Obras Completas de Luis de Camões, Tomo III

Luís de Camões · Capítulo 1 de 93 · parte 2/2

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Obras Completas de Luis de Camões, Tomo III

Rimas.

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 2 partes.

Tomastes da formosura

Quanto della desejastes,

E com ella me guardastes

Para tão triste ventura.

Mataveis sendo solteira,

Matais agora em casada;

Matais de toda a maneira,

Formosa e mal empregada. {76}

—oOo—

 

A HUMA Foãa Gonçalves.

Mote.

Com vossos olhos, Gonçalves,

Senhora, captivo tendes

Este meu coração Mendes.

Volta.

Eu sou boa testimunha,

Que Amor tem por cousa má,

Que olhos, que são homens ja,

Se nomeiem sem alcunha;

Pois o coração apunha,

E diz, olhos, pois vós tendes,

Chamae-me coração Mendes.

—oOo—

 

OUTRO

De que me serve fugir

De morte, dor e perigo,

Se me eu levo comigo?

Voltas.

Tenho-me persuadido,

Por razão conveniente,

Que não posso ser contente,

Pois que pude ser nascido.

Anda sempre tão unido

O meu tormento comigo,

Qu'eu mesmo sou meu perigo.

E se de mi me livrasse,

Nenhum gôsto me sería:

Quem, senão eu, não teria {77}

Mal, que esse bem me tirasse?

Fôrça he logo que assi passe,

Ou com desgôsto comigo,

Ou sem gôsto e sem perigo.

—oOo—

 

A HUMA DAMA, QUE JURAVA PELOS SEUS OLHOS.

Quando me quer enganar

A minha bella perjura,

Para mais me confirmar

O que quer certificar,

Polos seus olhos me jura.

Como meu contentamento

Todo se rege por elles,

Imagina o pensamento,

Que se faz aggravo a elles

Não crer tão grão juramento.

Porém como em casos tais

Ando ja visto e corrente,

Sem outros certos sinais,

Quanto me ella jura mais,

Tanto mais cuido que mente.

Então vendo-lhe offender

Huns taes olhos como aquelles,

Deixo-me antes tudo crer,

Só pola não constranger

A jurar falso por elles. {78}

—oOo—

 

MOTE ALHEIO.

Ha hum bem, que chega e foge;

E chama-se este bem tal,

Ter bem para sentir mal.

Volta.

Quem viveo sempre n'hum ser,

Inda que seja em pobreza,

Não vio o bem da riqueza,

Nem o mal d'empobrecer:

Não ganhou para perder;

Mas ganhou com vida igual

Não ter bem, nem sentir mal.

—oOo—

 

A HUMA DAMA, QUE LHE VIROU O ROSTO.

Mote.

Olhos, não vos mereci

Que tenhais tal condição,

Tão liberaes para o chão,

Tão irosos para mi.

Volta.

Baixos e honestos andais,

Por vos negardes a quem

Não quer mais que aquelle bem,

Que vós no chão espalhais?

Se pouco vos mereci,

Não m'estimeis mais que o chão,

A quem vós o galardão

Dais, e mo negais a mi. {79}

—oOo—

PROPRIO.

Venceo-me Amor, não o nego;

Tẽe mais fôrça qu'eu assaz;

Que como he cego e rapaz,

Dá-me porrada de cego.

Volta.

Só porque he rapaz ruim,

Dei-lhe hum boféte zombando.

Diz-me: Ó mao, estais me dando,

Porque sois maior que mim?

Pois se eu vos descarrégo,

E em dizendo isto, chaz;

Torna-me outra; tá rapaz,

Que dás porrada de cego.

—oOo—

 

AO DESCONCERTO DO MUNDO.

Os bons vi sempre passar

No mundo graves tormentos;

E para mais m'espantar,

Os maos vi sempre nadar

Em mar de contentamentos.

Cuidando alcançar assi

O bem tão mal ordenado,

Fui mao; mas fui castigado.

Assi, que só para mi

Anda o mundo concertado. {80}

—oOo—

A HUMA DAMA, PERGUNTANDO-LHE QUEM O MATAVA.

Mote.

Perguntais-me, quem me mata?

Não quero responder nada,

Por vos não fazer culpada.

Volta.

E se a penna não me atiça,

A dizer pena tão forte,

Quero-me entregar á morte,

Antes que a vós á justiça.

Porém se tendes cobiça

De vos verdes tão culpada,

Direi que não sinto nada.

—oOo—

 

MOTE.

Esconjuro-te, Domingas,

Pois me dás tanto cuidado,

Que me digas se te vingas,

Viverei menos penado.

Voltas.

Juravas-me, que outras cabras

Folgavas de apascentar;

Eu por não me magoar,

Fingia qu'erão palabras.

Agora d'arte te vingas

D'algum meu doudo peccado,

Qu'inda que queiras, Domingas,

Não posso ser enganado. {81}

Qualquer cousa busca o seu;

A fonte vai para o Tejo,

E tu para o teu desejo,

Por te vingares do meu.

De mi t'esqueces, Domingas,

Como eu faço do meu gado:

Praza a Deos, que se te vingas,

Que morra desesperado.

Na phantasia te pinto,

Fallo-te, responde o monte,

Busco o rio, busco a fonte,

Endoudeço, e não o sinto:

Domingas no valle brado,

Responde o eco Domingas;

E tu inda te não vingas

De me ver doudo tornado!

—oOo—

 

ALHEIO.

Se a alma ver-se não póde

Onde pensamentos ferem,

Que farei para me crerem?

Voltas.

Se n'alma huma só ferida

Faz na vida mil sinais,

Tanto se descobre mais,

Quanto he mais escondida.

S'esta dor tão conhecida

Me não vem, porque não querem,

Que farei para ma crerem? {82}

Se se pudesse bem ver

Quanto callo, e quanto sento,

Despois de tanto tormento

Cuidaria alegre ser.

Mas se não me querem crer

Olhos, que tão mal me ferem,

Que farei para me crerem?

—oOo—

 

ALHEIO.

Vosso bem querer, Senhora,

Vosso mal melhor me fôra.

Voltas.

Ja agora certo conheço

Ser melhor todo tormento,

Onde o arrependimento

Se compra por justo preço.

Enganou-me hum bom comêço;

Mas o fim me diz agora

Que o mal melhor me fôra.

Quando hum bem he tão damnoso,

Que sendo bem, dá cuidado,

O damno fica obrigado

A ser menos perigoso.

Mas se a mi por desditoso,

Co'o bem me foi mal, Senhora,

Co'o vosso mal bem me fôra. {83}

—oOo—

ALHEIO.

Se me desta terra for,

Eu vos levarei, amor.

Voltas.

Se me for, e vos deixar,

(Ponho por caso, que possa)

Est'alma minha, qu'he vossa,

Comvosco m'ha de ficar.

Assi que só por levar

A minha alma, se me for,

Vos levarei, meu amor.

Que mal póde maltratar-me,

Que comvosco seja mal?

Ou que bem póde ser tal,

Que sem vós possa alegrar-me?

O mal não póde enojar-me,

O bem me será maior,

Se vos levar, meu amor.

—oOo—

 

ALHEIO.

Pequenos contentamentos,

Hi buscar quem contenteis,

Que a mi não me conheceis.

Voltas.

Os gostos, que tantas dores

Fizerão ja valer menos,

Não os acceita pequenos,

Quem nunca teve maiores:

Bem parecem vãos favores, {84}

Pois tão tarde me quereis,

Qu'inda me não conheceis.

Offereceis-me alegria,

Tendo-me ja cego e mouco:

He baixeza acceitar pouco,

Quem tanto vos merecia.

Ide-vos por outra via,

Pois o bem que me deveis,

Nunca mo satisfareis.

—oOo—

 

ALHEIO.

Perdigão perdeo a penna,

Não ha mal que lhe não venha.

Voltas.

Perdigão, que o pensamento

Subio a hum alto lugar,

Perde a penna do voar,

Ganha a pena do tormento:

Não tẽe no ar, nem no vento,

Azas com que se sostenha:

Não ha mal que lhe não venha.

Quiz voar a huma alta torre,

Mas achou-se desasado;

E vendo-se despennado,

De puro penado morre.

Se a queixumes se soccorre,

Lança no fogo mais lenha:

Não ha mal que lhe não venha. {85}

—oOo—

 

A HUMAS SENHORAS, QUE HAVIÃO SER TERCEIRAS PARA COM HUMA DAMA.

Pois a tantas perdições,

Senhoras, quereis dar vida,

Ditosa seja a ferida,

Que tẽe taes Cirurgiões!

Pois ventura

Me subio a tanta altura,

Que me sejais valedoras,

Ditosa seja a tristura,

Que se cura

Por vossos rogos, Senhoras!

Ser minha pena mortal,

Ja qu'entendeis, que he assi,

Não quero fallar por mi,

Que por mi falla meu mal.

Sois formosas,

Haveis de ser piedosas,

Por ser tudo d'huma côr;

Que pois Amor vos fez rosas

Milagrosas,

Fazei milagres de Amor.

Pedi a quem vós sabeis,

Que saiba de meu trabalho,

Não pelo qu'eu nisso valho,

Mas pelo que vós valeis.

Que o valer

De vosso alto merecer,

Com lho pedir de giolhos,

Fara qu'em meu padecer {86}

Possa ver

O poder que tẽe seus olhos.

Vossa muita formosura

Com a sua tanto val,

Que me rio de meu mal,

Quando cuido em quem me cura.

A meus ais,

Peço-vos que lhe valhais,

Damas de Amor tão valídas,

Que nunca tal dor sintais,

Que queirais,

Onde não sejais queridas.

—oOo—

 

CANTIGA ALHEIA.

Na fonte está Leonor

Lavando a talha, e chorando,

Ás amigas perguntando:

Vistes lá o meu amor?

Voltas.

Pôsto o pensamento nelle,

Porque a tudo o Amor a obriga,

Cantava, mas a cantiga

Erão suspiros por elle.

Nisto estava Leonor

O seu desejo enganando,

Ás amigas perguntando:

Vistes lá o meu amor?

O rosto sôbre hũa mão,

Os olhos no chão pregados, {87}

Que de chorar ja cansados,

Algum descanso lhe dão;

Desta sorte Leonor

Suspende de quando em quando

Sua dor; e em si tornando,

Mais pezada sente a dor.

Não deita dos olhos ágoa,

Que não quer que a dor s'abrande

Amor, porque em mágoa grande

Sécca as lagrimas a mágoa.

Despois que de seu amor

Soube novas perguntando,

D'improviso a vi chorando.

Olhae que extremos de dor!

—oOo—

 

ESTAS TROVAS MANDOU O A UTOR DA CADEIA, EM QUE O TINHA EMBARGADO

POR HUMA DIVIDA MIGUEL ROIZ, FIOS SECOS D'ALCUNHA, AO CONDE DO

REDONDO D. FRANCISCO COUTINHO, VISO-REI, QUE SE EMBARCAVA PARA

FÓRA, PEDINDO-LHE O FIZESSE DESEMBARGAR.

Que diabo ha tão damnado,

Que não tema a cutilada

Dos fios seccos da espada

Do fero Miguel armado?

Pois se tanto hum golpe seu

Sôa na infernal cadeia;

Do que o demonio arreceia

Como não fugirei eu? {88}

Com razão lhe fugiria,

Se contr'elle, e contra tudo

Não tivesse hum forte escudo

Só em Vossa Senhoria.

Por tanto, Senhor, proveja,

Pois me tẽe ao remo atado,

Que antes que seja embarcado,

Eu desembargado seja.

—oOo—

 

ESTAS TROVAS MANDOU HEITOR DA SILVEIRA AO MESMO CONDE,

INVERNANDO EM GOA.

Vossa Senhoria creia

Que não apura o engenho

Fome, se he como a que tenho,

Mas afraca e corta a veia.

E quem o contrário sente,

Está farto em toda a hora,

Como estou faminto agora:

Mas Martha, se está contente,

Dá-lhe pouco de quem chora.

E pois Vossa Senhoria

Em geral a tudo acode,

Acuda a mi, que só póde

Dar-me no engenho valia.

Esperte esta Musa minha,

Que o tempo traz somnolenta;

Valha-lhe nesta tormenta

Com essa doce mézinha,

Que só dá vida e contenta. {89}

Acuda com provisão,

Não de papel, mas provída

D'ouro e prata; que esta vida

Não sustentão papéis, não.

De feitor a thesoureiro

Ser-me-hia trabalho grande;

Vossa Senhoria mande

Algum remedio, primeiro,

Com que a morte o ferro abrande.

Ajuda de Luis de Camões.

Nos livros doutos se trata

Que o grande Achilles insano

Deo a morte a Heitor Troiano;

Mas agora a fome mata

O nosso Heitor Lusitano.

Só ella o póde acabar,

Se essa vossa condição

Liberal e singular

Não mete entr'elles bastão,

Bastante para o fartar.

—oOo—

 

A HUMA SENHORA, QUE LHE CHAMOU DIABO.

Esparsa.

Não posso chegar ao cabo

De tamanho desarranjo,

Que sendo vós, Senhora, Anjo,

Vos queira tanto o Diabo. {90}

Dais manifesto sinal

De minha muita firmeza,

Que os diabos querem mal

Aos Anjos por natureza.

—oOo—

 

CANTIGA.

Vi chorar huns claros olhos,

Quando delles me partia.

Oh que mágoa! Oh que alegria!

Voltas.

Polo meu apartamento

Se arrazárão todos d'ágoa.

Quem cuidou qu'em tanta mágoa

Achasse contentamento?

Julgue todo entendimento

Qual mais sentir se devia,

Se esta dor, se esta alegria?

Quando mais perdido estive,

Então deo a est'alma minha

Na maior mágoa que tinha,

O maior gôsto que tive.

Assi, se minha alma vive,

Foi porque me defendia

Desta dor esta alegria?

O bem, que Amor me não deu

No tempo que desejei,

Quando delle me apartei,

Me confessou, qu'era meu.

Agora que farei eu, {91}

Se a fortuna me desvia

De lograr esta alegria?

Não sei se foi enganado,

Pois me tinha defendido

Das íras de mal querido,

No mal de ser apartado.

Agora peno dobrado,

Achando no fim do dia

O princípio da alegria.

—oOo—

 

VILLANCETE PASTORIL.

Deos te salve, Vasco amigo.

Não me fallas? Como assi?

Bofé, Gil, não 'stava aqui.

Voltas.

Pois onde te hão de fallar,

Se não 'stás onde appareces?

Se Magdanela conheces,

Nella me pódes achar.

E como te hão d'ir buscar

Aonde fogem de ti?

Pois nem eu estou em mi.

Porque te não acharei

Em ti, como em Magdanela?

Porque me fui perder nella

O dia que me ganhei.

Quem tão bem falla, não sei

Como anda fóra de si.

Ella falla dentro em mi. {92}

Como estás aqui presente,

Se lá tens a alma e a vida?

Porqu'he d'hum'alma perdida

Apparecer sempre á gente.

Se es morto, bem se consente

Que todos fujão de ti.

Eu tambem fujo de mi.

—oOo—

 

OUTRO PASTORIL.

Porque no miras, Giraldo,

Mi zampoña como suena?

Porque no me mira Elena.

Voltas.

Vuelve acá, no estês pasmado,

Mira que gentil sonar!

Como te podrá mirar

Quien no puede ser mirado?

Y que bueno enamorado!

No dirás, si es mala, o buena?

No, que me hizo mudo Elena.

Mira tan dulce armonía,

Déjate dessos enojos.

Tengo clavados los ojos

Con que mirar te podia.

Ansí Dios te dé alegría:

No vés cuan dulce que suena?

No, porque no veo Elena. {93}

—oOo—

 

OUTRO PASTORIL.

Crescem, Camilla, os abrolhos

De chorares por Cincero:

Não he muito, que lhe quero,

Belisa, mais que meus olhos.

Voltas.

Sempre os teus olhos estão,

Camilla, d'ágoas banhados.

De se verem desamados

Póde ser que chorarão.

Si, mas crescem os abrolhos,

E tu cegas por Cincero.

S'eu não vejo quem mais quero,

Para que quero mais olhos?

Se se foi ha mais d'hum mês,

Teus olhos não cansarão?

Não, que apos elle se vão

Estas lagrimas que vês.

Fazem logo estes abrolhos

O mato espinhoso e fero.

Pois eu não vejo a Cincero,

Isso só verão meus olhos.

Chorando queres morrer?

Mais quero viver chorando.

Tu não vês que vás cegando?

Se cego, como hei de ver?

Põe na vista outros antolhos.

Não posso, nem menos quero.

Outra para outro Cincero,

Antes não quero ter olhos. {94}

—oOo—

A HUMA MULHER, QUE SE CHAMAVA GRACIA DE MORAES.

Mote.

Olhos, em qu'estão mil flores,

E com tanta graça olhais,

Que parece que os Amores

Morão onde vós morais.

Volta.

Vem-se rosas e boninas,

Olhos, nesse vosso ver;

Vem-se mil almas arder

No fogo dessas meninas.

E di-lo-hão minhas dores,

Meus suspiros e meus ais;

E dirão mais, que os amores

Morão onde vós morais.

—oOo—

 

MOTE.

Quem se confia em huns olhos,

Nas meninas delles vê

Que meninas não tẽe fé.

Voltas.

Quem põe suas confianças

Em meninas sem assento,

Offereça o soffrimento

A duzentas mil mudanças.

Mostrão no ar esperanças;

Mas em seus olhos se vê

Como não tẽe n'alma fé.

Enganão ao parecer, {95}

Porque no caso d'amar,

São mulheres no matar,

E meninas no querer.

Quem em seus olhos se crer,

Cem mil graças nelles vê;

Vê-las sim, mas não ter fé.

Amostrão-vos n'hum momento

Favores assi a mólhos;

Mas na mudança dos olhos

Se lhe muda o pensamento.

Em nada ja tẽe assento,

E o que mais nelles se vê

He formosura sem fé.

—oOo—

 

LOUVANDO E DESLOUVANDO UMA DAMA.

Cantiga Velha.

Sois formosa, e tudo tendes,

Senão que tendes os olhos verdes,

Voltas.

Ninguem vos póde tirar

Serdes tão bem assombrada;

Mas heis-me de perdoar,

Que os olhos não valem nada.

Fostes mal aconselhada

Em querer que fossem verdes:

Trabalhae de os esconderdes.

A vossa testa he jardim,

Onde Amor se desenfada;

He tão branca e bem talhada,

Que parece de marfim. {96}

Assi he; e quanto a mim,

Isso vos nasce de a terdes

Tão perto dos olhos verdes.

Os cabellos desatados

O mesmo sol escurecem;

Senão que por ser ondados,

Algum tanto desmerecem:

Mas á fé, que se parecem

A furto dos olhos verdes,

Não vos peze, não, de os terdes.

As pestanas tẽe mostrado

Ser raios, que abrazão vidas:

Se não forão tão compridas,

Tudo o mais era pintado:

Ellas me tinhão levado

A alma, sem o vós saberdes,

Se não forão os olhos verdes.

O mimo desse carão

Nem pôr-lhe os olhos consente:

O ser liso e transparente

Rouba todo o coração:

Inda assi achareis nação,

Que lhe não peze de os verdes;

Mas não seja co'os olhos verdes.

Esse riso, que he compôsto

De quantas graças nascêrão,

Senão que alguns me disserão,

Vos faz covinhas no rôsto.

Na vontade tenho posto

Dar-vos a alma, se quizerdes,

A trôco dos olhos verdes. {97}

Nunca se vio, nem se escreve

Boca co'huma graça igual,

Se não fôra de coral,

E os dentes de côr de neve.

Dou-me eu a Deos, que me leve!

Soffrerei quanto tiverdes,

Não me tenhais olhos verdes.

Essa garganta merece

Outras palavras não minhas,

Senão qu'he feita em rosquinhas

D'alfenim, ao que parece.

Eu sei bem quem se offerece

A tomar tudo o que tendes,

E tambem os olhos verdes.

Essas mãos são ferropeas:

Só o vê-las enfeitiça;

Senão que são alvas, cheias,

E tẽe a feição roliça;

Com que appellais por justiça,

Para com ellas prenderdes

Quem vê vossos olhos verdes.

A vossa galantaria

Matará a quem fallardes:

Tendes huns desdens e tardes,

Que eu logo vos roubaria.

Oh dou-me a Santa Maria!

Sou cujo de quanto tendes,

E tambem desses olhos verdes. {98}

—oOo—

AO MESMO.

Tudo tendes singular,

Com que os corações rendeis,

Senão que rindo, fazeis

Covinhas para enterrar:

E para resuscitar

Tẽe força a graça que tendes;

Senão que tendes os olhos verdes.

Tudo, Senhora, alcançais,

Quanto o ser formosa alcança,

Senão que dais esperança

Co'os olhos com que matais.

Se acaso os alevantais,

He para as almas renderdes;

Senão que tendes os olhos verdes.

—oOo—

 

A DOM ANTONIO, SENHOR DE CASCAES, QUE TENDO-LHE PROMETTIDO SEIS

GALLINHAS RECHEADAS POR HUMA COPLA QUE LHE FIZERA, LHE MANDOU POR

PRINCÍPIO DA PAGA MEIA GALLINHA RECHEADA.

Cinco gallinhas e meia

Deve o Senhor de Cascais;

E a meia vinha cheia

De appetite para as mais. {99}

—oOo—

 

MOTE.

Catharina bem promette;

Ora má! como ella mente!

Voltas.

Catharina he mais formosa

Para mi, que a luz do dia;

Mas mais formosa sería,

Se não fosse mentirosa.

Hoje a vejo piedosa,

Á manhãa tão differente,

Que sempre cuido que mente.

Prometteo-me hontem de vir,

Nunca mais appareceo;

Creio que não prometteo,

Senão só por me mentir.

Faz-me, emfim, chorar e rir;

Rio, quando me promette,

Mas chóro quando me mente.

Jurou-me aquella cadella

De vir, pela alma que tinha;

Enganou-me; tinha a minha;

Deo-lhe pouco de perdella.

A vida gasto apos ella,

Porque ma dá, se promette,

Mas tira-ma, quando mente.

Má, mentirosa, malvada,

Dizei, porque me mentis?

Prometteis, e então fugis?

Pois sem tornar, tudo he nada.

Não sois bem aconselhada; {100}

Que quem promette, se mente,

O que perde não o sente.

Tudo vos consentiria

Quanto quizesseis fazer,

Se este vosso prometter

Fosse por me ter hum dia.

Todo então me desfaria

Com gôsto; e vós de contente,

Zombarieis de quem mente.

Mas pois folgais de mentir,

Promettendo de me ver,

Eu vos deixo o prometter,

Deixae-me vós o servir:

Haveis então de sentir

Quanto a minha vida sente

O servir a quem lhe mente.

Catharina me mentio

Muitas vezes, sem ter lei,

E todas lhe perdoei

Por huma só que cumprio.

Se como me consentio

Fallar-lhe, o mais me consente,

Nunca mais direi que mente.

—oOo—

 

MOTE.

A alma, qu'está offrecida

A tudo, nada lhe he forte;

Assi passa o bem da vida,

Como passa o mal da morte. {101}

Volta.

De maneira me succede

O que temo, e o que desejo,

Que sempre o que temo, vejo,

Nunca o que a vontade pede.

Tenho tão offerecida

Alma e vida a toda a sorte,

Que isso me dera da morte,

Como ja me dá da vida.

—oOo—

 

MOTE.

Ferro, fogo, frio e calma,

Todo o mundo acabarão;

Mas nunca vos tirarão,

Alma minha, da minha alma.

Volta.

Não vos guardei, quando vinha,

Em tôrre, fôrça, ou engenho;

Que mais guardada vos tenho

Em vós, que sois alma minha.

Alli nem frio, nem calma,

Não podem ter jurdição;

Na vida sim, porém não

Em vós que tenho por alma.

—oOo—

 

MOTE.

Esperei, ja não espero

De mais vos servir, Senhora; {102}

Pois me fazeis cada hora

Tanto mal, que desespéro.

Volta.

Pois sei certo que folgais,

Quando mais mal me fazeis,

E que nunca descansais,

Senão quando me mostrais

Quão pouco bem me quereis;

Servir-vos mais não espero

Pois meu viver empeora

Com me fazerdes, Senhora,

Tanto mal, que desespéro.

—oOo—

 

MOTE.

Descalça vai para a fonte

Leonor pela verdura;

Vai formosa, e não segura.

Voltas.

Leva na cabeça o pote,

O testo nas mãos de prata,

Cinta de fina escarlata,

Sainho de chamalote:

Traz a vasquinha de cote,

Mais branca que a neve pura;

Vai formosa, e não segura.

Descobre a touca a garganta,

Cabellos de ouro entrançado,

Fita de côr d'encarnado,

Tão linda que o mundo espanta:

Chove nella graça tanta, {103}

Que dá graça á formosura;

Vai formosa, e não segura.

—oOo—

 

MOTE.

Quem disser que a barca pende,

Dir-lhe-hei, mana, que mente.

Voltas.

Se vos quereis embarcar,

E para isso estais no caes,

Entrae logo: que tardaes?

Olhae qu'está preamar:

E se outrem, por vos fretar,

Vos disser qu'esta que pende,

Dir-lhe-hei, mana, que mente.

Esta barca he de carreira;

Tẽe seus apparelhos novos:

Não ha como ella outra em Povos

Boa de leme, e veleira:

Mas, se por ser a primeira,

Vos disser alguem que pende,

Dir-lhe-hei, mana, que mente.

—oOo—

MOTE.

Com razão queixar-me posso

De vós, que mal vos queixais;

Pois, Senhora, vos sangrais,

Que seja n'hum corpo vosso. {104}

Voltas.

Eu para levar a palma,

Com que ser vosso mereça,

Quero que o corpo padeça

Por vós, que delle sois alma.

Vós do corpo vos queixais,

Eu queixar-me de vós posso,

Porque, tendo hum corpo vosso,

Na minha alma vos sangrais.

E sem fazer differença

No que de mi possuis,

Pelo pouco que sentis,

Dais á minh'alma doença.

Porque dous aventurais?

Oh não seja o damno nosso!

Sangre-se este corpo vosso,

Porque, minha alma, vivais.

E inda, se attentardes bem,

Seguis medicina errada,

Porque para ser sangrada

Hum'alma sangue não tem.

E pois em mi sarar posso

Males, que á minha alma dais,

Se inda outra vez vos sangrais,

Seja neste corpo vosso.

—oOo—

MOTE.

Ojos, herido me habeis,

Acabad ya de matarme; {105}

Mas muerto volved á mirarme,

Porque me resusciteis.

Voltas.

Pues me distes tal herida,

Con gana de darme muerte,

El morir me es dulce suerte,

Pues con morir me dais vida.

Ojos, qué os deteneis?

Acabad ya de matarme;

Mas muerto volved á mirarme,

Porque me resusciteis.

La llaga cierto ya es mia,

Aunque, ojos, vós no querrais;

Mas si la muerte me dais,

El morir me es alegría.

Y así digo que acabeis,

O ojos, ya de matarme;

Mas muerto volved á mirarme,

Porque me resusciteis.

—oOo—

 

A DONA FRANCISCA DE ARAGÃO, QUE LHE MANDOU GLOSAR ESTE VERSO:

Mas porém a que cuidados?

Tanto maiores tormentos

Forão sempre os que soffri,

Daquillo que cabe em mi,

Que não sei que pensamentos

São os para que nasci. {106}

Quando vejo este meu peito

A perigos arriscados

Inclinado, bem suspeito

Que a cuidados sou sujeito,

Mas porém a que cuidados?

Ao mesmo.

Que vindes em mi buscar,

Cuidados, que sou captivo?

Eu não tenho que vos dar:

Se vindes a me matar,

Ja ha muito que não vivo:

Se vindes, porque me dais

Tormentos desesperados,

Eu, que sempre soffri mais,

Não digo que não venhais;

Mas porém a que cuidados?

Ao mesmo.

Se as penas que Amor me deu,

Vem por tão suaves meios,

Não ha que temer receios;

Que val hum cuidado meu

Por mil descansos alheios.

Ter n'huns olhos tão formosos

Os sentidos enlevados,

Bem sei qu'em baixos estados

São cuidados perigosos;

Mas porém a que cuidados?...

Carta com a glosa acima.

Deixei-me enterrar no esquecimento de v. m. crendo me sería assi mais seguro: mas agora que he {107} servida de me tornar a resuscitar, por me mostrar seus poderes, lembro-lhe que huma vida trabalhosa he menos de agradecer, que huma morte descansada. Mas se esta vida, que agora de novo me dá, for para ma tornar a tomar, servindo-se della, não me fica mais que desejar, que poder acertar com este mote de v. m., ao qual dei tres entendimentos, segundo as palavras delle pudérão soffrer: se forem bons, he mote de v. m.: se maos, são as glosas minhas.

—oOo—

 

MOTE ALHEIO.

Campos bem-aventurados,

Tornae-vos agora tristes;

Que os dias, em que me vistes,

Alegres ja são passados.

Glosa.

Campos cheios de prazer,

Vós qu'estais reverdecendo,

Ja m'alegrei com vos ver;

Agora venho a temer

Qu'entristeçais em me vendo.

E pois a vista alegrais

Dos olhos desesperados,

Não quero que me vejais,

Para que sempre sejais,

Campos, bem-aventurados.

Porém se por accidente

Vos pezar de meu tormento,

Sabereis que Amor consente {108}

Que tudo me descontente,

Senão descontentamento.

Por isso vós, arvoredos,

Que ja nos meus olhos vistes

Mais alegria, que medos,

Se mos quereis fazer ledos,

Tornae-vos agora tristes.

Ja me vistes ledo ser,

Mas despois que o falso Amor

Tão triste me fez viver,

Ledos folgo de vos ver,

Porque me dobreis a dor.

E se este gôsto sobejo

De minha dor me sentistes,

Julgae quanto mais desejo

As horas que vos não vejo,

Que os dias em que me vistes.

O tempo, qu'he desigual,

De seccos, verdes vos tem;

Porqu'em vosso natural

Se muda o mal para o bem,

Mas o meu para mor mal.

Se perguntais, verdes prados,

Pelos tempos differentes

Que de Amor me forão dados,

Tristes, aqui são presentes,

Alegres, ja são passados. {109}

—oOo—

 

MOTE ALHEIO.

Trabalhos descansarião

Se para vós trabalhasse;

Tempos tristes passarião,

Se algum'hora vos lembrasse.

Glosa.

Nunca o prazer se conhece,

Senão despois da tormenta:

Tão pouco o bem permanece,

Que se o descanso florece,

Logo o trabalho arrebenta.

Sempre os bens se lograrião,

Mas os males tudo atalhão;

Porém ja que assi porfião,

Onde descansos trabalhão,

Trabalhos descansarião.

Qualquer trabalho me fôra

Por vós grão contentamento:

Nada sentira, Senhora,

Se víra disto algum'hora

Em vós hum conhecimento.

Por mal que o mal me tratasse,

Tudo por bem tomaria;

Postoque o corpo cansasse,

A alma descansaria,

Se para vós trabalhasse.

Quem vossas cruezas ja

Soffreo, a tudo se poz;

Costumado ficará;

E muito melhor será,

Se trabalhar para vós. {110}

Tristezas esquecerião,

Postoque mal me tratárão;

Annos não me lembrarião,

Que como est'outros passarão,

Tempos tristes passarião.

Se fosse galardoado

Este trabalho tão duro,

Não vivêra magoado.

Mas não o foi o passado,

Como o será o futuro?

De cansar não cansaria,

Se quizereis, que cansasse;

Cavar, morrer, fa-lo-hia;

Tudo, emfim, esqueceria,

Se algum'hora vos lembrasse.

—oOo—

 

MOTE ALHEIO.

Triste vida se me ordena,

Pois quer vossa condição

Que os males, que dais por pena,

Me fiquem por galardão.

Glosa.

Despois de sempre soffrer,

Senhora, vossas cruezas,

A pezar de meu querer,

Me quereis satisfazer

Meus serviços com tristezas.

Mas, pois em balde resiste

Quem vossa vista condena, {111}

Prestes estou para a pena;

Que de galardão tão triste

Triste vida se me ordena.

De contente do mal meu

A tão grande extremo vim,

Que consinto em minha fim:

Assi que vós e mais eu,

Ambos somos contra mim.

Mas que soffra meu tormento,

Sem querer mais galardão,

Não he fóra de razão

Que queira meu soffrimento,

Pois quer vossa condição.

O mal, que vós dais por bem,

Esse, Senhora, he mortal;

Que o mal, que dais como mal,

Em muito menos se tem,

Por costume natural.

Mas porém nesta victoria,

Que comigo he bem pequena,

A maior dor me condena

A pena, que dais por gloria,

Que os males, que dais por pena.

Que mor bem me possa vir,

Que servir-vos, não o sei.

Pois que mais quero eu pedir,

Se quanto mais vos servir,

Tanto mais vos deverei?

Se vossos merecimentos

De tão alta estima são,

Assaz de favor me dão {112}

Em querer que meus tormentos

Me fiquem por galardão.

—oOo—

 

MOTE ALHEIO.

Ja não posso ser contente,

Tenho a esperança perdida;

Ando perdido entre a gente,

Nem morro, nem tenho vida.

Glosa.

Despois que meu cruel Fado

Destruio huma esperança,

Em que me vi levantado,

No mal fiquei sem mudança,

E do bem desesperado.

O coração, que isto sente,

Á sua dor não resiste,

Porque vê mui claramente

Que pois nasci para triste,

Ja não posso ser contente.

Por isso, contentamentos,

Fugi de quem vos despreza:

Ja fiz outros fundamentos,

Ja fiz senhora a tristeza

De todos meus pensamentos.

O menos que lh'entreguei,

Foi esta cansada vida:

Cuido que nisto acertei,

Porque de quanto esperei

Tenho a esperança perdida. {113}

Acabar de me perder

Fôra ja muito melhor;

Tivera fim esta dor,

Que não podendo mor ser,

Cada vez a sinto mor.

De vós desejo esconder-me,

E de mi principalmente,

Onde ninguem possa ver-me;

Que pois me ganho em perder-me,

Ando perdido entre a gente.

Gostos de mudanças cheios,

Não me busqueis, não vos quero:

Tenho-vos por tão alheios,

Que do bem que não espero,

Inda me ficão receios.

Em pena tão sem medida,

Em tormento tão esquivo

Que morra, ninguem duvída;

Mas eu se morro, ou se vivo,

Nem morro, nem tenho vida.

—oOo—

 

A HUMA DAMA, QUE SE CHAMAVA ANNA.

Mote.

A morte, pois que sou vosso,

Não a quero; mas se vem,

Ha de ser todo meu bem.

Glosa.

Amor, qu'em meu pensamento

Com tanta fé se fundou, {114}

Me tẽe dado hum regimento,

Que quando vir meu tormento

Me salve com cujo sou.

E com esta defensão,

Com que tudo vencer posso,

Diz a causa ao coração:

Não tẽe em mi jurdição

A morte, pois que sou vosso.

Por exprimentar hum dia

Amor se me achava forte

Nesta fé, como dizia,

Me convidou com a morte,

Só por ver se a temeria.

E como ella seja a cousa

Onde está todo meu bem,

Respondi-lhe, como quem

Quer dizer mais, e não ousa:

Não a quero, mas se vem...

Não disse mais, porque então

Entendeo quanto me toca;

E se tinha dito o não,

Muitas vezes diz a boca,

O que nega o coração.

Toda a cousa defendida

Em mais estima se tem:

Por isso he cousa sabida,

Que perder por vós a vida

Ha de ser todo meu bem.

{115}

—oOo—

 

Á MESMA DAMA.

Vejo-a n'alma pintada,

Quando me pede o desejo

O natural que não vejo.

Glosa.

Se só de ver puramente

Me transformei no que vi,

De vista tão excellente

Mal poderei ser ausente,

Em quanto o não for de mi.

Porque a alma namorada

A traz tão bem debuxada,

E a memoria tanto voa,

Que se a não vejo em pessoa,

Vejo-a n'alma pintada.

O desejo, que s'estende

Ao que menos se concede,

Sôbre vós pede e pretende,

Como o doente que pede

O que mais se lhe defende.

Eu, qu'em ausencia vos vejo,

Tenho piedade e pejo

De me ver tão pobre estar,

Qu'então não tenho que dar,

Quando me pede o desejo.

Como áquelle que cegou,

He cousa vista e notoria,

Que a natureza ordenou

Que se lhe dobre em memoria

O qu'em vista lhe faltou:

Assi a mi, que não vejo {116}

Co'os olhos o que desejo,

Na memoria e na firmeza

Me concede a natureza

O natural que não vejo.

—oOo—

 

MOTE ALHEIO.

Sem vós, e com meu cuidado,

Olhae com quem, e sem quem.

Glosa.

Vendo Amor que com vos ver

Mais levemente soffria

Os males que me fazia,

Não me pôde isto soffrer;

Conjurou-se com meu Fado;

Hum novo mal me ordenou:

Ambos me levão forçado,

Não sei onde, pois que vou

Sem vós e com meu cuidado.

Não sei qual he mais estranho

Destes dous males que sigo,

Se não vos ver, se comigo

Levar imigo tamanho.

O que fica, e o que vem,

Hum me mata, outro desejo:

Com tal mal, e sem tal bem,

Em taes extremos me vejo:

Olhae com quem, e sem quem!

—oOo—

 

AO MESMO.

Amor, cuja providencia

Foi sempre que não errasse, {117}

Porque n'alma vos levasse,

Respeitando o mal d'ausencia,

Quiz qu'em vós me transformasse.

E vendo-me ir maltratado,

Eu e meu cuidado sós,

Proveo nisso de attentado,

Por não me ausentar de vós,

Sem vós, e com meu cuidado.

Mas est'alma, qu'eu trazia,

Porque vós nella morais,

Deixa-me cego, e sem guia;

Que ha por melhor companhia

Ficar onde vós ficais.

Assi me vou de meu bem,

Onde quer a forte estrella,

Sem alma, qu'em si vos tem,

Co'o mal de viver sem ella:

Olhae com quem, e sem quem!

—oOo—

 

MOTE ALHEIO.

Sem ventura he por demais.

Glosa.

Todo o trabalhado bem

Promette gostoso fruito;

Mas os trabalhos, que vem,

Para quem dita não tem

Valem pouco, e custão muito.

Rompe toda a pedra dura,

Faz os homens immortais {118}

O trabalho quando atura;

Mas querer achar ventura,

Sem ventura, he por demais.

—oOo—

 

MOTE ALHEIO.

Minh'alma, lembrae-vos della.

Glosa.

Pois o ver-vos tenho em mais

Que mil vidas que me deis,

Assi como a que me dais,

Meu bem, ja que mo negais,

Meus olhos, não mo negueis.

E se a tal estado vim

Guiado de minha estrella,

Quando houverdes dó de mim,

Minha vida, dae-lhe a fim,

Minh'alma, lembrae-vos della.

—oOo—

 

MOTE ALHEIO.

Tudo póde huma affeição.

Glosa.

Tẽe tal jurdição Amor

N'alma donde se aposenta,

E de que se faz senhor,

Que a liberta e isenta

De todo humano temor.

E com mui justa razão,

Como senhor soberano, {119}

Que Amor não consente dano.

E pois me soffre tenção,

Gritarei por desengano:

Tudo póde huma affeição.

—oOo—

TROVA DE BOSCÃO.

Justa fué mi perdicion;

De mis males soy contento;

Ya no espero galardon,

Pues vuestro merecimiento

Satisfizo mi pasion.

Glosa.

Despues que Amor me formó

Todo de amor, cual me veo,

En las leyes, que me dió,

El mirar me consintió,

Y defendióme el deseo.

Mas el alma, como injusta,

En viendo tal perfeccion,

Dió al deseo ocasion:

Y pues quebré ley tan justa,

Justa fué mi perdicion.

Mostrándoseme el Amor

Mas benigno que cruel,

Sobre tirano traidor,

De zelos de mi dolor,

Quiso tomar parte en él.

Yo que tan dulce tormento

No quiero dallo, aunque peco, {120}

Resisto, y no lo consiento;

Mas si me lo toma á trueco

De mis males, soy contento.

Señora, ved lo que ordena

Este Amor tan falso nuestro!

Por pagar á costa agena,

Manda que de un mirar vuestro

Haga el premio de mi pena.

Mas vos, para que veais

Tan engañosa intencion,

Aunque muerto me sintais,

No mireis, que si mirais,

Ya no espero galardon.

Pues que premio (me direis)

Esperas que será bueno?

Sabed, sino lo sabeis,

Que es lo mas de lo que peno

Lo menos que mereceis.

Quien hace al mal tan ufano,

Y tan libre al sentimiento?

El deseo? No, que es vano.

El amor? No, que es tirano.

Pues? Vuestro merecimiento.

No pudiendo Amor robarme

De mis tan caros despojos,

Aunque fué por mas honrarme,

Vos sola para matarme

Le prestastes vuestros ojos.

Matáranme ambos á dos;

Mas á vos con mas razon

Debe el la satisfaccion; {121}

Que á mi por él, y por vos,

Satisfizo mi pasion.

—oOo—

 

ALHEIO.

Todo es poco lo posible.

Glosa.

Ved que engaño señorea

Nuestro juicio tan loco,

Que por mucho que se crea,

Todo el bien, que se desea,

Alcanzado, queda poco.

Un bien de cualquiera grado,

Si de haberse es imposible,

Queda mucho deseado.

Mas para mucho, alcanzado,

Todo es poco lo posible.

Outro.

Posible es á mi cuidado

Poderme hacer satisfecho,

Si fuera posible al hado

Hacer no hecho lo hecho,

Y futuro lo pasado.

Si olvido pudiera haber,

Fuera remedio sufrible;

Mas ya que no puede ser,

Para contento me hacer,

Todo es poco lo posible. {122}

—oOo—

 

ALHEIO.

Vos teneis mi corazon.

Glosa.

Mi corazon me han robado;

Y Amor viendo mis enojos,

Me dijo: Fuéte llevado

Por los mas hermosos ojos,

Que desque vivo he mirado.

Gracias sobrenaturales

Te lo tienen en prision.

Y si Amor tiene razon,

Señora, por las señales,

Vos teneis mi corazon.

—oOo—

 

MOTE.

Qué veré que me contente?

Glosa.

Desque una vez yo miré,

Señora, vuestra beldad,

Jamas por mi voluntad

Los ojos de vos quité.

Pues sin vos placer no siente

Mi vida, ni lo desea,

Si no quereis que yo os vea,

Qué veré que me contente?

—oOo—

 

MOTE.

Sem vós, e com meu cuidado. {123}

Glosa.

Querendo Amor esconder-vos

Em parte que vos não visse,

Co'o extremo de querer-vos

Cegou-me os olhos com ver-vos,

Levou-vos, sem que vos visse.

Eu cego, mas atinado,

Quando vi que vos não via,

Do mesmo Amor indignado,

Ja vêdes qual ficaria

Sem vós e com meu cuidado.

—oOo—

 

MOTE.

Retrato, vós não sois meu;

Retratárão-vos mui mal;

Que a serdes meu natural,

Foreis mofino como eu.

Glosa.

Indaqu'em vós a arte vença

O que o natural tẽe dado,

Não fostes bem retratado;

Que ha em vós mais differença,

Que no vivo do pintado.

Se o lugar se considera

Do alto estado, que vos deu

A sorte, qu'eu mais quizera;

Se he qu'eu sou quem d'antes era,

Retrato, vós não sois meu.

Vós na vossa glória pôsto,

Eu na minha sepultura, {124}

Vós com bens, eu com desgôsto;

Pareceis-vos ao meu rosto,

E não ja á minha ventura.

E pois nella e vós errarão

O qu'em mi he principal,

Muito em ambos s'enganárão.

Se por mi vós retratárão,

Retratárão-vos mui mal.

Mas se esse rosto fingido

Quizerão representar,

E houverão por bom partido

Dar-vos a alma do sentido

Para a glória do lugar;

Víreis, pôsto nessa alteza,

Que vos não ha cousa igual;

E que nem a maior mal

Podeis vir, nem mor baixeza,

Que a serdes meu natural.

Por isso não confesseis

Serdes meu, qu'he desatino,

Com que o lugar perdereis:

Se conservar-vos quereis,

Blazonae que sois divino.

Que se nesta occasião

Conhecessem qu'ereis meu,

Por meu vos derão de mão,

. . . . . . . . . .

Fôreis mofino, como eu. {125}

—oOo—

 

MOTE.

Foi-se gastando a esperança,

Fui entendendo os enganos;

Do mal ficárão-me os danos,

E do bem só a lembrança.

Glosa.

Nunca em prazeres passados

Tive firmeza segura.

Antes tão arrebatados,

Qu'inda não erão chegados,

Quando mos levou ventura.

E como quem desconfia

Ter em tal sorte mudança,

No meio desta porfia,

De quanto bem pretendia

Foi-se gastando a esperança.

Não tive por desatino

A occasião de perdella;

Mas foi culpa do destino,

Que a ninguem, como mais dino,

Amor pudéra sostella.

Dei-lhe tudo o qu'era seu,

Não receando taes danos

Deste, a quem alma lhe deu:

Quando ja não era meu,

Fui entendendo os enganos.

Fiquei deste mal sobejo

A quem a causa compete

Dizer-lhe tudo o que vejo,

Que Amor acceita o desejo,

Mas mente no que promete. {126}

Que se a mi se me obrigou

A dar-me bens soberanos,

Foi engano que ordenou;

Que do bem tudo levou,

Do mal ficárão-me os danos.

E se dor tão desigual

Soffro em mi com padecellos,

Quero de novo soffrellos;

Que por a causa ser tal,

Não determino offendellos.

Dobre-se o mal, falte a vida,

Cresça a fé, falte a esperança,

Pois foi mal agradecida;

Fique a dor n'alma imprimida,

E do bem só a lembrança.

—oOo—

 

ENDECHAS A BARBARA ESCRAVA.

Aquella captiva,

Que me tẽe captivo,

Porque nella vivo,

Ja não quer que viva.

Eu nunca vi rosa

Em suaves mólhos,

Que para meus olhos

Fosse mais formosa.

Nem no campo flores,

Nem no ceo estrellas,

Me parecem bellas,

Como os meus amores. {127}

Rosto singular,

Olhos socegados,

Pretos e cansados,

Mas não de matar.

Huma graça viva,

Que nelles lhe mora,

Para ser senhora

De quem he captiva.

Pretos os cabellos,

Onde o povo vão

Perde opinião,

Que os louros são bellos.

Pretidão de Amor,

Tão doce a figura,

Que a neve lhe jura

Que trocára a cór.

Leda mansidão,

Que o siso acompanha,

Bem parece estranha,

Mas barbara não.

Presença serena,

Que a tormenta amansa:

Nella emfim descansa

Toda minha pena.

Esta he a captiva,

Que me tẽe captivo;

E pois nella vivo,

He fôrça que viva. {128}

—oOo—

 

MOTE.

Quem ora soubesse

Onde o Amor nasce,

Que o semeasse!

Voltas.

D'Amor e seus danos

Me fiz lavrador;

Semeava amor,

E colhia enganos;

Não vi, em meus anos,

Homem que apanhasse

O que semeasse.

Vi terra florída

De lindos abrolhos,

Lindos para os olhos,

Duros para a vida.

Mas a rez perdida,

Que tal herva pasce,

Em forte hora nasce.

Com quanto perdi,

Trabalhava em vão:

Se semeei grão,

Grande dor colhi.

Amor nunca vi

Que muito durasse,

Que não magoasse.

—oOo—

 

ALHEIO.

Se me levão ágoas,

Nos olhos as levo. {129}

Voltas.

Se de saudade

Morrerei ou não,

Meus olhos dirão

De mi a verdade.

Por elles me atrevo

A lançar as ágoas,

Que mostrem as mágoas

Que nesta alma levo.

As ágoas, qu'em vão

Me fazem chorar,

Se ellas são do mar,

Estas de amar são.

Por ellas relévo

Todas minhas mágoas;

Que se fôrça d'ágoas

Me leva, eu as levo.

Todas me entristecem,

Todas são salgadas;

Porém as choradas

Doces me parecem.

Correi, doces ágoas,

Que se em vós m'enlévo,

Não doem as mágoas,

Que no peito levo.

—oOo—

 

ALHEIO.

Menina dos olhos verdes,

Porque me não vedes?

{130}

Voltas.

Elles verdes são,

E tẽe por usança

Na côr esperança,

E nas obras não.

Vossa condição

Não he d'olhos verdes,

Porque me não vêdes.

Isenções a mólhos

Qu'elles dizem terdes,

Não são d'olhos verdes,

Nem de verdes olhos.

Sirvo de giolhos,

E vós não me credes,

Porque me não vêdes.

Havião de ser,

Porque possa vê-los,

Que huns olhos tão bellos

Não se hão d'esconder:

Mas fazeis-me crer,

Que ja não são verdes,

Porque me não vêdes.

Verdes não o são,

No que alcanço delles;

Verdes são aquelles

Qu'esperança dão.

Se na condição

Está serem verdes,

Porque me não vedes? {131}

—oOo—

 

ALHEIO.

Trocae o cuidado,

Senhora, comigo;

Vereis o perigo,

Qu'he ser desamado.

Voltas.

Se trocar desejo

O amor entre nós,

He para qu'em vós

Vejais o que vejo.

E sendo trocado

Este amor comigo,

Ser-vos-ha castigo

Terdes meu cuidado.

Tendes o sentido

D'Amor livre e isento,

E cuidais qu'he vento

Ser tão mal querido.

Não seja o cuidado

Tão vosso inimigo,

Que queira o perigo

De ser desamado.

Mas nunca foi tal

Este meu querer,

Que a quem tanto quer,

Queira tanto mal

Seja eu maltratado,

E nunca o castigo

Vos mostre o perigo,

Qu'he ser desamado. {132}

—oOo—

 

Á TENÇÃO DE MIRAGUARDA.

Ver, e mais guardar

De ver outro dia,

Quem o acabaria?

Voltas.

Da lindeza vossa,

Dama, quem a vê,

Impossivel he

Que guardar-se possa.

Se faz tanta mossa

Ver-vos hum só dia,

Quem se guardaria?

Melhor deve ser

Neste aventurar

Ver, e não guardar,

Que guardar e ver.

Ver e defender,

Muito bom sería,

Mas quem poderia?

—oOo—

 

MOTE.

Irme quiero, madre,

Á aquella galera,

Con el marinero,

Á ser marinera.

Voltas.

Madre, si me fuere,

Do quiera que vó,

No lo quiero yo, {133}

Que el Amor lo quiere.

Aquel niño fiero,

Hace que me mueva

Por un marinero

Á ser marinera.

El que todo puede,

Madre, no podrá,

Pues el alma vá,

Que el cuerpo se quede.

Con él por que muero

Voy, porque no muera;

Que si es marinero,

Seré marinera.

Es tirana ley

Del niño Señor,

Que por un amor

Se deseche un Rey.

Pues desta manera

Quiero irme, quiero

Por un marinero

Á ser marinera.

Decid, ondas, cuando

Vistes vos doncella,

Siendo tierna y bella,

Andar navegando?

Mas qué no se espera

Daquel niño fiero?

Vea yo quien quiero,

Sea marinera. {134}

—oOo—

 

MOTE.

Saudade minha,

Quando vos veria?

Voltas.

Este tempo vão,

Esta vida escassa,

Para todos passa,

Só para mi não.

Os dias se vão

Sem ver este dia,

Quando vos veria.

Vêde esta mudança

Se está bem perdida,

Em tão curta vida

Tão longa esperança.

Se este bem se alcança,

Tudo soffreria,

Quando vos veria.

Saudosa dor,

Eu bem vos entendo;

Mas não me defendo,

Porque offendo Amor.

Se fôsseis maior,

Em maior valia

Vos estimaria.

Minha saudade,

Charo penhor meu,

A quem direi eu

Tamanha verdade?

Na minha vontade {135}

De noite e de dia

Sempre vos teria.

—oOo—

MOTE.

Vida da minha alma,

Não vos posso ver:

Isto não he vida

Para se soffrer.

Voltas.

Quando vos eu via,

Esse bem lograva,

A vida estimava,

Pois então vivia;

Porque vos servia

Só para vos ver.

Ja que vos não vejo

Para qu'he viver?

Vivo sem razão,

Porqu'em minha dor

Não a poz Amor;

Que inimigos são.

Mui grande traição

Me obriga a fazer

Que viva, Senhora,

Sem vos poder ver.

Não me atrevo ja,

Minha tão querida,

A chamar-vos vida,

Porque a tenho má. {136}

Ninguem cuidará,

Que isto póde ser,

Sendo-me vós vida,

Não poder viver.

—oOo—

MOTE.

Coifa de beirame

Namorou Joanne.

Voltas.

Por cousa tão pouca

Andas namorado?

Amas o toucado,

E não quem o touca?

Ando cega e louca

Por ti, meu Joanne,

Tu pelo beirame.

Amas o vestido?

Es falso amador.

Tu não vês que Amor

Se pinta despido?

Cego e mui perdido

Andas por beirame,

E eu por ti, Joanne.

A todos encanta

Tua parvoice;

De tua doudice

Gonçalo s'espanta,

E zombando canta:

Coifa de beirame,

Namorou Joanne. {137}

Eu não sei que viste

Neste meu toucado,

Que tão namorado

Delle te sentiste.

Não te veja triste;

Ama-me, Joanne,

E deixa o beirame.

Joanne gemia,

Maria chorava,

E assi lamentava

O mal que sentia:

(Os olhos feria,

E não o beirame,

Que matou Joanne)

Não sei do que vem

Amares vestido;

Que o mesmo Cupido

Vestido não tem.

Sabes de que vem

Amares beirame?

Vem de ser Joanne.

—oOo—

 

MOTE.

Se Helena apartar

Do campo seus olhos,

Nascerão abrolhos.

Voltas.

A verdura amena,

Gados, que pasceis, {138}

Sabei que a deveis

Aos olhos d'Helena.

Os ventos serena,

Faz flores d'abrolhos

O ar de seus olhos.

Faz serras florídas,

Faz claras as fontes:

S'isto faz nos montes,

Que fara nas vidas?

Tra-las suspendidas,

Como hervas em mólhos,

Na luz de seus olhos.

Os corações prende

Com graça inhumana;

De cada pestana

Hum'alma lhe pende.

Amor se lhe rende,

E pôsto em giolhos,

Pasma nos seus olhos.

—oOo—

 

ALHEIO.

Verdes são os campos

De côr de limão;

Assi são os olhos

Do meu coração.

Voltas.

Campo, que t'estendes

Com verdura bella;

Ovelhas, que nella {139}

Vosso pasto tendes;

D'hervas vos mantendes

Que traz o verão;

E eu das lembranças

Do meu coração.

Gados, que pasceis

Com contentamento,

Vosso mantimento

Não no entendeis.

Isso que comeis,

Não são hervas, não;

São graça dos olhos

Do meu coração.

—oOo—

 

ALHEIO.

Verdes são as hortas

Com rosas e flores:

Moças, que as régão,

Matão-me d'amores.

Voltas.

Entre estes penedos

Que daqui parecem,

Verdes hervas crescem,

Altos arvoredos.

Vai destes rochedos

Ágoa, com que as flores

D'outras são regadas,

Que mátão d'amores.

Com ágoa, que cai

Daquella espessura, {140}

Outra se mistura,

Que dos olhos sai:

Toda junta vai

Regar brancas flores;

Onde ha outros olhos,

Que mátão d'amores.

Celestes jardins,

As flores estrellas:

Hortelôas dellas

São huns seraphins.

Rosas e jasmins

De diversas côres,

Anjos, que as régão,

Mátão-me d'amores.

—oOo—

 

ALHEIO.

Menina formosa,

Dizei de que vem

Serdes rigorosa

A quem vos quer bem?

Voltas.

Não sei quem assella

Vossa formosura;

Que quem he tão dura

Não póde ser bella.

Vós sereis formosa;

Mas a razão tem

Que quem he irosa,

Não parece bem. {141}

A mostra he de bella,

As obras são cruas:

Pois qual destas duas

Ficará na sella?

Se ficar irosa,

Não vos está bem:

Fique antes formosa,

Que mais fôrça tem.

O Amor formoso

Se pinta e se chama:

Se he amor, ama,

Se ama, he piedoso.

Diz agora a grosa

Que este texto tem,

Que quem he formosa

Ha de querer bem.

Havei dó, menina,

Dessa formosura;

Que se a terra he dura,

Secca-se a bonina.

Sêde piedosa;

Não veja ninguem

Que por rigorosa

Percais tanto bem.

—oOo—

 

ALHEIO.

Tende-me mão nelle,

Que hum real me deve. {142}

Voltas.

C'hum real d'amor,

Dous de confiança,

E tres d'esperança,

Me foge o trédor.

Falso desamor

S'encerra naquelle

Que hum real me deve.

Pedio-mo emprestado,

Não lhe quiz penhor:

He mao pagador;

Tendo-mo afferrado.

C'hum cordel atado,

Ao Tronco se leve;

Que hum real me deve.

Por esta travéssa

Se vai acolhendo:

Ei-lo vai correndo,

Fugindo a grã pressa.

Nesta mão, e nessa

O falso se atreve,

Que hum real me deve.

Comprou-me o amor,

Sem lhe fazer preço:

Eu não lhe mereço

Dar-me desfavor.

Dá-me tanta dor,

Que ando apos elle

Pelo que me deve.

Eu de cá bradando,

Elle vai fugindo; {143}

Elle sempre rindo,

Eu sempre chorando.

E de quando em quando

No amor se atreve,

Como que não deve.

A fallar verdade

Elle ja pagou;

Mas ainda ficou

Devendo ametade.

Minha liberdade

He a que me deve:

Só nella se atreve.

—oOo—

 

MOTE.

Dó la mi ventura,

Que no veo alguna?

Voltas.

Sepa quien padece,

Que en la sepultura

Se esconde ventura

De quien la merece.

Allá me parece,

Que quiere fortuna

Que yo halle alguna.

Naciendo mesquino,

Dolor fué mi cama;

Tristeza fué el ama,

Cuidado el padrino.

Vestióse el destino {144}

Negra vestidura,

Huyó la ventura.

No se halló tormento,

Que alli no se hallase;

Ni bien, que pasase,

Sinó como viento.

Oh qué nacimiento,

Que luego en la cuna

Me siguió fortuna!

Esta dicha mia,

Que siempre busqué,

Buscándola, hallé

Que no la hallaria;

Que quien nace en dia

D'estrella tan dura,

Nunca halla ventura.

No puso mi estrella

Mas ventura em min:

Ansí vive en fin

Quien nace sin ella.

No me quejo della;

Quéjome que atura

Vida tan escura.

—oOo—

 

MOTE.

Vida de minha alma.

Volta.

Dous tormentos vejo

Grandes por extremo:

Se vos vejo, temo, {145}

E se não, desejo.

Quando me despejo,

E venho a escolher,

Temendo o desejo,

Desejo temer.

—oOo—

 

CANTIGA ALHEIA.

Pastora da serra,

Da serra da Estrella,

Perco-me por ella.

Voltas.

Nos seus olhos bellos

Tanto Amor se atreve,

Que abraza entre a neve

Quantos ousão vellos.

Não sólta os cabellos

Aurora mais bella:

Perco-me por ella.

Não teve esta serra

No meio d'altura

Mais que a formosura,

Que nella se encerra.

Bem ceo fica a terra,

Que tẽe tal estrella:

Perco-me por ella.

Sendo entre pastores

Causa de mil males,

Não se ouvem nos vales

Senão seus louvores.

Eu só por amores {146}

Não sei fallar nella,

Sei morrer por ella.

D'alguns, que sentindo

Seu mal vão mostrando.

Se ri, não cuidando

Qu'inda paga rindo.

Eu triste, encobrindo

Só meus males della,

Perco-me por ella.

Se flores deseja

Por ventura bellas,

Das que colhe dellas

Mil morrem d'inveja.

Não ha quem não veja

Todo o melhor nella:

Perco-me por ella.

Se n'ágoa corrente

Seus olhos inclina,

Faz a luz divina

Parar a corrente.

Tal se vê, que sente

Por ver-se a ágoa nella:

Perco-me por ella.

—oOo—

 

ENDECHAS.

Vós sois huma Dama

Das feias do mundo;

De toda a má fama

Sois cabo profundo. {147}

A vossa figura

Não he para ver;

Em vosso poder

Não ha formosura.

Vós fostes dotada

De toda a maldade;

Perfeita beldade

De vós he tirada.

Sois muito acabada

De taixa e de glosa:

Pois quanto a formosa,

Em vós não ha nada.

Do grão merecer

Sois bem apartada;

Andais alongada

Do bem parecer.

Bem claro mostrais

Em vós fealdade:

Não ha hi maldade,

Que não precedais.

De fresco carão

Vos vejo ausente;

Em vós he presente

A má condição.

De ter perfeição

Mui alheia estais;

Mui muito alcançais

De pouca razão. {148}

—oOo—

 

ENDECHAS.

Vai o bem fugindo,

Cresce o mal co'os annos,

Vão-se descubrindo

Co'o tempo os enganos.

Amor e alegria.

Menos tempo dura.

Triste de quem fia

Nos bens da ventura!

Bem sem fundamento

Tẽe certa a mudança,

Certo o sentimento

Na dor da lembrança.

Quem vive contente,

Viva receoso:

Mal que se não sente,

He mais perigoso.

Quem males sentio,

Saiba ja temer;

E pelo que vio

Julgue o qu'ha de ser.

Alegre vivia,

Triste vivo agora;

Chora a alma de dia,

E de noite chora.

Confesso os enganos

De meu pensamento:

Bem de tantos annos

Foi-se n'hum momento.

Meus olhos, que vistes?

Pois vos atrevestes, {149}

Chorae, olhos tristes,

O bem que perdestes.

A luz do sol pura

Só a vós se negue;

Seja noite escura,

Nunca a manhãa chegue.

O campo floreça,

Murmurem as ágoas,

Tudo me entristeça,

Cresção minhas mágoas.

Quizera mostrar

O mal que padeço;

Não lhe dá lugar

Quem lhe deu comêço.

Em tristes cuidados

Passo a triste vida;

Cuidados cansados,

Vida aborrecida.

Nunca pude crer

O que agora creio:

Cegou-me o prazer

Do mal que me veio.

Ah ventura minha,

Como me negaste!

Hum so bem que tinha,

Porque mo roubaste?

Triste fantasia

Quanta cousa guarda!

Quem ja visse o dia,

Que tanto lhe tarda!

Nesta vida cega {150}

Nada permanece;

O qu'inda não chega,

Ja desaparece.

Qualquer esperança

Foge como o vento:

Tudo faz mudança,

Salvo meu tormento.

Amor cego e triste,

Quem o tẽe padece:

Mal quem lhe resiste!

Mal quem lhe obedece!

No meu mal esquivo

Sei como Amor trata:

E pois nelle vivo,

Nenhum amor mata. {151}