Americanah
Capítulo 8
As greves agora eram comuns. Nos jornais, os professores da universidade listavam suas reivindicações e os acordos que eram destroçados por membros do governo cujos filhos estudavam no exterior. As universidades ficaram vazias, as salas de aula sem vida. Os alunos torciam por greves curtas, pois sabiam que seria impossível não haver greve nenhuma. Todos estavam falando em ir embora do país. Até Emenike havia se mudado para a Inglaterra. Ninguém sabia como tinha conseguido um visto. “Então ele nem comentou nada com você?”, Ifemelu perguntou a Obinze, que respondeu: “Você sabe como é Emenike”. Ranyinudo, que tinha um primo nos Estados Unidos, pediu um visto, mais foi rejeitado na embaixada por um negro americano que, segundo ela, estava resfriado e mais interessado em assoar o nariz do que em olhar para seus documentos. Irmã Ibinabo começou a fazer a Vigília pelo Milagre do Visto de Estudante às sextas-feiras, só com pessoas jovens, cada uma segurando um envelope com um formulário de pedido de visto sobre o qual ela colocava a mão, abençoando-o. Uma menina, já no último ano da Universidade de Ife, conseguiu um visto da primeira vez em que tentou e deu um testemunho emocionado na igreja. “Mesmo que eu tenha de começar tudo de novo nos Estados Unidos, pelo menos sei quando vou me formar”, disse ela.
Um dia, tia Uju ligou. Ela não ligava mais com frequência; antes, costumava telefonar para a casa de Ranyinudo quando Ifemelu estava em Lagos, ou para a casa de Obinze quando estava na faculdade. Mas suas ligações foram minguando. Tinha três empregos, pois ainda não fora considerada qualificada para ser médica nos Estados Unidos. Falava das provas que tinha de fazer, inúmeros passos significando várias coisas que Ifemelu não entendia. Sempre que a mãe de Ifemelu sugeria que pedisse para tia Uju lhes mandar algo dos Estados Unidos — vitaminas, sapatos —, o marido dizia não: eles tinham de esperar Uju se ajeitar primeiro. Então a mãe de Ifemelu respondia, com uma ponta de ironia no sorriso, que quatro anos era bastante tempo para se ajeitar.
“Ifem, kedu?”, perguntou tia Uju. “Achei que estava em Nsukka. Acabei de ligar para a casa de Obinze.”
“A universidade está em greve.”
“Hum! A greve ainda não acabou?”
“Não, aquela última acabou, mas as aulas voltaram e eles começaram outra.”
“Que maluquice é essa?”, perguntou tia Uju. “Falando sério, você devia vir estudar aqui. Tenho certeza de que conseguiria uma bolsa sem problemas. E pode me ajudar a cuidar de Dike. O pouco dinheiro que ganho vai todo para a babá. E, com a graça de Deus, quando você chegar eu já vou ter passado todas as minhas provas e começado a residência.” Tia Uju parecia entusiasmada, mas vaga; não havia pensado muito naquela ideia até mencioná-la.
Ifemelu podia não ter deixado passar dali, uma ideia sem forma que emergira, mas que se deixara afundar de novo, se não fosse por Obinze. “Você devia mesmo ir, Ifem”, disse ele. “Não tem nada a perder. Faça os exames para as faculdades norte-americanas e tente ganhar uma bolsa. Ginika pode ajudar você a preencher a papelada de admissão nas universidades. Tia Uju está lá, então pelo menos você vai ter de onde começar. Eu queria fazer isso também, mas não posso largar tudo e ir. Para mim, é melhor terminar a faculdade aqui e depois ir para os Estados Unidos fazer pós-graduação. Estudantes estrangeiros ganham bolsas e ajuda de custo para fazer pós-graduação lá.”
Ifemelu não compreendia exatamente o que tudo aquilo significava, mas pareceu-lhe correto porque vinha dele, o especialista nos Estados Unidos. Assim, ela começou a sonhar. Via-se numa casa como a do Cosby Show, numa faculdade com alunos segurando cadernos que, milagrosamente, não tinham vincos nem sinais de uso. Ela fez os exames para as faculdades norte-americanas num centro de Lagos lotado de gente comichando com suas ambições americanas. Ginika, que havia acabado de se formar na faculdade, se inscrevia em universidades em seu nome, ligando para dizer “Queria que você soubesse que vou focar na região da Filadélfia, que já conheço”, como se Ifemelu soubesse onde ficava a Filadélfia. Para ela, os Estados Unidos eram os Estados Unidos.
A greve acabou. Ifemelu voltou a Nsukka, acomodou-se de novo na vida no campus e, de tempos em tempos, sonhava com os Estados Unidos. Quando tia Uju ligou para contar que haviam chegado cartas aceitando-a na universidade e uma oferta de bolsa, ela parou de sonhar. Estava com medo demais de ter esperanças, mas agora tudo parecia possível.
“Faça tranças bem, bem pequenas, para durar muito. É muito caro fazer o cabelo aqui”, disse tia Uju.
“Tia, eu ainda tenho que conseguir o visto!”
Ifemelu pediu um visto, na certeza de que um americano grosseiro ia rejeitá-la, afinal isso acontecia com frequência, mas a mulher de cabelos grisalhos que usava um broche de são Vicente de Paulo na lapela sorriu e disse: “Venha pegar seu visto em dois dias. Boa sorte com os estudos”.
Na tarde em que Ifemelu foi apanhar seu passaporte com aquele visto de cor clara na segunda página, organizou o triunfante ritual que significava o começo de uma nova vida no exterior: a divisão de suas posses entre as amigas. Ranyinudo, Priye e Tochi estavam no quarto dela, bebendo Coca, suas roupas numa pilha sobre a cama, todas esticando o braço ao mesmo tempo na direção de seu vestido laranja, seu vestido preferido, um presente de tia Uju — a saia godê e o zíper que ia do pescoço à bainha a faziam sentir-se glamorosa e perigosa. Aquilo tornava fácil o trabalho dos homens, dizia Obinze, antes de começar a abri-lo devagar. Ifemelu queria ficar com o vestido, mas Ranyinudo disse: “Ifem, você sabe que vai ter o vestido que quiser nos Estados Unidos e, da próxima vez que a gente se vir, vai ser uma tremenda americanah”.
Sua mãe disse que Jesus lhe contara num sonho que Ifemelu ia prosperar nos Estados Unidos, seu pai colocou um envelope fino em suas mãos, dizendo: “Gostaria de poder te dar mais”, e ela, sentindo uma tristeza, se deu conta de que ele devia ter pedido aquilo emprestado. Diante do entusiasmo dos outros, Ifemelu de repente começou a se sentir frágil e amedrontada.
“Talvez eu devesse ficar e terminar a faculdade aqui”, disse ela para Obinze.
“Não, Ifem, você tem que ir. Além do mais, você nem gosta de geologia. Vai poder estudar outra coisa nos Estados Unidos.”
“Mas a bolsa é parcial. Onde vou arrumar dinheiro para pagar o resto? Não posso trabalhar com um visto de estudante.”
“Você pode arrumar um emprego de meio período através da universidade. Vai dar um jeito. Uma bolsa que cobre setenta e cinco por cento da mensalidade é muita coisa.”
Ifemelu assentiu, deixando-se levar pela onda de fé dele. Ela visitou a mãe de Obinze para se despedir.
“A Nigéria está expulsando seus melhores recursos”, disse a mulher, resignada, dando um abraço nela.
“Tia, vou sentir saudades. Muito obrigada por tudo.”
“Fique bem, minha querida, e estude bem. Escreva para nós. Não suma.”
Ifemelu assentiu, chorosa. Quando saiu, já abrindo a cortina da porta da frente, a mãe de Obinze disse: “E não deixe de fazer um plano com Obinze. Façam um plano”. As palavras dela, tão inesperadas e tão certas, animaram Ifemelu. O plano passou a ser este: Obinze iria para os Estados Unidos no minuto em que se formasse. Daria um jeito de conseguir um visto. Talvez, quando o momento chegasse, Ifemelu já pudesse ajudá-lo com isso de alguma maneira.
Nos anos seguintes, mesmo depois de perder contato com ele, Ifemelu às vezes se lembrava das palavras da mãe dele — Não deixe de fazer um plano com Obinze — e se sentia confortada.