Os Irmãos Karamázov
Capítulo 14
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
Aliócha escutava sem dizer palavra.
— Por que não me fala ele? E, quando fala, faz-se malicioso; é um 181
miserável o teu Ivã! Casarei imediatamente com Grúchenhka, se quiser.
Porque com dinheiro basta querer. Alieksiéi Fiódorovitch, tem-se tudo. É
disto que Ivã tem medo, vigia-me para impedir meu casamento, e com este fito impele Mítia a fazer dela sua esposa; dessa maneira, entende preservar-me de Gruchka (na esperança de herdar, se não me casar com ela!); por outra parte, se Mítia se casar com ela, toma-lhe Ivã sua rica noiva, eis seu cálculo! É um miserável o teu Ivã!
— Como está o senhor irascível! É o resultado de ontem; o senhor deveria deitar-se — disse Aliócha.
— Tuas palavras não me irritam — observou o velho —, ao passo que vindas de Ivã me zangariam; somente contigo tenho tido bons momentos, porque sou mau.
— O senhor não é mau, o senhor tem é o espírito corrompido —
sorriu Aliócha.
— Pois seja, eu queria mandar prender aquele bandido do Mítia e agora não sei que partido tomar. Sem dúvida, em nosso tempo, passa por preconceito respeitar pai e mãe; entretanto, as leis não permitem ainda arrastar um pai pelos cabelos, bater-lhe no rosto com golpes de botas, em sua própria casa, e ameaçá-lo, diante de testemunhas, de vir liquidá-lo. Se eu quisesse, domá-lo-ia e poderia mandá-lo prender por causa da cena de ontem.
— Então, não quer dar queixa?
— Ivã dissuadiu-me disso. Zombo de Ivã, mas há uma coisa...
Inclinou-se para Aliócha e continuou num tom confidencial:
— Se mandar prender o canalha, ela ficará sabendo e correrá para ele. Mas se souber que ele quase me mata, a mim, débil velho, abandoná-lo-á talvez e virá ver-me... Tal é seu caráter, só age contraditoriamente.
Conheço-a a fundo! Não queres conhaque? Toma café frio, servir-te-ei um quarto de cálice, isto dá bom gosto.
— Não, obrigado. Levarei este pão, se o permitir — disse Aliócha, pegando um pãozinho francês de 3 copeques, que meteu no bolso de sua batina. — O senhor não deveria beber mais conhaque — aconselhou, timidamente, lançando uma olhadela furtiva para o velho.
— Tens razão, isto irrita. Mas só um copinho...
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Abriu o armário, serviu-se um copinho, tornou a fechar o armário e a pôr a chave no bolso.
— Isto basta, não rebentarei por causa dum copinho...
— Ei-lo melhor!
— Hum! Gosto de ti, mesmo sem conhaque, e sou um canalha para os canalhas! Ivã não parte para Tchermachniá porque tem intenção de espionar-me. Quer saber quanto darei a Grúchenhka, se ela vier. Todos uns miseráveis! Aliás, renego Ivã, não o compreendo. Donde vem ele? Sua alma não é como a nossa. Conta com minha herança. Mas não deixarei testamento, fica sabendo. Quanto a Mítia, eu o esmagarei como a uma barata; faço-as rebentar à noite sob meu chinelo; teu Mítia rebentará da mesma maneira. Digo "teu" Mítia porque o amas. mas isto não me faz medo. Se fosse Ivã que o amasse, temeria por mim mesmo. Mas Ivã não ama ninguém, não é dos nossos, as pessoas como ele, meu caro, não são semelhantes a nós, são poeira... Se o vento sopra, essa poeira se levanta...
Foi uma fantasia que se apoderou de mim ontem, quando te disse que viesses hoje; queria informar-me por meio de ti a respeito de Mítia; será que em troca de 1 000 ou 2 000 rublos aquele tratante, aquele bandido, consentiria em ir-se daqui por cinco anos, ou melhor, por 35 anos, e em renunciar a Grúchenhka? Hein?
— Eu... eu lhe perguntarei — murmurou Aliócha. — Por 3 000
rublos, talvez ele...
— Não, senhor! Não é preciso perguntar nada agora! Mudei de idéia.
Foi um capricho que me deu ontem. Não darei nada. nem 1 níquel, eu mesmo tenho necessidade de meu dinheiro. (O velho teve um gesto expressivo. ) De qualquer maneira, esmagá-lo-ei como a uma barata. Não lhe digas nada, senão vai imaginar coisas. Mas tu mesmo nada tens a fazer em minha casa, vai-te. E sua noiva, Catarina Ivânovna, que sempre ocultou de mim tão cuidadosamente, casar-se-á com ela ou não? Estavas ontem em casa dela, certo?
— Ela não quer abandoná-lo por preço nenhum.
— Eis os indivíduos a quem essas ternas senhoritas amam: farristas, malandros! Não valem nada essas pálidas criaturas. Que idéia! Pois bem, se tivesse a juventude dele e meu corpo de então (porque aos 28 anos era 183
melhor do que ele), lograria o mesmo êxito. Canalha, sim!... Mas não terá Grúchenhka, não a terá... Eu o esmagarei...
Tornou-se de novo colérico ao proferir estas últimas palavras.
— Vai-te também, nada tens a fazer em minha casa hoje — disse, secamente.
Aliócha aproximou-se dele para despedir-se e beijou-o no ombro.
— Por quê? — espantou-se o velho. — Nós nos tornaremos a ver, ou pensas que é a derradeira vez?
— Absolutamente, foi por acaso...
— Eu também... digo isto por dizer... — declarou o velho, fitando-o. — Escuta, escuta — gritou ele às costas de Aliócha —, volta em breve, haverá uma sopa de peixe famosa, não como hoje. Vem amanhã, ouviste?
Assim que Aliócha saiu, voltou o velho ao armário e tomou meio copo.
— Basta — murmurou ele, resfolegando. Tornou a fechar o armário, repôs a chave no bolso, depois, já sem forças, foi estender-se sobre seu leito, onde adormeceu imediatamente.
III
O ENCONTRO COM OS COLEGIAIS
"Felizmente meu pai não me fez perguntas a respeito de Grúchenhka", dizia a si mesmo Aliócha, dirigindo-se para a casa da Senhora Khokhlakova. "Teria sido preciso contar-lhe o encontro de ontem com ela.
"Pensava com pesar que, durante a noite, os adversários haviam retomado forças, que seus corações estavam de novo endurecidos. "Meu pai está irritado e cheio de maldade, continua ancorado em sua idéia. Dimítri também se reafirmou e deve ter um plano... É absolutamente preciso que o encontre hoje... "
Mas as reflexões de Aliócha foram interrompidas por um incidente que o impressionou, malgrado sua pouca importância. Ao aproximar-se da Rua de São Miguel, paralela à Rua Grande, da qual só estava separada 184
por um riacho (nossa cidade é cortada por ele), avistou lá embaixo, diante do passadiço, um pequeno grupo de colegiais, meninos de nove a doze anos no máximo. Voltavam para suas casas após as aulas, carregando suas sacolas a tiracolo ou amarradas nas costas por meio de correias; uns tinham apenas uma jaqueta, outros, sobretudos; alguns calçavam botas dessas pregueadas, com as quais gostam de exibir-se os meninos mimados por pais abastados. O grupo discutia com animação, parecia manter conselho. Aliócha interessava-se sempre pelas crianças que encontrava (era o caso em Moscou) e, muito embora preferisse os bebês de três anos, os escolares de dez e de onze lhe agradavam muito. Assim, malgrado sua preocupação, quis abordá-los, entrar em conversa com eles. Ao aproximar-se, observava-lhes os rostos vermelhos e notou que todos os meninos tinham uma pedra na mão e até mesmo duas. Do outro lado do riacho, a cerca de trinta passos, mantinha-se, encostado a uma paliçada, um escolar, com sua sacola sobre o quadril, parecendo ter no máximo uns dez anos, pálido, de ar doentio, com olhos negros que cintilavam.
Esquadrinhava com o olhar os seis colegiais, seus camaradas, com os quais parecia estar brigado. Aliócha avançou e, dirigindo-se a um menino de cabelos cacheados, louro, corado, de jaqueta preta, observou, olhando-o:
— Quando eu tinha tua idade, carregava-se a sacola do lado esquerdo, a fim de alcançá-la com a mão direita; mas a tua está do lado direito, não deve ser cômodo.
Sem nenhuma premeditação, começara Aliócha com essa observação prática; um adulto não pode proceder de outra forma, se quer ganhar a confiança de uma criança e sobretudo dum grupo de crianças. Era preciso começar seriamente, praticamente, para ficar em pé de igualdade.
Instintivamente, dava-se Aliócha conta disso,
— Ele é canhoto — respondeu logo outro menino de onze anos, de ar resoluto.
Os cinco outros fitavam Aliócha.
— Ele atira pedras com a mão esquerda — notou um terceiro.
No mesmo instante, foi lançada uma pedra contra o grupo, roçando pelo canhoto, mas foi perder-se adiante, embora atirada com habilidade e vigor. Fora lançada pelo menino colocado do outro lado do riacho.
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— Duro com ele, acerta bem, Smúrov! — gritaram todos. O canhoto não se fez de rogado e retribuiu imediatamente; não teve êxito e sua pedra bateu no chão. O adversário ripostou com um seixo que atingiu Aliócha bastante rudemente no ombro. Via-se a trinta passos que aquele garoto tinha os bolsos de seu sobretudo cheios de pedras..
— Foi no senhor, no senhor; fez pontaria de propósito no senhor.
Porque o senhor é um Karamázov — exclamaram os meninos, desatando a rir. — Vamos, todos ao mesmo tempo contra ele, fogo!
Seis pedras voaram juntas. Atingindo na cabeça, o garoto caiu, mas para se levantar logo e responder com encarniçamento. Dos dois lados houve um bombardeio ininterrupto; muitos", no grupo, tinham também seus bolsos cheios de projéteis.
— Mas como é isso? Não têm vergonha, meus amigos? Seis contra um! Vão matá-lo! — exclamou Aliócha.
Correu para a frente, a fim de se expor aos projéteis, protegendo assim o garoto do outro lado do riacho. Três ou quatro pararam por um minuto.
— Foi ele quem começou! — gritou com voz irritada um menino de blusa vermelha; é um bandido; ainda há pouco feriu na aula Krasótkin com seu canivete, correu sangue, Krasótkin não quis fazer queixa; é preciso dar uma surra nele...
— Mas por quê? Precisam mesmo persegui-lo?
— Ele atirou outra pedra nas costas do senhor. Ele o conhece —
gritaram os meninos. — É contra o senhor que está fazendo pontaria agora.
Vamos, todos de novo contra ele, não deixe de acertar, Smúrov!...
O bombardeio recomeçou, desta vez implacável. O garoto, sozinho, recebeu uma pedrada no peito; lançou um grito, pôs-se a chorar, fugiu pela subida para a Rua de São Miguel. No grupo vociferava-se: "Ah! ele teve medo, fugiu, aquele 'esfregão de tília'!"
— O senhor ainda não sabe, Karamázov, como ele é ruim; seria pouco matá-lo — repetiu o menino de jaqueta, de olhos ardentes, e que parecia ser o mais velho.
— É um linguarudo? — perguntou Aliócha.
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Os meninos trocaram olhares com ar zombeteiro.
— O senhor vai pela Rua de São Miguel? — continuou o mesmo. —
Então, alcance-o... Veja, parou de novo; espera e olha para o senhor.
— Olha para o senhor, olha para o senhor! — repetiram os meninos.
— Pergunte-lhe então se ele gosta de um esfregão de tília desman-chado. Entendeu? Pergunte assim.
Houve então uma explosão geral de gargalhadas. Aliócha e os meninos cruzavam olhares.
— Não vá lá, ele o ferirá — gritou, solícito, Smúrov.
— Meus amigos, não farei a ele a pergunta a respeito do esfregão de tília, porque é com isso que vocês o maltratam, mas me informarei com ele do motivo pelo qual vocês o odeiam tanto...
— Informe-se, informe-se — gritaram os meninos, rindo-se. Aliócha transpôs o passadiço e subiu a ladeira ao longo da paliçada, diretamente para o lado de seu agressor.
— Atenção — gritaram-lhe —, ele não tem medo do senhor e vai atingi-lo à traição, como fez com Krasótkin.
O menino esperava-o imóvel. Chegando bem perto, encontrou-se Aliócha diante de um menino de nove anos, fraco, raquítico, de rosto oval, pálido, magro, com grandes olhos escuros que o olhavam cheios de ódio.
Vestia um velho sobretudo bastante gasto e muito curto. Seus braços nus saíam de suas mangas. Havia um grande remendo no joelho direito de sua calça e, dissimulado com tinta, um buraco no seu sapato do pé direito, no lugar do dedo grande. Os bolsos do sobretudo estavam cheios de pedras.
Aliócha parou a dois passos, olhando com ar interrogador. O garoto, adivinhando pelos olhos de Aliócha que não tinha este intenção de bater-lhe, retomou coragem e falou em primeiro lugar:
— Eu estava sozinho contra seis... Hei de matá-los todos — disse ele, com olhar faiscante.
— Uma pedrada deve ter-lhe feito bastante mal — observou Aliócha.
— Mas eu acertei bem na cabeça de Smúrov! — replicou ele.
— Disseram-me que você me conhecia e atirou-me a pedra de 187
propósito — disse Aliócha.
O menino olhava-o com um olhar sombrio.
— Não o conheço. Você me conhece? — continuou Aliócha.
— Deixe-me tranqüilo! — gritou, de súbito, o menino com voz irritada, mas sem sair de seu lugar, como na expectativa de alguma coisa, o olhar hostil.
— Está bem, vou-me embora — disse Aliócha —, mas não o conheço e não quero importuná-lo. No entanto, seus colegas me disseram como deveria eu fazer. Adeus.
— Seu fradeco! — gritou o garoto, acompanhando Aliocha com o mesmo olhar cheio de ódio e provocante; pôs-se na defensiva, acreditando que Aliocha iria lançar-se contra ele, mas aquele voltou-se, olhou-o e seguiu seu caminho. Não havia dado uns três passos quando recebeu nas costas o mais grosso dos seixos que enchiam o bolso do sobretudo.
— Como? Por trás? É então verdade o que eles dizem, que você ataca como traidor?
Aliocha voltou-se; visado no rosto, teve tempo de prevenir-se e novo projétil atingiu-o no cotovelo. — Não tem vergonha? Que lhe fiz eu? —
exclamou ele.
O garoto esperava, silencioso e agressivo, persuadido de que, daquela vez, Aliocha lhe cairia em cima; vendo que sua vítima não se movia, ficou furioso como uma pequena fera e avançou. Antes que Aliocha tivesse podido fazer um movimento, o diabrete agarrou-lhe a mão esquerda e mordeu-lhe cruelmente um dedo. Aliocha lançou um grito de dor, esforçando-se por livrar-se. O garoto largou-o por fim, recuando para a distância anterior. A mordidela, perto da unha, era profunda, o sangue corria. Aliocha tirou seu lenço, enrolando com ele apertadamente sua mão ferida. Isto levou cerca de um minuto. Entretanto o menino esperava.
Aliocha baixou sobre ele um olhar calmo.
— Está bem — disse ele —, veja como me mordeu profundamente. Isto basta, creio. Agora, diga-me, que lhe fiz eu?
O menino fitou-o, surpreso.
— Não o conheço absolutamente e vejo-o pela primeira vez —
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prosseguiu Aliocha, com a mesma calma —, mas devo ter-lhe feito alguma coisa, do contrário não me teria você agredido por coisa nenhuma. Vamos, diga-me, que lhe fiz eu e que culpa cometi para com você?
Como resposta, o menino pôs-se a soluçar e fugiu. Aliocha seguiu-o lentamente pela Rua de São Miguel e avistou-o ainda por muito tempo, correndo e chorando, sem se voltar. Prometeu a si mesmo, desde que tivesse tempo, tornar a encontrá-lo, para esclarecer aquele enigma.
IV
EM CASA DAS SENHORAS KHOKHLAKOVI
Não demorou a chegar à residência da Senhora Khokhlakova, cuja casa de pedra, de um andar, era uma das mais belas de nossa cidade. Se bem que vivesse ela a maior parte do tempo numa propriedade situada em outra província, e em sua casa de Moscou, possuía uma em nossa cidade, que lhe vinha de sua família. De resto, a maior de suas três propriedades encontrava-se em nosso distrito, mas só raramente havia ela vindo à nossa província. Acorreu ao encontro de Aliocha no vestíbulo.
— Recebeu minha carta a propósito do novo milagre? — perguntou ela, nervosamente.
— Sim, recebi-a.
— Fê-la circular, mostrou-a a todos? Ele restituiu um filho à sua mãe!
— Morrerá hoje — disse Aliócha.
— Sei. Oh! como gostaria de falar de tudo isso, com você ou com um outro! Não, com você, com você! E dizer que não posso vê-lo! É pena.
Toda a cidade está emocionada, todos estão na expectativa. A propósito...
sabe que Catarina Ivânovna acha-se neste momento em nossa casa?
— Ah! que feliz encontro! — exclamou Aliócha. — Ontem recomendou-me que viesse vê-la sem falta.
— Sei, sei. Contaram-me pormenorizadamente o que se passou ontem... aquela cena horrível com aquela... criatura. C'est ira-gique! No lugar dela, não sei o que teria feito. E seu irmão, Dimítri Fiodorovitch, que homem, meu Deus! Alieksiei Fiodorovitch, estou-me atrapalhando; 189
imagine que seu irmão está aqui, isto é, não aquela terrível personagem, mas o outro, Ivã Fiodorovitch. Está tendo uma conversa solene com Catarina Ivânovna... Se você soubesse o que se passa entre eles, é terrível, é dilacerante, é um conto inverossímil; atormentam-se com prazer, eles mesmos o sabem e disso extraem um gozo acre. Eu o esperava, tinha sede de você! Sobretudo, não posso suportar isso. Vou contar-lhe tudo, mas há outra coisa, essencial. Ah! tinha esquecido de que era o essencial. Diga-me, por que Lisa está com uma crise nervosa? Ficou assim logo que foi informada de sua chegada.
— Mamãe, é a senhora quem está agora numa crise, e não eu —
gorjeou de repente a voz de Lisa, que vinha do quarto vizinho, através da porta entreaberta. A abertura era exígua e a voz aguda, tal como quando se tem uma violenta vontade de rir e se faz esforço para reprimi-la.
Aliócha notara aquela fenda, por onde Lisa devia examiná-lo de sua cadeira, sem que ele pudesse dar-se conta disso.
— Pode bem dar-se, Lisa, que esteja eu com uma crise, diante de teus caprichos, e, no entanto, Alieksiei Fiodorovitch, esteve ela bastante doente a noite inteira: febre, gemidos! Com que impaciência esperei o raiar do dia e a chegada do Doutor Herzenstube! Diz ele que não compreende nada, que é preciso esperar. Quando vem, repete sempre a mesma coisa. Assim que o senhor entrou, lançou ela um grito e quis ser transportada para seu antigo quarto...
— Mamãe, eu não sabia absolutamente que ele vinha; não foi para evitá-lo que quis passar para meu quarto.
— Não é verdade, Lisa, Iúlia tocaiava a chegada de Alieksiei Fiodorovitch e correu a anunciar-te a chegada dele.
— Querida mamãezinha, não está direito isso, de sua parte; se quer dizer algo de mais espirituoso, diga ao nosso caro visitante, Alieksiei Fiodorovitch, que demonstrou ele sua falta de espírito somente com decidir vir à nossa casa, depois do dia de ontem, e apesar de toda gente zombar dele.
— Lisa, vais longe demais, e asseguro-te que recorrerei a medidas rigorosas. Ninguém zomba dele, estou tão contente por ter ele vindo! É-me necessário, indispensável. Oh! Alieksiei Fiodorovitch, quanto sou infeliz!
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— Que tem então a senhora, mamãezinha?
— O que me mata, Lisa, são teus caprichos, tua inconstância, rua doença, essa terrível noite de febre, aquele horrendo, aquele eterno Herzenstube, e enfim tudo, tudo... E depois esse milagre! Oh! como ele me impressionou, me transtornou, querido Alieksiei Fiodorovitch! E aquela tragédia no salão, que não posso suportar, afirmo-lhe, é impossível. Uma comédia, talvez, e não uma tragédia. Diga-me, o stáriets Zósima viverá até amanhã? Oh! meu Deus! Que é que me acontece? Fecho os olhos a cada instante e digo a mim mesma que tudo é absurdo, absurdo.
— Ficar-lhe-ia muito grato — interrompeu-a de repente Aliócha —
se me desse um pedacinho de pano para pensar meu dedo; feri-me e está-me doendo muito.
Aliócha descobriu seu dedo mordido, o lenço cheio de sangue. A Senhora Khokhlakova lançou um grito, fechou os olhos.
— Meu Deus! Que ferimento, é horrível!
Assim que Lisa viu o dedo de Aliócha através da fenda, escancarou a porta.
— Venha, venha ter comigo — disse ela, com uma voz imperiosa —, agora, chega de tolices! Oh! Deus! Por que ficou tanto tempo sem nada dizer? Teria ele podido perder todo o seu sangue, mamãe! Onde e como lhe aconteceu isso? Antes de tudo água, água! É preciso lavar a ferida, mergulhar o dedo na água fria para fazer cessar a dor e conservá-lo ali muito tempo... Depressa, água, mamãe, numa tigela! Mais depressa, vamos — disse ela, com um movimento nervoso. Estava bastante amedrontada; a ferida de Aliócha consternava-a.
— Não será preciso ir chamar Herzenstube? — exclamou a mãe.
— Mamãe, a senhora me mata. Seu doutor virá para dizer que não compreende nada! Água, água, mamãe, pelo amor de Deus! Vá a senhora mesmo estimular Iúlia, que se retardou não sei onde; nunca pode chegar a tempo! Mais depressa, mamãe, ou eu morro... morro...
— Mas é uma coisa de nada! — exclamou Aliócha, espantado com aquele terror.
Iúlia acorreu com a água. Aliócha mergulhou nela o dedo.
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— Mamãe, suplico-lhe, traga um pouco de gaze e daquela água turva para cortes, como é que se chama? Temos dela, temos dela... mamãe, a senhora sabe onde está o frasco, no seu quarto de dormir, no armário à direita; há um grande frasco e fios.
— Imediatamente, Lisa, mas não grites, não te enerves. Tu vês com que coragem Alieksiéi Fiódorovitch suporta sua dor. Onde se feriu o senhor assim, Alieksiéi Fiódorovitch?
Ela saiu imediatamente. Lisa só esperava por isso.
— Antes de tudo, responda à minha pergunta — disse ela rapidamente. — Onde pôde ferir-se assim? Depois falaremos de outra coisa.
Vamos!
Adivinhando que o tempo se tornava precioso, Aliócha fez-lhe uma narrativa exata, se bem que resumida, de seu estranho encontro com os colegiais. Depois de havê-lo escutado, Lisa juntou as mãos.
— Como pode você, e ainda mais com esse hábito, andar às voltas com garotos? — exclamou ela, encolerizada, como se tivesse direitos sobre ele. — Mas, afinal, não passa você mesmo de um garoto, o menor dentre eles. No entanto, não deixe de informar-se a respeito desse diabrete e conte-me tudo; deve haver nisso um segredo. Outra coisa agora. Poderia você, malgrado sua dor, falar discretamente a respeito de bagatelas, Alieksiéi Fiódorovitch?
— Mas sim, aliás não me está doendo mais tanto.
— É porque seu dedo está dentro da água. É preciso mudá-la imediatamente, ela esquentará. Iúlia, vai procurar um pedaço de gelo na adega e nova tigela com água. Já se foi ela, abordo o assunto. Meu querido Alieksiéi Fiódorovitch, queira entregar-me imediatamente minha carta, mamãe pode voltar dum minuto para outro, e eu não quero...
— Não a tenho comigo.
— Não é verdade, tem sim, estava certa de que você me daria essa resposta. Lamentei tanto a noite inteira aquela estúpida pilhéria!
Entregue-me minha carta agora mesmo. Entregue-ma!
— Deixei-a em casa!
— Você não pode tomar-me por uma meninota, depois da tola 192
pilhéria de minha carta. Peço-lhe perdão! Mas traga-ma; se verdadeiramente não está com você, traga-a hoje sem falta.
— Hoje, é impossível, porque volto para o mosteiro e não voltarei a vê-la por dois dias, três ou quatro talvez, porque o stariets Zó-sima...
— Quatro dias, que absurdo! Escute, riu muito de mim?
— Absolutamente.
— Por que então?
— Porque acreditei em você, absolutamente.
— Você me ofende!
— De modo algum. Pensei, imediatamente depois de ter lido, que isto se daria, porque desde que o stariets tiver morrido, terei de deixar o mosteiro. Em seguida acabarei meus estudos, farei meus exames e depois do prazo legal casar-nos-emos. Amá-la-ei bastante. Embora não tenha tido tempo de pensar nisso, refleti que não encontraria jamais uma mulher melhor que você e o stariets ordena que eu me case..
— Sou um monstro, fazem-me rodar numa cadeira! — objetou, rindo, Lisa, com as faces incendidas.
— Eu mesmo a farei rodar, mas estou certo de que até lá estará você restabelecida.
— Mas você está louco! — proferiu Lisa, nervosamente. — Tirar tal conclusão duma simples brincadeira!... Aí vem mamãe, talvez muito a propósito. Mamãe, como se pode demorar tanto tempo?! E eis Iúlia que traz o gelo.
— Ah! minha Lisa, não grites, não grites principalmente. Tenho a cabeça rebentada... é culpa minha que hajas posto os fios noutro lugar?...
Procurei, procurei... Suponho que o fizeste de propósito.
— Eu não podia adivinhar que ele chegaria com um dedo mordido, se soubesse tê-lo-ia feito de propósito. Minha querida mamãe, a senhora começa a dizer coisas muito espirituosas.
— Espirituosas? Pois seja. Mas quanta pena do dedo de Alieksiéi Fiódorovitch, Lisa, e de tudo isso! Oh! meu caro Alieksiéi Fiódorovitch, não são os detalhes que me matam, nem um Herzenstube qualquer, mas 193
tudo junto, tudo reunido, eis o que não posso suportar.
— Basta de tanto Herzenstube, mamãe — continuou Lisa, com um riso jovial —, dê-me mais depressa a gaze e a água. É muito simples, "água branca", Alieksiéi, o nome me ocorre, um excelente remédio. Mamãe, imagine a senhora que ele brigou com garotos na rua e foi um que lhe deu uma dentada; não é ele mesmo um garotinho e poderá ele casar-se, mamãe, depois dessa aventura? Porque, imagine a senhora, ele quer casar-se! Pode imaginá-lo casado? Não é de morrer de rir?
E Lisa ria, aquela sua risadinha nervosa, olhando maliciosamente para Aliócha.
— Mas como haveria ele de casar-se, Lisa, que coisa sem pé nem cabeça! É muito fora de propósito de tua parte... Aquele garoto poderia estar danado!
— Ah! mamãe, há crianças danadas?
— Por que não, Lisa? Nem que estivesse eu dizendo uma bobagem!
Aquele garoto foi mordido por um cão danado, ele mesmo ficou danado, passa a morder alguém por sua vez. Como o curou bem ela, Alieksiéi Fiódorovitch! Eu nunca teria podido fazê-lo assim. Sente dor?
— Muito pouca.
— Não tem medo da água? — perguntou Lisa.
— Basta, Lisa, falei talvez demasiado apressadamente de raiva, a propósito daquele garoto, e tu concluis Deus sabe o quê. Catarina Ivânovna acaba de saber de sua chegada, Alieksiéi Fiódorovitch. Deseja ardentemente vê-lo.
— Ah! mamãe, vá sozinha; ele não pode ainda, sofre demais.
— Não estou sofrendo absolutamente, posso ir muito bem — protestou Aliócha.
— Como? Vai-se embora? Ah! é assim?
— Pois bem, quando terminar, voltarei e poderemos tagarelar tanto quanto você queira. Tenho pressa de ver Catarina Ivânovna, porque desejo voltar o mais cedo possível para o mosteiro.
— Mamãe, leve-o bem depressa. Alieksiéi Fiódorovitch, não se dê ao 194
trabalho de vir ter comigo depois de ter visto Catarina Ivânovna. Volte direto para seu mosteiro, é sua vocação! Eu estou com vontade de dormir, passei a noite em claro.
— Ah! Lisa, estás brincando, decerto, mas se dormisses deveras?
— Ficarei ainda uns três minutos, até mesmo cinco, se você quiser —
balbuciou Aliócha.
— Leve-o, pois, depressa, mamãe, é um monstro.
— Lisa, perdeste a cabeça. Vamos, Alieksiéi Fiódorovitch, está ela demasiado caprichosa hoje, tenho medo de enervá-la. Oh! que desgraça uma mulher nervosa, Alieksiéi Fiódorovitch! Mas talvez tenha ela realmente vontade de dormir. Como sua presença a inclinou depressa para o sono! Que coisa boa!
— Mamãe, como fala gentilmente a senhora! Dou-lhe um beijinho por isso.
— Eu também, Lisa. Escute, Alieksiéi Fiódorovitch — cochichou ela com um ar misterioso, importante, afastando-se com o rapaz —, não quero influenciá-lo, nem erguer o véu; vá ver você mesmo o que se passa: é terrível. A comédia mais fantástica; ela ama seu irmão Ivã Fiódorovitch e trata de persuadir-se de que está apaixonada por Dimítri Fiódorovitch. É
horrível! Acompanho-o, e, se quiserem, esperarei.
V
O TUMULTO NO SALÃO
A conversa no salão tinha terminado; Catarina Ivânovna, superexcitada, mostrava, no entanto, um ar resoluto. Quando Aliócha e a Senhora Khokhlakova entraram, Ivã Fiódorovitch levantava-se para partir.
Estava um pouco pálido e seu irmão examinou-o com inquietação.
Aliócha encontrava agora a solução para uma dúvida, para um enigma que o atormentava desde algum tempo. Por diversas vezes, desde um mês, tinham-lhe sugerido que seu irmão Ivã amava Catarina Ivânovna, e sobretudo que estava ele a "tomá-la" de Mítia. Até então parecera isto monstruoso a Aliócha, inquietando-o fortemente. Amava seus dois irmãos 195
e aterrorizava-se com a rivalidade deles. Entretanto, Dimítri havia-lhe declarado na véspera que se sentia feliz por ter como rival seu irmão, que isso lhe prestava grande, serviço. Em quê? Para se casar com Grúchenhka?
Mas era essa resolução desesperada. Além disso, crera Aliócha firmemente, até a véspera à noite, no amor apaixonado e obstinado de Catarina Ivânovna por Dimítri, até a véspera à noite somente. Parecia-lhe também que ela não podia amar um homem como Ivã, mas que amava Dimítri tal como ele era, malgrado a estranheza de tal amor. Mas, durante a cena com Grúchenhka, suas impressões tinham mudado. A palavra
"dilacerante", empregada havia pouco pela Senhora Khokhlakova, perturbava-o, porque na noite passada, semi-acordado ao raiar do dia, pronunciara-a ele duas vezes, provavelmente sob a impressão de seu sonho; a noite inteira revira aquela cena. Agora, a afirmação categórica da Senhora Khokhlakova de que a moça amava Ivã, que seu amor por Dimítri não passava de um logro, de um amor de empréstimo que ela se infligia por jogo, por "dilaceramento", sob o império da gratidão, essa afirmação impressionava Aliócha: 'Talvez seja verdade!" Mas, então, qual era a situação de Ivã? Aliócha adivinhava que um caráter como o de Catarina Ivânovna tinha necessidade de dominar; ora, aquele domínio não podia exercer-se senão sobre Dimítri, e não sobre Ivã. Porque somente Dimítri (suponhamos que só por pouco tempo) poderia enfim submeter-se a ela "para sua felicidade" (isso teria desejado também Aliócha), mas Ivã não o poderia; aliás, essa submissão não o teria tornado feliz. Tal era a idéia que Aliócha fazia involuntariamente de Ivã. Era presa dessas hesitações e dessas reflexões ao entrar no salão. Outra idéia se impôs a ele de repente: "E se ela não amasse nem a um nem a outro?" Notemos que Aliócha tinha vergonha de tais pensamentos e censurava a si próprio, quando por vezes lhe sobrevinham, no derradeiro mês. "Que entendo eu do amor e das mulheres e como posso tirar tais conclusões?", dizia a si mesmo, depois de cada conjectura. Entretanto, a reflexão se impunha.
Adivinhava que aquela rivalidade era capital no destino de seus dois irmãos. "Os répteis devorar-se-ão um ao outro", dissera ontem Ivã na sua irritação, a propósito de seu pai e de Dimítri. Assim, era Dimítri um réptil aos olhos dele, desde muito tempo talvez. Não seria depois que ele próprio viera a conhecer Catarina Ivânovna? Aquelas palavras haviam, sem dúvida, escapado a Ivã involuntariamente, mas eram por isso mesmo mais graves. Naquelas condições, que paz, que paz poderia haver? Não 196
eram, pelo contrário, novos motivos de ódio e de inimizade na família deles? Sobretudo, a quem deveria ele, Aliócha, lamentar? E que desejar a cada um deles? Amava-os igualmente, mas o que desejar aos dois, entre tão temíveis contradições? Era caso de perder-se naquele labirinto e o coração de Aliócha não podia suportar a incerteza, porque seu amor tinha sempre um caráter ativo. Incapaz de, amar passivamente, sua afeição traduzia-se em uma ajuda. Mas, para isso, era preciso ter um fito, saber claramente o que convinha a cada um e ajudá-los em conseqüência. Em lugar desse fito, só havia confusão e embrulhada. Tinha-se falado em
"dilaceramento". Mas que poderia ele compreender, até mesmo desse dilaceramento'' Não compreendia a primeira palavra daquele enigma!
Vendo Aliócha, Catarina Ivânovna disse vivamente a Ivã Fiódorovitch, que se levantara para partir:
— Um instante! Quero ter a opinião de seu irmão, em quem tenho plena confiança. Catarina Óssipovna, fique também — continuou ela, dirigindo-se à Senhora Khokhlakova. Esta se colocou ao lado de Ivã Fiódorovitch, e Aliócha, em frente, perto da moça.
— Eis meus amigos, os únicos que tenho no mundo — começou ela com uma voz ardente em que tremiam lágrimas de sincera dor, e Aliócha sentiu-se de novo atraído para ela. — Você, Alieksiéi Fiódorovitch, assistiu ontem àquela cena horrível, viu-me. Ignoro o que pensava de mim, mas sei que nas mesmas circunstâncias minhas palavras e meus gestos seriam idênticos. Deve lembrar-se de ter-me contido... (Ao dizer isto, corou e seus olhos cintilaram. ) Declaro-lhe, Alieksiéi Fiódorovitch, que não sei que partido tomar. Ignoro se à amo agora, a ele. Causa-me compaixão, o que é uma ruim marca de amor. Se o amasse, se continuasse a amá-lo, não seria compaixão, mas ódio o que sentiria eu agora...
Sua voz tremia, lágrimas brilhavam em seus cílios. Aliócha estava comovido; aquela moça era leal, sincera, pensava ele, e... não ama mais Dimítri.
— É isto! É isto mesmo! — exclamou a Senhora Khokhlakova.
— Espere, cara Catarina Óssipovna. Não lhe disse o essencial, a decisão que tomei esta noite. Sinto que minha resolução é talvez terrível, para mim, mas pressinto que não a mudaria por preço nenhum. Meu caro conselheiro, bom e generoso, meu confidente, o único amigo que tenho no 197
mundo, Ivã Fiódorovitch, aprova-me inteiramente e louva minha resolução...
— Sim, aprovo-a — disse Ivã, em voz baixa, mas firme.
— Mas desejo que Aliócha — desculpe-me chamá-lo assim —, desejo que Alieksiéi Fiódorovitch me diga agora, diante de meus dois amigos, se tenho razão ou não. Adivinho que você, Aliócha, meu caro irmão (porque o é) — repetia ela com arrebatamento, agarrando-lhe a mão gelada com a sua ardente —, adivinho que sua decisão, sua aprovação me tranqüilizarão, malgrado meus sofrimentos, porque após suas palavras acalmar-me-ei e resignar-me-ei, pressinto-o!
— Ignoro o que me vai pedir — disse Aliócha, corando. — Sei somente que a amo e que lhe desejo neste momento mais felicidade que a mim mesmo!... Mas nada entendo de tais negócios... — apressou-se ele a acrescentar, sem saber por quê...
— O essencial em tudo isto é a honra e o dever, e algo de mais alto, que ultrapassa talvez o próprio dever. Meu coração me dita esse sentimento irresistível e me arrasta. Em suma, minha decisão está tomada.
Mesmo se ele desposar aquela... criatura, a quem não poderei jamais perdoar, não o abandonarei, no entanto! Doravante, não o abandonarei jamais! — disse ela, presa de uma exaltação mórbida. — Bem entendido, não tenho a intenção de correr atrás dele, de impor-lhe minha presença, de importuná-lo, oh! não! Irei para outra cidade, não importa onde, mas não deixarei de interessar-me por ele. Quando se sentir infeliz com a outra — e isto não tardará —, que ele venha a mim, encontrará uma amiga, uma irmã... Uma irmã apenas, decerto, e isto para toda a vida, uma irmã amorosa, que lhe terá sacrificado sua existência. Conseguirei, à força de perseverança, fazer-me afinal apreciar por ele, ser sua confidente, sem que ele venha a corar por isso! — exclamou ela, como que enlouquecida. —
Serei seu Deus, a quem dirigirá ele suas preces, é o menos que ele me deve por ter-me traído e por tudo quanto suportei ontem por causa dele. E ele verá que permanecerei eternamente fiel à palavra uma vez dada, malgrado suas infidelidades e sua traição. Serei apenas o meio, o instrumento de sua felicidade, por toda a sua vida, por toda a sua vida! Eis minha decisão. Ivã Fiódorovitch aprova-me altamente.
Sufocava. Talvez tivesse querido exprimir seu pensamento com 198
mais dignidade, naturalidade, mas o fez com demasiada precipitação e sem rebuços. Havia em suas palavras muita exuberância juvenil; refletiam elas a irritação da véspera, a necessidade de orgulhar-se; ela mesma dava-se conta disso. De súbito, seu rosto ensombreceu-se, seu olhar tornou-se mau. Aliócha percebeu-o e a compaixão despertou nele. Seu irmão acrescentou algumas palavras.
— É, com efeito, a expressão de meu pensamento. Em qualquer uma outra, isto teria parecido excessivo e atormentado. Outra não teria tido razão, mas você a tem. Não sei como motivar isto, mas vejo que você é completamente sincera e por isso é que tem razão...
— Mas só por um instante... Ora, que é esse instante? É unicamente o ressentimento de ontem — não pôde impedir-se de dizer com justeza a Senhora Khokhlakova, malgrado seu desejo de não intervir.
— Oh! sim! — disse Ivã, com uma espécie de irritação e visivelmente vexado por ter sido interrompido. — É isto; numa outra, esse instante não seria senão uma impressão passageira, mas com o caráter de Catarina Ivânovna durará isto toda a sua vida. O que para outras não seria senão uma promessa no ar, será para ela um dever eterno, penoso, sombrio talvez, mas incessante. E ela se repastará com o sentimento desse dever cumprido! Sua existência, Catarina Ivânovna, consumir-se-á agora numa dolorosa contemplação de seus sentimentos heróicos e de seu pesar. Mas com o tempo esse sofrimento se acalmará, viverá você na doce contemplação dum desígnio firme e altivo, realizado duma vez por todas, desesperado na verdade, mas que você logrou vencer. Esse estado de espírito lhe proporcionará por fim a satisfação mais completa e a reconciliará com tudo o mais...
Exprimira-se com uma espécie de rancor, visivelmente intencional e sem procurar dissimular sua intenção irônica.
— Oh! Deus, quanto tudo isso é falso! — exclamou de novo a Senhora Khokhlakova.
— Alieksiéi Fiódorovitch, fale! Tarda-me conhecer sua opinião! —
disse Catarina Ivânovna, que se pôs a derramar lágrimas. Aliócha levantou-se.
— Não é nada, não é nada! — prosseguiu ela, chorando. — É o 199
nervoso, a insônia, mas, com amigos como seu irmão e você, sinto-me fortificada... porque sei que vocês não me abandonarão nunca...
— Infelizmente, deverei talvez partir amanhã para Moscou, deixá-la por muito tempo... Essa viagem é indispensável — declarou Ivã Fiódorovitch.
— Amanhã, para Moscou? — exclamou Catarina Ivânovna, de rosto crispado. — Meu Deus! que felicidade! — continuou ela, com uma voz de súbito mudada, contendo suas lágrimas, de que não restou mais nenhum traço. Essa mudança súbita, que impressionou fortemente Aliócha, foi de fato repentina; a infeliz moça, ofendida, chorosa, de coração dilacerado, deu lugar de repente a uma mulher perfeitamente senhora de si mesma e além do mais satisfeita como após uma alegria inesperada.
— Não é sua partida que me alegra, decerto — retificou ela, com o encantador sorriso de uma dama da sociedade. — Um amigo como você não pode crer nisso; sinto-me, pelo contrário, muito infeliz com sua partida (avançou para Ivã Fiódorovitch e, agarrando-lhe as mãos, apertou-as com calor); mas o que me rejubila é que possa você agora expor em Moscou à minha tia e a Agáfia minha situação em todo o seu horror, francamente com Agáfia, mas poupando minha tia querida, como é você capaz de fazê-lo. Não pode você imaginar quanto me sentia infeliz ontem e esta manhã, perguntando a mim mesma como escrever a elas essa terrível carta... porque não se pode, exprimir isso por escrito... Agora, ser-me-á fácil escrever-lhes, porque estará você em pessoa em casa delas para explicar tudo. Oh! como sou feliz! Mas por isto somente, repito-lhe. Você me é indispensável certamente... Corro a escrever essa carta — concluiu ela, dando um passo para sair do salão.
— E Aliócha? E a opinião de Alieksiéi Fiódorovitch, que você desejava tão vivamente conhecer? — exclamou a Senhora Khokhla-kova, com uma entonação sarcástica e irritada.
— Não o esqueci — disse Catarina Ivânovna, parando. — Mas por que se mostra a senhora de tão má vontade para comigo neste momento, Catarina Óssipovna? — proferiu ela, num tom amargo de censura. —
Confirmo o que disse. Tenho necessidade de saber sua opinião e, bem mais ainda, sua decisão! Será uma lei para mim, tanta sede tenho de suas palavras, Alieksiéi Fiódorovitch... Mas que tem?
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— Jamais pensei, não posso imaginar isso! — disse Aliócha, com ar aflito.
— O quê?
— Ele parte para Moscou, testemunha-lhe a senhorita sua alegria, fê-lo de propósito! Em seguida, explica que não é sua partida que a rejubila, que a lamenta, pelo contrário, que perde... um amigo. Mas aí também representava de propósito... como no teatro, numa comédia!...
— No teatro? Como?... Que diz você? — exclamou Catarina Ivânovna estupefata; corou, franziu o cenho.
— Por mais que afirme lamentar o amigo que parte, declara-lhe redondamente que sua partida é uma felicidade... — proferiu Aliócha ofegante. Mantinha-se de pé, perto da mesa.