Os Irmãos Karamázov
Capítulo 14
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
"A bolsa!" Perdoa minha tolice; é absurdo, mas no fundo da alma... sou bom... Pois bem! com o diabo! Fala pois, que houve lá? Que foi que ela 163
disse? Esmaga-me, bate-me, não me poupes! Ela está exasperada?
— Não... não é totalmente isto, Mítia. Encontrei as duas.
— Quais duas?
— Grúchenhka em casa de Catarina Ivânovna. Dimítri ficou estupefato.
— É impossível! — exclamou. — Deliras! Grúchenhka em casa dela?
Numa narrativa despida de artifício, mas não de clareza, expôs Aliócha o essencial do que se passara, acrescentando-lhe suas próprias impressões. Seu irmão escutava-o em silêncio, fixando-o com um ar impassível, mas Aliócha via claramente que ele já havia compreendido tudo, elucidado todo o caso. À medida que a narrativa avançava, seu rosto tornava-se não sombrio, mas ameaçador. Franzia o cenho, de dentes cerrados, o olhar ainda mais fixo, mais terrível na sua obstinação... A mudança súbita que ocorreu em seu rosto encolerizado foi por isso mesmo totalmente inesperada; seus lábios crispados distenderam-se, e Dimítri Fiódorovitch explodiu na gargalhada mais irresistível e mais franca. Ficou um bom momento sem poder falar, à força de rir.
— De modo que ela não lhe beijou a mão! Fugiu sem beijar-lhe a mão! — exclamou ele num arrebatamento mórbido, que se teria podido qualificar de impudente, se não fosse tão ingênuo. — E a outra chamou-a de teoriza? É uma mesmo! Devia subir ao cadafalso! Certamente, estou de acordo; deveriam tê-lo feito desde muito. Mas não é tudo, irmão, é preciso em primeiro lugar recuperar a saúde. Ela está toda inteira nesse beijo de mão, aquela rainha da impudência, aquela criatura infernal! É a rainha de todas as fúrias que se possam imaginar! De encher de entusiasmo, de certa maneira! Partiu para sua casa? Agora mesmo... corro até lá.
Aliócha, não me acuses, convenho que seria pouco o estrangulá-la...
— E Catarina Ivânovna? — perguntou tristemente Aliócha.
— Também a compreendo, como até agora tenho compreendido! Ê a descoberta das quatro partes do mundo, das cinco, quero dizer! Tal passo que deu! Ê bem a mesma Catarina, a pensionista que não receia ir ter com um oficial grosseiro, com o nobre desígnio de salvar seu pai, arriscando-se a ser insultada! Mas essa altivez, essa sede do perigo, esse desafio ao destino, até os derradeiros limites!... Sua tia, dizes, queria impedi-la? É
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uma mulher despótica, irmã daquela generala de Moscou; fazia muito embaraço, mas seu marido foi acusado de malversações, perdeu tudo, seus bens e o resto, sua orgulhosa esposa teve de baixar o tom. De modo que retinha ela Cátia, mas esta não a escutou. "Posso tudo vencer, tudo me é submetido, enfeitiçarei Grúchenhka, se quiser. " Acreditava bem nisso decerto, e forçou seu talento. De quem a culpa? Pensas que tenha sido intencionalmente que beijou por primeira a mão de Grúchenhka, por cálculo e por astúcia? Não, deixou-se enfeitiçar nada mais nada menos por Grúchenhka, isto é, não por ela, mas pelo seu sonho, pelo seu desejo, muito simplesmente, porque esse sonho, esse desejo eram os seus! Aliócha, como pudeste escapar a semelhantes mulheres? Fugiste, arrepanhando a batina, hein? Ah! ah! ah!
— Irmão, não pensaste, creio, na ofensa que fizeste a Catarina Ivânovna contando a Grúchenhka sua visita à tua casa; Grúchenhka lançou-lhe em rosto que "ela ia furtivamente traficar seus encantos". Há pior injúria, meu irmão?
A idéia de que seu irmão se rejubilava com a humilhação de Catarina Ivânovna atormentava Aliócha, embora sem razão, evidentemente.
— Ah! sim! — disse Dimítri, franzindo as sobrancelhas e batendo na testa. Somente agora se dava conta, se bem que Aliócha tivesse tudo contado ao mesmo tempo, a injúria e o grito de Catarina Ivânovna: "Seu irmão é um canalha!" — Sim, com efeito, devo ter falado a Grúchenhka daquele "dia fatal", como diz Cátia. Deveras, contei-lhe, lembro-me! Foi em Mókroie, enquanto os ciganos cantavam; estava embriagado... Mas então eu soluçava, rezava de joelhos diante da imagem de Cátia.
Grúchenhka compreendia-o, ela mesma chorava... Ah! diabos! poderia ser de outro modo agora? Ela chorava então, agora crava um punhal no coração. Eis as mulheres!
Pôs-se a refletir, de cabeça baixa.
— Sim, sou um verdadeiro canalha — proferiu ele, de súbito, com voz sombria. — Que tenha chorado ou não, tanto faz. Conta-lhe que aceito o qualificativo, se isto pode consolá-la. Pois bem! chega, de que serve tagarelar? Não é divertido. Sigamos cada qual nossa estrada. Não quero mais rever-te antes do derradeiro momento. Adeus, Alieksiéi!
Apertou fortemente a mão de Aliócha e, sem erguer a cabeça, como 165
um evadido, caminhou a grandes passadas para a cidade. Aliócha acompanhou-o com o olhar, não podendo crer que tivesse ele partido deveras.
— Espera, Alieksiéi, ainda uma confissão, para ti somente! (Dimítri retrocedera. ) — Olha-me bem no rosto: aqui, vês tu, aqui, uma infâmia execrável se prepara. (Ao dizer isto, Dimítri batia no peito com um ar estranho, como se a infâmia estivesse depositada em seu peito ou suspensa ao seu pescoço. ) Já me conheces como um canalha chapado.
Mas, fica sabendo, o que quer que eu tenha feito, o que quer que possa fazer no futuro, nada se compara em baixeza com a infâmia que trago no meu peito e que poderia reprimir, mas não o farei, fica sabendo. Prefiro cometê-la. Tudo te contei há pouco, exceto isto, não tinha coragem! Posso ainda deter-me e, dessa maneira, recuperar amanhã a metade de minha honra, mas não renunciarei a isto, cumprirei meu negro desígnio, poderás ser testemunha de que falo disso antecipadamente e cientemente. Perdição e trevas! Inútil explicar-te, sabê-lo-ás a seu tempo. A lama é uma verdadeira fúria! Adeus. Não rezes por mim, não sou digno e não tenho necessidade de oração nenhuma... Sai de meu caminho!...
Afastou-se desta vez, definitivamente. Aliócha seguiu para o mosteiro. "Como! Não o verei mais? Que é que ele diz?" Isto pareceu-lhe esquisito. "Amanhã, sem falta, pôr-me-ei à sua procura. Que quis ele dizer?"
Contornou o mosteiro e seguiu diretamente para o eremitério através do bosque de pinheiros. Abriram-lhe, se bem que não deixassem entrar ninguém àquela hora. Entrou na cela do stáriets, com o coração palpitante. "Por que partira ele? Por que o haviam enviado ao mundo?
Aqui, a paz, a santidade; lá, a perturbação, as trevas nas quais a gente se perde... "
Na cela encontravam-se o noviço Porfírio e um religioso, o Padre Paísi, que o dia inteiro viera a cada hora saber notícias do Padre Zósima.
Seu estado piorava, como veio a saber Aliócha, com espanto. A conversa habitual da noite com a comunidade não pudera realizar-se daquela vez.
Comumente, à noite, após o ofício, a comunidade, antes de ir repousar, reunia-se na cela do stáriets; cada qual lhe confessava bem alto suas faltas do dia, os sonhos culpados, as idéias, as tentações, até as rusgas entre monges, se alguma ocorrera. Outros se confessavam, de joelhos. O stáriets 166 absolvia, acalmava, ensinava, impunha penitências, abençoava e despedia.
Era contra essas "confissões" fraternais que se levantavam os adversários do stáriets, dizendo que era aquilo uma profanação da confissão, como sacramento, quase um sacrilégio, se bem que fosse coisa bem diversa.
Haviam mesmo feito denúncia à autoridade diocesana de que não somente aquelas confissões não atingiam o seu fim, mas eram na realidade uma fonte de pecados e de tentações. A muitos, na comunidade, repugnava ir à casa do stáriets e ali apareciam de má-vontade, a fim de não passarem por orgulhosos e revoltados de espírito. Contava-se que certos monges, ao irem à confissão da noite, entendiam-se entre si de antemão:
"Direi que me zanguei contra ti esta manhã, tu o confirmarás", isto a fim de ter alguma coisa que dizer e ver-se livre daquilo. Aliócha sabia que as coisas se passavam por vezes assim. Sabia também que alguns se indignavam bastante contra o costume segundo o qual as cartas, mesmo dos pais, recebidas pelos solitários, eram levadas em primeiro lugar ao stáriets, para que ele as abrisse e lesse antes de seus destinatários.
Supunha-se, bem entendido, que essas práticas deviam realizar-se livremente e sinceramente, de todo o coração, com um fim de edificação salutar e de submissão voluntária; de fato, acontecia que, longe de serem sinceras, não eram senão fingidas. Mas os mais idosos e os mais experimentados da comunidade persistiam em sua idéia, estimando que
"os que tinham transposto o recinto para cuidar sinceramente de sua salvação encontravam naquela obediência e naquela abdicação de si mesmos um proveito dos mais salutares; mas que os que murmuravam com repugnância não tinham a vocação e melhor teriam feito se tivessem ficado no mundo. O pecado e a tentação vos tocaiam não somente no mundo, mas no santuário, melhor valia não se prestar a isso".
— Está enfraquecendo, sonolento — murmurou o Padre Paísi a Aliócha. — É difícil despertá-lo. E para quê? Acordou por uns cinco minutos e pediu que se transmitisse sua bênção à comunidade, cujas preces solicita. Amanhã de manhã, tem intenção de comungar de novo. Lembrou-se de ti, Aliócha, informou-se de onde estavas, disseram-lhe que havias partido para a cidade. "Minha bênção o acompanhe ali; seu lugar é lá e não aqui. " És o objeto de seu amor e de sua solicitude, compreendes essa honra? Mas por que te marca ele um estágio no mundo? Será que pressente alguma coisa no teu destino? Se voltares ao mundo, é para cumprir uma tarefa imposta pelo teu stáriets, compreende-o, Alieksiéi, e 167
não para te entregares à agitação vã e às obras do século...
O Padre Paísi saiu. Alieksiéi não duvidava de que o fim do stáriets estivesse próximo, muito embora pudesse viver ainda um dia ou dois.
Jurou a si mesmo, malgrado os compromissos tomados para com seu pai, as senhoras Khokhlakovi, seu irmão, Catarina Ivânovna, não deixar o mosteiro no dia seguinte e ficar junto do stáriets até seu derradeiro momento. Seu coração abrasava-se de amor e censurava-se amargamente ter podido esquecer um instante, lá embaixo, aquele que deixara em seu leito de morte e a quem venerava acima de tudo. Passou para o quarto de dormir, ajoelhou-se, prosternou-se diante da cama dele. O stáriets repousava tranqüilamente, mal se ouvia sua respiração. Seu rosto estava calmo.
Voltando ao quarto vizinho, onde tivera lugar a recepção da manhã, contentou-se Aliócha com tirar suas botas e estendeu-se sobre o estreito e duro diva de couro onde se acostumara a dormir, valendo-se apenas de um travesseiro. Desde muito tempo renunciara ao colchão de que falava seu pai. Só fazia tirar sua batina, que lhe servia de coberta. Antes de adormecer, ajoelhou-se e pediu a Deus numa prece fervorosa que o esclarecesse, ansioso por tornar a encontrar o apaziguamento que experimentava sempre outrora, depois de ter louvado e glorificado a Deus, como o fazia comumente na sua prece da noite. A alegria que o invadia proporcionava-lhe um sono leve e tranqüilo. Enquanto rezava, sentiu em seu bolso o envelopinho côr-de-rosa, entregue pela criada de Catarina Ivânovna, que o alcançara na rua. Ficou perturbado, mas acabou sua prece.
Depois abriu o envelope, com alguma hesitação. Continha um bilhete a ele dirigido, assinado por Lisa, a filha da Senhora Khokhlakova, que zombara dele pela manhã, na presença do stáriets.
A lieksiéi Fiódorovitch:
Escrevo-lhe às ocultas de todos e de minha mãe, e sei que isto não está bem.
Mas não posso viver mais tempo sem dizer-lhe o que me nasceu no coração e que ninguém, a não ser nós dois, deve saber até nova ordem. Dizem que o papel não cora, que engano! Asseguro-lhe que estamos agora bem corados um e outro.
Querido Aliócha, eu o amo, eu o amo desde minha infância, desde Moscou, quando era você bem diferente do que é agora. Elegi-o em meu coração para me unir a você e acabarmos nossos dias juntos. Bem entendido, com a condição de que deixe você o mosteiro. Quanto à nossa idade, esperaremos tanto quanto a lei o 168
exija. Daqui até lá, estarei restabelecida, andarei, dançarei. Isto não tem dúvida nenhuma.
Vê você que calculei tudo, mas há uma coisa que não posso imaginar: que pensará você de mim lendo estas linhas? Rio, brinco, fi-lo zangar-se há pouco, mas asseguro-lhe que antes de pegar da pena rezei diante da imagem da Virgem, quase chorando.
Meu segredo está em suas mãos e quando você vier, amanhã, não sei como poderei encará-lo. Alieksiéi Fiódorovitch, que acontecerá, se não puder impedir-me de rir ao vê-lo, como esta manhã? Você me tomará por uma zombadora implacável e duvidará de minha carta. Assim, suplico-lhe, meu querido, que não me olhe demasiado o rosto quando vier, porque pode acontecer que rebente a rir à vista de sua batina comprida... Já agora, meu coração fica gelado só de pensar nisso; para começar, lance seus olhares para mamãe ou para a janela...
Eis que lhe escrevi uma carta de amor. Meu Deus, que fiz eu? Aliócha, não me despreze; se agi mal e o magôo, desculpe-me. Agora, a sorte de minha reputação, talvez perdida, está entre suas mãos.
Haverei de chorar hoje por certo. Adeus, até essa entrevista terrível...
PS. — Aliócha, venha sem falta, sem falta. Lisa.
Aliócha leu duas vezes aquela carta com surpresa, ficou pensativo, depois riu docemente de prazer. Estremeceu, aquele riso lhe parecia culpado. Mas, ao fim de um instante, repetiu o mesmo riso feliz. Tornou a pôr a carta no envelope, fez um sinal-da-cruz e deitou-se. Sua alma havia reencontrado a calma. "Senhor, perdoa-lhes a todos, protege esses infelizes e agitados, guia-os, mantém-nos no bom caminho. Tu que és o amor, concede a todos a alegria!" E Aliócha adormeceu num sono tranqüilo.
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SEGUNDA PARTE
LIVRO IV
OS TUMULTOS
I
O PADRE FIERAPONT
Aliócha despertou antes do amanhecer. O stáriets já não dormia e se sentia bastante fraco, mas quis levantar-se e sentar-se numa cadeira.
Estava em plena consciência. Seu rosto, embora esgotado, refletia uma alegria serena, o olhar alegre, afável, atraía. — Talvez não veja o fim deste dia — disse ele a Aliócha. Quis logo confessar-se e comungar. Seu diretor habitual era o Padre Paísi. Depois administraram-lhe a extrema-unção. Os religiosos reuniram-se; a cela, pouco a pouco, encheu-se; o dia amanhecera; vieram também monges do mosteiro. Depois do ofício, o stáriets quis despedir-se de todos e beijou a todos. Tendo em vista a exigüidade da cela, os primeiros chegados cediam lugar aos outros.
Aliócha mantinha-se junto do stáriets, de novo sentado em sua cadeira.
Falava e ensinava de acordo com suas forças; sua voz, embora fraca, era ainda bastante nítida. "Desde tantos anos vos instruo pela palavra, que se tornou isso para mim um hábito tal que o silêncio me seria quase mais penoso, caros padres e irmãos, mesmo agora, em meu estado de fraqueza", disse ele, brincando, olhando com ar enternecido aqueles que se acotovelavam em redor dele. Aliócha lembrou-se depois de algumas de suas palavras. Mas, muito embora sua voz fosse distinta e suficientemente firme, sua fala era bastante desconexa. Falou muito, como se tivesse querido, naquela hora suprema, exprimir tudo quanto não pudera dizer durante sua vida, não com o único fim de instruir, mas para fazer todos partilharem de sua alegria e de seu êxtase, expandir por uma derradeira vez seu coração...
— Amai-vos uns aos outros, meus padres — ensinava o stáriets (segundo as recordações de Aliócha). — Amai ò povo cristão. Não somos mais santos do que os leigos, por ter vindo encerrar-nos dentro destas 170
paredes; pelo contrário, todos aqueles que estão aqui têm reconhecido, pelo simples fato de sua presença, ser piores do que os leigos e do que todo mundo... E quanto mais o religioso viver em seu retiro, tanto mais deverá ter consciência disso. De outro modo não valeria a pena vir para cá.
Quando compreender que não somente é pior que todos os leigos, mas culpado de tudo para com todos, de todos os pecados coletivos e individuais, então somente o fim de nossa união será atingido. Porque, sabei, meus irmãos, que cada um de nós é certamente culpado aqui na terra de tudo para com todos, não somente pela falta coletiva da humanidade, mas de cada um individualmente, por todos os outros na terra inteira. Esta consciência de nossa culpabilidade é o coroamento da carreira religiosa, bem como de cada homem na terra. Porque os religiosos não são homens à parte, mas somente tais como deveriam ser todas as pessoas neste mundo. Então somente vosso coração será penetrado dum amor infinito, universal, jamais saciado. Então cada um de vós será capaz de ganhar o mundo inteiro pelo amor e de lavar-lhe os pecados com suas lágrimas... Que cada qual entre em si mesmo e se confesse sem cessar. Não temais vosso pecado, mesmo se tiverdes consciência dele, contanto que vos arrependais, mas não imponhais condições a Deus. Eu vo-lo repito, não vos orgulheis, nem diante dos pequenos nem diante dos grandes. Não odieis aqueles que vos repelem, vos desonram, aqueles que vos insultam e vos caluniam. Não odieis os ateus, os professores do mal, os materialistas, mesmo os maus dentre eles, porque muitos são bons, sobretudo em nossa época. Lembrai-vos deles em vossas orações, dizei: "Salvai, Senhor, aqueles por quem ninguém reza, salvai aqueles que não querem rezar a vós". E acrescentai: "Não é por orgulho que vos dirijo esta prece, Senhor, porque sou eu mesmo vil entre todos... " Amai o povo cristão, não abandoneis vosso rebanho aos estrangeiros, porque, se adormecerdes na cupidez, virão de todos os países para arrebatar vosso rebanho. Não vos canseis de explicar o Evangelho ao povo... Não vos entregueis à avareza...
Não vos ligueis ao ouro e à prata... Tende fé, mantende firme e alto o estandarte...
O stâriets exprimia-se, aliás, duma maneira mais desconexa do que foi acima exposta e do que Aliócha a escreveu depois. Por vezes parava completamente, como para reunir suas forças, ofegava, mas estava como em êxtase. Escutavam-no com enternecimento, muito embora muitos se espantassem com suas palavras e as achassem obscuras... Posteriormente, 171
todos se recordaram delas. Quando Aliócha deixou a cela por um instante, ficou impressionado com a agitação geral e com a expectativa da comunidade que se comprimia na cela e em redor. Aquela expectativa era em alguns quase ansiosa, em outros, solene. Todos aguardavam alguma coisa de grande imediatamente após o desenlace do stâriets. Muito embora em certo sentido fosse essa expectativa quase frívola, os monges mais severos estão a ela sujeitos. O rosto mais sério era o do Padre Paísi.
Aliócha só se ausentara porque um monge o chamava de parte de Rakítin, que viera da cidade com uma carta da Senhora Khokhlakova para ele.
Comunicava curiosa notícia chegada muito a propósito. Na véspera, entre as mulheres do povo, que eram crentes e tinham vindo prestar homenagem ao stáriets e receber sua bênção, encontrava-se uma velha da cidade, Prókhorovna, viúva dum suboficial. Perguntara ao stâriets se se podia mencionar como defunto, na oração pelos mortos, seu filho Vássienhka, que partira para seu serviço militar em Irkutsk, na Sibéria, do qual estava ela sem notícias havia um ano. Ele lho havia severamente proibido, tratando tal prática de análoga à feitiçaria. Mas, indulgente para com a ignorância dela, acrescentara uma consolação, "como se visse no livro do futuro" (segundo a expressão da Senhora Khokhlakova); o filho dela, Vássia, estava certamente vivo, chegaria em breve ou lhe escreveria, tendo ela apenas de ficar esperando em casa. E então, acrescentava a Senhora Khokhlakova, entusiasmada, "a profecia cumprira-se ao pé da letra e mesmo além". Assim que a boa mulher regressara à sua casa, entregaram-lhe uma carta da Sibéria, que a esperava. Mais ainda, nessa carta, escrita de. Ekatierinburg, Vássia informava sua mãe de que voltava para a Rússia em companhia dum funcionário, e que, duas ou três semanas após o recebimento daquela carta, esperava beijar sua mãe. A Senhora Khokhlakova rogava insistentemente a Aliócha que comunicasse o novo milagre daquela predição ao padre abade e a toda a comunidade.
"É importante que todos o saibam!", exclamava ela ao fim de sua carta, escrita à pressa: a emoção refletia-se nela em cada linha. Mas Aliócha nada tinha de comunicar à comunidade, todos já o sabiam. Ao enviar o monge à sua procura, encarregara-o Rakítin, além disso, de informar respeitosamente sua reverência, o Padre Paísi, de que tinha de comunicar-lhe um caso sem demora, visto sua importância, e rogava-lhe humildemente que lhe perdoasse a ousadia. Tendo o monge transmitido em primeiro lugar ao Padre Paísi o pedido de Rakítin, não restava a 172
Aliócha, depois de ter lido a carta, senão comunicá-la ao padre, a título de documentário. E eis que aquele homem rude, desconfiado, lendo, de sobrancelhas contraídas, a notícia do "milagre", não foi inteiramente senhor de seu sentimento íntimo. Seus olhos brilharam, mostrou um sorriso grave, penetrante.
— Veremos bem mais outros — deixou ele escapar.
— Veremos bem mais outros! — repetiram os monges; mas o Padre Paísi, franzindo de novo as sobrancelhas, rogou a todos que não falassem a ninguém no momento, "até que isto se confirme, porque há muita frivolidade nas notícias do mundo, e aquele caso podia ter ocorrido duma maneira natural", concluiu ele, prudentemente, como para desencargo de consciência, mas quase sem acrescentar fé ele próprio à sua reserva, o que observaram muito bem seus ouvintes. Na mesma hora, naturalmente, o
"milagre" era conhecido de todo o mosteiro, e até mesmo de muitos leigos, vindos para assistir à missa. O mais impressionado parecia ser o monge chegado de véspera de São Silvestre, pequeno mosteiro de Obdorsk, no norte longínquo, o que prestara homenagem ao stáriets ao lado da Senhora Khokhlakova e lhe perguntara com ar penetrante, designando a filha daquela senhora: "Como ousa fazer tais coisas?"
Estava agora presa de certa perplexidade e não sabia quase mais em quem crer. Na véspera, à noite, fizera visita ao Padre Fierapont em sua cela particular, por trás do apiário, e trouxera dessa entrevista um impressão lúgubre. O Padre Fierapont era aquele velho monge, grande jejuador e observador do silêncio, que já citamos como adversário do stáriets Zósima e sobretudo do "starietismo", que considerava uma novidade nociva e frívola. Era um adversário bastante temível, se bem que, taciturno, não falasse quase com ninguém. Era sobretudo perigoso por causa da sincera simpatia que lhe testemunhava a maioria da comunidade; muitos leigos o veneravam como um grande justo e um asceta, vendo nele ao mesmo tempo um verdadeiro insensato. Mas sua loucura cativava. O
Padre Fierapont não ia nunca à casa do stáriets Zósima. Se bem que vivesse no eremitério, não lhe impunham demasiado a regra, porque tinha ele um proceder de inocente. Tinha 75 anos, se não mais, e morava por trás do apiário, no ângulo de um muro, numa cela de madeira, caindo quase em ruínas, instalada havia bastante tempo, ainda no último século, por outro grande jejuador e taciturno, o Padre Iona, que vivera até 105
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anos e cujas façanhas constituíam ainda o objeto de narrativas bastante curiosas, no mosteiro e nos arredores.
O Padre Fierapont obtivera por fim permissão de instalar-se naquela ceia isolada, uma simples isbá, mas que se assemelhava bastante a uma capela, porque continha grande quantidade de ícones com lâmpadas a arderem perpetuamente; provinham de donativos e o Padre Fierapont parecia encarregado de guardá-las e acendê-las. Comia, pelo que se contava (e era verdade), somente 2 libras de pão em três dias, não mais; era o guarda do apiário, que morava no local, quem lhas trazia, mas trocava raramente uma palavra com aquele homem. Aquelas 4 libras, com o pão bento do domingo, enviado regularmente ao inocente pelo padre abade, constituíam sua alimentação da semana. Renovava-se cada dia a água de seu jarro. Assistia raramente ao ofício. Seus admiradores encontravam-no por vezes dias inteiros em oração, sempre ajoelhado e sem olhar em torno de si. Se entrava em conversa com eles, mostrava-se lacônico, brusco, estranho e quase sempre grosseiro. Havia, no entanto, casos muito raros em que conversava com os visitantes, mas a maior parte das vezes contentava-se com pronunciar uma palavra estranha que intrigava sempre seu interlocutor; em seguida, a despeito de todos os rogos, não dava jamais uma palavra de explicação. Jamais fora ordenado padre. Circulava um boato estranho, na verdade, entre os mais ignorantes, segundo o qual o Padre Fierapont estava em relação com os espíritos celestes e se entretinha somente com eles,, o que explicava seu silêncio com as pessoas.
O monge de Obdorsk, que entrara no apiário depois da indicação do guarda, monge igualmente sombrio e taciturno, dirigiu-se para o ângulo em que se erguia a cela do Padre Fierapont. "Talvez queira ele falar-te pela tua qualidade de estranho, talvez também nada consigas dele", prevenira-o o guarda. O monge aproximou-se, como o contou mais tarde, com um grande medo. Já se fazia tarde. O Padre Fierapont estava sentado num banquinho, diante de sua cela. Acima de sua cabeça rumorejava levemente um velho olmo gigantesco. Caía o frescor da noite. O monge prosternou-se diante do recluso e pediu-lhe a bênção.
— Queres tu, monge, que também eu me prosterne diante de ti? —
proferiu o Padre Fierapont. — Levanta-te.
O monge levantou-se.
— Abençoante e abençoado, senta-te ali. Donde vens?
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O que impressionou mais o pobre mongezinho foi que o Padre Fierapont, a despeito de seus jejuns prolongados e de sua idade avançada, tinha ainda o ar de ancião vigoroso, de elevada estatura, mantendo-se ereto, o rosto fresco, se bem que magro, mas sadio. Tinha certamente conservado uma força notável e era de constituição atlética. Malgrado sua avançada idade, seus cabelos, outrora negros e espessos, bem como sua barba, não estavam todos grisalhos. Tinha grandes olhos cinzentos, luminosos, mas bastante salientes, o que chamava a atenção. Falava acentuando fortemente a letra "o". Seu hábito consistia num longo gabão avermelhado, de pano grosseiro, como para os prisioneiros, com uma corda à guisa de cinturão. O pescoço e o peito estavam nus. Uma camisa de pano muito grosso, quase enegrecida, que ele usava durante meses, aparecia sob o gabão. Dizia-se que carregava consigo correntes de 35
libras. Estava calçado com velhos sapatos quase desfeitos.
— Acabo de chegar do pequeno mosteiro de Obdorsk, de São Silvestre — respondeu humildemente o visitante, observando o asceta com seus olhos vivos e curiosos, mas um pouco inquietos.
— Estive no teu São Silvestre. Vivi ali. Passa ele bem? O monge perturbou-se.
— Vós sois gente de poucas luzes! Que jejum observais?
— Nossa mesa é regulada segundo o antigo uso monacal. Durante a Quaresma, nas segundas, quartas e sextas, não se servem alimentos. Nas terças e quintas, dá-se à comunidade pão branco, uma tisana com mel, amoras silvestres ou couves salgadas, e farinha de aveia. No sábado, sopa de couve, aletria com ervilhas, trigo mourisco com azeite de cânhamo. No domingo, acrescentam-se à sopa peixe seco e trigo mourisco.
Na Semana Santa, da segunda ao sábado à noite, pão, água, e somente legumes não cozidos, em quantidade moderada; ainda assim não se deve comer todos os dias, mas conformar-se com as instruções dadas para a primeira semana da Quaresma. Na sexta-feira santa, jejum completo; no sábado, até as 3 horas da tarde, quando se pode tomar um pouco de pão e de água, e beber um copo de vinho. Na quinta-feira santa, comemos alimentos cozidos sem manteiga, bebemos vinho e observamos o uso de alimentos secos. Porque já o concilio de Laodicéia se exprime assim a respeito da quinta-feira santa: "Não convém romper o jejum na 175
quinta-feira da última semana e desonrar assim a Quaresma inteira". Eis o que se passa entre nós. Mas que é isto em comparação convosco, eminente padre —- acrescentou o monge, que havia retomado coragem —, que o ano inteiro, mesmo na Páscoa, só vos nutris de pão e água? O pão que consumimos em dois dias basta-vos para a semana inteira. Vossa abstinência é verdadeiramente maravilhosa.
— E os cogumelos? — perguntou de súbito o Padre Fierapont.
— Os cogumelos? — repetiu o monge com espanto.
— Justamente. Passo sem o pão deles, não tenho nenhuma necessidade dele, mesmo na floresta; nutro-me de cogumelos ou de bagas, eles não podem passar sem pão, estão pois ligados ao demônio. Agora, pretendem os pagãos que é inútil jejuar tanto. Tal é o raciocínio deles, arrogante e ímpio.
— Ai, sim! — suspirou o monge.
— Viste os diabos em casa deles? — perguntou o Padre Fierapont.
— Em casa de quem? — informou-se timidamente o monge.
— No ano passado, fui à casa do padre abade, em Pentecostes.
Depois não voltei mais lá. Vi um diabo escondido no peito de um monge, sob a batina, aparecendo somente os chifres; um segundo tinha um no seu bolso, espiando, de olhos vivos. Eu lhe fazia medo; um terceiro dava asilo a um diabinho nas suas entranhas impuras, enfim um outro carregava um, suspenso a seu pescoço, agarrado, sem o ver.
— Vós... víeis? — perguntou o monge.
— Digo-te que vejo, vejo através. Ao deixar o padre abade, avistei um diabo que se escondia de mim atrás da porta, era de bela estatura, 1
archin e meio ou mais, a cauda espessa, fulva, comprida; a ponta ficou presa na fenda, não hesitei e fechei violentamente a porta, apertando o rabo dele. O meu diabo pôs-se a gemer, a debater-se. Fiz sobre ele três vezes o sinal-da-cruz. Rebentou ali mesmo como uma aranha esmagada.
Deve ter apodrecido num canto, fede, mas eles não o vêem, nem o sentem.
Há um ano que não vou mais lá. A ti somente, como estranho, revelo isto.
— Vossas palavras são terríveis! Dizei-me, eminente e bem-aventurado padre, é verdade o que relatam de vós nas terras mais longínquas, 176
que estaríeis em relação permanente com o Espírito Santo?
— Ele desce por vezes sobre mim.
— Sob que forma?
— A forma dum pássaro.
— O Espírito Santo sob a forma de uma pomba?
— Isto é o Espírito Santo, sim, mas falo do Santo Espírito, que é diferente. Pode descer sob a forma dum outro pássaro, uma andorinha ou um pintassilgo, por vezes um melharuco.
— Como podeis reconhecê-lo?
— Ele fala.
— Como fala ele, em que língua?
— Na língua humana.
— E que vos diz?
— Hoje, anunciou-me a visita de um imbecil que me faria perguntas ociosas. Monge, és bem curioso.
— Vossas palavras são temíveis, bem-aventurado e venerando padre. — O monge abanava a cabeça, mas a desconfiança aparecia nos seus olhos medrosos.
— Vês aquela árvore? — perguntou, após uma pausa, o Padre Fierapont.
— Vejo-a, bem-aventurado padre.
— Para ti, é um olmo, mas para mim, outro quadro.
— Qual? — E o monge esperou ansiosamente.
— Vês aqueles dois ramos? De noite, por vezes, são os braços do Cristo que se estendem para mim e me procuram, vejo-o claramente e estremeço. Oh! é terrível!
— Por que terrível, se é o próprio Cristo?
— Ele me agarrará e me levará.
— Vivo?
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— Não sabes então nada da glória de Elias? Ele vos agarra e vos leva...
Depois dessa conversa, o monge de Obdorsk regressou à cela que lhe haviam designado; estava bastante perplexo, mas seu coração o inclinava mais para o Padre Fierapont que para o Padre Zósima. Nosso monge estimava mais que tudo o jejum e não lhe causava surpresa que um grande jejuador como o Padre Fierapont visse maravilhas. Suas palavras tinham ar de absurdas, evidentemente, mas Deus sabia o que elas significavam e muitas vezes os inocentes, por amor do Cristo, falam e agem duma maneira ainda mais estranha. Sentia prazer em crer sinceramente no diabo e no seu rabo preso, não somente no sentido alegórico, mas literal. Além do mais, desde antes de sua chegada ao mosteiro, tivera grande prevenção contra o "sta-rietismo", que considerava segundo muitos outros como uma inovação nociva. Durante o dia passado no mosteiro, pudera notar o murmúrio secreto de certos grupos frívolos, opostos àquela instituição. Além disso, era uma natureza insinuante e sutil, testemunhando por tudo grande curiosidade. Assim, a notícia do novo "milagre" realizado pelo stáriets Zósima mergulhou-o numa profunda perplexidade. Mais tarde, Aliócha lembrou-se, entre os religiosos que se comprimiam em torno do stáriets e de sua cela, da freqüente aparição daquele hóspede curioso que se intrometia em toda parte, prestando ouvidos e interrogando todo mundo. Não lhe deu atenção então... Tinha outra grande coisa na cabeça: o stáriets, que voltara a deitar-se, sentindo lassitude, lembrou-se dele ao despertar e reclamou sua presença. Aliócha acorreu. Em redor do moribundo não havia então senão o Padre Paísi, o Padre Iósif e o noviço Porfírio. O velho, fixando Aliócha com seus olhos fatigados, perguntou-lhe:
— Será que os teus te esperam, meu filho? Aliócha ficou embaraçado.
— Não têm eles necessidade de ti? Prometeste a alguém ir vê-lo hoje?
— Prometi a meu pai... a meus irmãos... a outras pessoas também... — Estás vendo? Vai imediatamente e não te aflijas. Fica sabendo, não morrerei sem ter pronunciado diante de ti minhas supremas palavras aqui na terra. É a ti que as legarei, meu caro filho, porque sei que me amas.
E agora, vai cumprir tua promessa.
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Aliócha submeteu-se logo, se bem que lhe custasse afastar-se. Mas a promessa de ouvir as derradeiras palavras de seu mestre, como um legado pessoal, arrebatava-o de alegria. Apressava-se, a fim de poder voltar mais depressa, depois de ter terminado tudo. Justamente, o Padre Paísi lhe dirigiu, antes de sua partida, palavras que o impressionaram profundamente. Foi depois de haverem deixado a cela.
— Lembra-te sempre, rapaz — começou o padre, sem preâmbulos —, de que a ciência do mundo, tendo-se desenvolvido neste século sobretudo, dissecou nossos livros santos e, após uma análise impiedosa, nada deixou subsistir. Mas, dissecando as partes, perderam de vista o conjunto, e sua cegueira é de causar espanto. O conjunto se ergue diante dos olhos deles, tão inabalável quanto antes, e o inferno não prevalecerá contra ele. Será que o Evangelho não tem dezenove séculos de existência, não vive ainda agora nas almas dos indivíduos e nos movimentos das massas populares? Subsiste mesmo, sempre inabalável, nas almas dos ateus destruidores de toda crença! Porque os que renegaram o cristianismo e se revoltam contra ele, esses mesmos permaneceram no íntimo à imagem do Cristo, porque nem sua sabedoria nem sua paixão puderam criar outro modelo para o homem, superior ao indicado outrora pelo Cristo. As tentativas neste sentido não passaram de monstruosidades.
Lembra-te disto sobretudo, rapaz, pois teu stariets moribundo te envia para o mundo. Talvez lembrando-te deste grande dia, não esqueças minhas palavras, dirigidas para teu bem, porque és jovem, as tentações do mundo são grandes e não tens força para suportá-las. E agora vai, pobre órfão.
Ao terminar, o Padre Paísi deu-lhe sua benção. Refletindo nessas palavras imprevistas, compreendeu Aliócha que encontrara novo amigo e um guia cheio de amor naquele monge até então rigoroso e rude para com ele, como se o stariets Zósima lho houvesse legado ao morrer. "Talvez se hajam entendido entre si", pensou Aliócha. A dissertação que acabara de ouvir atestava somente o zelo do Padre Paísi: apressava-se em armar aquele jovem espírito para a luta contra as tentações e em preservar aquela jovem alma que lhe legavam, elevando em torno dela o baluarte mais sólido que pôde imaginar.
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II
ALIÓCHA EM CASA DE SEU PAI
Aliócha começou por ir em primeiro lugar à casa de seu pai. Ao aproximar-se, lembrou-se da recomendação feita na véspera, de entrar sem que Ivã ficasse sabendo. "Por quê?", perguntou a si mesmo. "Se meu pai quer fazer-me uma confidência, é esta uma razão para entrar furtivamente? Queria, sem dúvida, na sua emoção, dizer-me outra coisa ontem e não pôde", decidiu ele. No entanto, sentiu-se satisfeito ao saber de Marfa Ignátievna, que lhe abriu a porta do jardim (Gregório estava deitado, doente), que Ivã saíra havia duas horas.
— E meu pai?
— Levantou-se, está tomando seu café — respondeu a velha.
Aliócha entrou. O velho, sentado à sua mesa, de chinelos e com um casaco bastante surrado, examinava contas para se distrair, sem grande interesse de resto. Encontrava-se sozinho na casa, tendo Smierdiákov saído para comprar provisões. Sua atenção estava alhures.
Se bem que se tivesse levantado bem cedo e bancado o corajoso, parecia fatigado, fraco. Sua testa, onde, durante a noite, se haviam formado equimoses, estava enrolada num lenço de seda vermelha. O nariz, muito inchado, dava a seu rosto uma expressão particularmente má, irritada. O velho dava-se conta disso e acolheu Aliócha com um olhar pouco amigável.
— O café está frio — disse ele num tom seco —, não to ofereço. Hoje, meu caro, tenho apenas uma magra sopa de peixe e não convido ninguém.
Por que vieste?
— Vim saber notícias suas — declarou Aliócha.
— Sim. Aliás, tinha-te pedido ontem que viesses. Tolices tudo isso.
Tu te incomodaste em vão. Sabia bem que haverias de vir...
Suas palavras refletiam o sentimento mais hostil. Entretanto, havia-se levantado e examinava ansiosamente seu nariz no espelho (pela quadragésima vez talvez desde a manhã). Arranjou com extremo cuidado seu lenço Vermelho na testa.
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— O vermelho assenta melhor, o branco lembra imediatamente o hospital — observou ele, num tom sentencioso. — Pois bem! Que há de novo? Como vai teu stáriets?
— Está muito mal, morrerá talvez hoje — disse Aliócha; mas seu pai não lhe prestou atenção.
— Ivã saiu — disse ele, de repente. — Esforça-se por furtar a noiva de Mítia. Por isso é que permanece aqui — acrescentou com raiva, a boca contraída, olhando Aliócha.
— Ele mesmo lho disse?
— Desde muito tempo, há já três semanas. Não foi para assassinar-me às ocultas que ele veio; tem pois um fito.
— Como! Por que diz isso? — perguntou Aliócha, com angústia.
— Não pede dinheiro, é verdade; aliás, não terá nada. Eu, meu caríssimo Alieksiéi Fiódorovitch, tenho a intenção de viver o mais tempo possível, toma nota disso; assim, tenho necessidade de todo o meu dinheiro, e quanto mais avançar em idade, mais precisarei — continuou Fiódor Pávlovitch, com as mãos nos bolsos de seu casaco manchado, de durante amarela. '— Agora, aos 55 anos, conservo minha força viril, e conto bem que isso durará ainda vinte anos; ora, envelhecerei, tornar-me-ei repulsivo, as mulheres não virão mais de boa-vontade; então, precisarei de dinheiro. Eis por que, agora, amealho o mais possível, para mim só, meu caro filho Alieksiéi Fiódorovitch, fica sabendo bem, porque quero viver até o fim na libertinagem. É a existência mais agradável; todo mundo deblatera contra ela e todo mundo nela vive, mas às ocultas, e eu, em pleno dia. É por causa de minha franqueza que todos os canalhas me caíram em cima. Quanto ao teu paraíso, Alieksiéi Fiódorovitch, fica sabendo que não o quero, é até mesmo inconveniente para um homem às direitas, se é que existe. A gente dorme para não mais despertar, eis minha idéia. Manda dizer uma missa por mim, se quiseres, senão, que o diabo te leve! Eis minha filosofia. Ontem, Ivã falou bem a este respeito, no entanto, estávamos bêbedos. É um falador desprovido de erudição... não tem instrução, cala-se e ri da gente em silêncio, eis todo o seu talento.