serve.

Por mais trabalhos que leve,

A tudo se off'receria;

Passa pela neve fria,

Mais alva que a propria neve;

Com todo frio se atreve.

Vêde em que fogo ferve

O triste, que a Amor serve.

—oOo—

OUTRO ALHEIO

A dor que a minha alma sente,

Não na sabe toda a gente.

Voltas.

Qu'estranho caso de Amor!

Que desejado tormento!

Que venho a ser avarento

Das dores de minha dor!

Por me não tratar peor, {62}

Se se sabe, ou se se sente,

Não na digo a toda a gente.

Minha dor e causa della

De ninguem ouso fiar;

Que sería aventurar

A perder-me, ou a perdella.

E pois só com padecella,

A minha alma está contente,

Não quero que o saiba a gente.

Ande no peito escondida,

Dentro n'alma sepultada;

De mi só seja chorada,

De ninguem seja sentida.

Ou me mate, ou me dê vida,

Ou viva triste ou contente,

Não ma saiba toda a gente.

—oOo—

 

OUTRO SEU

D'alma, e de quanto tiver,

Quero que me despojeis,

Com tanto, que me deixeis

Os olhos para vos ver.

Volta.

Cousa este corpo não tem,

Que ja não tenhais rendida:

Despois de tirar-lhe a vida,

Tirae-lhe a morte tambem.

Se mais tenho que perder,

Mais quero que me leveis, {63}

Com tanto que me deixeis

Os olhos para vos ver.

—oOo—

 

MOTE ALHEIO.

Amores de huma casada,

Que eu vi pelo meu mal.

Voltas.

N'huma casada fui pôr

Os olhos, de si senhores:

Cuidei que fossem amores,

Elles fizerão-se amor.

Faz-se o desejo maior

Donde o remedio não val,

Em perigo de meu mal.

Não me paraceo que Amor

Pudesse tanto comigo,

Que donde entra por amigo,

Se levante por senhor.

Leva-me de dor em dor,

E de final em final,

Cada vez para mor mal.

—oOo—

 

OUTRO SEU

Enforquei minha esperança;

Mas Amor foi tão madraço,

Que lhe cortou o baraço.

Volta.

Foi a esperança julgada

Por sentença da Ventura, {64}

Que pois me leve á pendura,

Que fosse dependurada:

Vem Cupido com a espada,

Corta-lhe cerce o baraço.

Cupido, foste madraço.

—oOo—

 

OUTRO SEU

Puz o coração nos olhos,

E os olhos puz no chão,

Por vingar o coração.

Volta.

O coração invejoso

Como dos olhos andava,

Sempre remoques me dava

Que não era o meu mimoso:

Venho eu de piedoso

Do Senhor meu coração,

E boto os olhos no chão.

—oOo—

 

OUTRO SEU

Puz meus olhos n'huma funda,

E fiz hum tiro com ella

Ás grades d'huma janella.

Volta.

Huma Dama, de malvada,

Tomou seus olhos na mão;

E tirou-me huma pedrada {65}

Com elles ao coração.

Armei minha funda então,

E puz os meus olhos nella,

Trape, quebrei-lhe a janella.

—oOo—

 

ALHEIO.

De pequena tomei amor,

Porque o não entendi;

Agora que o conheci,

Mata-me com desfavor.

Voltas.

Vi-o moço e pequenino,

E a mesma idade ensina

Que s'incline huma menina

Ás amostras d'hum menino:

Ouvi-lhe chamar Amor,

Pelo nome me venci;

Nunca tal engano vi,

Nem tamanho desamor.

Cresceo-me de dia em dia

Com a idade a affeição,

Porque amor de criação,

N'alma, e na vida se cria.

Criou-se em mi este amor,

E senhoreou-se de mi:

Agora que o conheci,

Mata-me com desfavor.

As flores me torna abrolhos,

A morte me determina

Quem eu trouxe de menina {66}

Nas meninas de meus olhos.

Desta mágoa e desta dor

Tenho sabido que emfim

Por amor me perco a mim

Por quem de mi perde amor.

Parece ser caso estranho

O que Amor em mi ordena,

Qu'em idade tão pequena

Haja tormento tamanho.

Sejão milagres d'Amor,

Hei-os de soffrer assi,

Até que haja dó de mi

Quem entender esta dor.

—oOo—

 

CANTIGA VELHA.

Apartárão-se os meus olhos

De mi tão longe.

Falsos amores,

Falsos, maos, enganadores.

Voltas.

Tratárão-me com cautella,

Por m'enganar mais asinha;

Dei-lhe posse d'alma minha,

Forão-me fugir com ella.

Não ha vê-los, nem ha vella,

De mi tão longe.

Falsos amores,

Falsos, maos, enganadores!

Entreguei-lhe a liberdade,

E, emfim, da vida o melhor; {67}

Forão-se; e do desamor

Fizerão necessidade.

Quem teve a sua vontade

De si tão longe?

Falsos amores,

E oxalá enganadores!

—oOo—

 

OUTRA.

Falso Cavalheiro, ingrato,

Enganais-me,

Vós dizeis, que eu vos mato,

E vós matais-me.

Voltas.

Costumadas artes são

Para enganar innocencias,

Piedosas apparencias

Sôbre isento coração.

Eu vos amo, e vós ingrato

Magoais-me,

Dizendo, que eu vos mato,

E vós matais-me.

Vêde agora qual de nós

Anda mais perto do fim,

Que a justiça faz-se em mim,

E o pregão diz que sois vós.

Quando mais verdade trato

Levantais-me

Que vos desamo e vos mato,

E vós matais-me. {68}

—oOo—

 

PROPRIO.

Se de meu mal me contento,

He porque para vós vejo

Em todo o mundo desejo,

E em ninguem merecimento.

Volta.

Para quem vos soube olhar

Tão impossivel foi ser

O poder-vos merecer,

Como o não vos desejar.

Pois logo a meu pensamento

Nenhum remedio lhe vejo,

Senão se der o desejo

Azas ao merecimento.

—oOo—

 

ALHEIO.

Vós, Senhora, tudo tendes,

Senão que tendes os olhos verdes.

Voltas.

Dotou em vós natureza

O summo da perfeição;

Que o qu'em vós he senão,

He em outras gentileza:

O verde não se despreza,

Que, agora que vós os tendes,

São bellos os olhos verdes.

Ouro e azul he a melhor

Côr, por que a gente se perde;

Mas a graça desse verde {69}

Tira a graça a toda côr.

Fica agora sendo a flor

A côr, que nos olhos tendes,

Porque são vossos e verdes.

—oOo—

ALHEIO.

Para que me dan tormento,

Aprovechando tan poco?

Perdido, mas no tan loco,

Que descubra lo que siento.

Voltas.

Tiempo perdido es aquel

Que se passa en darme afan,

Pues cuanto más me lo dan,

Tanto menos siento dél.

Que descubra lo que siento?

No lo haré, que no es tan poco;

Que no puede ser tan loco

Quien tiene tal pensamiento.

Sepan que me manda Amor,

Que de tan dulce querella,

A nadie dé parte della,

Porque la sienta mayor.

Es tan dulce mi tormento,

Que aun se me antoja poco;

Y si es mucho, quedo loco

De gusto de lo que siento. {70}

—oOo—

 

ALHEIO.

De vuestros ojos centellas,

Que encienden pechos de hielo,

Suben por el aire al cielo,

Y en llegando son estrellas.

Voltas.

Falsos loores os dan,

Que essas centellas tan raras

No son nel cielo mas claras

Que en los ojos donde estan.

Porque cuando miro en ellas

Lo como alumbran al suelo,

No sé que seran nel cielo;

Mas sé que acá son estrellas.

Ni se puede presumir

Que al cielo suban, Señora;

Que la lumbre que en vós mora,

No tiene más que subir;

Mas pienso que dan querellas

Á Dios nel octavo cielo,

Porque son acá en el suelo

Dos tan hermosas estrellas.

—oOo—

 

ALHEIO.

De dentro tengo mi mal,

Que de fuera no hay señal.

Volta.

Mi nueva y dulce querella

Es invisible á la gente; {71}

El alma sola la siente,

Que el cuerpo no es dino della.

Como la viva centella

Se encubre en el pedernal,

De dentro tengo mi mal.

—oOo—

 

ALHEIO.

Amor loco, amor loco,

Yo por vós, y vós por otro.

Voltas.

Dióme Amor tormentos dós,

Para que pene doblado;

Uno es verme desamado,

Otro es mancilla de vós.

Ved que ordena Amor en nós!

Porque vós haceisme loco,

Que seais loca por otro.

Tratais Amor de manera,

Que porque asi me tratais,

Quiere que, pues no me amais,

Que ameis otro que no os quiera.

Mas con todo, si no os viera

De todo loca por otro,

Con mas razon fuera loco.

Y tan contrario viviendo,

Alfin, alfin, conformamos;

Pues ambos a dós buscamos

Lo que mas nos vá huyendo.

Voy tras vós siempre siguiendo, {72}

Y vós huyendo por otro:

Andais loca, y me haceis loco.

—oOo—

 

ALHEIO.

Vêde bem se nos meus dias

Os desgostos vi sobejos,

Pois tenho medo a desejos,

E quero mal a alegrias.

Volta.

Se desejos fui ja ter,

Servírão de atormentar-me;

Se algum bem póde alegrar-me,

Quiz-me antes entristecer.

Passei annos, passei dias

Em desgostos tão sobejos,

Que só por não ter desejos,

Perderei mil alegrias.

—oOo—

 

PROPIO.

Pois he mais vosso que meu,

Senhora, meu coração,

Eu vosso captivo são,

Meus olhos, lembre-vos eu.

Volta.

Lembre-vos minha tristeza,

Que jamais nunca me deixa;

Lembre-vos com quanta queixa {73}

Se queixa minha firmeza:

Lembre-vos que não he meu

Este triste coração;

E pois ha tanta razão,

Meus olhos, lembre-vos eu.

—oOo—

 

OUTRO.

Senhora, pois minha vida

Tendes em vosso poder;

Por serdes della servida,

Não queirais que destruida

Possa ser.

Volta.

Isto não por me pezar

De morrer, se vós quizerdes;

Que melhor me he acabar

Mil vezes, que supportar

Os males que me fizerdes;

Mas só por serdes servida

De mi, em quanto viver,

Vos peço que minha vida

Não queirais que destruida

Possa ser.

—oOo—

 

OUTRO.

Pois damno me faz olhar-vos,

Não quero, por não perder-vos,

Que ninguem me veja ver-vos. {74}

Voltas.

De ver-vos a não vos ver

Ha dous extremos mortaes;

E são elles em si taes,

Que hum por hum me faz morrer;

Mas antes quero escolher,

Que possa viver sem ver-vos,

Minh'alma, por não perder-vos.

Deste tamanho perigo

Que remedio posso ter,

Se vivo só com vos ver,

Se vos não vejo, perigo?

Mas quero acabar comigo,

Que ninguem me veja ver-vos,

Senhora, por não perder-vos.

—oOo—

 

A TRES DAMAS, QUE LHE DIZIÃO QUE O AMAVÃO.

Mote.

Não sei se m'engana Helena,

Se Maria, se Joanna;

Não sei qual dellas m'engana.

Voltas.

Huma diz que me quer bem,

Outra jura que me quer;

Mas em jura de mulher

Quem crerá, se ellas não crem?

Não posso não crer a Helena,

A Maria, nem Joanna;

Mas não sei qual mais m'engana.

Huma faz-me juramentos {75}

Que só meu amor estima,

A outra diz que se fina,

Joanna, que bebe os ventos.

Se cuido que mente Helena,

Tambem mentirá Joanna;

Mas quem mente não m'engana.

—oOo—

 

A HUMA DAMA MAL EMPREGADA.

Mote.

Menina, não sei dizer,

Vendo-vos tão acabada,

Quão triste estou por vos ver

Formosa e mal empregada.

Voltas.

Quem tão mal vos empregou,

Pouco de mi se dohia,

Pois não vio o quanto me hia

Em tirar-me o que tirou.

Obriga o primor que tem

Lindeza tão extremada

Que digão quantos a vem,

Formosa e mal empregada!

Continuar: parte 2 de 2