Americanah
Capítulo 52
“Vamos jogar pingue-pongue. Sou sócio de um pequeno clube em Victoria Island”, disse ele.
“Não jogo há décadas.”
Ifemelu lembrou como sempre quisera ganhar de Obinze, apesar de ele ser o campeão da escola, e de como ele lhe dizia, provocando-a: “Tente usar mais estratégia e menos força. Paixão jamais ganha um jogo, apesar do que dizem”. Disse algo parecido agora. “Desculpas não ganham jogo. Você devia tentar com estratégia.”
O próprio Obinze tinha dirigido até o apartamento dela. No carro, ele ligou o motor e o som ligou também. Estava tocando “Yori Yori”, do Bracket.
“Ah, eu adoro essa música”, disse Ifemelu.
Ele aumentou o volume e os dois cantaram juntos; havia uma exuberância na música, sua alegria rítmica, tão livre de artifício, que encheu o ar de leveza.
“Hum! Você voltou há tão pouco tempo, como é que já sabe cantar isso tão bem?”, perguntou Obinze.
“A primeira coisa que fiz foi me atualizar em música contemporânea. É tão empolgante, todos esses artistas novos.”
“É mesmo. Agora as casas noturnas tocam música nigeriana.”
Ifemelu não esqueceria esse momento, sentada ao lado de Obinze em seu Range Rover parado no trânsito ouvindo “Yori Yori” — Your love dey make my heart do yori yori. Nobody can love you the way I do — com um Honda brilhante último modelo ao lado e, atrás, um Datsun velhíssimo que parecia ter cem anos de idade.
Depois de algumas partidas de pingue-pongue, e de Obinze ter ganhado todas e alfinetado Ifemelu o tempo todo, eles almoçaram no pequeno restaurante do clube, onde além dos dois havia apenas uma mulher lendo jornal no bar. O gerente, um homem gorducho cujo paletó preto pequeno demais estava quase arrebentando, ia até a mesa com frequência dizer: “Espero que esteja tudo bem, senhor. É muito bom vê-lo de novo, senhor. Como está o trabalho, senhor?”.
Ifemelu se inclinou para a frente e perguntou a Obinze: “Você às vezes sente vontade de vomitar?”.
“O homem não viria tanto à mesa se não achasse que estou sendo negligenciado. Você está viciada nesse celular.”
“Desculpe, só estava olhando o blog.” Ela se sentia relaxada e feliz. “Sabe, você devia escrever para mim.”
“Eu?”
“É, eu te passo uma pauta; que tal os perigos de ser jovem, bonito e rico?”
“Eu ficaria feliz de escrever sobre um assunto com o qual possa me identificar.”
“Que tal segurança? Quero fazer uma matéria sobre isso. Você já teve alguma experiência na ponte que liga a ilha ao continente? Alguém estava me falando que saiu de uma casa noturna tarde da noite e, quando estava voltando para o centro, o pneu furou na ponte, mas a pessoa continuou, porque é perigoso demais parar lá.”
“Ifem, eu moro em Lekki, e não vou a casas noturnas. Não mais.”
“Tudo bem.” Ifemelu olhou o celular de novo. “É que quero ter conteúdo novo e interessante com frequência.”
“Você está distraída.”
“Conhece Tunde Razaq?”
“Quem não conhece? Por quê?”
“Quero entrevistá-lo. Quero ter uma coluna semanal chamada ‘Lagos por alguém que está por dentro’ e quero começar com as pessoas mais interessantes.”
“O que é interessante nele? Ser um playboy de Lagos que vive com o dinheiro do pai, acumulado com um monopólio de importação de diesel devido ao fato de serem próximos do presidente?”
“Ele também é produtor musical e parece que é campeão de xadrez. Minha amiga Zemaye o conhece e ele acaba de escrever para ela dizendo que só concorda com a entrevista se puder me levar para jantar.”
“Ele deve ter visto uma foto sua em algum lugar.” Obinze ficou de pé e empurrou a cadeira para trás com uma violência que surpreendeu Ifemelu. “Esse cara é um canalha.”
“Não seja assim”, disse ela, divertida; o ciúme dele lhe agradou. Obinze pôs “Yori Yori” para tocar de novo quando eles voltaram para o apartamento de Ifemelu, e ela balançou e dançou com os braços, o que ele achou muito engraçado.
“Achei que sua Chapman era sem álcool”, disse ele. “Quero pôr outra música para tocar. Ela me faz pensar em você.”
“Obi Mu O”, de Obiora Obiwon, começou a tocar e Ifemelu ficou imóvel e em silêncio conforme as palavras iam tomando o carro. This is that feeling that I’ve never felt… and I’m not gonna let it die. Quando a mulher e o homem cantaram em igbo, Obinze cantou junto, tirando os olhos da rua para fitá-la, como se estivesse lhe dizendo que aquilo na verdade era um diálogo entre eles dois, ele dizendo que ela era linda, um chamando o outro de seu verdadeiro amigo. Nwanyi oma, nwoke oma, omalicha nwa, ezigbo oyi m o.
Ao deixá-la em casa, Obinze se inclinou para beijar sua bochecha, hesitando em se aproximar demais ou abraçá-la, como se temesse ser derrotado pela atração entre eles. “Posso ver você amanhã?”, perguntou ele, e Ifemelu disse que sim. Foram a um restaurante brasileiro perto da lagoa, onde o garçom trouxe chapas e mais chapas com pilhas de carne e frutos do mar, até que Ifemelu declarou estar quase passando mal. No dia seguinte, Obinze chamou-a para jantar e levou-a a um restaurante italiano onde ela achou a comida cara demais e sem graça, e onde os garçons de gravata-borboleta, melancólicos e lentos, a encheram de uma tristeza vaga.
Eles passaram por Obalende quando estavam voltando e a rua movimentada estava ladeada de mesas e barraquinhas, com chamas laranja bruxuleando nos lampiões dos vendedores ambulantes.
“Vamos parar e comprar banana-da-terra frita!”, disse Ifemelu.
Obinze encontrou uma vaga um pouco mais para a frente, diante de uma cervejaria. Ele cumprimentou os homens que estavam sentados em bancos bebendo de um jeito caloroso e natural e disseram: “Chefe! Pode ir! Seu carro está seguro!”.
A vendedora de banana-da-terra frita tentou persuadir Ifemelu a comprar batata-doce frita também.
“Não, só banana-da-terra.”
“E akara, tia? Fiz agorinha. Muito fresco.”
“Tudo bem”, disse Ifemelu. “Pode pôr quatro.”
“Por que você vai comprar akara se não quer?”, perguntou Obinze, achando graça.
“Porque isso é o verdadeiro empreendedorismo. Ela está vendendo o que faz. Não está vendendo a localização, ou a fonte do óleo que usa ou o nome da pessoa que mói seus feijões. Só está vendendo o que faz.”
No carro, ela abriu o saquinho oleoso de banana-da-terra e pôs uma fatia pequena, amarela e frita de maneira perfeita dentro da boca. “Isso é tão melhor que aquela coisa encharcada de manteiga que eu mal consegui acabar de comer no restaurante. E você sabe que não dá para ter intoxicação alimentar, porque a fritura mata os germes”, acrescentou.
Obinze a observava, sorrindo, e Ifemelu desconfiou de que estava falando demais. Ela também guardaria essa lembrança, de Obalende à noite, iluminada por centenas de pequenas luzes, as vozes altas de homens bêbados vindas de perto e o balançar dos quadris largos de uma madame que passou ao lado do carro.
Obinze perguntou se podia levá-la para almoçar e Ifemelu sugeriu um lugar casual novo do qual tinha ouvido falar, onde pediu um sanduíche de frango e depois reclamou de um homem que fumava num dos cantos. “Que coisa mais americana, reclamar da fumaça”, disse Obinze, e Ifemelu não soube dizer se aquilo era uma reprimenda ou não.
“O sanduíche vem com batata frita?”, perguntou Ifemelu ao garçom.
“Sim, madame.”
“Vocês têm batatas de verdade?”
“Como, madame?”
“São batatas congeladas importadas ou vocês cortam e fritam suas próprias batatas?”
O garçom pareceu ofendido. “São as congeladas importadas.”
Quando ele se afastou, Ifemelu disse: “Essas coisas congeladas têm um gosto horrível”.
“Ele não acredita que você queira batatas de verdade”, disse Obinze secamente. “Batatas de verdade são uma coisa do passado para ele. Lembre que esse é o mundo da nova classe média. Não completamos o primeiro ciclo de prosperidade antes de voltar ao início, para beber leite direto da teta da vaca.”
Cada vez que ele a deixava em casa, dava-lhe um beijo na bochecha, ambos se inclinando na direção um do outro e então se afastando, de modo que ela pudesse dizer “Tchau” e sair do carro. No quinto dia, quando Obinze estava chegando ao prédio dela, Ifemelu perguntou: “Você tem camisinha?”.
Ele não disse nada durante algum tempo. “Não, não tenho.”
“Bom, eu comprei um pacote há alguns dias.”
“Ifem, por que você está dizendo isso?”
“Você é casado e tem uma filha, e nós sentimos tesão um pelo outro. A quem vamos enganar com esses encontros castos? É melhor acabar com isso logo.”
“Você está se escondendo atrás do sarcasmo”, disse Obinze.
“Ah, como você é superior.” Ela estava com raiva. Mal fazia uma semana desde que o tinha visto pela primeira vez, mas já estava com raiva, furiosa com a ideia de ele deixá-la ali e ir para sua outra vida, sua vida real, e por não conseguir visualizar os detalhes dessa vida, não saber em que tipo de cama ele dormia, em que tipo de prato comia. Desde que começara a olhar o passado, havia imaginado um relacionamento com Obinze, mas apenas em imagens esmaecidas e linhas pouco nítidas. Agora, diante da realidade dele e da aliança prateada em seu dedo, temia se acostumar com ele, afogar-se. Ou talvez já estivesse afogada e seu medo existisse porque sabia disso.
“Por que você não me ligou quando voltou?”, perguntou Obinze.
“Não sei. Queria me instalar aqui primeiro.”
“Eu queria ter ajudado você a se instalar.”
Ifemelu não disse nada.
“Você ainda está com Blaine?”
“O que isso importa, senhor homem casado?”, disse ela, com uma ironia que soou cáustica demais; ela queria parecer fria, distante, no controle da situação.
“Posso entrar um instante? Para conversar com você?”
“Não, preciso fazer uma pesquisa para o blog.”
“Por favor, Ifem.”
Ela suspirou. “Tudo bem.”
No apartamento, Obinze sentou no sofá e Ifemelu na poltrona, o mais distante dele possível. Sentiu um terror súbito e bilioso do que quer que ele fosse falar, temendo que fosse algo que não queria ouvir, e por isso disse, sem pensar: “Zemaye quer escrever um guia de brincadeira para homens que querem trair a esposa. Ela contou que não conseguia entrar em contato com o namorado outro dia e, quando ele finalmente apareceu, disse que tinha derrubado o celular na água. Segundo ela, essa é a desculpa mais esfarrapada do mundo, ‘meu celular caiu na água’. Achei isso engraçado. Nunca tinha ouvido isso antes. Então, o item número um do guia dela seria nunca diga que seu telefone caiu na água”.
“Para mim, isso aqui não é traição”, disse Obinze baixinho.
“Sua mulher sabe que você está aqui?” Ifemelu estava provocando-o. “Eu me pergunto quantos homens dizem isso quando traem, que aquilo para eles não é traição. Pense bem, será que eles realmente diriam que aquilo para eles é traição?”
Obinze se levantou com movimentos deliberados, e no início ela achou que ia se aproximar ou talvez ir ao banheiro, mas ele andou até a porta da frente, abriu-a e saiu. Ifemelu ficou olhando para a porta. Ficou sentada, imóvel, durante um bom tempo, e então se levantou e andou de um lado para o outro, sem conseguir se concentrar, pensando se deveria ligar para ele, debatendo-se consigo mesma. Decidiu não ligar; ressentia-se de seu comportamento, seu silêncio, seu fingimento. Quando a campainha tocou alguns minutos depois, parte dela estava relutando em abrir a porta.
Ifemelu deixou Obinze entrar. Eles se sentaram lado a lado no sofá.
“Lamento ter ido embora daquele jeito”, disse ele. “Não estou normal desde que você voltou e não gostei da maneira como falou, como se o que há entre nós fosse comum. Não é. E acho que você sabe disso. Acho que estava dizendo aquilo para me magoar, mas principalmente porque você está confusa. Sei que deve ser difícil para você, a maneira como nos vimos e falamos sobre tanta coisa, mas ainda assim evitamos tantas outras.”
“Você não está sendo claro.”
Obinze parecia estressado, com o maxilar trancado, e Ifemelu sentiu desejo de beijá-lo. Era verdade que ele era inteligente e seguro, mas também tinha uma inocência, uma confiança sem ego, algo que remetia a outro tempo e outro lugar, que a deixava tocada.
“Eu não disse nada porque às vezes fico tão feliz por estar perto de você que não quero estragar tudo”, disse ele. “E também porque quero ter algo a dizer primeiro, antes de dizer qualquer coisa.”
“Eu me masturbo pensando em você”, disse ela.
Obinze olhou-a, ligeiramente perturbado.
“Não somos dois solteiros se cortejando, Teto”, disse Ifemelu. “Não podemos negar a atração que há entre nós e talvez devêssemos conversar sobre isso.”
“Você sabe que o sexo não é o mais importante aqui”, disse ele. “Nunca foi.”
“Eu sei”, disse ela, pegando sua mão. Havia, entre eles, um desejo sem peso, perfeito. Ifemelu se aproximou e beijou-o, e a princípio ele foi lento em sua resposta, mas então estava tirando sua blusa, abaixando o sutiã para libertar seus seios. Ela recordava claramente a firmeza do abraço dele, mas também havia algo de novo em sua união; seus corpos se lembravam e não se lembravam. Ifemelu tocou na cicatriz do peito de Obinze, lembrando-se dela de novo. Sempre tinha achado a expressão “fazer amor” um pouco piegas; “fazer sexo” parecia mais verdadeira e “transar” era mais excitante, mas quando ela se viu deitada ao lado dele depois, ambos sorrindo, às vezes rindo, seu corpo transbordando paz, pensou em como era apropriada a expressão “fazer amor”. Até suas unhas estavam despertando, as partes de seu corpo que sempre tinham estado dormentes. Ifemelu quis dizer a Obinze: “Não se passou uma semana sem que eu pensasse em você”. Mas aquilo era verdade? É claro que houvera semanas durante as quais ele estava guardado debaixo das camadas da vida dela, mas a sensação era de que era verdade.
Ifemelu se apoiou nos cotovelos e disse: “Eu sempre via o teto com os outros homens”.
Obinze deu um sorriso longo e lento. “Sabe o que eu venho sentindo há muito tempo? Que estava esperando para ser feliz.”
Ele se levantou para ir ao banheiro. Ela achava tão bonito ele ser baixo, a solidez e a firmeza que vinham de ser baixo. Ali estava um sinal de estabilidade; ele suportaria qualquer coisa, não oscilaria facilmente. Quando voltou, Ifemelu disse que estava com fome. Obinze encontrou laranjas em sua geladeira e descascou-as. Eles as comeram, sentados ao lado um do outro, e depois ficaram deitados entrelaçados, nus, num círculo completo e perfeito, e ela adormeceu e não viu quando ele foi embora. Acordou numa manhã escura, nublada e chuvosa. Seu telefone estava tocando. Era Obinze.
“Como você está?”, perguntou ele.
“Grogue. Não sei bem o que aconteceu ontem. Você me seduziu?”
“Que bom que sua porta tranca só de bater. Eu teria detestado ter de acordar você para trancar a porta.”
“Então você me seduziu mesmo.”
Obinze riu. “Posso ir até você?”
Ela gostou da maneira como ele disse “Posso ir até você?”.
“Sim. Está uma chuva louca.”
“É? Aqui não está chovendo. Estou em Lekki.”
Mesmo sabendo ser bobagem, Ifemelu achou excitante o fato de estar chovendo onde ela estava, mas não onde ele estava, a poucos minutos de distância, e por isso esperou, com impaciência, com um deleite eletrizante, até que os dois pudessem ver a chuva juntos.