Americanah
Capítulo 34
O blog trouxe Blaine de volta para a vida de Ifemelu. Na conferência de blogueiros Blogging While Brown, em Washington, durante o evento de boas-vindas, com o saguão do hotel repleto de pessoas dizendo olá umas para as outras em vozes entusiasmadas demais que mostravam nervosismo, ela estava conversando com uma moça que tinha um blog sobre maquiagem, uma americana de família mexicana que usava sombra neon, quando ergueu os olhos e estacou, trêmula, pois a poucos metros de onde estava, em meio a um grupo pequeno de pessoas, estava Blaine. Ele estava igual, a não ser pelos óculos de armação preta. Exatamente como Ifemelu se lembrava de tê-lo visto no trem: alto e com gestos graciosos. A moça do blog de maquiagem falava sobre como as empresas de cosméticos sempre mandavam coisas de graça para o Bellachicana, e sobre as questões éticas que isso envolvia, e Ifemelu assentia, mas estava realmente prestando atenção apenas na presença de Blaine e no fato de que ele estava se afastando do grupo de pessoas e se aproximando dela.
“Oi!”, disse ele, olhando o crachá de Ifemelu. “Então você é a Negra Não Americana? Eu amo seu blog.”
“Obrigada”, disse Ifemelu. Blaine não se lembrava dela. E por que deveria? Fazia tanto tempo que eles se encontraram no trem e, na época, nenhum dos dois sabia o que a palavra “blog” significava. Ele acharia divertido o quanto ela o idealizara, como ele se tornara uma pessoa feita não de carne, mas de pequenos cristais de perfeição, o homem americano que ela jamais teria. Blaine se virou para cumprimentar a moça do blog sobre maquiagem e Ifemelu viu, em seu crachá, que ele escrevia um blog sobre a “interseção do mundo acadêmico com a cultura popular”.
Blaine se voltou para ela de novo. “E aí, você ainda vai a muitos shoppings em Connecticut? Porque eu ainda planto meu próprio algodão.”
Por um instante Ifemelu não conseguiu respirar, mas então riu, uma risada que a deixou tonta e embriagada, porque sua vida tinha se transformado num filme mágico no qual as pessoas se reencontravam. “Você lembrou!”
“Estava olhando você do outro lado do salão. Não acreditei quando te vi.”
“Meu Deus, quanto tempo faz? Dez anos?”
“Mais ou menos. Uns oito, talvez?”
“Você nunca retornou minha ligação”, disse ela.
“Eu estava namorando. Já andava mal naquela época, mas durou muito mais tempo do que devia.” Ele parou de falar com uma expressão que Ifemelu viria a conhecer bem, os olhos apertados de maneira virtuosa de modo a anunciar o espírito nobre de seu dono.
Seguiram-se e-mails e telefonemas entre Baltimore e New Haven, comentários brincalhões que um postava no blog do outro, muita paquera durante ligações feitas tarde da noite, até o dia de inverno em que Blaine surgiu na porta dela com as mãos enfiadas nos bolsos do casaco caban cinza e a gola salpicada de uma neve que mais parecia pó de fada. Ifemelu estava fazendo arroz de coco, o apartamento cheirando a temperos, uma garrafa de vinho barato sobre o balcão da cozinha e Nina Simone tocando alto no som. A canção “Don’t Let Me Be Misunderstood” levou-os, poucos minutos depois de ele chegar, a atravessar a ponte que fazia com que deixassem de ser amigos se paquerando e se tornassem amantes na cama dela. Depois, Blaine se apoiou no cotovelo para observá-la. Havia algo de fluido, quase andrógino, em seu corpo esguio, que a fez lembrar que ele lhe dissera praticar ioga. Talvez Blaine conseguisse ficar apoiado sobre a cabeça e se contorcer em posições improváveis. Quando Ifemelu misturou o arroz, agora frio, com o molho de coco, ela contou a Blaine que cozinhar a entediava e que havia comprado todos aqueles temperos no dia anterior e cozinhara porque ele ia visitá-la. Ela os havia imaginado com gengibre nos lábios, curry sendo lambido de seu corpo, folhas de louro entre seus corpos, mas os dois tinham sido tão responsáveis, beijando-se na sala e então indo para o quarto.
“Devíamos ter feito as coisas de maneira mais improvável”, disse.
Blaine riu. “Eu gosto de cozinhar, então vai haver muitas oportunidades para o improvável.” Mas ela sabia que ele não era o tipo de pessoa que fazia coisas de maneira improvável. Não depois de ter colocado a camisinha com uma concentração tão lenta e clínica. Mais tarde, quando Ifemelu ficou sabendo das cartas que Blaine escrevia para o Congresso sobre Darfur, sobre os adolescentes para quem dava aulas particulares na escola de ensino médio de Dixwell, sobre os abrigos nos quais era voluntário, passaria a pensar nele como alguém que não tinha uma espinha dorsal normal, mas um tronco firme de bondade.
Era como se, por causa do encontro deles no trem anos antes, pudessem pular diversos passos, ignorar fatos desconhecidos e deslizar para uma intimidade imediata. Depois da primeira visita de Blaine, Ifemelu foi para New Haven com ele. Houve semanas naquele inverno, frias e ensolaradas, em que New Haven parecia iluminada por dentro, com a neve pendendo dos arbustos e uma qualidade festiva de um mundo que parecia ser habitado de maneira completa apenas por eles dois. Andavam até o árabe na Howe Street para comer homus, ficavam sentados num cantinho escuro conversando durante horas até que finalmente emergiam, com a língua ardendo do alho. Ou Ifemelu encontrava Blaine na biblioteca depois da aula e eles sentavam no café, bebendo chocolate quente espesso demais e comendo croissants integrais arenosos demais, a pilha de livros dele sobre a mesa. Ele cozinhava vegetais orgânicos e grãos cujos nomes ela não conseguia pronunciar — triguilho, quinoa —, limpando tudo rapidamente enquanto cozinhava, passando um pano sobre uma mancha de molho de tomate assim que ela aparecia, secando a água derramada no mesmo instante em que caía. Blaine a assustava, falando dos produtos químicos que eram jogados nas colheitas, nos produtos dados às galinhas para que crescessem de forma mais rápida e naqueles usados para dar às frutas uma casca perfeita. Por que ela achava que as pessoas estavam morrendo de câncer? Assim, antes de Ifemelu comer uma maçã, ela a esfregava na pia, embora Blaine só comprasse frutas orgânicas. Ele disse a ela quais grãos tinham proteína, quais vegetais tinham caroteno, que frutas tinham açúcar demais. Blaine sabia tudo; ela sentia-se intimidada por isso, orgulhosa disso, e um pouco enojada com isso. Com ele, pequenas tarefas domésticas, realizadas em seu apartamento no vigésimo andar de um prédio alto perto do campus, tornavam-se cheias de significado — a maneira como ele a observava passar manteiga de cacau depois de tomar um banho à noite, o som farfalhante que a lava-louça fazia quando ligava —, e ela imaginava um berço no quarto, um bebê dentro dele e Blaine batendo com cuidado frutas orgânicas no liquidificador para fazer papinha. Seria um pai perfeito, aquele homem disciplinado.
“Não consigo comer tempeh, não entendo como você gosta”, disse Ifemelu para ele.
“Eu não gosto.”
“Então por que come?”
“Porque faz bem.”
Blaine corria todas as manhãs e passava fio dental todos os dias. Passar fio dental parecia a Ifemelu um hábito tão americano, deslizar um fio entre os dentes de maneira mecânica, inelegante e funcional. “Você devia passar fio dental todos os dias”, disse-lhe ele. E ela começou a passar fio dental, assim como começou a fazer outras coisas que Blaine fazia — ir à academia, comer mais proteína do que carboidratos —, e com uma satisfação agradecida, porque aquilo a melhorava. Blaine era como um tônico salutar — com ele, ela só podia habitar um nível de bondade mais alto.
A melhor amiga dele, Araminta, veio visitá-lo e deu um abraço caloroso em Ifemelu, como se elas já se conhecessem. “Blaine não namorou ninguém de verdade desde que terminou com Paula. E agora ele está com uma irmã nossa e com uma irmã de pele escura ainda por cima. Que progresso!”, disse Araminta.
“Minta, pare com isso”, disse Blaine, mas ele estava sorrindo. O fato de sua melhor amiga ser mulher, uma arquiteta que usava mega-hair liso e longo, sapatos de salto alto, jeans justos e lentes de contato coloridas dizia algo sobre ele que agradava a Ifemelu.
“Blaine e eu crescemos juntos. Na escola, éramos os únicos negros do ano. Todos os nossos amigos queriam que namorássemos, sabe como sempre acham que dois negros têm que virar um casal? Mas ele não era meu tipo de jeito nenhum”, contou Araminta.
“Até parece”, disse Blaine.
“Ifemelu, posso só dizer o quanto estou feliz por você não ser acadêmica? Já ouviu os amigos dele falando? Nada é o que é. Tudo tem que significar outra coisa. É ridículo. Outro dia, Marcia estava dizendo que as mulheres negras são gordas porque seus corpos são locais de resistência à escravidão. Sim, isso é verdade se hambúrguer e refrigerante forem resistência à escravidão.”
“Qualquer pessoa vê que esse discurso anti-intelectual é pose, pois a senhorita gosta de ir beber no Harvard Club”, disse Blaine.
“Pelo amor de Deus. Ter uma boa formação não é a mesma coisa que transformar o mundo todo em algo a ser explicado! Até Shan ri de vocês. Ela sabe imitar direitinho você e Grace: a formação canônica e a topografia da consciência espacial e histórica.” Araminta se virou para Ifemelu. “Você já conheceu a irmã dele, Shan?”
“Não.”
Mais tarde, quando Blaine estava no banheiro, Araminta disse: “Shan é uma figura interessante. Não a leve a sério demais quando você a conhecer”.
“Como assim?”
“Ela é ótima, é muito sedutora, mas se você achar que está sendo grosseira ou alguma coisa assim, não é pessoal, é só o jeito dela.” E então ela disse, numa voz mais baixa: “Blaine é um cara incrível, um cara incrível”.
“Eu sei.” Ifemelu sentiu, nas palavras de Araminta, algo que era ou um aviso ou uma súplica.
Blaine pediu-lhe que fosse morar com ele depois de um mês, mas ela levou um ano para fazer isso, embora àquela altura já estivesse passando a maior parte do tempo em New Haven, tivesse uma carteirinha da academia de Yale por ser namorada de um professor e escrevesse seu blog no apartamento dele, numa escrivaninha que ele colocara perto da janela do quarto para ela. De início, entusiasmada com o interesse de Blaine, reverenciando sua inteligência, Ifemelu deixava-o ler os posts antes de publicá-los. Ela não pedia sugestões dele, mas devagar começou a fazer mudanças, a acrescentar e remover coisas por causa do que dizia. Depois, começou a se ressentir disso. Seus posts estavam acadêmicos demais, parecidos demais com Blaine. Ifemelu escrevera um texto sobre os centros das cidades — “Por que as partes mais sujas e mal-ajambradas das cidades americanas estão repletas de negros americanos?” — e Blaine lhe disse para incluir detalhes sobre políticas governamentais e remoções. Ela fez isso, mas, depois de reler, apagou o post.
“Eu não quero explicar, só quero observar”, disse.
“Lembre que as pessoas não leem você como entretenimento, mas como uma avaliação da nossa cultura. É uma grande responsabilidade. Existem jovens escrevendo trabalhos de faculdade sobre seu blog”, disse Blaine. “Não estou dizendo que você tem que ser acadêmica ou chata. Mantenha seu estilo, mas seja mais profunda.”
“Já sou profunda o suficiente”, disse Ifemelu, irritada, mas com a sensação de que ele tinha razão.
“Você está sendo preguiçosa, Ifem.”
Ele usava a palavra “preguiçoso” com frequência, para alunos que não entregavam os trabalhos no prazo, para celebridades negras que não eram politicamente ativas, para ideias que não casavam com as suas. Às vezes, Ifemelu sentia que era aprendiz de Blaine; quando passeavam em museus, ele se demorava diante de quadros abstratos, que a entediavam, e ela acabava se afastando na direção das esculturas ousadas ou dos quadros naturalistas e sentindo, por seu sorriso forçado, sua decepção com o fato de que ainda não aprendera o suficiente com ele. Quando Blaine colocava para tocar algumas músicas de sua coleção completa de John Coltrane, ficava observando-a enquanto ela escutava, esperando pelo êxtase que ele tinha certeza de que a dominaria e, no fim, quando Ifemelu permanecia distante desse êxtase, rapidamente desviava os olhos. Ela escreveu no blog sobre dois romances que amou, de Ann Petry e Gayl Jones, e Blaine disse: “Elas não ultrapassam as fronteiras”. Disse isso com doçura, como se não quisesse aborrecê-la, mas como se acreditasse que precisava ser dito. As opiniões dele eram firmes, tão ponderadas e completamente formadas em sua própria mente que Blaine às vezes parecia surpreso que Ifemelu não tivesse chegado sozinha às mesmas conclusões. Ifemelu se sentia um pouco distante das coisas nas quais ele acreditava e das coisas que sabia e era ansiosa por alcançá-lo, fascinada por sua convicção de que entendia o que era o certo. Certa vez, quando eles estavam descendo a Elm Street para ir comer um sanduíche, viram uma mulher negra e gorducha que sempre estava no campus, parada perto da lanchonete, com um gorro de lã sobre a cabeça, oferecendo rosas de plástico para os passantes e perguntando: “Tem um trocado?”. Dois alunos estavam conversando com ela e um lhe entregou um cappuccino num copo de papel comprido. A mulher pareceu radiante; ela jogou a cabeça para trás e deu um gole.
“Que coisa nojenta”, disse Blaine quando eles passaram.
“É mesmo”, disse Ifemelu, embora não entendesse bem por que ele tinha se incomodado tanto com a mulher sem-teto e o cappuccino que ganhara de presente. Semanas antes, uma mulher idosa e branca que estava atrás deles na fila do supermercado disse: “Seu cabelo é tão lindo, posso tocar nele?”, e Ifemelu deixou. A mulher mergulhou os dedos em seu afro. Ela sentiu Blaine ficando tenso, viu a pulsação em suas têmporas. “Como você pôde deixar aquela mulher fazer aquilo?”, ele perguntou depois. “Por que não? De que outra maneira ela vai saber como é a sensação de tocar um cabelo como o meu? Ela não deve conhecer nenhuma negra.”
“E você tem que ser a cobaia dela?”, perguntou Blaine. Ele esperava que Ifemelu sentisse o que ela não sabia como sentir. Havia coisas que existiam para ele que ela não sabia como penetrar. Quando estava com os amigos mais íntimos de Blaine, ela muitas vezes se sentia um pouco perdida. Eles eram jovens, bem vestidos e de princípios elevados, com frases repletas de “de certa forma” e “as formas como”; reuniam-se num bar toda quinta-feira e às vezes um deles dava um jantar, ocasiões em que Ifemelu ouvia bem mais do que falava, observando-os com espanto: será que estavam falando sério, aquelas pessoas que ficavam tão furiosas com vegetais importados que amadureciam dentro dos caminhões? Eles queriam acabar com o trabalho infantil na África. Recusavam-se a comprar roupas feitas por trabalhadores asiáticos que recebiam muito pouco. Olhavam para o mundo com uma seriedade luminosa e nada prática que a deixava tocada, mas nunca a convencia. Cercado por aquelas pessoas, Blaine transbordava referências que ela não conhecia e parecia distante, como se pertencesse a elas; quando finalmente a fitava, com olhos cálidos e cheios de amor, Ifemelu sentia uma espécie de alívio.
Ela falou de Blaine para os pais, contou que ia deixar Baltimore e se mudar para New Haven para ir morar com ele. Podia ter mentido, inventado um emprego novo ou simplesmente dito que queria se mudar. “O nome dele é Blaine”, disse. “Ele é americano.”
Ifemelu ouviu o simbolismo em suas próprias palavras, viajando milhares de quilômetros até a Nigéria, e soube que seus pais iam entender. Ela e Blaine não tinham falado sobre casamento, mas o chão sob seus pés parecia firme. Ela queria que seus pais soubessem dele e do quanto era bom. Usou essa palavra para descrevê-lo: “bom”.
“Um crioulo americano?”, perguntou seu pai, parecendo atônito.
Ifemelu deu uma gargalhada. “Papai, ninguém mais fala crioulo.”
“Mas por que um preto? Existe uma escassez substancial de nigerianos aí?”
Ela ignorou-o, ainda rindo, e pediu-lhe que passasse o telefone para sua mãe. Ignorar o pai e até dizer a ele que ia morar com um homem com quem não era casada eram coisas que só podia fazer porque morava nos Estados Unidos. As regras haviam mudado, caído nas rachaduras da distância e do estrangeiro.
Sua mãe perguntou: “Ele é cristão?”.
“Não. Ele é adorador do demônio.”
“Sangue de Jesus!”, gritou ela.
“Não, mamãe, ele é cristão”, disse Ifemelu.
“Então, tudo bem”, disse sua mãe. “Quando ele vai vir aqui se apresentar? Podemos planejar e fazer tudo ao mesmo tempo — bater de porta em porta, ver o preço da noiva, carregar o vinho —, assim vai custar menos e ele não vai ter de ficar indo e vindo. A América é longe…”
“Mamãe, por favor, estamos indo com calma por enquanto.”
Depois que Ifemelu desligou, ainda achando graça, ela decidiu mudar o título do seu blog para Raceteenth ou Observações Diversas sobre Negros Americanos (Antigamente Conhecidos como Crioulos) Feitas por uma Negra Não Americana.
Ofertas de emprego nos Estados Unidos — a principal maneira nacional
de decidir “quem é racista”
Nos Estados Unidos, o racismo existe, mas os racistas desapareceram. Os racistas pertencem ao passado.
Os racistas são os brancos malvados de lábios finos que aparecem nos filmes sobre a era dos direitos civis.
Esta é a questão: a maneira como o racismo se manifesta mudou, mas a linguagem, não. Então, se você
nunca linchou alguém, não pode ser chamado de racista. Se não for um monstro sugador de sangue, não
pode ser chamado de racista. Alguém tem de poder dizer que racistas não são monstros. São pessoas com
famílias que as amam, pessoas normais que pagam impostos. Alguém tem de ter a função de decidir quem é
racista e quem não é. Ou talvez esteja na hora de esquecer a palavra “racista”. Encontrar uma nova. Como
Síndrome do Distúrbio Racial. E podemos ter categorias diferentes para quem sofre dessa síndrome: leve,
mediana e aguda.