Americanah

Chimamanda Ngozi Adichie · Capítulo 28 de 55

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Americanah

Capítulo 28

 

Certa manhã, no começo do verão, quando havia uma quentura renovadora no ar, Obinze chegou ao depósito e no mesmo instante soube que algo estava errado. Os outros homens evitavam seu olhar, tinham uma rigidez pouco natural nos movimentos e Nigel se virou rápido, rápido demais, na direção do banheiro quando o viu. Eles sabiam. Só podia ser porque haviam descoberto, de alguma maneira. Viram as manchetes sobre pessoas que pediam asilo no país sobrecarregando o Sistema Nacional de Saúde, sabiam que havia hordas lotando uma ilha já lotada e agora entendiam que ele era um daqueles homens, trabalhando com um nome que não lhe pertencia. Onde estava Roy Snell? Será que tinha ido chamar a polícia? Será que era a polícia que se chamava nesses casos? Obinze tentou lembrar detalhes das histórias de pessoas que tinham sido apanhadas e deportadas, mas sua mente estava entorpecida. Ele se sentiu nu. Queria se virar e sair correndo, mas seu corpo continuou a se mover, contra sua vontade, na direção da área de carga. Então ele sentiu um movimento atrás de si, rápido, violento e próximo demais. Antes que pudesse se virar, um chapéu de papel havia sido enfiado em sua cabeça. Era Nigel e, com ele, estava um grupo de homens sorridentes.

“Feliz aniversário, Vinny!”, disseram todos.

Obinze congelou, assustado com o vazio completo de sua mente. Então se deu conta de que era o aniversário de Vincent. Roy devia ter contado a todos. Nem ele tinha se lembrado da data de nascimento de Vincent.

“Ah!”, disse apenas, enjoado de tanto alívio.

Nigel pediu-lhe que entrasse na sala de café, para onde todos os homens se dirigiam, e quando Obinze se viu ali entre eles, todos brancos com exceção de Patrick, da Jamaica, passando uns para os outros os muffins e a Coca que haviam comprado com seu próprio dinheiro para celebrar um aniversário que acreditavam ser dele, teve uma sensação que fez seus olhos se encherem de lágrimas: sentiu-se seguro.

Vincent ligou para ele naquela noite e Obinze ficou ligeiramente surpreso, pois ele tinha ligado apenas uma vez, meses antes, quando mudou de banco e queria lhe dar o novo número da conta. Obinze conjecturou se devia desejar feliz aniversário a Vincent e se o telefonema estava de algum modo relacionado ao aniversário dele.

“Vincent, kedu?”, disse Obinze.

“Quero um aumento.”

Será que Vincent tinha aprendido aquilo num filme? As palavras “Quero um aumento” pareceram falsas e cômicas. “Quero quarenta e cinco por cento. Sei que está trabalhando mais agora.”

“Vincent, hum. Quanto acha que estou ganhando? Você sabe que estou economizando para pagar o casamento.”

“Quarenta e cinco por cento”, disse Vincent, e desligou.

Obinze decidiu ignorá-lo. Ele conhecia o tipo de pessoa que Vincent era; elas exigiam coisas para ver até onde conseguiam chegar e depois davam um passo para trás. Se ele ligasse e tentasse negociar, aquilo talvez lhe desse coragem de fazer mais demandas. O fato de Obinze entrar no banco de Vincent todas as semanas para depositar dinheiro em sua conta era algo que não se arriscaria a perder por completo. Por isso quando, uma semana mais tarde, em meio à algazarra matinal de motoristas e caminhões, Roy disse: “Vinny, venha aqui no meu escritório um instante”, Obinze não desconfiou de nada. Sobre a escrivaninha de Roy estava um jornal dobrado na página que tinha a foto da mulher de seios grandes. Roy pôs seu copo de café devagar sobre o jornal. Ele parecia constrangido, sem olhar diretamente para Obinze.

“Alguém ligou para cá ontem. Disse que você não é quem disse ser, que está ilegalmente no país e que está trabalhando com o nome de um britânico.” Fez-se silêncio. Obinze sentiu uma surpresa aguda. Roy pegou o copo de café de novo. “É só você trazer seu passaporte amanhã que a gente resolve tudo, tá?”

Obinze murmurou as primeiras palavras que lhe ocorreram. “Está bem, eu trago meu passaporte amanhã.” Ele saiu do escritório sabendo que jamais se lembraria do que sentira momentos antes. Será que Roy estava lhe pedindo que trouxesse o passaporte para fazer com que a demissão fosse mais fácil para ele, para lhe dar uma saída, ou será que realmente acreditava que a pessoa que ligara estava errada? Por que alguém ligaria para dizer aquilo se não fosse verdade? Obinze nunca tinha feito tanto esforço quanto no resto daquele dia para parecer normal, para dominar a raiva que o dominava. Não era a ideia do poder que Vincent tinha sobre ele que o enfurecia, mas a temeridade com que o exercera. Obinze deixou o depósito naquele dia pela última vez, desejando acima de tudo ter dito seu nome verdadeiro a Roy e Nigel.

Alguns anos mais tarde, em Lagos, depois de Chief lhe dizer para achar um homem branco que pudesse apresentar como seu gerente-geral, Obinze ligou para Nigel. O número do celular dele ainda era o mesmo.

“Aqui é o Vinny.”

“Vinny! Tudo bem, velho?”

“Tudo, e você?”, disse Obinze. Depois, disse: “Meu nome verdadeiro não é Vincent, Nigel. Eu me chamo Obinze. Tenho uma oferta de emprego para você na Nigéria”.